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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Ladainha para o Advento

“Eis que venho logo, diz o Senhor...” (Ap 22,12).

Em postagens anteriores apresentamos aqui em nosso blog as oito Ladainhas aprovadas pela Igreja e que, portanto, podem ser entoadas nas celebrações litúrgicas: do Santíssimo Nome de Jesus; do Sagrado Coração; do Preciosíssimo Sangue; de Nossa Senhora; de São José; de Todos os Santos; de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima; e do Santíssimo Sacramento [1].

Neste ano de 2024, por sua vez, destacamos outras duas Ladainhas presentes em um célebre livro de orações do século XVII, editado entre 1612 e 1618, o Fasciculus Sacrarum Orationum et Litaniarum ad usum quotidianum Christiani hominis, ex sanctis Scripturis et Patribus collectus: a Ladainha para a Quaresma (Litaniae in Quadragesima) e a Ladainha da Santa Cruz (Litaniae de Sancta Cruce).

Estas duas últimas não foram aprovadas oficialmente pela Igreja, podendo ser rezadas de maneira privada, como devoção pessoal, ou de forma comunitária em momentos de oração fora da Liturgia (novenas, horas-santas...).

Dando continuidade à proposta, destacamos aqui a Ladainha a Cristo no Advento (Litaniae ad Christum in Adventu), cujas invocações, como indica seu subtítulo, são tomadas da Sagrada Escritura (ex Scriptura Sacra).

Para saber mais sobre esse Tempo, confira nossa postagem sobre a história do Advento.

Ícone da “árvore de Jessé”
(A Virgem Maria e o Menino Jesus ladeados pelos profetas)

Após as tradicionais invocações iniciais a Cristo e à Trindade, com efeito, a Ladainha para o Advento traz 42 invocações a Cristo tomadas tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, com a resposta miserere nobis (tende piedade de nós).

Algumas dessas invocações ou “títulos messiânicos” são retomadas nas célebres “Antífonas do Ó” (entoadas de 17 a 23 de dezembro) e no hino Akathistos em honra da Mãe de Deus, recordando sua participação no mistério da Encarnação.

Seguem-se 16 súplicas a Cristo para que nos livre do mal, invocando sobretudo os méritos da sua Encarnação, com a resposta libera nos, Domine (livrai-nos, Senhor); e outras 12 súplicas para que nos ajude a vencer o pecado e praticar a virtude, com a resposta te rogamus, audi nos (ouvi-nos, Senhor).

Concluem a Ladainha, como de costume, algumas invocações a Cristo como Cordeiro de Deus, a oração do Senhor (Pai nosso) e alguns responsórios, além de cinco orações.

Reproduzimos a seguir o texto original da Ladainha (em latim), conforme presente no Fasciculus Sacrarum Orationum et Litaniarum, seguido de uma tradução livre nossa.

Uma vez que atualmente se recomenda priorizar uma oração (cf. Instrução Geral do Missal Romano, n. 54), propomos apenas a primeira das cinco indicadas: a antiga coleta (oração do dia) do I Domingo do Advento (Excita, quaesumus, Domine), atualmente rezada na sexta-feira da I semana.

Não obstante, é possível tomar outra oração adequada dentre aquelas propostas pelo Missal Romano para o Tempo do Advento.

Litaniae ad Christum in Adventu
(ex Scriptura Sacra)

Kyrie eleison. Kyrie eleison.
Christe eleison. Christe eleison.
Kyrie eleison. Kyrie eleison.

Christe, audi nos.
Christe, exaudi nos.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Ladainha da Santa Cruz

“A Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a nossa glória” (Gl 6,14).

No dia 03 de maio se celebram em alguns lugares festas em honra da Cruz, “eco” da antiga Festa da Invenção da Santa Cruz, que recordava a descoberta (em latim, inventio) das supostas relíquias da Cruz no início do século IV, atribuída à Imperatriz Santa Helena (†330).

Para saber mais, confira nossa postagem sobre a história da Festa da Exaltação da Santa Cruz.

Para recordar essa celebração, que neste ano de 2024 cai na sexta-feira, dia dedicado à memória da Paixão do Senhor, nesta postagem gostaríamos de resgatar a Ladainha da Santa Cruz (Litaniae de Sancta Cruce).

Glória da Cruz, “única esperança” (spes unica)

As ladainhas (em latim litania, do grego λιτή [lité], súplica), com efeito, série de invocações ou preces intercaladas por uma resposta, são formas de oração muito populares.

Além das oito Ladainhas aprovadas oficialmente pela Igreja, as únicas que podem ser entoadas nas celebrações litúrgicas - do Santíssimo Nome de Jesus; do Sagrado Coração de Jesus; do Preciosíssimo Sangue de Jesus; de Nossa Senhora; de São José; de Todos os Santos; de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima; e do Santíssimo Sacramento [1] -, sobretudo a partir do final da Idade Média surgiram várias outras Ladainhas a serem rezadas de maneira privada, como devoção pessoal, ou mesmo de forma comunitária, em momentos de oração fora da Liturgia (novenas, horas-santas, etc.).

É o caso da Ladainha da Santa Cruz, publicada em um célebre livro de orações editado em 1612, o Fasciculus Sacrarum Orationum et Litaniarum ad usum quotidianum Christiani hominis, ex sanctis Scripturis et Patribus collectus (Conjunto de Orações Sagradas e Ladainhas para uso quotidiano dos cristãos, extraídas das Sagradas Escrituras e dos Santos Padres). Do mesmo livro é a Ladainha para a Quaresma (Litaniae in Quadragesima), sobre a qual já falamos aqui em nosso blog.

Após as tradicionais invocações iniciais a Cristo (Kyrie eleison, Christe eleison...) e à Trindade, seguem-se 45 invocações à Santa Cruz, reunidas em nove grupos de cinco, cada um com uma resposta (defende-nos, protege-nos, salva-nos...). Essas invocações são em geral tomadas dos escritos dos Santos Padres (ex Sanctis Patribus), teólogos dos primeiros séculos do Cristianismo.

Seguem-se outras doze súplicas à Cruz para que nos livre do mal, com a resposta “libera nos Sancta Crux” (livra-nos, ó Santa Cruz), seguidas das tradicionais invocações a Cristo como Cordeiro de Deus. Concluem a Ladainha a oração do Senhor (Pai-nosso), alguns responsórios e cinco orações.

Confira a seguir o texto original da Ladainha (em latim), conforme presente no Fasciculus Sacrarum Orationum et Litaniarum, e uma tradução feita pela equipe do site do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, a partir da versão divulgada no site Preces Latinae, com pequenas correções feitas pelo autor desse blog.

Essa tradução, com efeito, omite algumas invocações, que acrescentamos a seguir. Além disso, se utiliza a 2ª pessoa do plural (vós) para referir-se à Cruz, que substituímos pela 2ª pessoa do singular (tu), que é a utilizada no original e em textos litúrgicos.

No futuro publicaremos uma postagem comentando as 45 invocações da Ladainha, aprofundando assim a “teologia” dessa que, de certa forma, foi a primeira devoção difundida no Brasil, “Terra de Santa Cruz”.

Essa Ladainha pode ser entoada de maneira privada, como devoção pessoal, ou em momentos de oração comunitária fora da Liturgia, na Festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro), durante a Quaresma e a Semana Santa e em outras celebrações em honra do mistério da Paixão do Senhor.

