domingo, 29 de março de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Domingo de Ramos (2001)

Há 25 anos, no dia 08 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor (Ano C) na Praça de São Pedro. Na mesma ocasião se celebrou a XVI Jornada Mundial da Juventude, com a entrega da Cruz aos jovens de Toronto (Canadá).

Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor
XVI Jornada Mundial da Juventude
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Domingo, 08 de abril de 2001

1. «Hosana!», «Crucifica-o!». Poderíamos resumir com estas duas palavras, provavelmente pronunciadas pela mesma multidão à distância de poucos dias, o significado dos dois acontecimentos que recordamos nesta Liturgia dominical.

Com a aclamação «Bendito o que vem!», em um ímpeto de entusiasmo, o povo de Jerusalém, agitando ramos de palmeira, acolhe Jesus que entra na cidade montado em um jumento. Com o «Crucifica-o!», gritado duas vezes em um crescente furor, a multidão exige ao governador romano a condenação do réu que está de pé, em silêncio, no Pretório.


A nossa celebração, portanto, começa com um «Hosana!» e termina com um «Crucifica-o!». Os ramos do triunfo e a cruz da Paixão: não é uma contradição, ao contrário, é o coração do mistério que queremos proclamar. Jesus se entregou voluntariamente à Paixão, não foi esmagado por forças maiores do que Ele. Enfrentou livremente a morte de cruz e triunfou na morte.

Perscrutando a vontade do Pai, Ele compreendeu que tinha chegado a «hora» e a acolheu com a obediência livre do Filho e com infinito amor pelos homens: «Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (Jo 13,1).

2. Hoje olhamos para Jesus que se aproxima do final da sua vida e se apresenta como Messias esperado pelo povo, enviado por Deus e vindo em seu nome para trazer a paz e a salvação, embora de uma forma diferente daquela que os seus contemporâneos esperavam.

A obra de salvação e de libertação realizada por Jesus continua nos séculos. Por isso a Igreja, que crê firmemente que Ele está presente, mesmo se invisível, não se cansa de aclamá-lo no louvor e na adoração. Mais uma vez, portanto, a nossa assembleia proclama: «Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!».

3. A leitura da passagem do Evangelho pôs diante dos nossos olhos as cenas terríveis da Paixão de Jesus: o seu sofrimento físico e moral, o beijo de Judas, o abandono por parte dos discípulos, o processo perante Pilatos, os insultos e as zombarias, a condenação, a via dolorosa, a crucificação. Por fim, o sofrimento mais misterioso: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?». Um forte grito, e depois a morte.

Por que tudo isso? O início da Oração Eucarística nos dará a resposta: «Inocente, dignou-se sofrer pelos pecadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos. Sua Morte apagou nossos pecados e sua Ressurreição trouxe-nos a justificação» (Prefácio).

A nossa celebração, portanto, quer ser gratidão e amor Àquele que se sacrificou por nós, ao Servo de Deus que, como disse o profeta, não resistiu nem voltou atrás, mas ofereceu as costas aos flageladores e não desviou o rosto dos insultos e cusparadas (cf. Is 50,4-7).

4. A Igreja, porém, lendo o relato da Paixão não se limita a considerar unicamente os sofrimentos de Jesus; aproxima-se ansiosa e confiante desse mistério, sabendo que o seu Senhor ressuscitou. A luz da Páscoa faz descobrir o grande ensinamento contido na Paixão: a vida se afirma através do dom sincero de si até enfrentar a morte pelos outros, pelo Outro.

Jesus não entendeu a própria existência terrena como busca do poder, como corrida ao sucesso e à carreira, como vontade de domínio sobre os outros. Ao contrário, Ele renunciou aos privilégios da sua igualdade com Deus, assumiu a condição de servo tornando-se semelhante aos homens, obedeceu ao desígnio do Pai até a morte de cruz (cf. Fl 2,6-8). E assim deixou aos seus discípulos e à Igreja um ensinamento precioso: «Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto» (Jo 12,24).

5. O Domingo de Ramos tornou-se, há alguns anos, também a Jornada Mundial da Juventude, o vosso dia, caríssimos jovens, aqui reunidos de várias paróquias da Diocese de Roma e de outras partes do mundo: juntamente convosco saúdo com afeto e esperança também os vossos coetâneos que nas diversas Igrejas locais celebram hoje a XVI Jornada Mundial da Juventude, a primeira do novo milênio.

Saúdo em particular os jovens da Delegação do Canadá, guiada pelo Arcebispo de Toronto, Cardeal Ambrozic, que estão aqui entre nós para receber a Cruz em torno da qual se reunirão os jovens de todos os continentes na próxima Jornada Mundial de 2002. Mais uma vez, a todos e a cada um indico com vigor na Cruz de Cristo o caminho de vida e de salvação, a via para chegar aos ramos do triunfo no dia da ressurreição.

O que vemos na Cruz que se eleva diante de nós e que, há dois mil anos, o mundo não cessa de interrogar e a Igreja não cessa de contemplar? Vemos Jesus, o Filho de Deus que se fez homem para restituir o homem a Deus. Ele, sem pecado, está agora diante de nós crucificado. Ele é livre, apesar de estar pregado no madeiro. É inocente, apesar de estar sob a inscrição que anuncia o motivo da sua condenação. Não lhe quebraram nenhum osso (cf. Sl 33,21), porque é a coluna-mestra de um mundo novo. A sua túnica não foi rasgada (cf. Jo 19,24), porque Ele veio para reunir os filhos de Deus que o pecado havia dispersado (cf. Jo 11,52). O seu corpo não será lançado à terra, mas colocado em uma rocha (cf. Lc 23,53), porque o corpo do Senhor da vida, que venceu a morte, não pode sofrer a corrupção.

6. Caríssimos jovens, Jesus morreu e ressuscitou, Ele agora vive para sempre! Deu a sua vida, mas ninguém a tirou; Ele a entregou “por nós” (cf. Jo 10,18). Por meio da sua Cruz veio a nós a vida. Graças à sua Morte e à sua Ressurreição o Evangelho triunfou e nasceu a Igreja.

Enquanto entramos confiantes no novo século e no novo milênio, queridos jovens, o Papa vos repete as palavras do Apóstolo Paulo: «Se com Ele morremos, com Ele viveremos. Se com Ele ficamos firmes, com Ele reinaremos» (2Tm 2,11-12). Porque só Jesus é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6).

Então, «quem nos separará do amor de Cristo?» (Rm 8,35). O Apóstolo Paulo também respondeu por nós: «Tenho a certeza que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor» (vv. 38-39).

Glória e louvor a Vós, ó Cristo, Verbo de Deus, Salvador do mundo!

Entrada de Cristo em Jerusalém
(Anthony van Dyck)

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

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