quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Fotos das Vésperas da Apresentação do Senhor no Vaticano

No último dia 02 de fevereiro o Papa Bento XVI celebrou na Basílica de São Pedro as Vésperas da Festa da Apresentação do Senhor, com exposição e bênção do Santíssimo Sacramento, por ocasião do Dia Mundial da Vida Consagrada.

O Santo Padre foi assistido pelos Monsenhores Guido Marini e Guillermo Javier Karcher. O livreto da celebração pode ser visto aqui.

Clique aqui para ler a homilia do Papa.

Procissão de entrada

Exposição do Santíssimo Sacramento

 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A Liturgia: fonte de vida, de oração e de catequese

Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice

A Liturgia: fonte de vida, de oração e de catequese (CIC 1071-1075)

Os números 1071-1075 do Catecismo da Igreja Católica (CIC) falam da sagrada liturgia como fonte de vida, e da sua relação com a oração e a catequese. A liturgia é fonte de vida, principalmente porque é “obra de Cristo” (CIC, 1071). Segundo, porque “é também uma ação da sua Igreja” (ibid.). Mas entre esses dois aspectos, qual é o mais importante? E, também, o que significa neste contexto a palavra “vida”?
Responde o Concílio Vaticano II: “Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós, como de sua fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam, como a seu fim, todas as outras obras da Igreja” (Sacrosanctum Concilium [SC], 10). Compreende-se assim que, quando se diz que a liturgia é fonte de vida, se quer dizer que dela jorra a graça. Com isso, já se respondeu à primeira pergunta: a liturgia é fonte de vida principalmente porque é obra de Cristo, Autor da graça.
Um princípio clássico do catolicismo, no entanto, diz que a graça não tira a natureza, mas a supõe e a aperfeiçoa (cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, 1, 8 ad 2, etc.). Por isso, também o homem coopera com o culto litúrgico, que é ação sacerdotal do “Cristo todo inteiro”, ou seja da Cabeça, que é Jesus, e dos membros, que são os batizados. Assim, a liturgia é fonte de vida também enquanto ação da Igreja. Justo em quanto obra de Cristo e da Igreja, a liturgia é “ação sagrada por excelência” (SC 7), doa aos fiéis a vida de Cristo e requer a sua participação consciente, ativa e frutuosa (cf. SC, 11). Aqui se compreende também a ligação da sagrada liturgia com a vida de fé: podemos dizer “da Vida à vida”. A graça que nos é dada por Cristo na liturgia exige uma participação vital: “A Sagrada liturgia não esgota toda a ação da Igreja” (SC, 9), na verdade, “Deve ser precedida pela evangelização, pela fé e pela conversão, e só então pode produzir os seus frutos na vida dos fiéis” (CIC, 1072).
