No dia 28 de junho de 1984 o Papa João Paulo II celebrou a Santa Missa da
Solenidade do Sagrado Coração de Jesus no Hospital Gemelli em Roma por ocasião dos 25 anos da morte do Padre Agostino Gemelli [1].
Confira a seguir sua homilia, na qual reflete sobre as leituras da Solenidade para o Ano A (Dt 7,6-11; Sl 102; 1Jo 4,7-16; Mt 11,25-30).
Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (Ano A)
XXV Aniversário da Morte do Padre Agostino Gemelli
Homilia do Papa João Paulo II
Hospital Universitário Agostino Gemelli
Quinta-feira, 28 de junho de 1984
1. “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”
(Mt 11,29).
É Cristo que fala.
Com os olhos da fé nós O contemplamos na concretude da sua humanidade, graças à
qual Ele é em tudo semelhante a nós, menos no pecado (cf. Hb 4,15). Semelhante
em tudo e, portanto, também no fato de ter um coração que bate em seu
peito, ativando nas suas veias o fluxo vital da circulação sanguínea. É
precisamente a este coração que Ele se refere quando fala a nós, aqui reunidos
em torno ao altar: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”.
Hoje, Solenidade
litúrgica do Sagrado Coração, nesta instituição universitária e hospitalar
dedicada ao Coração de Jesus, somos convidados a meditar sobre o mistério
desse Coração divino, no qual pulsa o amor infinito de Deus pelo homem, por
todo homem, por cada um de nós. Aquele amor que já Moisés testemunhava diante dos
seus compatriotas, recordando-lhes: “O Senhor se afeiçoou a vós e vos escolheu,
não por serdes mais numerosos que os outros povos - na verdade sois o menor de
todos - mas, sim, porque o Senhor vos amou” (Dt 7,7-8).
Aquele amor no qual o Apóstolo João viu a síntese de todo discurso sobre Deus, a
ponto de poder afirmar: “Quem não ama, não chegou a conhecer Deus, pois Deus
é amor” (1Jo 4,8).

Como não exclamar
com o salmista: “O Senhor é bondoso e compassivo” (Sl 102,8)? A
Liturgia de hoje põe em nossos lábios as expressões adequadas para manifestar nosso
reconhecimento diante de uma generosidade tão imprevisível e estupenda: “Bendize,
ó minha alma, ao Senhor, e todo o meu ser, seu santo nome! (...) Pois Ele te perdoa toda culpa, e cura toda a
tua enfermidade; da sepultura Ele salva a tua vida e te cerca de carinho e
compaixão” (vv. 1.3-4).
2. Meditemos sobre as “maravilhas” do amor de Deus
contemplando o mistério do Coração de Cristo. É conhecida a riqueza de ressonâncias
antropológicas que, na linguagem bíblica, desperta a palavra “coração”. Através
dela são evocados não só os sentimentos próprios da esfera afetiva, mas também
todas aquelas recordações, pensamentos, raciocínios, projetos, que constituem o
mundo mais íntimo do homem. O coração na cultura bíblica - e também em grande
parte das outras culturas - é aquele centro essencial da personalidade no qual o
homem está diante de Deus como totalidade de corpo e espírito, como “eu” que pensa,
quer e ama, como centro no qual a memória do passado se abre ao planejamento do
futuro.