Nesta Oitava Pascal, concluindo as reflexões sobre a Páscoa de Jesus proferidas pelo Papa Leão XIV como parte das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, trazemos suas meditações sobre a Ressurreição (Jo 20,19-23) e sobre os discípulos de Emaús (Lc 24,13-35).
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 01 de outubro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.9. A Páscoa de Jesus: A Ressurreição (Jo 20,19-23)
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
O centro da nossa fé e o coração da nossa esperança se
encontram bem enraizados na Ressurreição de Cristo. Lendo atentamente os
Evangelhos, compreendemos que este mistério é surpreendente não só porque um
homem - o Filho de Deus - ressuscitou dos mortos, mas também pelo modo como
escolheu fazê-lo. Com efeito, a Ressurreição de Jesus não é um triunfo
retumbante, não é uma vingança ou uma revanche contra os seus inimigos. É o
testemunho maravilhoso de como o amor é capaz de se levantar depois de uma
grande derrota para prosseguir o seu irrefreável caminho.
Quando nos levantamos depois de um trauma causado por
outros, muitas vezes a primeira reação é a raiva, o desejo de fazer alguém
pagar pelo que sofremos. O Ressuscitado não reage desse modo. Saindo da mansão
dos mortos, Jesus não se vinga de modo algum. Não volta com gestos de poder,
mas manifesta com mansidão a alegria de um amor maior do que qualquer ferida e
mais forte do que qualquer traição.
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| Encontro do Ressuscitado com os Apóstolos (Franciszek Smuglewicz) |
O Ressuscitado não sente necessidade alguma de reiterar ou
afirmar a sua superioridade. Ele aparece aos seus amigos - os discípulos - e o faz
com extrema discrição, sem forçar os tempos da sua capacidade de acolhida. O
seu único desejo é voltar a estar em comunhão com eles, ajudando-os a superar o
sentimento de culpa. Vemos muito bem isso no Cenáculo, onde o Senhor aparece
aos seus amigos fechados no medo. É um momento que manifesta uma força
extraordinária: depois de ter descido aos abismos da morte para libertar aqueles
que estavam presos ali, Jesus entra na sala fechada daqueles que estão
paralisados pelo medo, levando um dom que ninguém ousaria esperar: a paz!
A sua saudação é simples, quase banal: «A paz esteja
convosco!» (Jo 20,19). Mas é acompanhada por um gesto tão belo
que chega a ser quase inconveniente: Jesus mostra aos discípulos as mãos e o
lado, com os sinais da Paixão. Por que exibir as feridas precisamente diante de
quem, naquelas horas dramáticas, o negou e abandonou? Por que não esconder esses
sinais de dor e evitar reabrir a ferida da vergonha?
No entanto, o Evangelho diz que, vendo o Senhor, os
discípulos «se alegraram» (v. 20). O motivo é profundo: Jesus já está
plenamente reconciliado com tudo aquilo que sofreu. Não há sombra de rancor. As
feridas não servem para repreender, mas para confirmar um amor mais forte do
que qualquer infidelidade. São a prova de que, precisamente no momento da nossa
falha, Deus não desistiu. Não renunciou a nós.
Assim, o Senhor se mostra nu e desarmado. Não exige, não
chantageia. O seu amor não humilha; é a paz de quem sofreu por amor e agora
pode finalmente afirmar que valeu a pena!
Nós, ao contrário, muitas vezes mascaramos as nossas feridas
por orgulho ou por medo de parecer frágeis. Dizemos “não importa”, “tudo
passou”, mas não estamos realmente em paz com as traições que nos feriram. Às
vezes preferimos esconder a nossa dificuldade em perdoar para não parecer
vulneráveis e não correr o risco de sofrer novamente. Jesus não! Ele oferece as
suas chagas como garantia de perdão. E mostra que a Ressurreição não é a anulação
do passado, mas a sua transfiguração em uma esperança de misericórdia.
Em seguida, o Senhor repete: «A paz esteja convosco!». E
acrescenta: «Como o Pai me enviou, também Eu vos envio» (v. 21). Com estas
palavras, confia aos Apóstolos uma tarefa que não é tanto um poder, mas uma
responsabilidade: ser instrumentos de reconciliação no mundo. Como se dissesse:
“Quem poderá anunciar o rosto misericordioso do Pai, senão vós, que
experimentastes o fracasso e o perdão?”.
Jesus sopra sobre eles e dá o Espírito Santo (v. 22). É o
mesmo Espírito que o sustentou na obediência ao Pai e no amor até a Cruz. A
partir desse momento, os Apóstolos não poderão mais silenciar aquilo que viram
e ouviram: que Deus perdoa, levanta, restitui confiança.
Este é o coração da missão da Igreja: não administrar um
poder sobre os outros, mas comunicar a alegria de quem foi amado precisamente
quando não o merecia. É a força que fez nascer e crescer a comunidade cristã:
homens e mulheres que descobriram a beleza de voltar à vida para poder doá-la
aos outros!
Caros irmãos e irmãs, também nós somos enviados. Também a
nós o Senhor mostra as suas feridas e diz: A paz esteja convosco! Não
tenhais medo de mostrar as vossas feridas curadas pela misericórdia. Não
tenhais medo de vos aproximar de quem está fechado no medo ou no sentimento de
culpa. Que o sopro do Espírito nos torne, também nós, testemunhas dessa paz e
desse amor mais forte do que qualquer derrota.
