sábado, 25 de dezembro de 2021

Homilia do Papa: Missa da Noite de Natal 2021

Solenidade do Natal do Senhor - Missa da Noite
Homilia do Papa Francisco
Basílica Vaticana
Sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Na noite, acende-se uma luz. Aparece um anjo, a glória do Senhor envolve os pastores e finalmente chega o anúncio há séculos esperado: «Hoje nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2,11). Mas surpreende aquilo que o anjo acrescenta para indicar aos pastores como encontrar Deus que veio à terra. «Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (v. 12). Eis o sinal: um menino. E é tudo: um menino na tosca pobreza de uma manjedoura. Cessam luzes, fulgor, coros de anjos. Só um menino. Nada mais! Como predissera Isaías: «Um menino nasceu para nós» (Is 9,5).

O Evangelho insiste neste contraste. Narra o nascimento de Jesus, começando por César Augusto, que ordena o recenseamento de toda a terra: mostra o primeiro imperador na sua grandeza. Mas, logo a seguir, leva-nos a Belém, onde, de grande, não há nada: apenas um menino pobre envolto em panos, rodeado por pastores. E ali está Deus, na pequenez. Eis a mensagem: Deus não cavalga a grandeza, mas desce na pequenez. A pequenez é a estrada que escolheu para chegar até nós, tocar-nos o coração, salvar-nos e levar-nos de volta para aquilo que conta.

Irmãos e irmãs, ao parar diante do presépio, fixemo-nos no centro: deixemos para trás luzes e decorações - que são belas - e contemplemos o Menino. Na sua pequenez, está Deus inteiro. Reconheçamo-Lo: «Menino, vós sois Deus, Deus-Menino». Deixemo-nos invadir por este espanto alvoroçado. Aquele que abraça o universo, precisa ser tomado nos braços. Ele, que fez o sol, tem de ser aquecido. A ternura em pessoa precisa ser mimada. O amor infinito tem um coração minúsculo, que emite batimentos leves. A Palavra eterna é infante, isto é, incapaz de falar. O Pão da vida tem de ser nutrido. O criador do mundo não tem onde morar. Hoje se inverte tudo: Deus vem, pequenino, ao mundo. A sua grandeza oferece-se na pequenez.

E nós - perguntemo-nos - sabemos acolher esta estrada de Deus? É o desafio de Natal: Deus revela-Se, mas os homens não O compreendem. Faz-Se pequeno aos olhos do mundo... e nós continuamos a procurar a grandeza segundo o mundo, talvez até em nome d’Ele. Deus abaixa-Se... e nós queremos subir para o pedestal. O Altíssimo indica a humildade... e nós pretendemos nos sobressair. Deus vai à procura dos pastores, dos invisíveis... nós buscamos visibilidade, fazermo-nos ver. Jesus nasce para servir... e nós passamos os anos atrás do sucesso. Deus não busca força nem poder; pede ternura e pequenez interior.

Eis o que devemos pedir a Jesus no Natal: a graça da pequenez. «Senhor, ensinai-nos a amar a pequenez. Ajudai-nos a compreender que é a estrada para a verdadeira grandeza». Mas que significa, concretamente, acolher a pequenez? Em primeiro lugar, significa acreditar que Deus quer vir às pequenas coisas da nossa vida, quer habitar nas realidades quotidianas, nos gestos simples que realizamos em casa, na família, na escola, no trabalho. É na nossa existência ordinária que Ele quer realizar coisas extraordinárias. Trata-se de uma mensagem de grande esperança: Jesus convida-nos a valorizar e redescobrir as pequenas coisas da vida. Se Ele está lá conosco, que nos falta? Então deixemos para trás o lamento por causa da grandeza que não temos. Renunciemos às lamúrias e rostos amuados, à avidez que nos deixa insatisfeitos. A pequenez, a maravilha daquela Criança pequenina: esta é a mensagem.

Mais ainda! Jesus não quer vir só às pequenas coisas da nossa vida, mas também à nossa pequenez: ao nosso sentir-nos fracos, frágeis, inadequados, talvez até errados. Irmã e irmão, se, como em Belém, te circunda a escuridão da noite, se em redor notas uma indiferença fria, se as feridas que trazes dentro te gritam «contas pouco, não vales nada, nunca serás amado como queres», nesta noite - se tu sentes isto - tens a resposta de Deus, que te diz: «Amo-te assim como és. A tua pequenez não Me assusta, as tuas fragilidades não Me preocupam. Fiz-Me pequeno por ti. Para ser o teu Deus, tornei-Me teu irmão. Amado irmão, amada irmã, não tenhas medo de Mim, mas reencontra em Mim a tua grandeza. Estou perto de ti e a única coisa que te peço é isto: confia em Mim e dá-Me guarida no teu coração».

