Há 25 anos, no dia 08 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor (Ano C) na Praça de São Pedro. Na mesma ocasião se celebrou a XVI Jornada Mundial da Juventude, com a entrega da Cruz aos jovens de Toronto (Canadá).
Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:
Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor
XVI Jornada Mundial da Juventude
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Domingo, 08 de abril de 2001
1. «Hosana!», «Crucifica-o!».
Poderíamos resumir com estas duas palavras, provavelmente pronunciadas pela
mesma multidão à distância de poucos dias, o significado dos dois
acontecimentos que recordamos nesta Liturgia dominical.
Com a aclamação «Bendito
o que vem!», em um ímpeto de entusiasmo, o povo de Jerusalém, agitando ramos de
palmeira, acolhe Jesus que entra na cidade montado em um jumento. Com o «Crucifica-o!»,
gritado duas vezes em um crescente furor, a multidão exige ao governador romano
a condenação do réu que está de pé, em silêncio, no Pretório.
A nossa
celebração, portanto, começa com um «Hosana!» e termina com um «Crucifica-o!». Os
ramos do triunfo e a cruz da Paixão: não é uma
contradição, ao contrário, é o coração do mistério que queremos proclamar.
Jesus se entregou voluntariamente à Paixão, não foi esmagado por forças maiores
do que Ele. Enfrentou livremente a morte de cruz e triunfou na morte.
Perscrutando a
vontade do Pai, Ele compreendeu que tinha chegado a «hora» e a acolheu com a
obediência livre do Filho e com infinito amor pelos homens: «Jesus sabia que
tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus
que estavam no mundo, amou-os até o fim» (Jo 13,1).
2. Hoje olhamos
para Jesus que se aproxima do final da sua vida e se apresenta como Messias
esperado pelo povo, enviado por Deus e vindo em seu nome para trazer a paz e a
salvação, embora de uma forma diferente daquela que os seus contemporâneos
esperavam.
A obra de
salvação e de libertação realizada por Jesus continua nos séculos. Por isso a
Igreja, que crê firmemente que Ele está presente, mesmo se invisível, não se
cansa de aclamá-lo no louvor e na adoração. Mais uma vez, portanto, a nossa
assembleia proclama: «Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!».
3. A leitura da
passagem do Evangelho pôs diante dos nossos olhos as cenas terríveis da
Paixão de Jesus: o seu sofrimento físico e moral, o beijo de Judas,
o abandono por parte dos discípulos, o processo perante Pilatos, os insultos e as
zombarias, a condenação, a via dolorosa, a crucificação. Por fim, o sofrimento
mais misterioso: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?». Um forte grito,
e depois a morte.
Por que tudo isso?
O início da Oração Eucarística nos dará a resposta: «Inocente, dignou-se sofrer
pelos pecadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos. Sua Morte
apagou nossos pecados e sua Ressurreição trouxe-nos a justificação» (Prefácio).
A nossa
celebração, portanto, quer ser gratidão e amor Àquele que se sacrificou por
nós, ao Servo de Deus que, como disse o profeta, não resistiu nem voltou atrás,
mas ofereceu as costas aos flageladores e não desviou o rosto dos insultos e cusparadas
(cf. Is 50,4-7).
4. A Igreja, porém,
lendo o relato da Paixão não se limita a considerar unicamente os sofrimentos
de Jesus; aproxima-se ansiosa e confiante desse mistério, sabendo que o seu
Senhor ressuscitou. A luz da Páscoa faz descobrir o grande ensinamento
contido na Paixão: a vida se afirma através do dom sincero de si até enfrentar
a morte pelos outros, pelo Outro.
Jesus não entendeu
a própria existência terrena como busca do poder, como corrida ao sucesso e à
carreira, como vontade de domínio sobre os outros. Ao contrário, Ele renunciou
aos privilégios da sua igualdade com Deus, assumiu a condição de servo tornando-se
semelhante aos homens, obedeceu ao desígnio do Pai até a morte de cruz (cf. Fl
2,6-8). E assim deixou aos seus discípulos e à Igreja um ensinamento precioso: «Se
o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo;
mas, se morre, então produz muito fruto» (Jo 12,24).
5. O Domingo de
Ramos tornou-se, há alguns anos, também a Jornada Mundial da Juventude, o
vosso dia, caríssimos jovens, aqui reunidos de várias paróquias da Diocese de
Roma e de outras partes do mundo: juntamente convosco saúdo com afeto e
esperança também os vossos coetâneos que nas diversas Igrejas locais celebram
hoje a XVI Jornada Mundial da Juventude, a primeira do novo milênio.
Saúdo em
particular os jovens da Delegação do Canadá, guiada pelo
Arcebispo de Toronto, Cardeal Ambrozic, que estão aqui entre nós para receber a
Cruz em torno da qual se reunirão os jovens de todos os continentes na próxima Jornada
Mundial de 2002. Mais uma vez, a todos e a cada um indico com vigor na Cruz de
Cristo o caminho de vida e de salvação, a via para chegar aos ramos do triunfo
no dia da ressurreição.
O que vemos na
Cruz que se eleva diante de nós e que, há dois mil anos, o mundo não cessa de
interrogar e a Igreja não cessa de contemplar? Vemos Jesus, o Filho de Deus que
se fez homem para restituir o homem a Deus. Ele, sem pecado, está agora diante
de nós crucificado. Ele é livre, apesar de estar pregado no madeiro. É
inocente, apesar de estar sob a inscrição que anuncia o motivo da sua
condenação. Não lhe quebraram nenhum osso (cf. Sl 33,21),
porque é a coluna-mestra de um mundo novo. A sua túnica não foi rasgada (cf. Jo 19,24),
porque Ele veio para reunir os filhos de Deus que o pecado havia dispersado (cf. Jo 11,52).
O seu corpo não será lançado à terra, mas colocado em uma rocha (cf. Lc 23,53),
porque o corpo do Senhor da vida, que venceu a morte, não pode sofrer a
corrupção.
6. Caríssimos
jovens, Jesus morreu e ressuscitou, Ele agora vive para sempre! Deu
a sua vida, mas ninguém a tirou; Ele a entregou “por nós” (cf. Jo 10,18).
Por meio da sua Cruz veio a nós a vida. Graças à sua Morte e à sua Ressurreição
o Evangelho triunfou e nasceu a Igreja.
Enquanto
entramos confiantes no novo século e no novo milênio, queridos jovens, o Papa vos
repete as palavras do Apóstolo Paulo: «Se com Ele morremos, com Ele viveremos.
Se com Ele ficamos firmes, com Ele reinaremos» (2Tm 2,11-12).
Porque só Jesus é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6).
Então, «quem nos separará do amor de Cristo?» (Rm 8,35). O Apóstolo Paulo também respondeu por nós: «Tenho a certeza que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor» (vv. 38-39).
Glória e louvor
a Vós, ó Cristo, Verbo de Deus, Salvador do mundo!
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| Entrada de Cristo em Jerusalém (Anthony van Dyck) |
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).


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