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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Homilia do Papa: Missa em Lampedusa

Visita Pastoral a Lampedusa
Santa Missa
Homilia do Papa Leão XIV
Campo Esportivo “Arena”
Sábado, 04 de julho 2026

Foi celebrada a Missa “pelos refugiados e exilados” com as seguintes leituras: Hb 13,1-3.14-16; Sl 106; Lc 10,25-37.

Queridos irmãos e irmãs,
Deus nos ama sempre primeiro. A beleza do mar, desta ilha e dos vossos rostos é um reflexo da sua iniciativa gratuita: o amor nos precede, nos envolve e nos congrega. Estou grato ao Senhor por poder visitar-vos, seguindo os passos do Papa Francisco, que no dia 08 de julho de 2013 quis vir a Lampedusa na sua primeira viagem como Sucessor de Pedro.

Como é sabido, os Apóstolos navegaram pelo Mediterrâneo e experimentaram a hospitalidade dos habitantes das suas ilhas e costas, que há milênios são uma encruzilhada de civilizações. O Evangelho ressoa onde os povos se encontram, as pessoas se acolhem mutuamente, as suas experiências se entrelaçam e as diversas culturas dialogam entre si. Em contrapartida, não ecoa onde cada um faz de si mesmo uma ilha, onde o contato é evitado e o intercâmbio é interrompido. Neste sentido, a parábola do Bom Samaritano, que acaba de ser proclamada (Lc 10,25-37), descreve uma história em continuidade, e a Encíclica Fratelli tutti nos ajudou a relê-la nas circunstâncias históricas dramáticas em que ainda nos encontramos imersos. A Palavra de Deus é sempre para o dia de hoje e nos conduz a um diálogo do qual saímos transfigurados. Como responderemos, então, ao amor d’Aquele que nos amou primeiro?


Caríssimos, hoje Lampedusa e Linosa se encontram em uma estrada tão perigosa como aquela que descia de Jerusalém para Jericó. Aqui vistes não apenas um, mas milhares de seres humanos que caíram nas mãos de salteadores que lhes roubaram tudo, os espancaram cruelmente e se afastaram, deixando-os meio mortos (cf. Lc 10,30). Os outros, aqueles que não conseguiram chegar onde desejavam, acolheu-os o mar. Sentimos, no entanto, a sua presença, que nos interpela não menos que a daqueles que desembarcaram, necessitados de atenção e socorro. Antes de qualquer consideração intelectual e convicção ideológica, o embate com quem jaz diante de nós, despojado de tudo, nos convida à proximidade. A Carta aos Hebreus nos diz: «Lembrai-vos (...) dos que são maltratados, pois também vós tendes um corpo» (Hb 13,3). Trata-se do ponto central da parábola evangélica: fazemo-nos próximos, tornamo-nos próximos (cf. Lc 10,36-37)!

terça-feira, 21 de julho de 2026

Homilia do Papa: São Pedro e São Paulo (2026)

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Santa Missa e Imposição do Pálio aos novos Arcebispos Metropolitanos
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Segunda-feira, 29 de junho de 2026

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje, em uma única Solenidade, recordamos São Pedro e São Paulo, padroeiros da cidade e da Diocese de Roma: um deles escolhido por Jesus como pastor do seu rebanho e o outro eleito como Apóstolo dos gentios. Neles veneramos duas colunas da Igreja.

Pedro, guardião do Povo de Deus, aparece muitas vezes no Novo Testamento empenhado em conservar a comunhão entre os irmãos. É ele quem, no lago da Galileia, depois de uma noite de trabalho aparentemente inútil, diz ao Mestre: «Nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes» (Lc 5,5), e volta a fazer-se ao largo, levando os outros consigo. É também ele que, quando muitos se afastam de Jesus, após o duro discurso sobre o Pão da Vida, diz ao Messias: «A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6,68), e permanece, com os outros Onze. É ainda ele que, em Cesareia, reconhece em Jesus o Filho de Deus e se faz voz de todos na profissão da única fé, como ouvimos no Evangelho (cf. Mt 16,13-19). Após a Ressurreição, lançando-se à água e precedendo, a nado, os outros nas margens do lago, é ele o primeiro a chegar até Cristo, para renovar humildemente o seu amor e receber a confirmação da sua missão (cf. Jo 21,1-17).


E a esta missão, Pedro mantém-se fiel, mesmo quando, por exemplo, em Jerusalém, a questão da admissão ao Batismo dos pagãos não circuncisos corre o risco de dividir a comunidade. Ele reúne os irmãos, os escuta e, por fim, guiado pelo Espírito Santo, toma a decisão, preservando a comunhão e inaugurando uma nova era para todo o Povo de Deus. Afirma ele: «É pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles» (At 15,11).

Esta grandeza de espírito não significa que Pedro seja perfeito. Durante a Paixão, nega o Mestre, para depois chorar lágrimas sinceras de arrependimento (cf. Lc 22,54-62); e o próprio Paulo, em diversas circunstâncias, repreende-o pela incoerência de alguns dos seus comportamentos (cf. Gl 2,11-14). Porém, sabe reconhecer os seus erros e arrepender-se, sem desanimar nem desistir da missão de anunciar o Evangelho e reunir o rebanho de Cristo, chegando ao martírio, que recebe precisamente aqui, em Roma, perto de onde nos encontramos.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Homilia do Papa: Missa com os Cardeais (2026)

Consistório Extraordinário - Missa com os Cardeais
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 26 de junho de 2026

Caríssimos irmãos,
Estamos reunidos ao redor do altar do Senhor, junto ao túmulo de São Pedro, para dar início ao Consistório. Viemos de todas as partes do mundo para celebrar esta Eucaristia: junto com a nossa vida, ofereçamos a Deus as comunidades e os povos que trazemos no coração, bem como os projetos e as experiências pastorais, alegres e difíceis.