Relíquia da Cruz
(Basílica do Santo Sepulcro, Jerusalém)

 Litaniae de Sancta Cruce

Kyrie eleison. Kyrie eleison.
Christe eleison. Christe eleison.
Kyrie eleison. Kyrie eleison.

Christe, audi nos.
Christe, exaudi nos.

Pater de caelis, Deus, miserere nobis.
Fili, Redemptor mundi, Deus,
Spiritus Sancte, Deus,
Sancta Trinitas, unus Deus,

Crux, specula Patriarcharum et Prophetarum, defende nos.
Praeconium Apostolorum,
Corona Martyrum,
Gaudium Sacerdotum,
Gloriatio Virginum,

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Ladainha para a Quaresma

Ouvi-nos, Senhor, tende piedade, porque pecamos contra vós” (Br 3,2).

A ladainha (em latim litania, do grego λιτή [lité], súplica) é uma oração composta por uma série de invocações ou preces intercaladas por uma resposta. Inspirada em alguns textos da Sagrada Escritura (como o Salmo 135/136 e os cânticos do Livro de Daniel), foi amplamente acolhida pela tradição cristã.

Já apresentamos aqui em nosso blog as oito Ladainhas aprovadas oficialmente pela Igreja e que, portanto, podem ser entoadas nas celebrações litúrgicas: do Santíssimo Nome de Jesus; do Sagrado Coração de Jesus; do Preciosíssimo Sangue de Jesus; de Nossa Senhora; de São José; de Todos os Santos; de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima; e do Santíssimo Sacramento [1].

Não obstante, sobretudo a partir do final da Idade Média, foram compostas várias outras Ladainhas a serem rezadas de maneira privada, como devoção pessoal, ou mesmo de forma comunitária, em momentos de oração não-litúrgicos (novenas, horas-santas, etc.).

É o caso da Ladainha para a Quaresma (Litaniae in Quadragesima), publicada em um célebre livro de orações editado em 1612, o Fasciculus Sacrarum Orationum et Litaniarum ad usum quotidianum Christiani hominis, ex sanctis Scripturis et Patribus collectus (Conjunto de Orações Sagradas e Ladainhas para uso quotidiano dos cristãos, extraídas das Sagradas Escrituras e dos Santos Padres).

Cristo com santos penitentes do Antigo e do Novo Testamento
(Gerard Seghers)

As invocações da Ladainha para a Quaresma, com efeito, são tomadas sobretudo da Sagrada Escritura, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Tais invocações são similares às “preces” indicadas no Ritual da Penitência, pelas quais a Igreja, reunida no Espírito Santo, suplica a misericórdia do Pai e do Filho [2].

Após as tradicionais invocações iniciais a Cristo (Kyrie eleison, Christe eleison...) e à Trindade, com efeito, a Ladainha para a Quaresma está dividida em quatro partes:
- 16 súplicas a Deus com testemunhos do Antigo Testamento, com a resposta miserere nobis (tende piedade de nós);
- 24 súplicas a Cristo com referências ao Novo Testamento, também com a resposta miserere nobis;
- 18 súplicas a Cristo para que nos livre do mal, com a resposta libera nos, Domine (livrai-nos, Senhor);
- 13 súplicas a Cristo para que nos ajude a fazer penitência pelos nossos pecados, com a resposta te rogamus, audi nos (ouvi-nos, Senhor).

Concluem a Ladainha as tradicionais invocações a Cristo como Cordeiro de Deus, seguidas da oração do Senhor (Pai-nosso), alguns responsórios e orações.

Confira a seguir o texto original da Ladainha (em latim), conforme presente no Fasciculus Sacrarum Orationum et Litaniarum, e uma tradução feita pela equipe do site do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, a partir da versão divulgada no site Preces Latinae.

Esta versão possui pequenas diferenças em relação ao texto do século XVII, omitindo algumas invocações, que acrescentamos a seguir a partir do original, buscando oferecer a versão mais completa do texto, o qual pode ser de grande ajuda para nossa oração nesse tempo quaresmal.

Litaniae in Quadragesima

Kyrie eleison. Kyrie eleison.
Christe eleison. Christe eleison.
Kyrie eleison. Kyrie eleison.

Pater sancte, audi nos.
Pater iuste, exaudi nos.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

A Ladainha do Santíssimo Sacramento

“Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente” (Jo 6, 51).

Dentre as formas de oração mais populares entre os fiéis encontram-se as ladainhas (do latim litania, que por sua vez provém do grego λιτή [lité], súplica), formulários com uma série de invocações intercaladas por uma resposta.

Em 1601, porém, através do Decreto Quoniam multi, o Papa Clemente VIII (†1605) determinou que só poderiam ser entoadas nas celebrações litúrgicas as Ladainhas devidamente aprovadas pela Santa Sé, de modo a evitar composições com erros teológicos.

A versão mais recente do Enchiridion Indulgentiarum (Manual das Indulgências), publicada em 1999, elenca seis Ladainhas aprovadas oficialmente pela Igreja:

Em 30 de maio de 2013, por sua vez, através do Decreto Unigenitum Filium suum, no início do pontificado do Papa Francisco, a Congregação para o Culto Divino aprovou outras duas Ladainhas cristológicas:
- Ladainha do Santíssimo Sacramento [2].

"Salvador Eucarístico" (Juan de Juanes)

Uma vez que já dedicamos uma postagem aqui em nosso blog à primeira, a seguir apresentaremos a Ladainha do Santíssimo Sacramento (Litaniae de Sanctissimo Sacramento).

A aprovação dessas duas Ladainhas é fruto do Ano Sacerdotal, convocado pelo Papa Bento XVI em 2009 por ocasião dos 150 anos da morte de São João Maria Vianney, durante o qual o Papa quis recordar a centralidade da Eucaristia na vida e no ministério dos sacerdotes e todos os fiéis. Como bem salientou o Concílio Vaticano II, a Eucaristia é “fonte e ápice de toda a vida cristã” (cf. Lumen Gentium, n. 11).

Uma rápida pesquisa na internet nos mostrará diversos modelos de “Ladainha do Santíssimo Sacramento”. Diferentes versões da Ladainha, com efeito, com maiores ou menores modificações, foram publicadas em diversos manuais de orações a partir do século XVII.

Alguns desses manuais inclusive indicavam uma ladainha para cada dia de semana, sendo a Ladainha do Santíssimo Sacramento a devoção das quintas-feiras, dia tradicionalmente associado à Eucaristia.

Monsenhor Maurizio Barba, em artigo publicado na Revista Notitiae [3], indica que a origem da Ladainha do Santíssimo Sacramento é incerta. Uma de suas versões mais antigas encontra-se na obra Sacrae Litaniae variae, cum brevi piaque quotidiana exercitatione (“Várias Ladainhas sacras, com breves exercícios piedosos quotidianos”), publicada em 1615.

Esta versão, com algumas pequenas modificações, seria musicada por Wolfgang Amadeus Mozart (†1791) em duas ocasiões: Litaniae de venerabili altaris Sacramento em Si bemol maior (K 125, 1772) e em Mi bemol maior (K 243, 1776).



O formulário aprovado pela Congregação para o Culto Divino retoma basicamente este modelo, omitindo algumas invocações que poderiam ser mal interpretadas. Diferentemente da Ladainha de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima, porém, cujas invocações são tomadas quase que exclusivamente da Carta aos Hebreus, a Ladainha do Santíssimo Sacramento tem como fontes:

- os livros da Sagrada Escritura, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento;

- os escritos dos Padres da Igreja, como Inácio de Antioquia (início do séc. II) ou Agostinho (†430), e dos teólogos medievais, como Bernardo de Claraval (†1153) ou Tomás de Aquino (†1274);

- e os pronunciamentos do Magistério da Igreja, como a Bula Transiturus de hoc mundo, do Papa Urbano IV (†1264), com a qual é instituída a Festa de Corpus Christi, ou as definições do Concílio de Trento sobre a Eucaristia.