Acolher a pequenez significa mais uma coisa: abraçar Jesus nos pequenos de hoje. Ou seja, amá-Lo nos últimos, servi-Lo nos pobres. São eles os mais parecidos com Jesus, nascido pobre. E é nos pobres que Ele quer ser honrado. Nesta noite de amor, um único medo nos assalte: ferir o amor de Deus, feri-lo desprezando os pobres com a nossa indiferença. São os prediletos de Jesus, que nos hão de acolher um dia no Céu. Uma poetisa escreveu: «Quem não encontrou o Céu aqui em baixo, sentirá falta dele lá em cima» [1]. Não percamos de vista o Céu, cuidemos de Jesus agora, acariciando-O nos necessitados, porque Se identificou com eles.

Fixando de novo o presépio, vemos que, no seu nascimento, Jesus está rodeado precisamente pelos pequenos, pelos pobres. São os pastores. Eram os mais simples; e foram os que estiveram mais perto do Senhor. Encontraram-No, porque «pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite» (Lc 2,8). Estavam lá para trabalhar, porque eram pobres e a sua vida não tinha horário, dependia do rebanho. Não podiam viver como e onde queriam, mas regulavam-se de acordo com as exigências das ovelhas que cuidavam. E Jesus nasceu lá próximo deles, perto dos esquecidos das periferias. Vem onde a dignidade do homem é posta à prova. Vem enobrecer os excluídos, revelando-Se primeiramente a eles: não a personalidades cultas e importantes, mas a gente pobre que trabalhava. Nesta noite, Deus vem encher de dignidade a dureza do trabalho. Recorda-nos como é importante dar dignidade ao homem com o trabalho, mas também dar dignidade ao trabalho do homem, porque o homem é senhor e não escravo do trabalho. No dia da Vida, repitamos: chega de mortes no trabalho! Empenhemo-nos para que cessem.

Olhemos uma última vez para o presépio, alongando a vista até às suas extremidades, onde já se vislumbram os Magos que vêm, peregrinos, para adorar o Senhor. Olhemos e compreendamos que, à volta de Jesus, tudo se compõe numa unidade: não estão só os últimos, os pastores, mas também os eruditos e os ricos, os Magos. Em Belém, estão juntos pobres e ricos, quem adora como os Magos e quem trabalha como os pastores. Tudo se harmoniza quando, no centro, está Jesus: não as nossas ideias sobre Jesus, mas Ele mesmo, o Vivente. Então, queridos irmãos e irmãs, voltemos a Belém, voltemos às origens: à essencialidade da fé, ao primeiro amor, à adoração e à caridade. Olhemos os Magos que vêm em peregrinação e, como Igreja sinodal, a caminho, vamos a Belém, onde está Deus no homem e o homem em Deus; onde o Senhor ocupa o primeiro lugar e é adorado; onde os últimos ocupam o lugar mais próximo d’Ele; onde pastores e Magos estão juntos numa fraternidade mais forte do que qualquer distinção. Que Deus nos conceda ser uma Igreja adoradora, pobre, fraterna. Isto é o essencial. Voltemos a Belém.

Faz-nos bem ir lá, dóceis ao Evangelho de Natal, que apresenta a Sagrada Família, os pastores e os Magos: são, todos, pessoas a caminho. Irmãos e irmãs, ponhamo-nos a caminho, porque a vida é uma peregrinação. Ergamo-nos, despertemos porque, nesta noite, acendeu-se uma luz. É uma luz suave e lembra-nos que, na nossa pequenez, somos filhos amados, filhos da luz (cf. 1Ts 5,5). Irmãos e irmãs, alegremo-nos juntos, porque ninguém apagará jamais esta luz, a luz de Jesus, que, desde esta noite, brilha no mundo.

[1] «Chi non ha trovato il Cielo quaggiù lo mancherà lassù» (E. Dickinson, Poems, XVII).