Esta diversidade de sentimentos e de pensamentos agora se concentra, isto é, encontra o centro luminoso que é Cristo. Ele mesmo, em pessoa, se dirige a nós dizendo: «Eu sou a videira verdadeira» (Jo 15,1). Através de Jesus a graça e a verdade fluem na nossa vida (cf. Jo 1,17), renovando-nos interiormente: estes dons divinos são a seiva fecunda também do Consistório que hoje iniciamos. É o próprio Evangelho que estabelece a condição para que seja frutífero: «Permanecei em mim e Eu permanecerei em vós» (Jo 15,4). Por um lado, o Mestre nos adverte: «Sem mim nada podeis fazer» (v. 5); por outro, deseja que os seus discípulos deem «muito fruto» (v. 8). Sim, muito fruto: a graça de Deus não provoca atrofiamento em quem a acolhe, mas um desenvolvimento vigoroso. O Verbo eterno, com efeito, se fez homem para que todos «tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10). Iniciada na fé, esta vida é ainda reforçada pela provação da poda, porque é cultivada pela solicitude do Pai.


Portanto, enquanto pedimos a Deus que nos conceda força e sabedoria, é significativo que o nosso Consistório tenha lugar nas vésperas da Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Detemo-nos juntos nesta memória, que recorda as colunas da Igreja Católica e Romana, os dois missionários mártires cuja pregação se fundiu com a sua vida, a ponto de se tornarem parte das Sagradas Escrituras.

Ao escutarmos hoje as palavras de São Paulo aos coríntios, podemos notar a feliz consonância com aquelas do Evangelho. Com efeito, os diversos carismas, os ministérios e a atividade eclesiais são como que os ramos da única videira, isto é, do único Senhor (cf. 1Cor 12,4-6), que infunde o Espírito Santo na sua Igreja. A esta unidade orgânica corresponde o critério que torna bons e agradáveis todos esses serviços eclesiais: o critério do bem comum (cf. v. 7).

terça-feira, 14 de julho de 2026

Homilia do Papa: Celebração da Palavra em Pavia

Visita Pastoral a Pavia (Itália)
Liturgia da Palavra e Veneração das Relíquias de Santo Agostinho
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro “in Ciel d’Oro” (Pavia)
Sábado, 20 de junho de 2026

Excelências, amados irmãos no Episcopado,
Prezados presbíteros e diáconos,
Caros religiosos, religiosas e seminaristas,
Meus confrades agostinianos,
Irmãos e irmãs,
Estou feliz por me encontrar aqui no meio de vós e agradeço ao Bispo, Dom Corrado Sanguineti, e ao Padre Joseph Farrell, Prior Geral da Ordem de Santo Agostinho, pelas palavras de boas-vindas que me dirigiram. Estou contente com o que ouvi sobre esta Igreja que está em Pavia: uma Comunidade de antiga tradição que permanece viva e presente na cidade e no território, atenta aos sinais deste tempo e aos seus desafios, sem se deixar desencorajar pelas dificuldades, pelo contexto secularizado e pelos desafios na transmissão da fé.


Para não se deixar desencorajar é necessário um olhar animado pelo espírito da fé, que ajude a ler a realidade de modo mais profundo em relação ao que parece à primeira vista, e a não cair em uma atitude negativa, pessimista, incapaz de gerar vida nova. Pelo contrário, o olhar que nos é pedido - e que o Espírito Santo nos concede - é o de Jesus. No meio das dificuldades e das incompreensões, Ele vê a mão providencial do Pai nos lírios do campo, nas aves do céu (cf. Mt 6,28-29), alimenta a esperança na pequena semente que cresce (cf. Mc 4,30-33) e nos convida a elevar o nosso olhar e contemplar os campos que já estão dourados para a colheita (cf. Jo 4,35). Na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, o Papa Francisco nos exortou a esta leitura espiritual da realidade, dizendo: «O olhar da fé é capaz de reconhecer a luz que o Espírito Santo sempre irradia no meio da escuridão (...). A nossa fé é desafiada a entrever o vinho no qual a água pode ser transformada e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio» (n. 84).

Iluminados pela esperança do Evangelho e inspirando-nos no que o Apóstolo Pedro nos disse na Leitura (1Pd 2,4-10), que chama “pedras vivas” aos discípulos do Senhor, perguntemo-nos: como podemos hoje, aqui em Pavia, ser uma Igreja viva?

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Homilia do Papa: Missa em Tenerife

Viagem Apostólica à Espanha
Santa Missa em Tenerife
Homilia do Papa Leão XIV
Porto de Santa Cruz de Tenerife
Sexta-feira, 12 de junho de 2026

Foi celebrada a Missa da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (Ano A).

Queridos irmãos e irmãs,
É uma graça nos encontrarmos neste dia em que o Coração de Jesus se deixa contemplar por nós como o coração da história. É com alegria que celebro convosco a Eucaristia, dando graças pela fé e pela caridade, das quais recebi tantos testemunhos nesta Viagem Apostólica e que fazem também deste arquipélago, tão conhecido pela sua beleza e acolhimento, um lugar onde o Senhor Ressuscitado nos precede e se manifesta. O mar, diante de nós, evoca o infinito, e o mesmo faz o céu, mas infinito é sobretudo o desejo que une o coração de Deus a tantos corações humanos, cujas alegrias e esperanças, tristezas e angústias encontram eco no coração da Igreja (cf. Constituição Gaudium et spes, n. 1). Nenhum ser humano é uma ilha; a localização geográfica desta Diocese e os desafios pastorais que a comprometem atestam que nascemos para o encontro e que não há obstáculo, distância, perigo ou ameaça que possa impedir cada um de prosseguir a sua viagem. Quer permanecendo durante toda a vida no mesmo lugar, quer escolhendo partir ou sendo obrigado a fazê-lo, nunca ninguém permanece parado. Eis o segredo do coração: o chamado íntimo ao êxodo e ao encontro.