Não é por acaso que, no momento de recolher os escritos litúrgicos de J. Ratzinger em um único volume, intitulado Teologia da Liturgia, se pensou expressar uma das intuições fundamentais do autor acrescentando o subtítulo: A fundação sacramental da existência cristã. É uma tradução em termos teológicos do que Jesus disse no Evangelho com as palavras: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5). Na liturgia nós recebemos o dom daquela vida divina de Cristo, sem a qual não podemos fazer nada de válido para a salvação. Assim, a vida do cristão não é senão uma continuação, ou o fruto da graça que é recebida no culto divino, especialmente na Eucaristia.
Em segundo lugar, a liturgia tem uma relação estreita com a oração. Mais uma vez, o foco de entendimento dessa relação é o Senhor: “A liturgia é também participação na oração de Cristo, dirigida ao Pai no Espírito Santo. Nela, toda a oração cristã encontra a sua fonte e o seu termo” (CIC, 1073). A liturgia é, portanto, também, uma fonte de oração. A partir dela, aprendemos a rezar no modo correto. Uma vez que a liturgia é a oração sacerdotal de Jesus, o que podemos aprender dela para a nossa oração pessoal? Em que consistia a oração do Senhor? “Para compreender a Jesus são fundamentais as referências recorrentes ao fato de que ele se retirava ‘à montanha’ e lá orava por noites inteiras, ‘sozinho’ com o Pai. [...] Esta ‘oração’ de Jesus é a conversa do Filho com o Pai em que estão envolvidos a consciência e a vontade humanas, a alma humana de Jesus, de modo que a ‘oração’ do homem possa tornar-se participação na comunhão do Filho com o Pai” (J. Ratzinger/Benedetto XVI, Gesù di Nazaret, I, Rizzoli, Milano 2007, pp. 27-28 [tradução nossa]). Em Jesus, a oração “pessoal” não é distinta da sua oração sacerdotal: de acordo com a Carta aos Hebreus, a oração que Jesus suportou durante a Paixão “constitui a atuação do sumo sacerdócio de Jesus. Precisamente no seu grito, choro e oração Jesus faz o que é próprio do sumo sacerdote: Ele eleva ao alto o trabalho do ser humano junto à Deus. Leva o homem diante de Deus” (ibid., II, LEV, Città del Vaticano 2010, p. 184).
Em uma palavra, a oração de Jesus é uma oração de colóquio, uma oração dirigida na presença de Deus. Jesus nos ensina este tipo de oração: “É necessário ter sempre viva esta relação e reconduzir-vos continuamente aos acontecimentos cotidianos. Vamos rezar mais e melhor quanto mais nas profundezas da nossa alma haja a orientação em direção a Deus” (ibid., I, p. 159). A liturgia, portanto, nos ensina a orar porque nos reorienta constantemente a Deus: “Corações ao alto - O nosso coração está em Deus”. A oração é estar dirigido ao Senhor - e isto é também o sentido profundo da participação ativa na liturgia.
Finalmente, a Liturgia é “lugar privilegiado da catequese [...] enquanto procede do visível para o invisível” (CIC, 1074-1075). Isto implica que os textos, os sinais, os ritos, os gestos, e os elementos ornamentais da liturgia devem ser tais, que transmitam realmente o Mistério que significam e que possam assim serem utilmente explicados dentro da catequese mistagógica.