Fonte: Santa Sé.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Catequese do Papa Francisco sobre o Natal

Na quarta-feira, 22 de dezembro de 2021, interrompendo seu ciclo de Catequeses sobre São José, o Papa Francisco proferiu uma meditação sobre o nascimento de Jesus, exortando a contemplar esse mistério na humildade:

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira 22 de dezembro de 2021
O nascimento de Jesus

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, poucos dias antes do Natal, gostaria de recordar convosco o acontecimento do qual a história não pode prescindir: o nascimento de Jesus.

A fim de cumprir o decreto do Imperador César Augusto que ordenava que todos se recenseassem na própria cidade de origem, José e Maria foram de Nazaré a Belém. Assim que chegaram, procuraram imediatamente uma hospedaria, porque o parto era iminente; mas infelizmente não a encontraram, e assim Maria foi obrigada a dar à luz numa manjedoura (cf. Lc 2,1-7).

Pensemos: ao Criador do universo... a Ele não foi concedido um lugar para nascer! Talvez fosse uma antecipação do que o evangelista João diz: «Veio entre os seus, e os seus não o receberam» (Jo 1,11); e do que o próprio Jesus dirá: «As raposas têm os seus covis e as aves do ar os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça» (Lc 9,58).

Um anjo anunciou a simples pastores o nascimento de Jesus. E foi uma estrela que indicou aos Magos o caminho para Belém (cf. Mt 2,1.9-10). O anjo é um mensageiro de Deus. A estrela recorda-nos que Deus criou a luz (Gn 1,3) e que aquele Menino será “a luz do mundo”, como Ele mesmo se autodefinirá (cf. Jo 8,12.46), a «verdadeira luz (...) que ilumina todo o homem» (Jo 1,9), que «resplandece nas trevas, mas as trevas não a admitiram» (v. 5).

Os pastores personificam os pobres de Israel, pessoas humildes que interiormente vivem com a consciência da própria falta, e precisamente por isto confiam mais do que os outros em Deus. Eles foram os primeiros a ver o Filho de Deus feito homem, e este encontro muda-os profundamente. O Evangelho observa que voltaram «glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto» (Lc 2,20).

Os Magos estão também em volta de Jesus que acabou de nascer (cf. Mt 2,1-12). Os Evangelhos não nos dizem que eles eram reis, nem o número, nem os nomes. Com certeza, sabe-se apenas que de um país distante do Oriente (pode-se pensar na Babilônia, na Arábia do Sul ou na Pérsia daquele tempo) partiram em busca do Rei dos judeus, que nos seus corações identificaram com Deus, pois disseram que o queriam adorar. Os Magos representam os povos pagãos, em particular todos aqueles que ao longo dos séculos procuraram Deus e se propuseram encontrá-lo. Representam também os ricos e os poderosos, mas só aqueles que não são escravos da posse, que não estão “possuídos” pelas coisas que pensam possuir.

A mensagem dos Evangelhos é clara: o nascimento de Jesus é um acontecimento universal, que diz respeito a todos os homens.

Amados irmãos e amadas irmãs, só a humildade é o caminho que nos conduz a Deus e, ao mesmo tempo, precisamente porque nos conduz a Ele, leva-nos também ao essencial da vida, ao seu verdadeiro significado, à razão mais fiável pela qual vale a pena viver a vida.

Só a humildade nos abre à experiência da verdade, da alegria genuína, do conhecimento que conta. Sem humildade, estamos “desligados”, somos excluídos da compreensão de Deus, da compreensão de nós mesmos. É preciso ser humilde para nos compreendermos a nós mesmos, e mais ainda para compreender Deus. Os Magos podiam ter sido grandes de acordo com a lógica do mundo, mas tornam-se pequenos, humildes, e por esta mesma razão conseguem encontrar Jesus e reconhecê-lo. Aceitam a humildade de procurar, de se pôr a caminho, de perguntar, de arriscar, de cometer erros...

Cada homem, no íntimo do seu coração, é chamado a procurar Deus: todos nós temos aquela inquietação e o nosso trabalho consiste em não apagar aquela inquietação, mas deixá-la crescer, pois é a inquietação de procurar Deus; e, com a sua própria graça, pode encontrá-lo. Façamos nossa a oração de Santo Anselmo: «Senhor, ensinai-me a procurar-vos. Mostrai-vos, quando vos procuro. Não posso procurar-vos se não me ensinardes; nem encontrar-vos se não vos mostrardes. Que eu vos procure, desejando-vos e vos deseje procurando-vos! Que eu vos encontre, procurando-vos e vos ame, encontrando-vos!» (Proslogion, 1).