Adoração eucarística no encerramento do Ano Sacerdotal

A Ladainha está dividida em seis partes:
I. As tradicionais invocações iniciais (Kyrie eleison, Christe eleison...), seguidas de dois formulários à escolha: um dirigido a Cristo (A) e outro à Trindade (B);
II. 39 invocações eucarísticas;
III. Cinco invocações apotropaicas, isto é, pedindo ao Senhor que nos livre do mal e do pecado (algumas inspiradas em 1Jo 2,16);
IV. Cinco súplicas a Cristo, invocando os seus méritos;
V. Cinco súplicas a Cristo, pedindo que aumente em nós a piedade eucarística.
VI. Duas invocações a Cristo (Cristo, ouvi-nos, Cristo, atendei-nos) ou o tríplice Agnus Dei (Cordeiro de Deus...), à escolha.

As respostas que se repetem após cada invocação ou súplica são as tradicionais para as Ladainhas cristológicas: miserére nobis (tende piedade de nós), líbera nos, Dómine (livrai-nos, Senhor), te rogámus, audi nos (ouvi-nos, Senhor).

A Ladainha se conclui, por fim, com a célebre oração do dia da Solenidade de Corpus Christi, a mesma tradicionalmente recitada na bênção do Santíssimo Sacramento: “Senhor Jesus Cristo, neste admirável sacramento...”.

Diferentemente da Ladainha de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima, cuja tradução foi publicada no site da Congregação para o Clero, não encontramos uma tradução oficial da Ladainha do Santíssimo Sacramento (tradução que, em última instância, compete à CNBB).

Assim, publicamos a seguir o texto oficial da Ladainha em sua “forma típica” (em latim), conforme divulgada na Revista Notitiae, órgão oficial da Congregação para o Culto Divino, seguida de uma tradução livre nossa.

Essa tradução, portanto, deve ser tomada com cautela, uma vez que algumas expressões comportam mais de uma tradução (por exemplo: “cibus” pode ser traduzido tanto como “comida” quanto como “alimento”; “convivium” como “refeição” ou “banquete”).

Esta Ladainha pode ser entoada tanto em momentos de oração particular ou comunitária quanto nas celebrações litúrgicas, particularmente durante a adoração eucarística, diante do Santíssimo Sacramento.

Adoração ao Santíssimo Sacramento
(Cristóbal de Villalpando)

Litaniae de Sanctissimo Sacramento

I
Kýrie, eléison. Kýrie, eléison.
Christe, eléison. Christe, eléison.
Kýrie, eléison. Kýrie, eléison.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

A Ladainha de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima

“Temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois Ele mesmo foi provado em tudo como nós” (Hb 4,15).

Já publicamos aqui em nosso blog as seis Ladainhas aprovadas oficialmente pela Igreja - e, portanto, as únicas que podem ser recitadas nas celebrações litúrgicas -, elencadas no Enchiridion Indulgentiarum, promulgado pela Santa Sé em 1999:

Além dessas seis, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, através do Decreto Unigenitum Filium suum, de 30 de maio de 2013, aprovou outras duas Ladainhas cristológicas:
- Ladainha de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima;

Nesta postagem apresentaremos a primeira das duas, a Ladainha de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima (Litaniae de Domino Nostro Iesu Christo Sacerdote et Victima).

Cristo Crucificado com as vestes de sacerdote do Rito Romano
(Igreja da Anunciação, Ottawa)

Jesus Cristo, com efeito, como explana magistralmente a Carta aos Hebreus, é o Sacerdote do sacrifício da nova aliança, a oblação livre e amorosa da própria vida na Cruz, “Corpo entregue” e “Sangue derramado” para a nossa salvação, e, portanto, é também a Vítima, o “Cordeiro de Deus que tira o pecado mundo” (Jo 1,29). Como sintetiza o Prefácio da Páscoa V, Ele é “ao mesmo tempo, sacerdote, altar e cordeiro” (Missal Romano, p. 425).

Como vimos em nossa postagem anterior, entre 2009 e 2010 a Igreja celebrou o Ano Sacerdotal, convocado pelo Papa Bento XVI por ocasião dos 150 anos da morte de São João Maria Vianney.

Como fruto do Ano Sacerdotal, em 2012 a Congregação para o Culto Divino publicou uma carta indicando que as Conferências Episcopais que solicitarem podem inserir em seus Calendários Particulares a Festa de Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, a ser celebrada na quinta-feira após o Domingo de Pentecostes, uma semana antes da Solenidade de Corpus Christi.

A aprovação da Ladainha de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima é outro dos frutos do Ano Sacerdotal. Essa Ladainha, com efeito, como indica o artigo do Monsenhor Maurizio Barba publicado na Revista Notitiae [3], remonta aos séculos XVII-XVIII, tendo sido composta na França e recitada fora da Liturgia, em momentos de devoção privada ou comunitária.

São João Paulo II (†2005) indicou em seu livro Dom e mistério, publicado em 1996 por ocasião dos seus 50 anos de sacerdócio, que essa Ladainha era entoada no Seminário de Cracóvia na véspera das ordenações sacerdotais [4]. O Papa polonês mencionaria novamente a Ladainha no ano seguinte, em sua Carta aos sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa de 1997 [5].

A Ladainha está dividida em cinco partes:
I. As tradicionais invocações iniciais (Kyrie eleison, Christe eleison...), seguidas de dois formulários à escolha: um dirigido a Cristo (A) e o outro à Trindade (B);
II. 28 invocações a Cristo como Sacerdote (Sacerdos, Póntifex) e Vítima (Hóstia), tomadas da Sagrada Escritura, sobretudo da Carta aos Hebreus;
III. Oito pedidos de perdão pelo mau exercício do ministério, recitados apenas pelos sacerdotes;
IV. Outros sete pedidos de perdão, desta vez recitados por todos os fiéis;
V. Dez súplicas a Cristo, pedindo pelos sacerdotes e pelas vocações.
A Ladainha conclui com o tríplice Agnus Dei (Cordeiro de Deus...) e com uma oração.

As respostas que se repetem após cada invocação ou súplica, por sua vez, são as tradicionais para as Ladainhas cristológicas: miserére nobis (tende piedade de nós), líbera nos, Dómine (livrai-nos, Senhor), te rogámus, audi nos (ouvi-nos, Senhor).

Imagem do Sagrado Coração de Jesus com as vestes sacerdotais
(Igreja de São Vicente Ferrer, Nova York)

A seguir, pois, publicamos o texto da Ladainha de Jesus Cristo, Sacerdote e Vítima em sua “forma típica” (em latim), conforme divulgada na Revista Notitiae, órgão oficial da Congregação para o Culto Divino, e em uma tradução para o português disponível no site da Congregação para o Clero [6].

Uma vez aprovada oficialmente pela Igreja, esta Ladainha pode ser entoada tanto em momentos de oração particular ou comunitária quanto nas celebrações litúrgicas: por exemplo, durante uma adoração eucarística, diante do Santíssimo Sacramento exposto.

Litaniae de Domino Nostro Iesu Christo Sacerdote et Victima

I
Kýrie, eléison. Kýrie, eléison.
Christe, eléison. Christe, eléison.
Kýrie, eléison. Kýrie, eléison.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus

“Perante o nome de Jesus se dobre reverente todo joelho, seja nos céus, seja na terra ou nos abismos” (Fl 2,10).

Recordando a Memória do Santíssimo Nome de Jesus, celebrada no dia 03 de janeiro, já dedicamos duas postagens aqui em nosso blog à Festa da Circuncisão do Senhor (01 de janeiro) e à devoção ao Nome de Jesus.

Como vimos em nossa última postagem, dentre as práticas devocionais ligadas ao Santíssimo Nome encontra-se a Ladainha, uma das oito atualmente aprovadas pela Igreja [1].

IHS, primeiras três letras do nome de Jesus em grego
(Teto da Catedral Basílica de Salvador, Bahia) 

A Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus remonta à pregação de São Bernardino de Sena (†1444) e São João de Capistrano (†1456), grandes apóstolos da devoção ao Santíssimo Nome. Posteriormente teria sido aprovada em 1585 pelo Papa Sisto V (†1590), porém apenas para uso privado, sendo permitida para uso público em alguns lugares por Pio IX (†1878) em 1862 e finalmente aprovada para toda a Igreja por Leão XIII (†1903) em 1886 [2].

No Ofício Divino das Comunidades, versão “simplificada” da Liturgia das Horas realizada em 1988 para o Brasil, uma versão ligeiramente mais breve da Ladainha aparece indicada para o ofício da tarde do Tempo do Natal, substituindo as Preces [3].

A Ladainha do Santíssimo Nome pode ser dividida em duas partes:

- na 1ª parte Jesus é invocado com 38 títulos tomados da Sagrada Escritura ou inspirados em outras ladainhas (como as invocações finais, ligadas a vários grupos de santos);

- na 2ª parte suplicamos a Jesus que nos livre do mal e do pecado, invocando os méritos da sua Encarnação, Morte e Ressurreição.

Confira a seguir o texto da ladainha, no original em latim e na sua tradução para o português:

Litaniae Sanctissimi Nominis Iesu

Kyrie, eleison. Kyrie, eleison.
Christe, eleison. Christe, eleison.
Kyrie, eleison. Kyrie, eleison.

Iesu, audi nos. Iesu, audi nos.
Iesu, exaudi nos. Iesu, exaudi nos.

Pater de caelis, Deus, miserere nobis.
Fili, Redemptor mundi, Deus, miserere nobis.
Spiritus Sancte, Deus, miserere nobis.
Sancta Trinitas, unus Deus, miserere nobis.

Iesu, Fili Dei vivi, miserere nobis.
Iesu, splendor Patris, miserere nobis.
Iesu, candor lucis aeternae, miserere nobis.
Iesu, rex gloriae, miserere nobis.
Iesu, sol iustitiae, miserere nobis.
Iesu, Fili Mariae Virginis, miserere nobis.
Iesu, amabilis, miserere nobis.
Iesu, admirabilis, miserere nobis.
Iesu, Deus fortis, miserere nobis.
Iesu, pater futuri saeculi, miserere nobis.
Iesu, magni consilii angele, miserere nobis.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Ladainha de Todos os Santos

“Que vossas obras, ó Senhor, vos glorifiquem, e os vossos Santos com louvores vos bendigam!” (Sl 144,10).

Dentre as ladainhas (do latim litania, que por sua vez provém do grego λιτή, súplica), orações compostas por uma série de invocações, a mais antiga e a que encontra maior expressão na Liturgia é sem dúvida a Ladainha de Todos os Santos [1].

Glória com Todos os Santos - Giovanni Battista Ricci

Embora o culto aos santos - particularmente aos mártires - tenha se desenvolvido já desde o século II, os formulários organizados com a invocação de diversos santos remontam aos séculos VII e VIII.

Historicamente o canto da Ladainha de Todos os Santos acompanha as procissões penitenciais da Quaresma, as chamadas “estações quaresmais romanas”; e as procissões das Rogações, no dia 25 de abril e nos três dias que antecedem a Solenidade da Ascensão do Senhor.

Invocando os santos, companheiros de caminhada, a Igreja peregrina sobre a terra se une à Jerusalém celeste (cf. Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia, n. 235; Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 8) [2]. Cabe recordar, porém, que os santos não são “o caminho”: o caminho é Cristo (Jo 14,6); eles testemunham que é possível percorrê-lo!

Seu texto simples e ágil fez com que a Ladainha logo ganhasse grande popularidade. Com efeito, em uma época na qual a maioria das pessoas não sabia ler, a repetição de uma resposta simples (ora por nobis) favorecia sua participação.

Atualmente a Ladainha de Todos os Santos é prevista em diversas celebrações, com pequenas variações no seu texto:
- na Vigília Pascal, quando há Batismos ou bênção da água batismal;
- no Batismo de crianças e adultos;
- nas ordenações de diáconos, presbíteros e Bispos;
- na bênção de abade e abadessa;
- na consagração das virgens;
- na profissão perpétua de religiosos e religiosas;
- na dedicação de igreja e de altar;
- nas preces públicas a fazer quando uma igreja foi violada;
- no exorcismo maior;
- na encomendação dos agonizantes;
- nas Exéquias.

Cristo em majestade circundado pelos Santos
(Grandes Heures d'Anne de Bretagne)

A Ladainha é indicada ainda em algumas circunstâncias particularmente solenes da vida da Igreja (às vezes na forma das chamadas “Laudes Regiae”, “louvores reais”):
- nas canonizações de novos santos;
- no início dos Concílios e Sínodos;
- no Conclave para a eleição do novo Papa;
- na Missa de início do ministério petrino do Bispo de Roma.

Em postagens futuras pretendemos aprofundar a história da Ladainha de Todos os Santos e todas as suas “versões”, destacando os diversos santos invocados e as distintas súplicas a Cristo.

Nesta postagem, porém, à guisa de introdução, queremos propor o texto da forma “básica” da Ladainha de Todos os Santos, que é aquela entoada na Vigília Pascal, no Batismo e nas Exéquias - isto é, no “Alfa” e no “Ômega” da vida.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Ladainha de Nossa Senhora (2): Ladainha do Ritual da coroação

“Uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1).

Como vimos em nossa postagem anterior, dentre as principais formas de devoção à Virgem Maria encontra-se a Ladainha de Nossa Senhora, uma das oito Ladainhas aprovadas oficialmente pela Igreja [1].

Na verdade, como indica o Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia (n. 203), existem dois formulários aprovados da Ladainha de Nossa Senhora:
- a “Ladainha Lauretana”, a mais conhecida, à qual dedicamos nossa última postagem;
- e a Ladainha do Ritual de coroação de imagem da Bem-aventurada Virgem Maria [2].

Antonio de Pereda - Imaculada Conceição

Esse segundo formulário, bem menos conhecido, foi publicado no Ritual de coroação de imagem da Bem-aventurada Virgem Maria, promulgado pela Congregação para o Culto Divino em 1981. Sua tradução oficial para o português do Brasil foi aprovada em 1989 e se encontra tanto no Pontifical Romano quanto no Ritual de Bênçãos [3].

Ao contrário da Ladainha Lauretana, que possui atualmente 54 invocações divididas em “seis grupos”, a Ladainha do Ritual da coroação possui 46 invocações, agrupadas de três em três (salvo as últimas invocações, dirigidas a Maria como “Rainha”, tomadas sobretudo da Ladainha Lauretana).

Apesar de presente no Ritual da coroação, essa Ladainha pode ser entoada em outros momentos, como no final da oração do rosário (ou terço) ou em outros atos de devoção a Maria.

Segue, pois, seu texto em português e em latim, conforme publicados nos livros litúrgicos. Em postagens futuras aprofundaremos a história da Ladainha e a fundamentação bíblica e teológica das suas invocações.

Francisco Rizi - Imaculada Conceição com algumas invocações da Ladainha

Ritual de coroação de imagem da Bem-aventurada Virgem Maria: Ladainha

Senhor, tende piedade de nós. Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós. Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós. Senhor, tende piedade de nós.

Santa Maria, rogai por nós.
Santa Mãe de Deus, rogai por nós.
Santa Virgem das virgens, rogai por nós.

Filha escolhida de Deus, rogai por nós.
Mãe de Cristo Rei, rogai por nós.
Glória do Espírito Santo, rogai por nós.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Ladainha de Nossa Senhora (1): Ladainha Lauretana

“Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48).

Dentre as formas de devoção à Virgem Maria, uma das mais queridas pelos fiéis sem dúvida é a Ladainha de Nossa Senhora, uma das oito Ladainhas aprovadas oficialmente pela Igreja [1].

Existem na verdade dois formulários aprovados da Ladainha de Nossa Senhora:

- a “Ladainha Lauretana”, a mais conhecida, assim chamada porque foi promovida pelo Santuário mariano de Loreto (Itália);

- a Ladainha do Ritual de coroação de imagem da Bem-aventurada Virgem Maria, promulgado pela Congregação para o Culto Divino em 1981.


A Ladainha Lauretana possui atualmente 54 invocações à Virgem Maria (além das invocações a Cristo e à Trindade no início e no final, presentes em todas as Ladainhas aprovadas).

Os Papas dos últimos dois séculos, com efeito, acrescentaram algumas invocações ao texto original, que remonta ao século XVI. As mais recentes foram acrescentadas pelo Papa Francisco em 20 de junho de 2020.

Embora tradicionalmente associada à oração do rosário (ou terço), a Ladainha “é um ato cultual independente: pode ser um canto processional, fazer parte de uma celebração da Palavra de Deus ou outras estruturas cultuais” (Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia, n. 203) [2].

A seguir publicamos o texto da Ladainha Lauretana em sua tradução para o português presente no site da Santa Sé e em seu texto original em latim.

Em nossa próxima postagem traremos a Ladainha do Ritual da coroação. Em postagens futuras aprofundaremos a história da Ladainha e a fundamentação bíblica e teológica das suas invocações.

As 54 invocações da Ladainha Lauretana dividem-se em seis grupos:
- 3 invocações iniciais (Santa Maria, Santa Mãe de Deus, Santa Virgem das virgens);
- 14 invocações a Maria como “Mãe”;
- 6 invocações a Maria como “Virgem”;
- 13 imagens simbólicas tomadas da Escritura e da tradição da Igreja;
- 5 invocações recordando a intercessão de Maria;
- 13 invocações a Maria como “Rainha”.

Virgem Maria com algumas das invocações da Ladainha

Ladainha de Nossa Senhora (Ladainha Lauretana)

Senhor, tende piedade de nós. Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós. Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós. Senhor, tende piedade de nós.

Cristo, ouvi-nos. Cristo, ouvi-nos.
Cristo, atendei-nos. Cristo, atendei-nos.

Deus Pai do céu, tende piedade de nós.
Deus Filho Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, rogai por nós.
Santa Mãe de Deus, rogai por nós.
Santa Virgem das virgens, rogai por nós.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Ladainha do Preciosíssimo Sangue de Jesus

“Sangue de Cristo, torrente de misericórdia, salvai-nos”.

Recordando a antiga Festa do Preciosíssimo Sangue de Jesus, que era celebrada no dia 01 de julho, já dedicamos duas postagens aqui em nosso blog sobre essa devoção: na primeira traçamos brevemente sua história, enquanto na segunda vimos alguns aspectos da sua teologia.

Como mencionamos em ambas as postagens, no dia 30 de junho de 1960 o Papa São João XXIII promulgou a Carta Apostólica “Inde a primis”, sobre o culto do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Através dessa Carta o Papa aprova oficialmente a Ladainha do Preciosíssimo Sangue de Jesus, cujo texto havia sido elaborado pela Sagrada Congregação dos Ritos em 24 de fevereiro do mesmo ano [1], a partir de textos publicados em livros devocionais do início do século XX.

Sangue de Cristo, fonte da vida, fonte de misericórdia
(Jean Bellegambe - Tríptico do Sangue de Cristo, painel central)

Sendo uma das oito Ladainhas aprovadas pela Igreja [2], essa pode ser entoada dentro das celebrações litúrgicas. Assim, reproduzimos a seguir seu texto, no original em latim e em sua tradução para o português, e um breve comentário, no qual propomos uma classificação das suas 24 invocações em cinco grupos.

Litaniae Pretiosissimi Sanguinis Domini Nostri Iesu Christi

Kyrie, eleison. Kyrie, eleison.
Christe, eleison. Christe, eleison.
Kyrie, eleison. Kyrie, eleison.

Christe, audi nos. Christe, audi nos.
Christe, exaudi nos. Christe, exaudi nos.

Pater de caelis, Deus, miserere nobis.
Fili, Redemptor mundi, Deus, miserere nobis.
Spiritus Sancte, Deus, miserere nobis.
Sancta Trinitas, unus Deus, miserere nobis.

Sanguis Christi, Unigeniti Patris aeterni, salva nos.
Sanguis Christi, Verbi Dei incarnati, salva nos.
Sanguis Christi, Novi et Aeterni Testamenti, salva nos.
Sanguis Christi, in agonia decurrens in terram, salva nos.
Sanguis Christi, in flagellatione profluens, salva nos.
Sanguis Christi, in coronatione spinarum emanans, salva nos.
Sanguis Christi, in Cruce effusus, salva nos.
Sanguis Christi, pretium nostrae salutis, salva nos.
Sanguis Christi, sine quo non fit remissio, salva nos.
Sanguis Christi, in Eucharistia potus et lavacrum animarum, salva nos.
Sanguis Christi, flumen misericordiae, salva nos.
Sanguis Christi, victor daemonum, salva nos.
Sanguis Christi, fortitudo martyrum, salva nos.
Sanguis Christi, virtus confessorum, salva nos.
Sanguis Christi, germinans virgines, salva nos.
Sanguis Christi, robur periclitantium, salva nos.
Sanguis Christi, levamen laborantium, salva nos.
Sanguis Christi, in fletu solatium, salva nos.
Sanguis Christi, spes paenitentium, salva nos.
Sanguis Christi, solamen morientium, salva nos.
Sanguis Christi, pax et dulcedo cordium, salva nos.
Sanguis Christi, pignus vitae aeternae, salva nos.
Sanguis Christi, animas liberans de lacu Purgatorii, salva nos.
Sanguis Christi, omni gloria et honore dignissimus, salva nos.

domingo, 20 de junho de 2021

Ladainha do Sagrado Coração de Jesus meditada por João Paulo II (17)

Concluímos aqui nossa série com as meditações do Papa sobre a Ladainha do Sagrado Coração, com suas duas últimas invocações, de alcance escatológico (32ª e 33ª):
Cor Iesu, spes in te morientium, miserere nobis.
Cor Iesu, deliciae Sanctorum omnium, miserere nobis.

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33. Coração de Jesus, esperança dos que morrem em vós
Ângelus do dia 05 de novembro de 1989

Caríssimos irmãos e irmãs:
1. A recente Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos nos convida hoje a contemplar, sob uma luz de fé e de esperança, a morte do cristão, para a qual a Ladainha do Sagrado Coração - objeto de nossas reflexões em anteriores encontros dominicais - põe em nossos lábios a invocação: Coração de Jesus, esperança dos que morrem em vós, tende piedade de nós.
A morte forma parte da condição humana; é o momento terminal da fase histórica da vida. Na concepção cristã, a morte é uma passagem: da luz criada à luz incriada, da vida temporal à vida eterna.
Ora, se o Coração de Cristo é a fonte da qual o cristão recebe luz e energia para viver como filho de Deus, a que outra fonte se dirigirá para tomar a força necessária para morrer de modo coerente com a sua fé? Como “vive em Cristo”, assim ele não pode senão “morrer em Cristo”.
A invocação da Ladainha resume a experiência cristã diante do evento da morte: o Coração de Cristo, o seu amor e a sua misericórdia, são esperança e segurança para quem morre n’Ele.

2. Mas convém para um momento e questionar-se: O que significa “morrer em Cristo”? Significa antes de tudo, caríssimos irmãos e irmãs, ler o evento angustiante e misterioso da morte à luz do ensinamento do Filho de Deus e vê-lo, portanto, como o momento da partida para a casa do Pai, onde Jesus, passando também Ele através da morte, foi preparar-nos um lugar (cf. Jo 14,2). Ou seja, significa crer que, apesar da destruição de nosso corpo, a morte é premissa de vida e de fruto abundante (cf. Jo 12,24).
“Morrer em Cristo”, além disso, significa confiar em Cristo e abandonar-se totalmente a Ele, colocando em suas mãos - de irmão, de amigo, de Bom Pastor - o próprio destino, assim como Ele, morrendo, entregou seu espírito nas mãos do Pai (cf. Lc 23,46). Significa fechar os olhos para a luz deste mundo na paz, na amizade, na comunhão com Jesus, porque nada, “nem a morte nem a vida... poderá separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,38-39). Naquela hora suprema, o cristão sabe que, mesmo que o coração lhe acuse algumas culpas, o Coração de Cristo é maior que o seu e pode cancelar toda a sua dívida, se ele está arrependido (cf. 1Jo 3,20).

3. “Morrer em Cristo” significa também, queridos irmãos e irmãs, fortificar-se para aquele momento decisivo com os “santos sinais” da “passagem pascal”: o sacramento da Penitência, que nos reconcilia com o Pai e com todas as criaturas; o santo Viático, Pão da vida e medicina de imortalidade; e a Unção dos Enfermos, que dá vigor ao corpo e ao espírito para o combate supremo.
“Morrer em Cristo” significa, enfim, “morrer como Cristo”: rezando e perdoando; tendo junto a si a Bem-aventurada Virgem. Como Mãe, ela esteve junto à cruz do seu Filho (cf. Jo 19,25); como Mãe, está ao lado de seus filhos moribundos, ela que, com o sacrifício do seu Coração, cooperou para gerá-los para a vida da graça (cf. Constituição Lumen gentium, n. 53); está ao lado deles, presença compassiva e materna, para que do sofrimento da morte eles nasçam para a vida da glória.

34. Coração de Jesus, delícia de todos os santos
Ângelus do dia 12 de novembro de 1989

Caríssimos irmãos e irmãs:
1. A Igreja se alegra pela glorificação dos seus filhos, (...) aquela “multidão imensa” (cf. Ap 7,9) que a Liturgia nos convidou a contemplar na recente Solenidade de Todos os Santos. Diante de um espetáculo tão exaltante brota espontaneamente nos lábios a invocação da Ladainha: Coração de Jesus, delícia de todos os santos, tende piedade de nós.
Da esperança ao cumprimento, do desejo à realização, da terra ao céu: este parece ser, caríssimos irmãos e irmãs, o ritmo segundo o qual sucedem as três últimas invocações da Ladainha do Sagrado Coração. Após as invocações “salvação dos que esperam em vós” e “esperança dos que morrem em vós”, a Ladainha conclui dirigindo-se ao Coração de Jesus como “delícia de todos os santos”. É já visão do paraíso: é anotação rápida sobre a vida do céu; é palavra breve que abre horizontes infinitos de bem-aventurança eterna.

2. Sobre esta terra o discípulo de Jesus vive na espera de alcançar o seu Mestre, no desejo de contemplar seu rosto, na aspiração ardente de viver sempre com Ele. No céu, ao contrário, cumprida a espera, o discípulo entra na alegria do seu Senhor (cf. Mt 25,21.23); contempla o rosto do seu Mestre, já não transfigurado durante apenas um instante (cf. Mt 17,2; Mc 9,2; Lc 9,28), mas resplandecente para sempre com o fulgor da eterna luz (cf. Hb 1,3); vive com Jesus e da mesma vida de Jesus.
A vida do céu não é outra coisa que a fruição perfeita, indefectível, intensa, do amor de Deus - Pai, Filho e Espírito Santo -; não é outra coisa que a revelação total do ser íntimo de Cristo, e a comunicação plena da vida e do amor que brotam do seu Coração. No céu, os bem-aventurados vêm realizado todo desejo, cumprida toda profecia, aplacada toda sede de felicidade, completada toda aspiração.

3. Por isso o Coração de Cristo é a fonte da vida de amor dos santos: em Cristo e por meio de Cristo os bem-aventurados do céu são amados pelo Pai, que os une a si com o vínculo do Espírito, divino Amor; em Cristo e por meio de Cristo, eles amam ao Pai e aos homens, seus irmãos, com o amor do Espírito.
O Coração de Cristo é o espaço vital dos bem-aventurados: o lugar onde eles permanecem no amor (cf. Jo 15,9), colhendo alegria perene e sem limite. A sede infinita de amor, misteriosa sede que Deus pôs no coração humano, é saciada no Coração divino de Cristo.
Ali se manifesta em plenitude o amor do Redentor pelos homens, necessitados de salvação; do Mestre pelos discípulos, sedentos de verdade; do Amigo que anula as distâncias e eleva os servos à condição de amigos (cf. Jo 15,15), para sempre, em tudo. O intenso desejo, que sobre a terra se manifestava na súplica “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20), agora, no céu, se transforma em visão face a face, em posse tranquila, em fusão de vida: de Cristo nos bem-aventurados e dos bem-aventurados em Cristo.
Elevando a eles o olhar da alma e contemplando-os em torno a Cristo, juntamente com sua Rainha, a Virgem Santíssima, nós repetimos hoje, com firme esperança, a alegre invocação: Coração de Jesus, delícia de todos os santos, tende piedade de nós!

O Sagrado Coração de Jesus no seio da Trindade adorado pelos santos
(Corrado Giaquinto - Museu do Prado - Madri, Espanha)

Fonte: Santa Sé - 05 de novembro e 12 de novembro de 1989 (italiano; tradução nossa).

sábado, 19 de junho de 2021

Ladainha do Sagrado Coração de Jesus meditada por João Paulo II (16)

Quase concluindo a série de meditações do Papa sobre a Ladainha do Sagrado Coração, trazemos aqui as invocações n. 30 e 31:
Cor Iesu, victima peccatorum, miserere nobis.
Cor Iesu, salus in te sperantium, miserere nobis.

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31. Coração de Jesus, vítima pelos pecadores
Ângelus do dia 10 de setembro de 1989

Coração de Jesus, vítima pelos pecadores, tende piedade de nós.
1. Caríssimos irmãos e irmãs, esta invocação da Ladainha do Sagrado Coração nos recorda que Jesus, segundo a palavra do Apóstolo Paulo, “foi entregue por nossos pecados” (Rm 4,25); pois, ainda que Ele não tenha cometido pecado, “Deus o fez pecado por nós” (2Cor 5,21). O Coração de Cristo foi sobrecarregado pelo peso do pecado do mundo.
N’Ele se cumpriu de modo perfeito a figura do “cordeiro pascal”, vítima oferecida a Deus para que, no sinal do seu sangue, fossem poupados da morte os primogênitos dos hebreus (cf. Ex 12,21-27). Justamente, portanto, João Batista reconheceu n’Ele o verdadeiro “cordeiro de Deus” (Jo 1,29): cordeiro inocente, que havia tomado sobre si o pecado do mundo para submergi-lo nas águas salutares do Jordão (cf. Mt 3,13-16 e paralelos); cordeiro manso, “levado ao matadouro; como ovelha diante dos que a tosquiam, Ele não abriu a boca” (Is 53,7), para que, por seu divino silêncio, fosse confundida a palavra soberba dos homens iníquos.
Jesus é vítima voluntária, porque se ofereceu “abraçando livremente a Paixão” (Missal Romano, Oração Eucarística II), como vítima de expiação pelos pecados dos homens (cf. Lv 1,4; Hb 10,5-10), que consumiu no fogo de seu amor.

2. Jesus é vítima eterna. Ressuscitado da morte e glorificado à direita do Pai, Ele conserva em seu corpo imortal os sinais das chagas das mãos e dos pés perfurados, do lado transpassado (cf. Jo 20,27; Lc 24,39-40) e os apresenta ao Pai em sua incessante oração de intercessão em nosso favor (cf. Hb 7,25; Rm 8,34).
A admirável Sequência da Missa de Páscoa, recordando este dado de nossa fé, exorta:
“À Vítima pascal ofereçam os cristãos sacrifícios de louvor.
O Cordeiro resgatou as ovelhas: Cristo, o Inocente, reconciliou com o Pai os pecadores”
E o Prefácio dessa mesma Solenidade proclama: Cristo é “o verdadeiro cordeiro, que tira o pecado do mundo. Morrendo, destruiu a morte e, ressurgindo, deu-nos a vida” (Missal Romano, Prefácio da Páscoa I).

3. Irmãos e irmãs, nesta hora da oração mariana contemplamos o Coração de Jesus, vítima pelos nossos pecados; mas antes de todos e mais profundamente que todos o contemplou a sua Mãe dolorosa, sobre a qual a Liturgia canta: “Pelos pecados do seu povo / ela viu Jesus nos tormentos / do duro suplício” (Sequência Stabat Mater, 7ª estrofe 7) [2].
Na proximidade da memória litúrgica de Nossa Senhora das Dores, recordemos esta presença intrépida e intercessora da Virgem sob a cruz do Calvário, e pensemos com imensa gratidão que, naquele momento, Cristo, que estava para morrer, vítima pelos pecados do mundo, confiou-a a nós como Mãe: “Eis aí a tau Mãe” (Jo 19,27).
Confiemos nossa oração a Maria, enquanto dizemos a seu Filho Jesus:
Coração de Jesus, vítima pelos nossos pecados, acolhe nosso louvor, nossa gratidão perene, nosso arrependimento sincero. Tende piedade de nós hoje e sempre. Amém.

32. Coração de Jesus, salvação dos que esperam em vós
Ângelus do dia 17 de setembro de 1989

1. Caríssimos irmãos e irmãs,
Nesta hora do Ângelus, paremos durante alguns instantes para refletir sobre essa invocação da Ladainha do Sagrado Coração que diz: Coração de Jesus, salvação dos que esperam em vós, tende piedade de nós.
Na Sagrada Escritura aparece constantemente a afirmação de que o Senhor é “um Deus que salva” (cf. Ex 15,2; Sl 51,16; 79,9; Is 46,13) e a salvação é um dom gratuito de seu amor e de sua misericórdia. O Apóstolo Paulo, em um texto de alto valor doutrinal, afirma incisivamente: Deus “quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4; cf. 4,10).
Esta vontade salvífica, que se manifestou em tantas intervenções admiráveis de Deus na história, alcançou seu ápice em Jesus de Nazaré, Verbo encarnado, Filho de Deus e Filho de Maria, pois n’Ele se cumpriu em plenitude a palavra dirigida pelo Senhor a seu “Servo”: “Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6; cf. Lc 2,32).

2. Jesus é a epifania do amor salvífico do Pai (cf. Tt 2,11; 3,4). Quando Simeão tomou em seus braços o Menino Jesus, exclamou: “Meus olhos viram tua salvação” (Lc 2,30).
Em Jesus, de fato, tudo está em função da sua missão de Salvador: o nome que leva (“Jesus” significa “Deus salva”), as palavras que pronuncia, as ações que realiza e os sacramentos que institui.
Jesus é plenamente consciente da missão que o Padre lhe confiou: “O Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). De seu Coração, isto é, do núcleo mais íntimo do seu ser, brota esse zelo pela salvação do homem que o impulsiona a subir, como manso cordeiro, ao monte Calvário, a estender seus braços na cruz e a “dar a sua vida como resgate por muitos” (Mc 10,45).

3. No Coração de Cristo nós podemos, portanto, colocar nossa esperança. Esse Coração - diz a invocação - é salvação “para os que esperam n’Ele”. O próprio Senhor que, na véspera da sua Paixão, pediu aos Apóstolos que tivessem confiança n’Ele - “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também” (Jo 14,1) - hoje nos pede que confiemos plenamente n’Ele: pede-o porque nos ama; porque, para nossa salvação, tem seu Coração transpassado e seus pés e mãos perfurados. Quem confia em Cristo e crê no poder do seu amor, renova em si a experiência de Maria Madalena, como nos apresenta a Liturgia pascal: “Ressuscitou Cristo, minha esperança:” (Domingo de Páscoa, Sequência Victimae paschali laudes, 6ª estrofe).
Refugiemo-nos, pois, no Coração de Cristo! Ele nos oferece uma palavra que não passa (cf. Mt 24,25), um amor que não desfalece, uma amizade que não se quebra, uma presença que não cessa (cf. Mt 28,20).
A Bem-aventurada Virgem, que “acolhendo a Palavra no coração sem mancha, mereceu concebê-la no seio virginal” (cf. Missal Romano, Prefácio da Missa votiva de Nossa Senhora, Mãe da Igreja), nos ensine a depositar no Coração de seu Filho nossa total esperança, na certeza de que esta não será defraudada.

O Coração de Jesus, refúgio dos aflitos e pecadores
(Igreja da Sagrada Família - Cidade do México)

Fonte: Santa Sé - 10 de setembro e 17 de setembro de 1989 (italiano; tradução nossa).

Notas:
[1] Dada a pobreza da tradução litúrgica deste texto para o Brasil, usamos aqui a tradução de Portugal.
[2] Esta é uma tradução do texto italiano citado pelo Papa: “Per i peccati del popolo suo / ella vide Gesù nei tormenti / del duro supplizio”. O texto original, em latim, diz: “Pro peccátis suae gentis / Vidit Iésum in torméntis, / Et flagéllis súbditum”.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Ladainha do Sagrado Coração de Jesus meditada por João Paulo II (15)

Das invocações da Ladainha do Sagrado Coração ligadas à Paixão, passamos às invocações ligadas ao mistério da Ressurreição (28ª e 29ª):
Cor Iesu, vita et resurrectio nostra, miserere nobis.
Cor Iesu, pax et reconciliatio nostra, miserere nobis.

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29. Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição
Ângelus do dia 27 de agosto de 1989

Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição, tende piedade de nós.
1. Esta invocação da Ladainha do Sagrado Coração, forte e convicta como um ato de fé, encerra em uma frase lapidar todo o mistério de Cristo Redentor. Recorda-nos as palavras dirigidas por Jesus a Marta, afligida pela morte do seu irmão Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25).
Jesus é a vida, que brota eternamente da divina fonte do Pai: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus... Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,1.4).
Jesus é vida em si mesmo: “Assim como o Pai possui a vida em si mesmo, do mesmo modo concedeu ao Filho possuir a vida em si mesmo” (Jo 5,26). No íntimo ser de Cristo, em seu Coração, a vida divina e a vida humana se unem harmonicamente, em plena e inseparável unidade.
Mas Jesus é também vida para nós. “Dar a vida” é o objetivo da missão que Ele, Bom Pastor, recebeu do Pai: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

2. Jesus é também a ressurreição. Nada é tão radicalmente contrário à santidade de Cristo - o Santo do Senhor (cf. Lc 1,35; Mc 1,24) - do que o pecado; nada é tão oposto a Ele, fonte de vida, do que a morte.
Um vínculo misterioso une pecado e morte (cf. Sb 2,24; Rm 5,12; 6,23; etc.): ambas são realidades essencialmente contrárias ao projeto de Deus para o homem, que não foi feito para a morte, mas para a vida. Diante de toda expressão de morte, o Coração de Cristo se comoveu profundamente e, por amor ao Pai e aos homens, seus irmãos, fez da sua vida um “admirável combate” contra a morte (Domingo de Páscoa, Sequência Victimae paschali laudes, 3ª estrofe): com uma palavra restituiu a vida física a Lázaro, ao filho da viúva de Naim, à filha de Jairo; com a força do seu amor misericordioso devolveu a vida espiritual a Zaqueu, a Maria Madalena, à adúltera e a quantos souberam reconhecer sua presença salvadora.

3. Irmãos e irmãs: ninguém experimentou tanto como Maria que o Coração de Jesus é vida e ressurreição:
- d’Ele, vida, Maria recebeu a vida da graça original e, na escuta de sua palavra e na observação atenta dos seus gestos salvíficos, pode guardá-la e nutri-la;
- por Ele, ressurreição, ela foi associada de modo singular à vitória sobre a morte: o mistério de sua Assunção em corpo e alma ao céu é consolador testemunho de que a vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte se prolonga nos membros do seu Corpo Místico, e, como primeiro entre todos, em Maria, “membro excelentíssimo” da Igreja (Constituição Lumen gentium, n. 53).
Glorificada no céu, a Virgem está, com seu Coração de Mãe, a serviço da redenção realizada por Cristo. “Mãe da vida”, está junto de toda mulher que dá à luz um filho; está ao lado de toda fonte batismal onde, pela água e pelo Espírito (cf. Jo 3,5), nascem os membros de Cristo; “Saúde dos enfermos”, está onde a vida é golpeada pela dor e pela enfermidade; “Mãe de misericórdia”, ela chama quem caiu sob o peso da culpa para que volte às fontes da vida; “Refúgio dos pecadores”, aponta a quem se afastou dele o caminho que conduz a Cristo; “Virgem dolorosa” junto ao Filho que morre (cf. Jo 19, 25), ela está onde a vida se apaga.
Nós a invocamos com a Igreja: “Santa Maria, Mãe de Deus, roga por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte” Amém.

30. Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação
Ângelus do dia 03 de setembro de 1989

Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação, tende piedade de nós.
1. Queridos irmãos e irmãs:
Recitando com fé esta bela invocação da Ladainha do Sagrado Coração, um sentimento de confiança e de segurança se difunde em nosso espírito: Jesus é verdadeiramente nossa paz, nossa suprema reconciliação.
Jesus é nossa paz. É bem conhecido o significado bíblico do termo “paz”: indica, em síntese, a soma dos bens que Jesus, o Messias, trouxe aos homens. Por isto, o dom da paz marca o início de sua missão sobre a terra, acompanha seu desenvolvimento e constitui sua coroação. “Paz” cantam os anjos junto ao presépio do recém-nascido “Príncipe da Paz” (cf. Lc 2,14; Is 9,5). “Paz” é o desejo que brota do Coração de Cristo, comovido diante da miséria do homem enfermo no corpo (cf. Lc 8,48) ou no espírito (cf. Lc 7,50). “Paz” é a saudação luminosa do Ressuscitado a seus discípulos (cf. Lc 24,36; Jo 20,19.26), os quais, no momento de deixar esta terra, Ele confia à ação do Espírito, manancial de “amor, alegria, paz” (Gl 5,22).

2. Jesus é, ao mesmo tempo, nossa reconciliação. Como consequência do pecado, se produziu uma profunda e misteriosa fratura entre Deus, o Criador, e o homem, sua criatura. Toda a história da salvação não é mais do que a narração admirável das intervenções de Deus em favor do homem, a fim de que este, na liberdade e no amor, volte a Ele; a fim de que à situação de fratura suceda uma situação de reconciliação e de amizade, de comunhão e de paz.
No Coração de Cristo, cheio de amor pelo Pai e pelos homens, seus irmãos, teve lugar a perfeita reconciliação entre o céu e a terra: “Fomos reconciliados com Deus - diz o Apóstolo - pela morte do seu Filho” (Rm 5,10).
Quem deseja fazer a experiência da reconciliação e da paz, deve acolher o convite do Senhor e ir ao seu encontro (cf. Mt 11,28). Em seu Coração encontrará paz e descanso; ali, sua dúvida se transformará em certeza; a ansiedade, em repouso; a tristeza, em alegria; a perturbação, em serenidade. Ali encontrará alívio para a dor, coragem para superar o medo, generosidade para não render-se à degradação e para retomar o caminho da esperança.

3. Em tudo semelhante ao Coração do Filho é o Coração da Mãe. Também a Bem-aventurada Virgem é para a Igreja uma presença de paz e de reconciliação: não foi ela quem, por meio do anjo Gabriel, recebeu a maior mensagem de reconciliação e de paz que Deus já enviou ao gênero humano? (cf. Lc 1,26-38).
Maria deu à luz Aquele que é nossa reconciliação; ela estava ao pé da cruz quando, no sangue do Filho, Deus reconciliou “com Ele todas as cosas” (Cl 1,20); agora, glorificada no céu, tem - como recorda uma oração litúrgica - “um coração misericordioso para com os pecadores. Eles, confiando em seu amor materno, nela se refugiam, implorando o perdão” de Deus (cf. Missas de Nossa Senhora: Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Reconciliação, Prefácio).
Que Maria, Rainha da Paz, nos obtenha de Cristo o dom messiânico da paz e a graça da reconciliação, plena e perene, com Deus e com os irmãos.

Sagrado Coração de Jesus
(Vitral da igreja de São Vicente - Huttendorf, França)

Fonte: Santa Sé - 27 de agosto e 03 de setembro de 1989 (italiano; tradução nossa).