Fonte: Santa Sé

Homilia do Papa Bento XVI nas Vésperas da Apresentação do Senhor

Celebração das Vésperas na Festa da Apresentação de Jesus no Templo
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica Vaticana
Quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Prezados irmãos e irmãs
A festa da Apresentação do Senhor, quarenta dias depois do nascimento de Jesus, mostra-nos Maria e José que, em obediência à Lei mosaica, vão ao templo de Jerusalém para oferecer o menino, enquanto primogénito, ao Senhor e para o resgatar mediante um sacrifício (cf. Lc 2,22-24). É um dos casos em que o tempo litúrgico reflete o histórico, porque hoje se completam precisamente quarenta dias desde a solenidade do Natal do Senhor; o tema de Cristo Luz, que caracterizou o ciclo das festas natalícias e culminou na solenidade da Epifania, é retomado e prolongado na festa hodierna.
O gesto ritual dos pais de Jesus, que se verifica segundo o estilo de escondimento humilde que caracteriza a Encarnação do Filho de Deus, encontra um acolhimento singular da parte do ancião Simeão e da profetisa Ana. Por inspiração divina, eles reconhecem naquele menino o Messias anunciado pelos profetas. No encontro entre o ancião Simeão e Maria, jovem mãe, Antigo e Novo Testamento unem-se de maneira admirável em ação de graças pelo dom da Luz, que resplandeceu nas trevas, impedindo-as de prevalecer: Cristo Senhor, Luz para iluminar os povos e glória do seu povo Israel (cf. Lc 2,32).
No dia em que a Igreja faz memória da Apresentação de Jesus no templo, celebra-se o Dia da Vida Consagrada. Com efeito, o episódio evangélico ao qual nos referimos constitui um ícone significativo da doação da própria vida por parte de quantos foram chamados a representar na Igreja e no mundo, mediante os conselhos evangélicos, os traços característicos de Jesus, casto, pobre e obediente, o Consagrado do Pai. Portanto, na festividade deste dia nós celebramos o mistério da consagração: consagração de Cristo, consagração de Maria, consagração de todos aqueles que se põem na sequela de Jesus por amor do Reino de Deus.
Segundo a intuição do Beato João Paulo II, que a celebrou pela primeira vez em 1997, o Dia dedicado à vida consagrado propõe-se algumas finalidades particulares. Quer responder, antes de tudo, à exigência de louvar e dar graças ao Senhor pelo dom desta condição de vida, que pertence à santidade da Igreja. A cada pessoa consagrada é dedicada, hoje, a oração de toda a comunidade, que dá graças a Deus Pai, doador de todo o bem, pela dádiva desta vocação, e com fé volta a invocá-lo. Além disso, em tal ocasião tenciona-se valorizar cada vez mais o testemunho daqueles que escolheram seguir Cristo mediante a prática dos conselhos evangélicos com a promoção do conhecimento e a estima da vida consagrada no interior do Povo de Deus. Finalmente, o Dia da Vida Consagrada deseja ser, sobretudo para vós, queridos irmãos e irmãs que abraçastes esta condição na Igreja, uma preciosa ocasião para renovar os propósitos e reavivar os sentimentos que inspiraram e inspiram a doação de vós mesmos ao Senhor. É isto que queremos fazer hoje, este é o compromisso que sois chamados a realizar todos os dias da vossa vida.
Por ocasião do 50º aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, proclamei - como sabeis - o Ano da fé, que terá início no próximo mês de outubro. Todos os fiéis, mas de modo particular os membros dos Institutos de vida consagrada, acolheram esta iniciativa como um dom, e faço votos a fim de que vivam o Ano da fé como tempo favorável para a renovação interior, da qual sempre se sente a necessidade, com um aprofundamento dos valores essenciais e das exigências da própria consagração. No Ano da Fé vós, que acolhestes a chamada a seguir Cristo mais de perto mediante a profissão dos conselhos evangélicos, sois convidados a aprofundar ainda mais a relação com Deus. Aceites como autêntica regra de vida, os conselhos evangélicos fortalecem a fé, a esperança e a caridade, que unem a Deus. Esta profunda proximidade ao Senhor, que deve ser o elemento prioritário e caracterizador da vossa existência, levar-vos-á a uma renovada adesão a Ele, e terá uma influência positiva sobre a vossa especial presença e forma de apostolado no interior do Povo de Deus, através da relação dos vossos carismas, na fidelidade ao Magistério, com a finalidade de ser testemunhas da fé e da graça, testemunhas credíveis para a Igreja e para o mundo de hoje.
A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, com os meios que considerar mais adequados, indicará os critérios e comprometer-se-á para fazer com que este Ano da fé constitua para todos vós um ano de renovação e de fidelidade, a fim de que todos os consagrados e consagradas se dediquem com entusiasmo à nova evangelização. Enquanto dirijo a minha cordial saudação ao Prefeito do Dicastério, D. João Braz de Aviz - que desejei incluir entre quantos criarei Cardeais no próximo Consistório - é de bom grado que aproveito esta feliz circunstância para lhe agradecer, bem como aos colaboradores, o precioso serviço que prestam à Santa Sé e a toda a Igreja.
Caros irmãos e irmãs, estou grato também a cada um de vós, por terdes desejado participar nesta Liturgia que, graças inclusive à vossa presença, se distingue por um especial clima de devoção e recolhimento. Desejo todo o bem para o caminho das vossas Famílias religiosas, assim como para a vossa formação e o vosso apostolado. A Virgem Maria, discípula, serva e Mãe do Senhor, obtenha do Senhor Jesus, que «quantos receberam o dom de O seguir na vida consagrada, saibam testemunhá-lo com uma existência transfigurada, caminhando jubilosamente, com todos os outros irmãos e irmãs, para a pátria celeste e para a luz que não conhece ocaso» (João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Vita Consecrata, 112). Amém.