Queridos irmãos e irmãs, gostaria de convidar todos os homens e mulheres a ir à gruta de Belém para adorar o Filho de Deus feito homem. Cada um de nós se aproxime do presépio que tem em casa ou na igreja, ou noutro lugar, e procure fazer um ato de adoração, intimamente: “Creio que tu és Deus, que este menino é Deus. Por favor, concede-me a graça da humildade para poder compreender isto”.

Em primeiro lugar, aproximando-nos do presépio e rezando, gostaria de colocar os pobres, que - como exortava São Paulo VI - «devemos amar, porque de certa forma eles são sacramento de Cristo; neles - nos famintos, nos sedentos, nos exilados, nos nus, nos doentes, nos encarcerados - Ele quis identificar-se misticamente. Devemos ajudá-los, devemos sofrer com eles, e também devemos segui-los, porque a pobreza é o caminho mais seguro para a plena posse do Reino de Deus» (Homilia, 01 de maio de 1969).  Por isso devemos pedir a humildade como uma graça: “Senhor, que eu não seja soberbo, que não seja autossuficiente, que não me considere o centro do universo. Faz-me humilde. Dá-me a graça da humildade. E com esta humildade que eu possa encontrar-te. É o único caminho, sem humildade nunca encontraremos Deus: encontraremos nós mesmos. Pois uma pessoa sem humildade não tem horizontes diante de si, tem apenas um espelho: olha para si mesmo. Peçamos ao Senhor que quebre o espelho para que possamos olhar além, para o horizonte, onde Ele está. Mas isto deve ser feito por Ele: conceder-nos a graça e a alegria da humildade para percorrer este caminho.

Depois, irmãos e irmãs, gostaria de acompanhar a Belém, como fez a estrela com os Magos, todos aqueles que não têm uma inquietação religiosa, que não se colocam o problema de Deus, ou até lutam contra a religião, todos aqueles que são inadequadamente denominados ateus. Gostaria de lhes repetir a mensagem do Concílio Vaticano II: «A Igreja defende que o reconhecimento de Deus de modo algum se opõe à dignidade do homem, uma vez que esta dignidade se funda e se realiza no próprio Deus (...) a Igreja sabe perfeitamente que a sua mensagem está de acordo com os desejos mais profundos do coração humano» (Gaudium et spes, n. 21).

Voltemos para casa com o desejo dos anjos: «Paz na terra aos homens por Ele amados». Lembremo-nos sempre: «Não fomos nós que amamos Deus, mas foi Ele que nos amou (...). Ele amou-nos primeiro» (1Jo 4,10.19), procurou-nos. Não nos esqueçamos disto.

Esta é a razão da nossa alegria: fomos amados, fomos procurados, o Senhor procura-nos para nos encontrar, para nos amar ainda mais. Este é o motivo da alegria: saber que fomos amados sem qualquer mérito. Somos sempre precedidos por Deus no amor, um amor tão concreto que se tornou carne e veio habitar entre nós, naquele Menino que vemos no presépio. Este amor tem um nome e um rosto: Jesus é o nome e o rosto do amor, que é o fundamento da nossa alegria. Irmãos e irmãs, desejo-vos um feliz Natal, um bom e santo Natal. E gostaria que - sim, haverá os bons votos, as reuniões de família, isto é muito bonito, sempre - mas que haja também a consciência de que Deus vem “para mim”. Cada um diga: Deus vem para mim. A consciência de que para procurar Deus, para encontrar Deus, para aceitar Deus é necessária a humildade: olhar com humildade para a graça de quebrar o espelho da vaidade, da soberba, de olhar para nós mesmos. Olhar para Jesus, olhar para o horizonte, olhar para Deus que vem até nós e que toca o coração com aquela inquietação que nos conduz à esperança. Feliz e santo Natal!


Fonte: Santa Sé.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Hinos da Festa da Sagrada Família: Laudes

“No rosto dos membros da Sagrada Família se reflete toda a beleza do amor dado por Deus ao homem” (São João Paulo II, Carta às Famílias) [1].

Esta é a terceira das nossas postagens dedicadas aos hinos da Liturgia das Horas, oração oficial da Igreja para a santificação das horas do dia, para a Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.