Mas o Coração de Jesus nos revela como não nos perdermos em um dinamismo estéril: «Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio d’Ele» (1Jo 4,9). Há vida quando se dá vida. Caso contrário, andamos às voltas no vazio. Com efeito, «como recorda o Concílio, o ser humano é chamado à comunhão com Deus e “não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo”: a sua vocação mais profunda é entrar no movimento trinitário do amor recebido e partilhado» (Encíclica Magnifica humanitas, n. 48). O Papa Francisco observava: «Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, em uma pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm ao seu redor. Isto tem incidência no modo como se trata o ambiente» (Encíclica Laudato si’, n. 225). São palavras que interpelam também a vocação turística de Tenerife, seja no que diz respeito ao coração de quem decide passar aqui um período de férias, seja para quem vive e trabalha na ilha, em contato com visitantes de tantos países do mundo. O que procura o coração humano? Como responder à sua sede sem enganá-lo? Quão importante é, especialmente para quem se deixa orientar pelo Evangelho, não reduzir tudo ao comércio e ao lucro. «As pessoas que saboreiam mais e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de bicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a se familiarizar com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas. Deste modo conseguem reduzir o número das necessidades insatisfeitas e diminuem o cansaço e a ansiedade» (ibid., n. 223). Interpretai assim, queridos irmãos e irmãs, a vossa vocação à acolhida.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Homilia do Papa: Missa em Gran Canária

Viagem Apostólica à Espanha
Santa Missa em Gran Canária
Homilia do Papa Leão XIV
Estádio de Gran Canária
Quinta-feira, 11 de junho de 2026

Foi celebrada a Missa da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (Ano A).

Queridos irmãos e irmãs,
Após um dia rico de encontros e partilhas, ao celebrar agora convosco esta Eucaristia antes de tudo desejo dar graças ao Senhor por tanto bem que aqui se faz quotidianamente, confiando-lhe o empenho de todos e, ao mesmo tempo, os sofrimentos dos quais esta terra é testemunha. Convido-vos também a rezar juntos, nesta Santa Missa, pelos irmãos e irmãs que perderam a vida no mar.

Com o pão e o vinho, tudo levamos ao Altar, ao entrarmos - através desta Celebração vespertina - na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a quem toda a Espanha está consagrada. Peçamos ao Senhor que, neste momento, estejam presentes em nós os mesmos sentimentos de humanidade, misericórdia e compaixão do Coração do Salvador.


Na nossa meditação, deixemo-nos ajudar pelas Leituras que acabamos de ouvir.

Na 1ª Leitura, Deus recorda aos israelitas a gratuidade com que os amou. Escolheu-os não porque tivessem privilégios, dons ou méritos particulares, mas por puro amor (cf. Dt 7,7-9), e continuará sempre a amá-los, mesmo que, pela dureza do seu coração, não correspondam aos seus sentimentos.

Esta é a caridade de Deus, na qual tem as suas raízes a nossa vocação ao amor, que não se baseia no cálculo, nem no mero sentimento, nem se reduz a simples filantropia, mas penetra todo o nosso ser: fogo para a alma, luz para a mente, impulso irresistível para a liberdade, paz e, ao mesmo tempo, tormento para o coração, que bate em sintonia com outros corações, envolvendo toda a pessoa. Porque amar é conatural ao homem, ou melhor, é condição para a plenitude da própria existência.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Homilia do Papa: Missa em Barcelona

Viagem Apostólica à Espanha
Santa Missa em Barcelona
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica da Sagrada Família (Barcelona)
Quarta-feira, 10 de junho de 2026

Foi celebrada a Missa em ação de graças com leituras escolhidas especificamente para a ocasião, em vista da bênção da torre de Jesus Cristo: Ap 21,1-7; Sl 8; Jo 8,21-30.

«Ó Senhor, nosso Deus, como é grande vosso nome por todo o universo!» (Sl 8,2.10).
Com o louvor deste Salmo, tão cheio de alegria e admiração, saúdo todos vós, queridos irmãos e irmãs. Expresso o meu reconhecimento a Suas Majestades, agradeço ao Cardeal Juan José Omella, Arcebispo de Barcelona, bem como aos demais irmãos no Episcopado e a todos aqueles que se unem à nossa oração: sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas. Nesta tarde de festa para toda a cidade de Barcelona, estendo a minha grata saudação às autoridades públicas, assim como aos membros de outras comunidades cristãs e de outras religiões que participam na nossa ação de graças.

Hoje a Basílica da Sagrada Família nos acolhe nesta bela cidade, abrindo as suas portas como se fossem os seus braços para convidar cada um a este altar e a escutar a Palavra de Deus. É um templo que nos constitui em uma família amada pelo Senhor, alimentada pela sua própria vida na Eucaristia. Assim é com la ciutat comtal [cidade condal] e com toda a Catalunha que se reúnem neste templo, igualmente sinal de unidade e concórdia, e elevam o seu olhar para se encontrar com o rosto de Deus Pai, resplandecente no seu Filho que se fez homem, Jesus Cristo.


Enquanto damos graças ao Senhor pela sua caridade para conosco, o louvamos pelo que Ele realiza em nossas vidas. Damos graças, em particular, por esta extraordinária Basílica, que o Papa Bento XVI consagrou em 2010, recordando que é um sinal visível do Deus invisível, para cuja glória se erguem as suas torres (cf. Homilia na Dedicação da Basílica da Sagrada Família, 07 de novembro de 2010). Dando continuidade à oração do meu Predecessor, dentro de alguns momentos abençoarei a torre mais alta, a de Jesus Cristo.

Esta igreja é um edifício único, composto por muitas pedras. Uma casa que cresce com constância ao longo dos anos, seguindo um mesmo projeto. Todos nós somos as pedras vivas desta obra, que tem Cristo como fundamento e ápice, princípio e fim. Muito mais que um monumento, a Basílica da Sagrada Família continua sendo hoje uma obra em construção, que nos recorda como a vida cristã é sempre um caminho, porque se trata de um projeto que é levado a cabo por Deus.

domingo, 28 de junho de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: São Pedro e São Paulo (2006)

Há 20 anos, no dia 29 de junho de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos, na Basílica Vaticana.

Recordamos aqui sua homilia (centrada na missão de Pedro) e sua meditação durante a oração do Ângelus na ocasião:

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Concelebração Eucarística e Imposição do Pálio aos novos Arcebispos Metropolitanos
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 29 de junho de 2006

1. «Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja» (Mt 16,18). O que o Senhor diz exatamente a Pedro com estas palavras? Que promessa lhe faz com elas e que tarefa lhe confia? E o que diz a nós - ao Bispo de Roma, que está na Cátedra de Pedro, e à Igreja de hoje?

Se quisermos compreender o significado das palavras de Jesus, é útil recordar que os Evangelhos nos narram três situações diversas nas quais o Senhor, cada vez de um modo particular, transmite a Pedro a tarefa que deverá realizar. Trata-se sempre da mesma tarefa, mas, pela diversidade das situações e das imagens usadas, torna-se mais claro para nós o que queria e o que quer dele o Senhor.


2. No Evangelho de Mateus que ouvimos há pouco, Pedro faz sua profissão de fé a Jesus, reconhecendo-o como Messias e Filho de Deus. Com base nisso lhe é conferida sua tarefa particular mediante três imagens: a da rocha que se torna pedra fundamental ou pedra angular, a das chaves e a de ligar e desligar. Neste momento não pretendo interpretar mais uma vez estas três imagens que a Igreja, ao longo dos séculos, explicou sempre de novo; desejaria antes chamar a atenção para o lugar geográfico e o contexto cronológico destas palavras.

A promessa é feita junto às fontes do rio Jordão, na fronteira da terra judaica, nos confins com o mundo pagão. O momento da promessa marca uma virada decisiva no caminho de Jesus: agora o Senhor se encaminha para Jerusalém e, pela primeira vez, diz aos discípulos que este caminho rumo à Cidade Santa é o caminho rumo à Cruz: «Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia» (Mt 16,21).

Homilia do Papa João Paulo II: São Pedro e São Paulo (2001)

Há 25 anos, no dia 29 de junho de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) presidiu a Missa da Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos, na Praça de São Pedro. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Concelebração Eucarística e Imposição do Pálio aos Arcebispos Metropolitanos
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Sexta-feira, 29 de junho de 2001

1. «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo» (Mt 16,16).
Quantas vezes repetimos esta profissão de fé, outrora pronunciada por Simão, filho de Jonas, na região de Cesareia de Filipe! Quantas vezes eu mesmo encontrei nestas palavras um sustento interior para prosseguir a missão que a Providência me confiou!

Tu és o Cristo! Todo o Ano Santo nos levou a fixar o olhar em “Jesus Cristo, único Salvador, ontem, hoje e sempre”. Cada celebração jubilar foi uma incessante profissão de fé em Cristo, renovada de modo coral dois mil anos depois da Encarnação. À pergunta, sempre atual, feita por Jesus aos seus discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mt 16,15), os cristãos do ano 2000 responderam mais uma vez unindo as suas vozes à de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo».


2. «Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu» (Mt 16,17).
Depois de dois milênios, a “rocha” sobre a qual foi fundada a Igreja é sempre a mesma: é a fé de Pedro. «Sobre esta pedra» (v. 18) Cristo construiu a sua Igreja, edifício espiritual que resistiu ao desgaste dos séculos. Sobre uma base simplesmente humana e histórica certamente não teria podido resistir ao ataque de tantos inimigos!

Ao longo dos séculos, o Espírito Santo iluminou homens e mulheres, de todas as idades, vocações e condições sociais, para fazer deles «pedras vivas» (1Pd 2,5) dessa construção. São os santos, que Deus suscita com inesgotável criatividade, muito mais numerosos do que aqueles que a Igreja indica solenemente como exemplo para todos. Uma só fé; uma só “rocha”; uma só pedra angular: Cristo, Redentor do homem.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Homilia do Papa: Hora Média em Barcelona

Viagem Apostólica à Espanha
Oração da Hora Média
Homilia do Papa Leão XIV
Catedral da Santa Cruz e Santa Eulália (Barcelona)
Terça-feira, 09 de junho de 2026

Foi rezada a Hora Sexta (12h) da terça-feira da II semana do Saltério.

Queridos irmãos e irmãs,
É com grande alegria que inicio a minha visita rezando convosco a Hora Sexta nesta Catedral.
O Concílio Vaticano II define o Ofício Divino como «a voz da Esposa que fala com o Esposo» e «a oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai» (Sacrosanctum Concilium, n. 84). Também a Leitura que ouvimos (1Cor 12,12-13) sublinha que «todos... fomos batizados em um único Espírito, para formarmos um único corpo» (v. 13). Podemos, então, deixar-nos ajudar, na nossa reflexão, precisamente por estas duas imagens: a Esposa e o Corpo.

A primeira nos recorda que a Igreja, e em particular esta assembleia, rica em dons e carismas e na diversidade das histórias de cada um, é antes de tudo uma Esposa amada. Deus vos quis aqui, porque ama em vós e no vosso estar juntos uma beleza e uma bondade únicas e sagradas. Ele vos escolheu para representardes hoje a “comunidade dos santos” (cf. 1Cor 1,2) que está em Barcelona. E é com esta consciência que vos convido a renovar, em um só coração, o propósito de caminhar juntos, todos, fiéis e Pastores, seguindo os passos de Cristo, rumo à plenitude da vida. A Igreja é fruto de um ato de amor que a precede e que provém de Deus, e cresce antes de tudo deixando-se amar por Ele, unida, com coração humilde e agradecido, porque só quem se deixa amar por Deus pode construir, com os outros, as obras do amor.


A este respeito, há alguns anos o Papa Francisco recomendava a esta Comunidade diocesana « partir do encontro com Cristo» para crescer «na fraternidade, no anúncio da Boa Nova do Evangelho» (Mensagem por ocasião da inauguração da Torre da Virgem Maria da Basílica da Sagrada Família, 08 de dezembro de 2021); e, um ano depois, repetia aos seminaristas desta mesma Diocese, peregrinos em Roma: «Nunca deixeis de saborear e recordar este amor de predileção que se derrama e se derramará abundantemente no vosso coração (...). Nunca apagueis esse fogo que vos tornará intrépidos pregadores do Evangelho» (Discurso à Comunidade do Seminário de Barcelona, 10 de dezembro de 2022).

As suas palavras indicam o clima que somos chamados a difundir nos nossos ambientes, nas famílias, nas paróquias, nos locais de trabalho e de formação, nos ambientes da Cúria e em qualquer outro âmbito da vida: um clima de família, no qual se vive juntos, conscientes da filiação e do chamado comum, solidários, abertos, capazes de misericórdia, de sacrifício, de atenção mútua, de perdão.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Natividade de São João Batista (2001)

Há 25 anos, no dia 24 de junho de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Solenidade da Natividade de São João Batista no Aeroporto de Chayka em Kiev (Ucrânia), durante sua Viagem Apostólica ao país. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Viagem Apostólica à Ucrânia
Missa na Solenidade da Natividade de São João Batista
Homilia do Papa João Paulo II
Aeroporto de Chayka, Kiev (Ucrânia)
Domingo, 24 de junho de 2001

1. «O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe Ele tinha na mente o meu nome» (Is 49,1).
Celebramos hoje o nascimento de São João Batista. As palavras do profeta Isaías aplicam-se bem a esta grande figura bíblica que se situa entre o Antigo e o Novo Testamento. Na longa esteira dos profetas e dos justos de Israel, João o “Batizador” foi posto pela Providência imediatamente antes do Messias, para preparar o caminho diante d’Ele com a pregação e o testemunho da vida.

Entre todos os Santos e Santas, João é o único do qual a Liturgia celebra o nascimento. Ouvimos na 1ª Leitura que o Senhor chamou o seu Servo “desde o ventre materno”. Esta afirmação se refere na sua plenitude a Cristo, mas, quase por reflexo, pode ser aplicada também ao seu Precursor. Ambos vêm à luz graças a uma intervenção especial de Deus: o primeiro nasce da Virgem, o segundo de uma mulher idosa e estéril. Desde o ventre materno João anuncia Aquele que revelará ao mundo a iniciativa de amor de Deus.

São João Paulo II durante a Missa em Kiev (2001)

2. «No seio de minha mãe vós me tecestes» (Sl 138,13).
Hoje podemos fazer nossa esta exclamação do Salmista. Deus nos conheceu e nos amou antes ainda que os nossos olhos pudessem contemplar as maravilhas da criação. Todo homem, ao nascer, recebe um nome humano. Mas, antes ainda, ele possui um nome divino: o nome com que Deus Pai o conhece e o ama desde sempre e para sempre. É assim para todos, sem excluir ninguém. Nenhum homem é anônimo para Deus! Todos têm o mesmo valor aos seus olhos: todos diferentes, mas todos iguais, todos chamados a ser filhos no Filho.

«João é o seu nome» (Lc 1,63). Zacarias confirma aos parentes admirados o nome do filho, escrevendo-o em uma tabuinha. O próprio Deus, através do seu anjo, indicou esse nome, que em hebraico significa “Deus é favorável”. Deus é favorável ao homem: quer a sua vida, a sua salvação. Deus é favorável ao seu povo: quer fazer dele uma bênção para todas as nações da terra. Deus é favorável à humanidade: guia o seu caminho rumo à terra onde reinam paz e justiça. Tudo isso está inscrito naquele nome: João!

sábado, 20 de junho de 2026

Homilia do Papa: Missa em Madrid

Viagem Apostólica à Espanha
Santa Missa e Procissão Eucarística
Homilia do Papa Leão XIV
Praça de Cibeles (Madrid)
Domingo, 07 de junho de 2026

Foi celebrada a Missa da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Ano A).

Eminências e Excelências Reverendíssimas,
Queridos sacerdotes, religiosos, religiosas,
Majestades,
Irmãos e irmãs,
Com o coração cheio de alegria, no início desta viagem à Espanha, presido esta celebração no dia da Solenidade do Corpus Christi.

Estamos reunidos em torno da Eucaristia, o dom da presença viva de Cristo no meio de nós. Ele, que quis nos oferecer a sua vida para nos fazer entrar na comunhão do Pai e nos tornar seus filhos, está aqui, como Pão vivo descido do céu, que nos alimenta com a própria vida de Deus, com um amor mais forte que a morte.

Esta memória do Senhor presente no Pão eucarístico está no coração da vossa fé e da história do vosso povo. Aqui em Madrid, mas também em tantos outros lugares da Espanha, o Corpus Christi não é mais uma festa do calendário litúrgico, mas um retorno às raízes da fé para renovar o amor e a fidelidade a Deus. Ao longo dos séculos, as solenes procissões deste dia têm moldado a piedade, a arte, a música, a arquitetura e a vida do povo espanhol e, ainda hoje, expressam e manifestam o sentimento espiritual deste país também através da beleza e da elegância dos tapetes florais, dos altares nas ruas, do cuidado com as custódias e os ostensórios, dos cânticos e dos ornamentos. Não se trata de uma manifestação exterior, de uma sobrevivência folclórica ou de um simples adorno estético: trata-se aqui da fé na presença do Senhor Ressuscitado, que está vivo e continua a passar no meio de nós, que se faz pão para a nossa fome de vida e visita os recantos do nosso coração e da nossa história, também os mais escuros.


Assim, se na Celebração Eucarística Cristo se entrega como alimento, a procissão diz que Ele não permanece fechado no templo, mas sai ao nosso encontro. Jesus caminha pelas ruas, atravessa as praças, visita os nossos bairros, habita os lugares da nossa vida quotidiana. Ele é o Deus próximo que caminha com o seu povo, o Senhor da história, consolo dos fracos, luz para as famílias, esperança para os doentes, paz para quem sofre. O Cristo que passa pelas ruas na custódia é o mesmo que se identifica com os pobres, os abatidos, os que estão sozinhos e desamparados. Não é por acaso que aqui, na Espanha, a Igreja tenha unido durante anos a Solenidade do Corpus Christi com o Dia da Caridade.

sábado, 6 de junho de 2026

Homilia: X Domingo do Tempo Comum - Ano A

São Pedro Crisólogo
Sermão 30
Deus tem fome e sede da conversão do pecador

Acusa-se Deus de inclinar-se para o homem, de colocar-se junto ao pecador, de ter fome da sua conversão e sede do seu retorno, de tomar o alimento da misericórdia e o cálice da benevolência. Porém, irmãos, Cristo veio a essa ceia: a Vida veio ao seio desses convidados para que, condenados à morte, vivam com a Vida; a Ressurreição inclinou-se para que aqueles que jaziam se levantassem dos seus túmulos; a Bondade abaixou-se para elevar os pecadores até o perdão; Deus veio ao homem para que o homem chegue a Deus; o Juiz veio para a refeição dos culpáveis para subtrair a humanidade da sentença de condenação; o Médio veio à casa dos enfermos para restabelecê-los comendo com eles; o Bom Pastor curvou-se para carregar a ovelha perdida até o redil da salvação.

Por que o vosso mestre come com os publicanos e pecadores? Mas quem é o pecador, a não ser aquele que recusa considerar-se como tal? Não é isso afundar em seu pecado, e verdadeiramente identificar-se com ele, ao deixar de se reconhecer pecador? E quem é injusto, senão o que se considera justo?

Enquanto vivemos neste corpo mortal, a fragilidade domina; mesmo que triunfemos sobre os pecados de obra, não podemos vencer os de pensamento nem evitar toda injustiça; e se temos a força de escapar materialmente, e se somos capazes de vencer toda falta inconsciente, como poderemos suprimir as faltas de negligência e os pecados de ignorância?

Confessa teu pecado e poderás vir à mesa de Cristo: Ele se fará por ti Pão, Pão que se partirá para o perdão de teus pecados; Ele se fará por ti Cálice, esse Cálice que se derramará para a remissão de tuas culpas. Vamos, participa na refeição dos pecadores e Cristo participará na tua; reconhece-te pecador, e Cristo comerá contigo; entra com os pecadores no festim do teu Senhor e poderás não voltar a ser pecador; entra com o perdão de Cristo na casa da Misericórdia, não seja que com tua própria justiça sejas excluído dessa morada.

Vamos, reconhece Cristo, escuta Cristo. Sim, escuta o teu Senhor, escuta o Médico do alto, Aquele que refuta sem apelação tuas acusações falsas. Os que têm boa saúde não necessitam de médico, mas sim os que estão enfermos. Se queres ser curado, reconhece tua enfermidade...

Não veio chamar os justos, mas os pecadores. Sim, irmãos, sejamos pecadores em nossa confissão para não sermos pecadores graças ao perdão de Cristo.


Fonte: Lecionário Patrístico Dominical, pp. 152-153. Para adquiri-lo no site da Editora Vozes, clique aqui.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Corpus Christi (2006)

Por ocasião da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) recordamos a homilia proferida pelo Papa Bento XVI (†2022) há 20 anos, no dia 15 de junho de 2006, durante a Missa da Solenidade (Ano B) diante da Basílica do Latrão seguida da procissão eucarística até a Basílica de Santa Maria Maior.

Recordamos também sua meditação durante a oração do Ângelus do domingo seguinte, 18 de junho.

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Santa Missa e Procissão Eucarística
Homilia do Papa Bento XVI
Adro da Basílica de São João do Latrão
Quinta-feira, 15 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs,
Na véspera da sua Paixão, durante a Ceia pascal, como ouvimos há pouco no Evangelho, o Senhor «tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu e o entregou aos discípulos, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo”. Em seguida, tomou o cálice, deu graças, entregou-lhes e todos beberam dele. Jesus lhes disse: “Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos”» (Mc 14,22-24). Toda a história de Deus com os homens está resumida nessas palavras. Não só é recolhido e interpretado o passado, mas também é antecipado o futuro - a vinda do Reino de Deus ao mundo. O que Jesus diz não são simplesmente palavras. O que Jesus diz é acontecimento, o acontecimento central da história do mundo e da nossa vida pessoal.


Essas palavras são inesgotáveis. Porém, neste momento gostaria de meditar convosco apenas um aspecto: Jesus, como sinal da sua presença, escolheu pão e vinho. Com cada um dos dois sinais Ele se doa inteiramente, não só uma parte de si. O Ressuscitado não está dividido. Ele é uma pessoa que, através dos sinais, se aproxima de nós e se une a nós.

Mas cada um dos sinais representa, a seu modo, um aspecto particular do seu mistério e, com a sua manifestação típica, querem falar a nós, para que aprendamos a compreender um pouco mais do mistério de Jesus Cristo. Durante a procissão e na adoração nós contemplamos a Hóstia consagrada - a forma mais simples de pão e de alimento, feito apenas com um pouco de farinha e água. Assim ele se apresenta como o alimento dos pobres, aos quais o Senhor destinou em primeiro lugar a sua proximidade.

Homilia do Papa João Paulo II: Corpus Christi (2001)

Nesta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) recordamos a homilia proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, no dia 14 de junho de 2001, na Missa da Solenidade (Ano C) diante da Basílica do Latrão seguida da procissão eucarística até a Basílica de Santa Maria Maior.

Recordamos também sua meditação durante a oração do Ângelus do domingo seguinte, 17 de junho.

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Santa Missa e Procissão Eucarística
Homilia do Papa João Paulo II
Adro da Basílica de São João do Latrão
Quinta-feira, 14 de junho de 2001

1. «Ecce panis Angelorum, factus cibus viatorum: vere panis filiorum» - «Eis o pão dos Anjos, feito alimento dos peregrinos: verdadeiro pão dos filhos» (Sequência).
Hoje a Igreja mostra ao mundo o Corpus Christi, o Corpo de Cristo, e nos convida a adorá-lo: Venite adoremus! Vinde, adoremos!

O olhar dos fiéis se concentra no Sacramento, no qual Cristo deixou todo o seu ser: Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Por isso foi sempre considerado o mais Santo: o “Santíssimo Sacramento”, memorial vivo do Sacrifício redentor.


Na Solenidade do Corpus Christi voltamos àquela “Quinta-feira” que todos chamamos “Santa”, na qual o Redentor celebrou a sua última Páscoa com os discípulos: foi a Última Ceia, cumprimento da ceia pascal hebraica e inauguração do rito eucarístico.

Por isso a Igreja, há séculos, escolheu uma quinta-feira para a Solenidade do Corpus Christi, festa de adoração, de contemplação e de exaltação. Festa na qual o Povo de Deus se reúne em torno do tesouro mais precioso herdado de Cristo, o Sacramento da sua própria Presença, e o louva, o canta e o leva em procissão pelas ruas da cidade.

2. «Lauda, Sion, Salvatorem!» - «Louva Sião, o Salvador!» (Sequência).
A nova Sião, a Jerusalém espiritual, na qual se reúnem os filhos de Deus de todos os povos, línguas e culturas, louva o Salvador com hinos e cânticos. Com efeito, a admiração e o reconhecimento pelo dom recebido são inexauríveis. Este dom «supera todo louvor, não há cântico que lhe seja digno» (ibid.).

Eis um mistério sublime e inefável. Mistério diante do qual permanecemos espantados e silenciosos, em atitude de contemplação profunda e extasiada.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Homilia do Papa: Domingo de Pentecostes (2026)

Santa Missa na Solenidade de Pentecostes
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Domingo, 24 de maio de 2026

Queridos irmãos e irmãs,
O Tempo Pascal chega hoje, Solenidade de Pentecostes, ao seu cumprimento. Para evidenciar a unidade deste acontecimento de salvação, o Evangelho nos conduz novamente ao «primeiro dia da semana» (Jo 20,19), isto é, àquele dia novo no qual Jesus Ressuscitado aparece aos discípulos mostrando-lhes «as mãos e o lado» (v. 20). O Senhor revela o seu corpo glorioso, precisamente as suas chagas, as feridas da crucificação. Estes sinais da Paixão, mais eloquentes do que qualquer discurso, são transfigurados: Aquele que estava morto vive para sempre.

Ao ver o Senhor, também os discípulos voltam a viver: tinham se sepultado no Cenáculo cheios de medo, mas Jesus, apesar das portas fechadas, entra e os enche de alegria. Ele passa através da nossa morte, abre o sepulcro e o escancara onde já não havia saída para nós. Ao seu gesto, Cristo une a palavra: «A paz esteja convosco» (v. 19); e logo em seguida sopra sobre os discípulos o Espírito Santo. O Ressuscitado é pleno de vida: depois de ter mostrado a vida do corpo, como verdadeiro homem, doa a vida de Deus, como Filho amado do Pai, feito por nós irmão e Redentor. No mesmo Cenáculo onde instituiu a nova e eterna aliança, Jesus derrama o Espírito: o lugar da Ceia e da traição se transforma e, de sepulcro dos Apóstolos, torna-se para toda a Igreja seio de ressurreição. Por isso o Pentecostes é festa pascal e festa do corpo de Cristo, que por graça somos nós.


Ao celebrarmos este mistério, gostaria de me deter em três aspectos.

Em primeiro lugar, o Espírito do Ressuscitado é o Espírito da paz. Na sua Páscoa, com efeito, Cristo estabelece a paz entre Deus e a humanidade, e o Espírito Santo a infunde nos corações e a difunde pelo mundo. Esta paz provém do perdão e nos leva ao perdão: começa com o perdão doado pelo próprio Jesus, que foi traído, condenado e crucificado por nós. Surpreendendo-nos com o seu amor, precisamente Ele, o Ressuscitado, diz: «A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados» (Jo 20,23). Com estas palavras, Jesus nos confia uma obra divina, porque só Deus pode perdoar os pecados (cf. Mc 2,7). Essa autoridade é concedida no sinal de uma reconciliação universal: o Senhor derrama o Espírito da paz de um extremo ao outro da história, porque Aquele que redimiu todos da morte não exclui ninguém. O Espírito Santo, com efeito, é o Senhor que dá a vida desde o início da criação, quando pairava sobre as águas (cf. Gn 1,2), e agora, com a sua redenção, transforma a história do mundo: o Pentecostes verdadeiramente se cumpre como festa da nova Aliança, isto é, da aliança entre Deus e todos os povos da terra. Enquanto o ruído vindo do céu, o vento e as línguas de fogo no Cenáculo recordam os antigos sinais do Sinai (cf. At 2,2-3; Ex 19,16-19), a santa lei de Deus é escrita nos corações, gravada pelo Espírito com letras de amor na carne de Cristo e no seu corpo, que é a Igreja.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Homilia do Papa: Exéquias do Cardeal Tscherrig

Santa Missa para as Exéquias do Cardeal Paul Emil Tscherrig
Homilia do Papa Leão XIV
Altar da Cátedra da Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 15 de maio de 2026

Leituras: Ap 21,1-5a.6b-7; Sl 121; Jo 11,17-27.

Queridos irmãos e irmãs,
Reunidos em torno do Altar, acompanhamos o nosso irmão Paul Emil Tscherrig, Cardeal, no momento em que ele se apresenta ao Senhor para receber a recompensa pelo bem realizado nesta vida e o perdão pelas falhas que a fragilidade humana possa ter causado.

É o momento grande e solene do encontro com o Senhor a quem ele serviu generosamente, com o Amigo ao lado do qual ele caminhou fielmente por toda a sua vida, mais da metade da qual dedicada ao serviço da Sé Apostólica em várias Representações Pontifícias e na Secretaria de Estado.

Ele contribuiu, com o trabalho muitas vezes discreto, mas não por isso menos diligente e árduo, típico do ministério que exerceu, ao crescimento daquele Reino de cujo pleno cumprimento nos falou a 1ª Leitura: Reino no qual o mar do caos já não existe e, ao contrário, resplandece a nova Jerusalém, edificada sobre o fundamento dos Apóstolos, iluminada pela luz do Cordeiro e enriquecida pelos méritos dos Santos.


O compromisso como Diplomata, e antes ainda como Pastor da Igreja, levou este nosso irmão a trabalhar por tantos anos, com paciência e abnegação, para levar à concórdia os povos que lhe foram confiados pela obediência (cf. Sl 121), enfrentando também os obstáculos e desafios que um Representante Pontifício é chamado a abraçar para o bem de todos. Ele cumpriu a sua missão primeiramente como colaborador em diversas Nunciaturas, até a sua nomeação, em 1996, como Nuncio Apostólico no Burundi; depois em Trinidad e Tobago e em diversos países do Caribe; na Coreia do Sul e Mongólia; posteriormente na Suécia, Dinamarca, Finlândia, Islândia e Noruega; depois na Argentina; chegando, em 2017, à Itália e San Marino. Uma vasta experiência eclesial e internacional, que testemunha a sua disponibilidade e a sua capacidade de adaptação, na sua caridade de Pastor, a ambientes muito diferentes entre si: lugares e povos aos quais foi enviado, em nome do Santo Padre, para tecer relações de comunhão entre as Igrejas locais e a Sé Apostólica, bem como para reforçar vínculos de amizade.

sábado, 23 de maio de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Pentecostes (2006)

Há cerca de 20 anos, no dia 04 de junho de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade de Pentecostes na Praça de São Pedro. Confira a seguir sua homilia na ocasião:

Solenidade de Pentecostes
Homilia do Papa Bento XVI
Praça de São Pedro
Domingo, 04 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs,
No dia de Pentecostes o Espírito Santo desceu com poder sobre os Apóstolos; teve início assim a missão da Igreja no mundo. O próprio Jesus tinha preparado os Onze para esta missão aparecendo-lhes várias vezes depois da sua Ressurreição (cf. At 1,3). Antes da Ascensão ao Céu, ordenou que “não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem que se realizasse a promessa do Pai” (cf. vv. 4-5); isto é, pediu que permanecessem juntos para se prepararem a receber o dom do Espírito Santo. E eles se reuniram em oração com Maria no Cenáculo à espera do acontecimento prometido (cf. v. 14).

Permanecer juntos foi a condição posta por Jesus para receber o dom do Espírito Santo; pressuposto da sua concórdia foi uma prolongada oração. Encontramos delineada assim uma formidável lição para toda comunidade cristã. Às vezes se pensa que a eficiência missionária dependa principalmente de uma atenta programação e da sucessiva realização inteligente através de um empenho concreto. Certamente o Senhor pede a nossa colaboração, mas antes de qualquer resposta nossa é necessária a sua iniciativa: é o seu Espírito o verdadeiro protagonista da Igreja. As raízes do nosso ser e do nosso agir estão no silêncio sábio e providente de Deus.


As imagens que São Lucas usa para indicar o irromper do Espírito Santo - o vento e o fogo - recordam o Sinai, onde Deus tinha se revelado ao povo de Israel e lhe tinha concedido a sua aliança (cf. Ex 19,3ss). A festa do Sinai, que Israel celebrava cinquenta dias depois da Páscoa, era a festa da Aliança. Falando de línguas de fogo (cf. At 2,3), São Lucas quer representar o Pentecostes como um novo Sinai, como a festa da nova Aliança, na qual a Aliança com Israel é estendida a todos os povos da Terra. A Igreja é católica e missionária desde a sua origem. A universalidade da salvação é evidenciada significativamente pelo elenco das numerosas etnias a que pertencem aqueles que escutam o primeiro anúncio dos Apóstolos (cf. vv. 9-11).

Homilia do Papa João Paulo II: Pentecostes (2001)

Há cerca de 25 anos, no dia 03 de junho de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Solenidade de Pentecostes na Praça de São Pedro.

Na ocasião teve lugar a transladação do corpo do Papa João XXIII (†1963): após sua Beatificação no dia 03 de setembro de 2000, com efeito, seu corpo foi depositado na Basílica Vaticana, sob o altar de São Jerônimo. Em 2014, por sua vez, este seria canonizado junto com o próprio João Paulo II.

Confira a seguir a homilia do Papa polonês durante a celebração:

Missa na Solenidade de Pentecostes
Transladação da urna com o corpo do Beato João XXIII, Papa
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Domingo, 03 de junho de 2001

1. «Todos ficaram cheios do Espírito Santo» (At 2,4).
Assim aconteceu em Jerusalém no dia de Pentecostes. Hoje, reunidos nesta Praça, centro do mundo católico, nós revivemos o clima daquele dia. Também no nosso tempo, como no Cenáculo de Jerusalém, a Igreja é atravessada por um “vento impetuoso”. Ela experimenta o sopro divino do Espírito, que a abre para a evangelização do mundo.

Por uma feliz coincidência, na Solenidade de hoje temos a alegria de acolher, junto ao altar, os veneráveis restos mortais do Beato João XXIII, que Deus plasmou com o seu Espírito, fazendo dele uma admirável testemunha do seu amor. Este meu venerado predecessor faleceu há 38 anos, no dia 03 de junho de 1963, precisamente enquanto na Praça de São Pedro uma imensa multidão de fiéis rezava, espiritualmente reunida em torno do seu leito de morte. A celebração de hoje se une a essa oração e, enquanto comemoramos o trânsito deste Beato Pontífice, louvamos a Deus que o doou à Igreja e ao mundo.


Como sacerdote, como Bispo e como Papa, o Beato Ângelo Roncalli foi extremamente dócil à ação do Espírito, que o guiou pelo caminho da santidade. Por isso, na comunhão viva dos Santos, queremos celebrar a Solenidade de Pentecostes em singular sintonia com ele, deixando-nos acompanhar por algumas das suas inspiradas reflexões.

2. «A luz do Espírito Santo irrompe das primeiras palavras do Livro dos Atos dos Apóstolos... A marcha impetuosa do Divino Espírito precede e acompanha os evangelizadores, penetrando na alma de quem os escuta e dilatando as tendas da Igreja Católica até os extremos confins da terra, percorrendo todos os séculos da história» (Discursos, Mensagens e Colóquios do Papa João XXIII, II, p. 398).

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Homilia do Papa: Missa em Pompeia

Visita Pastoral a Pompeia e Nápoles (Itália)
Santa Missa e Súplica a Nossa Senhora de Pompeia
Homilia do Papa Leão XIV
Praça Bartolo Longo, Santuário de Pompeia
Sexta-feira, 08 de maio de 2026

Foi celebrada a Missa de Nossa Senhora do Rosário [1].

Queridos irmãos e irmãs,
«A minha alma engrandece ao Senhor» (Lc 1,46). Estas palavras, com as quais respondemos à 1ª Leitura, brotam do coração da Virgem Maria quando apresenta a Isabel o fruto do seu ventre, Jesus, o Salvador. Depois dela, cantarão a Cristo Zacarias, pai de João Batista, e o idoso Simeão. Esses três cânticos marcam todos os dias o louvor da Igreja na Liturgia das Horas. São o olhar do antigo Israel, que vê cumpridas as suas promessas; são o olhar da Igreja Esposa, voltada para o seu Esposo divino; são implicitamente o olhar de toda a humanidade, que encontra resposta ao seu anseio de salvação.


Há cento e cinquenta anos, colocando a primeira pedra deste Santuário, no lugar onde a erupção do Vesúvio do ano 79 depois de Cristo tinha sepultado sob as cinzas os vestígios de uma grande civilização, protegendo-os durante séculos, São Bartolo Longo com a sua esposa, a condessa Marianna Farnararo De Fusco, lançaram as bases não só de um templo, mas de toda uma cidade mariana. Assim ele expressava a consciência de um desígnio de Deus, que São João Paulo II, falando neste lugar de graça no dia 07 de outubro de 2003, na conclusão do Ano do Rosário, relançou para o Terceiro Milênio, na perspectiva da nova evangelização: «Hoje, como nos tempos da antiga Pompeia, é necessário anunciar Cristo a uma sociedade que se afasta dos valores cristãos e perde até mesmo a sua memória».