Fonte: Santa Sé / Clique aqui para ver as fotos da celebração.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A celebração da Festa da Apresentação do Senhor

“Recebemos, ó Deus, a vossa misericórdia no meio de vosso templo” (cf. Sl 47,10; Antífona de entrada da Festa da Apresentação do Senhor).

No dia 02 de fevereiro, 40 dias após a Solenidade do Natal do Senhor, como narra o Evangelho de Lucas (Lc 2,22-40), a Igreja celebra a Festa da Apresentação do Senhor que, embora ocorra no Tempo Comum, é um “eco” do Tempo do Natal.

Para acessar nossa postagem sobre a história da Festa da Apresentação do Senhor, clique aqui.

Bênção das velas na Festa da Apresentação do Senhor
(Átrio da Basílica de São Pedro no Vaticano - 2019)

A partir do cântico de Simeão, o Nunc dimittis (Lc 2,29-32), centrado no tema da luz, essa festa é enriquecida com a bênção das velas e com uma procissão, como veremos a seguir. Como exorta São Cirilo de Alexandria (†444) em uma de suas homilias: “Celebremos o mistério deste dia com lâmpadas flamejantes”.

1. O que se deve preparar:
- Todo o necessário para a celebração da Missa;
- Turíbulo com naveta do incenso e colher;
- Cruz processional;
- Dois castiçais com velas;
- Missal Romano;
- Caldeirinha de água benta e aspersório;
- Pluvial branco para o sacerdote (se houver).

O uso do incenso, embora sempre facultativo na Missa (cf. Instrução Geral sobre o Missal Romano, 3ª edição, nn. 276-277), é particularmente indicado para essa celebração (Cerimonial dos Bispos, n. 88).

A celebração inicia-se com a bênção das velas, que pode ser feita de duas formas: com a procissão ou com a entrada solene (cf. Cerimonial dos Bispos, nn. 242-248).

2. Procissão

Os fiéis reúnem-se em uma igreja menor ou em outro lugar adequado fora da igreja onde se celebrará a Missa. Todos levam velas apagadas.

O Papa Francisco profere a monição introdutória (2018)

O sacerdote, revestido de pluvial branco ou, na sua falta, da casula branca, dirige-se ao lugar onde estão os fiéis, acompanhado dos acólitos e demais ministros. Esses levam o turíbulo e a naveta, a cruz, os castiçais com velas, o Missal Romano e a caldeirinha de água benta. Se há diácono, este leva o Livro dos Evangelhos.

À chegada do sacerdote, todos acendem suas velas, enquanto canta-se a antífona proposta no Missal: “Eis que virá o Senhor...” ou outro canto adequado.

História da Festa da Apresentação do Senhor

“Meus olhos viram a tua salvação: Luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel” (Lc 2,30.32).

O Evangelho de Lucas nos narra como, 40 dias após o seu nascimento, o Menino Jesus é levado por Maria e José ao Templo de Jerusalém para ser apresentado ao Senhor, onde é acolhido pelo justo Simeão e pela profetisa Ana (Lc 2,22-40).

As Igrejas do Oriente e do Ocidente celebram esse acontecimento evangélico no dia 02 de fevereiro, 40 dias após a Solenidade do Natal do Senhor. Trata-se da Festa da Apresentação do Senhor, cuja história veremos brevemente nesta postagem.

Apresentação do Senhor no Menologion de Basílio II
Uma das mais antigas representações desse mistério (séc. X-XI)

O simbolismo da Festa da Apresentação do Senhor

Antes de tudo cabe recordar que o episódio descrito por Lucas remete-nos a duas prescrições do Antigo Testamento:

- o resgate do primogênito (Ex 13,1-2.11-16), recordação do êxodo, quando os primogênitos do Egito morreram e os filhos de Israel foram poupados (Ex 12). Assim, todo primogênito “pertencia” a Deus e deveria ser “resgatado” pelos pais com uma oferta de cinco siclos de prata, a serem entregues a qualquer sacerdote (Nm 18,15-16).

O Papa Bento XVI chama a atenção para o fato de que Lucas não menciona que Maria e José tenham realizado o “resgate” propriamente dito. Com efeito, o Menino pertence totalmente a Deus - afinal, é o próprio Deus (cf. Jo 1,1-18) -, inteiramente unido ao Pai na comunhão de amor do Espírito Santo [1].

- a purificação da mãe (Lv 12). A Lei judaica era baseada no “horror sanguinis”: o contato com sangue, incluindo o parto, gerava impureza. Assim, no 40º dia após o nascimento do filho a mulher devia oferecer um sacrifício expiatório. Por isso, como veremos, a celebração do dia 02 de fevereiro no Rito Romano foi conhecida por muito tempo como “Purificação de Maria”.

O número 40, além disso, é particularmente simbólico na Sagrada Escritura: remete à aliança - a aliança de Deus com a humanidade após o dilúvio, a aliança do Sinai após os 40 dias que Moisés permaneceu sobre o monte - e ao tempo da provação e da penitência - a peregrinação de Israel pelo deserto por 40 anos, os 40 dias de Jesus no deserto em oração...

Apresentação do Senhor - Giovanni Bellini (séc. XV)
Note-se o Menino envolto em faixas, prefigurando sua sepultura

Entre os cristãos orientais, a Festa da Apresentação do Senhor é chamada de Hypapanté (ὑπαπαντή), “Encontro”. Aqui vemos sintetizada a teologia da Encarnação, pela qual se realiza o “admirável intercâmbio de dons entre o céu e a terra”:

- Jesus, verdadeiro Deus, encontra-se com o seu povo, o povo da primeira aliança, representado por Simeão e Ana, e dá início ao caminho rumo ao seu sacrifício, com o qual será inaugurada a nova e eterna aliança (Lc 22,20);

- Jesus, verdadeiro homem, “nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei” (Gl 4,4-5), vai ao encontro do Pai, oferecendo-lhe a nossa humanidade, para elevá-la à divindade (Lc 23,46).

A origem da Festa da Apresentação do Senhor

A peregrina Etéria (ou Egéria), que visitou a Terra Santa no final do século IV, oferece-nos em seu “diário de viagem” (Itinerarium ad loca sancta) o primeiro testemunho de uma celebração litúrgica da Apresentação de Jesus no Templo:

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Por que a Liturgia? O que significa Liturgia?

Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice

Por que a Liturgia? O que significa Liturgia? (CIC 1066-1070)