Para essa Festa - celebrada no domingo após o Natal - como vimos em nossa postagem sobre a sua história, são propostos três hinos próprios: os dois primeiros do Papa Leão XIII (†1903) e o terceiro de nova composição:
- I e II Vésperas: O lux beáta caelitum (Ó luz bendita dos céus);
- Ofício das Leituras: Dulce fit nobis memoráre parvum (A vida oculta de Jesus);
- Laudes: Christe, splendor Patris (Ó Cristo, luz do Pai).

Para acessar o “índice” com todos os hinos do Próprio do Tempo, clique aqui.

Mosaico da Sagrada Família (Centro Aletti)
As mãos de Maria formam os “degraus” pelos quais Cristo desce a nós na Encarnação

Após analisarmos os dois primeiros hinos, nesta postagem nos deteremos no terceiro, elaborado no contexto da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.

Confira a seguir, portanto, o texto original em latim, a tradução oficial para o português do Brasil, e alguns comentários sobre a mensagem do hino das Laudes (oração da manhã): Christe, splendor Patris (Ó Cristo, luz do Pai).

Laudes: Christe, splendor Patris

Christe, splendor Patris,
Dei mater Virgo,
Ioseph, tam sacrórum
pígnorum servátor,

Nitet vestra domus
flóribus virtútum,
unde gratiárum
fons prománat ipse.

Angeli stupéntes
Natum Dei cernunt
servi forma indútum
servis famulántem.

Catequeses sobre os Salmos (48): Vésperas da segunda-feira da III semana

As Catequeses sobre os salmos e o cântico das Vésperas da segunda-feira da III semana do Saltério foram proferidas pelo Papa Bento XVI nos dias 15 de junho (Sl 122), 22 de junho (Sl 123) e 06 de julho de 2005 (Ef 1,3-10).

138. Deus, esperança do seu povo: Sl 122(123),1-4
15 de junho de 2005

1. Jesus, no Evangelho, afirma de modo muito incisivo que os olhos são um símbolo expressivo do “eu” profundo, são um espelho da alma (cf. Mt 6,22-23). Pois bem, o Salmo 122, agora proclamado, concentra-se totalmente num cruzar de olhares: o fiel eleva os seus olhos ao Senhor e aguarda uma reação divina, para nela ver um gesto de amor, um olhar de benevolência. Também nós elevamos um pouco os olhos e aguardamos um gesto de benevolência do Senhor.
Não raramente, no Saltério, se fala do olhar do Altíssimo que “olhou para os seres humanos a ver se havia alguém sensato, alguém que ainda procura Deus” (Sl 13,2). Como ouvimos, o salmista recorre a uma imagem, à dos escravos que estão voltados para o seu senhor à espera de uma decisão libertadora.
Mesmo se o cenário se refere ao mundo antigo e às suas estruturas sociais, a ideia é clara e significativa: aquela imagem tirada do mundo do antigo Oriente pretende exaltar a adesão do pobre, a esperança do oprimido e a disponibilidade do justo em relação ao Senhor.

"Eu levanto os meus olhos para vós" (Sl 122,1)
(Cura do cego de nascença - Orazio de Ferrari)

2. O orante está na expectativa de que as mãos divinas se movam, porque elas atuam segundo a justiça, destruindo o mal. Por isso muitas vezes no Saltério o orante eleva o seu olhar repleto de esperança no Senhor: “Os meus olhos estão sempre postos no Senhor, porque Ele tira os meus pés da armadilha” (Sl 24,15), “os meus olhos se cansam à espera do meu Deus” (Sl 68,4).
O Salmo 122 é uma súplica na qual a voz de um fiel se une à de toda a comunidade: de fato, o Salmo passa da primeira pessoa do singular - “Eu levanto os meus olhos” (v. 1) - ao plural: “os nossos olhos” (v. 2). É expressa a esperança de que as mãos do Senhor se abram para efundir dons de justiça e de liberdade. O justo espera que o olhar de Deus se revele em toda a sua ternura e bondade, como se lê na antiga bênção sacerdotal do Livro dos Números: “O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti a sua face e te dê a paz” (Nm 6,25-26).

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Hinos da Festa da Sagrada Família: Ofício das Leituras

“Para as famílias cristãs, nada pode ser imaginado de mais salutar nem eficaz que o exemplo da Sagrada Família” (Papa Leão XIII, Breve Neminem Fugit) [1].