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 08 de outubro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.10. A Páscoa de Jesus: Reacender (Lc 24,13-35)
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje gostaria de vos convidar a refletir sobre um aspecto
surpreendente da Ressurreição de Cristo: a sua humildade. Se recordamos os relatos
evangélicos, percebemos que o Senhor Ressuscitado não faz nada de espetacular
para se impor à fé dos seus discípulos. Não se apresenta rodeado de legiões de
anjos, não faz gestos sensacionais, não pronuncia discursos solenes para
revelar os segredos do universo. Ao contrário, aproxima-se discretamente, como
um viajante qualquer, como um homem faminto que pede para partilhar um pouco de
pão (cf. Lc 24,15.41).
Maria Madalena o confunde com um jardineiro (cf. Jo 20,15).
Os discípulos de Emaús creem que se trata de um forasteiro (cf. Lc 24,18).
Pedro e os outros pescadores pensam que é um simples transeunte (cf. Jo 21,4).
Nós esperaríamos efeitos especiais, sinais de poder, provas esmagadoras. Mas o
Senhor não busca isso: prefere a linguagem da proximidade, da normalidade, da
mesa compartilhada.
Irmãos e irmãs, há uma mensagem preciosa nisso: a
Ressurreição não é um “golpe de cena” teatral, é uma transformação silenciosa
que enche de sentido cada gesto humano. Jesus Ressuscitado come um pedaço de
peixe diante dos seus discípulos: não é um detalhe marginal, é a confirmação de
que o nosso corpo, a nossa história, as nossas relações não são uma embalagem a
ser jogada fora. Estão destinados à plenitude da vida. Ressuscitar não
significa tornar-se espíritos evanescentes, mas entrar em uma comunhão mais profunda
com Deus e com os irmãos, em uma humanidade transfigurada pelo amor.
Na Páscoa de Cristo tudo pode se tornar graça. Até as coisas
mais comuns: comer, trabalhar, esperar, cuidar da casa, apoiar um amigo. A
Ressurreição não subtrai a vida ao tempo e ao esforço, mas transforma o seu
sentido e o seu “sabor”. Cada gesto feito com gratidão e na comunhão antecipa o
Reino de Deus.
No entanto, há um obstáculo que muitas vezes nos impede de
reconhecer essa presença de Cristo no quotidiano: a pretensão de que a alegria
deve ser desprovida de feridas. Os discípulos de Emaús caminham tristes porque
esperavam outro final, esperavam um Messias que não conhecesse a cruz. Apesar
de terem ouvido dizer que o sepulcro está vazio, não conseguem sorrir. Mas
Jesus se põe ao lado deles, ajudando-os pacientemente a compreender que a dor
não é a negação da promessa, mas o caminho através do qual Deus manifestou a
medida do seu amor (cf. Lc 24,13-27).
Quando por fim se sentam à mesa com Ele e partem o pão, os
seus olhos se abrem. E percebem que o seu coração já ardia, embora não o
soubessem (cf. Lc 24,28-32). Esta é a maior surpresa:
descobrir que, sob as cinzas do desencanto e do cansaço, há sempre uma brasa
viva, que só espera ser reavivada.
Irmãos e irmãs, a Ressurreição de Cristo nos ensina que não
há história tão marcada pela desilusão ou pelo pecado que não possa ser
visitada pela esperança. Nenhuma queda é definitiva, nenhuma noite é eterna,
nenhuma ferida está destinada a permanecer aberta para sempre. Por mais
distantes, perdidos ou indignos que possamos nos sentir, não há distância que
possa extinguir a força infalível do amor de Deus.
Às vezes pensamos que o Senhor só vem nos visitar nos
momentos de recolhimento ou de fervor espiritual, quando nos sentimos à altura,
quando a nossa vida parece ordenada e luminosa. Pelo contrário, o Ressuscitado se
faz próximo precisamente nos lugares mais escuros: nos nossos fracassos, nas
relações desgastadas, nas fadigas quotidianas que pesam sobre os nossos ombros,
nas dúvidas que nos desencorajam. Nada do que somos, nenhum fragmento da nossa
existência lhe é estranho.
Hoje o Senhor Ressuscitado se aproxima de cada um de nós
precisamente enquanto percorremos os nossos caminhos - aqueles do trabalho e do
compromisso, mas também aqueles do sofrimento e da solidão - e, com infinita delicadeza,
pede que nos deixemos aquecer o coração. Não se impõe com clamor, não pretende
ser reconhecido imediatamente. Espera com paciência o momento em que os nossos
olhos se abrirão para vislumbrar o seu rosto amigo, capaz de transformar a
desilusão em espera confiante, a tristeza em gratidão, a resignação em
esperança.
O Ressuscitado deseja apenas manifestar a sua presença, fazer-se
nosso companheiro de caminho e acender em nós a certeza de que a sua vida é
mais forte do que qualquer morte. Peçamos, então, a graça de reconhecer a sua
presença humilde e discreta, de não pretender uma vida sem provações, de
descobrir que cada dor, se habitada pelo amor, pode se tornar lugar de
comunhão.
E assim, como os discípulos de Emaús, também nós voltamos
para casa com um coração que arde de alegria. Uma alegria simples, que não
elimina as feridas, mas as ilumina. Uma alegria que nasce da certeza de que o
Senhor está vivo, caminha conosco, dando-nos a cada instante a possibilidade de
recomeçar.
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| O Ressuscitado com os discípulos de Emáus (Abraham Bloemaert) |
Fonte: Santa Sé (01 de outubro e 08 de outubro de 2025).


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