A profissão de fé, abordada na primeira parte do Catecismo da Igreja Católica, é seguida pela explicação da vida sacramental, por cujo meio Cristo está presente e age, continuando a edificação da sua Igreja. Se na liturgia, aliás, não se destacasse a figura de Cristo, que é o seu princípio e está realmente presente para torná-la válida, nem sequer teríamos a liturgia cristã, que depende do Senhor e é sustentada pela sua presença.
Existe, então, uma relação intrínseca entre fé e liturgia, ambas intimamente unidas. Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não teria eficácia, pois careceria da graça que alicerça o testemunho dos cristãos. “Por outro lado, a ação litúrgica nunca pode ser considerada genericamente, prescindindo-se do mistério da fé. A fonte da nossa fé e da liturgia eucarística, de fato, é o mesmo acontecimento: o dom que Cristo fez de si mesmo no mistério pascal” (Bento XVI, Sacramentum Caritatis, 34).
Se abrirmos o catecismo na sua segunda parte, leremos que a palavra “liturgia” significa, originariamente, “serviço de e em favor do povo”. Na tradição cristã, significa que o povo de Deus faz parte da “obra de Deus” (CIC, 1069).
Em que consiste essa obra de Deus da qual fazemos parte? A resposta do catecismo é clara e nos permite descobrir a íntima conexão que existe entre a fé e a liturgia: “No símbolo da fé, a Igreja confessa o mistério da Santíssima Trindade e o seu desígnio benevolente (Ef 1,9) para toda a criação: o Pai realiza o "mistério da sua vontade" dando o seu Filho Amado e o Espírito Santo para a salvação do mundo e para a glória do seu nome” (CIC, 1066).
“Cristo, o Senhor, realizou esta obra da redenção humana e da perfeita glorificação, preparada pelas maravilhas que Deus fez no povo da antiga aliança, principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada paixão, da ressurreição dentre os mortos e da sua gloriosa ascensão” (CIC, 1067). É este o mistério de Cristo, que a Igreja “anuncia e celebra na sua liturgia a fim de que os fiéis vivam dele e deem testemunho dele no mundo” (CIC, 1068).
Por meio da liturgia, “exerce-se a obra da nossa redenção” (Concílio Vaticano II, Sacrosanctum Concilium, 2). Assim como foi enviado pelo Pai, Cristo enviou os apóstolos para anunciarem a redenção e “realizarem a obra de salvação que proclamavam, mediante o sacrifício e os sacramentos, em torno dos quais toda a vida litúrgica gira” (ibidem, 6).
Vemos assim que o catecismo sintetiza a obra de Cristo no mistério pascal, que é o seu núcleo essencial. E o nexo com a liturgia se mostra óbvio, pois “por meio da liturgia é que Cristo, nosso Redentor e Sumo Sacerdote, continua na sua Igreja, com ela e por ela, a obra da nossa redenção” (CIC, 1069). Assim, esta “obra de Jesus Cristo”, perfeita glorificação de Deus e santificação dos homens, é o verdadeiro conteúdo da liturgia.
Este é um ponto importante porque, embora a expressão e o conteúdo teológico-litúrgico do mistério pascal devam inspirar o estudo teológico e a celebração litúrgica, isto nem sempre foi assim. “A maior parte dos problemas ligados às aplicações concretas da reforma litúrgica têm a ver com o fato de que não foi suficientemente considerado que o ponto de partida do concílio é a páscoa [...]. E páscoa significa inseparabilidade da cruz e da ressurreição [...]. A cruz está no centro da liturgia cristã, com toda a sua seriedade: um otimismo banal, que nega o sofrimento e a injustiça do mundo e reduz o ser cristãos a ser educados, não tem nada a ver com a liturgia da cruz. A redenção custou a Deus o sofrimento do seu Filho e a sua morte. Daí que o seu exercitium, que, segundo o texto conciliar, é a liturgia, não pode acontecer sem a purificação e sem o amadurecimento que provêm do seguimento da cruz” (Bento XVI, Teologia della Liturgia, LEV, Vaticano, 2010, p. 775-776).
Esta linguagem conflita com aquela mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade de uma intervenção divina real neste mundo em socorro do homem. Por isso, “quem compartilha uma visão deísta considera como integrista a confissão de uma intervenção redentora de Deus para mudar a situação de alienação e de pecado, e este mesmo juízo é emitido a propósito de um sinal sacramental que torne presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, aos seus olhos, seria a celebração de um sinal que correspondesse a um vago sentimento de comunidade. Mas o culto não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples auto-afirmação. A verdadeira liturgia pressupõe que Deus responde e nos mostra como podemos adorá-lo. “A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na eucaristia precisamente porque o próprio Cristo se entregou antes a ela no sacrifício da cruz” (Sacramentum Caritatis, 14). A Igreja vive desta presença e tem a difusão desta presença no mundo inteiro como a sua razão de ser e de existir” (Bento XVI, Discurso de 15 de abril de 2010).
Esta é a maravilha da liturgia, que, como o catecismo recorda, é culto divino, anúncio do evangelho e caridade em ato (cf. CIC, 1070). É Deus mesmo quem age, e nós nos sentimos atraídos por esta sua ação, a fim de sermos, deste modo, transformados nele.


Fonte: Santa Sé

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Liturgia: insistentes ponderações

Dom Henrique Soares Costa, Bispo Auxiliar de Aracaju, publicou recentemente em seu blog Visão Cristã um excelente artigo sobre a Sagrada Liturgia, o qual reproduzimos aqui:

Sobre a Liturgia: insistentes ponderações

A liturgia é para nosso alimento, alento e transformação espiritual: ela nos cristifica, isto é, é obra do próprio Cristo que, na potência do Espírito, nos dá sua própria vida, aquela que ele possui em plenitude na sua humanidade glorificada no céu. Participar da liturgia é participar das coisas do céu, é entrar em comunhão com a própria vida plena e glorificada do Cristo nosso Senhor.
A liturgia não é feita produzida por nós, não é obra nossa! Ela é instituição do próprio Senhor. Para se ter uma idéia, basta pensar em Moisés, que vai ao faraó e lhe diz: “Assim fala o Senhor: deixa o meu povo partir para fazer-me uma liturgia no deserto”. E, mais adiante, explica ao faraó que somente lá, no deserto, o Senhor dirá precisamente que tipo de culto e que coisas o povo lhe oferte.
Isto tem a ação litúrgica de específico e encantador: não entramos nela para fazer do nosso modo, mas do modo de Deus; não entramos nela para nos satisfazer, mas para satisfazer a vontade de Deus. Por isso digo tantas vezes que o espaço litúrgico não é primeiramente antropológico, mas teológico: a liturgia é espaço privilegiado para a manifestação e atuação salvífica de Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. Nela, a obra salvífica de Cristo é perenemente continuada na Igreja.
O problema é que entrou em certos ambientes da Igreja uma concepção errada de liturgia, totalmente alheia ao sentido da genuína tradição cristã: a liturgia como algo que nós fazemos, do nosso modo, a nosso gosto, para exprimir nossos próprios sentimentos. Numa concepção dessas, o homem, com seus sentimentos, gostos e iniciativas, é o centro e Deus fica de lado! Trata-se, então, de uma simples busca de nós mesmos, produzida por nós mesmos; uma ilusão, pois aí só encontramos nós e os sentimentos que provocamos. É o triste curto-circuito: faz-se tudo aquilo (coreografias, palmas, trejeitos, barulho, baterias infernais, sorrisinhos do celebrante, comentários e cânticos intimistas, invenções impertinentes e despropositadas...) para que as pessoas sintam, liguem-se, “participem”... Mas, tudo isto somente liga a assembleia a si mesma. Não passa de uma exaltação subjetiva e sentimental! Aí não se abre de fato para o Silêncio de Deus, para Aquele que vem nos surpreender com sua glória e sua ação silenciosa, profunda, consistente e transformadora. A assembleia já não celebra com a Igreja de todos os tempos e de todos os lugares; muito menos com a Igreja celeste!
O sentido da liturgia é um outro: é um culto prestado a Deus porque ele é Deus! O interesse é Deus! A liturgia é algo devido a Deus e instituído pelo próprio Deus. Quando alguém participa de uma liturgia celebrada como a Igreja determina e sempre celebrou, se reorienta, se reencontra, toma consciência de sua própria verdade: sou pequeno, dependente de Deus e profundamente amado por ele: nele está minha vida, meu destino, minha verdade, minha paz. Nada é mais libertador que isso.
Vê-se a diferença entre essas duas atitudes ante a realidade litúrgica: na visão que se está difundindo, criamos uma sensação, uma ilusão. É algo parecido com a sensação de bem-estar que se pode sentir diante de uma paisagem bonita, num bloco de carnaval, num show, num momento sublime, numa noite com a pessoa amada... Na perspectiva que a Igreja sempre teve e ensinou, não! Estamos diante da Verdade que é Deus; verdade que não produzimos nem inventamos, mas vem a nós e enche o nosso coração! Devemos procurá-la? Certamente sim: "Fizeste-nos para ti, Senhor, e nosso coração andará inquieto enquanto não descansar em ti!" Mas para isto é indispensável a capacidade de silêncio, de escuta, de abrir os olhos do coração para a beleza de Deus. A liturgia nos dá isto!