O Papa Leão XIII (†1903), como vimos em nossas postagens anteriores, foi um grande promotor da devoção à Sagrada Família de Jesus, Maria e José.

Sagrada Família em Nazaré
Note-se como as madeiras seguradas pelo Menino formam a Cruz
(Christian Wilhelm Ernst Dietrich - séc. XVIII)

Com efeito, dos três hinos para a Liturgia das Horas da Festa da Sagrada Família, celebrada no domingo após o Natal, dois são de sua autoria (enquanto o terceiro foi elaborado no contexto da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II):
- I e II Vésperas: O lux beáta caelitum (Ó luz bendita dos céus);
- Ofício das Leituras: Dulce fit nobis memoráre parvum (A vida oculta de Jesus);
- Laudes: Christe, splendor Patris (Ó Cristo, luz do Pai).

Para acessar o “índice” com todos os hinos do Próprio do Tempo, clique aqui.

Em nossa postagem anterior já apresentamos o hino das Vésperas, O lux beáta caelitum, com seu texto em latim e sua tradução oficial para o português do Brasil, seguidos de alguns comentários sobre a sua mensagem.

Cabe-nos agora fazer o mesmo com o segundo hino do Papa Leão XIII para a Festa da Sagrada Família, entoado no Ofício das Leituras: Dulce fit nobis memoráre parvum (A vida oculta de Jesus edificante é relembrar):

Ofício das Leituras: Dulce fit nobis memoráre parvum

Dulce fit nobis memoráre parvum
Názarae tectum tenuémque cultum;
éxpedit Iesu tácitam reférre
cármine vitam.

Arte qua Ioseph húmili excoléndus,
ábdito Iesus iuvenéscit aevo,
seque fabrílis sócium labóris
ádicit ultro.

Assidet nato pia mater almo,
ássidet sponso bona nupta, felix
si potest curas releváre lassis
múnere amíco.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Domingos do Advento 2021 em Milão

Como de costume, o Arcebispo de Milão (Itália), Dom Mario Enrico Delpini, celebrou a Santa Missa dos seis domingos do Advento segundo o Rito Ambrosiano (próprio dessa Arquidiocese) na Catedral de Santa Maria Nascente, o Duomo de Milão:

14 de novembro: I Domingo do Advento

Procissão de entrada

Ritos iniciais
Procissão com o Livro dos Evangelhos
Homilia

Hinos da Festa da Sagrada Família: Vésperas

Adoremos o Filho do Deus vivo, que se dignou tornar-se filho de uma família humana” [1].

Em nossa postagem anterior apresentamos brevemente a história da Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, celebrada atualmente pela Igreja de Rito Romano no domingo após o Natal.

Como vimos, essa Festa possui três hinos próprios para a Liturgia das Horas, oração oficial da Igreja para a santificação das horas do dia:
- I e II Vésperas: O lux beáta caelitum (Ó luz bendita dos céus);
- Ofício das Leituras: Dulce fit nobis memoráre parvum (A vida oculta de Jesus);
- Laudes: Christe, splendor Patris (Ó Cristo, luz do Pai).

Para acessar o “índice” com todos os hinos do Próprio do Tempo, clique aqui.

Mosaico da Sagrada Família na Catedral de Westminster (Londres)

Os dois primeiros são atribuídos ao Papa Leão XIII (†1903), grande promotor da devoção à Sagrada Família, o qual instituiu a sua Festa em 1893. O terceiro hino, por sua vez, é de nova composição (realizado no contexto da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II).

Como já fizemos aqui em nosso blog com vários dos hinos da Liturgia das Horas, nesta e nas próximas postagens apresentaremos os três hinos da Festa da Sagrada Família, em seu texto original em latim e em sua tradução oficial para o português do Brasil, além de alguns comentários sobre a sua mensagem e teologia.

Começamos pelo hino das Vésperas (oração da tarde), O lux beáta caelitum (Ó luz bendita dos céus):

I e II Vésperas: O lux beáta caelitum

O lux beáta caelitum
et summa spes mortálium,
Iesu, cui doméstica
arrísit orto cáritas;

María, dives grátia,
o sola quae casto potes
fovére Iesum péctore,
cum lacte donans óscula;

Tuque ex vetústis pátribus
delécte custos Vírginis,
dulci patris quem nómine
divína Proles ínvocat: