terça-feira, 14 de julho de 2026

Homilia do Papa: Celebração da Palavra em Pavia

Visita Pastoral a Pavia e Sant’Angelo Lodigiano (Itália)
Liturgia da Palavra e Veneração das Relíquias de Santo Agostinho
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro “in Ciel d’Oro” (Pavia)
Sábado, 20 de junho de 2026

Excelências, amados irmãos no Episcopado,
Prezados presbíteros e diáconos,
Caros religiosos, religiosas e seminaristas,
Meus confrades agostinianos,
Irmãos e irmãs,
Estou feliz por me encontrar aqui no meio de vós e agradeço ao Bispo, Dom Corrado Sanguineti, e ao Padre Joseph Farrell, Prior Geral da Ordem de Santo Agostinho, pelas palavras de boas-vindas que me dirigiram. Estou contente com o que ouvi sobre esta Igreja que está em Pavia: uma Comunidade de antiga tradição que permanece viva e presente na cidade e no território, atenta aos sinais deste tempo e aos seus desafios, sem se deixar desencorajar pelas dificuldades, pelo contexto secularizado e pelos desafios na transmissão da fé.


Para não se deixar desencorajar é necessário um olhar animado pelo espírito da fé, que ajude a ler a realidade de modo mais profundo em relação ao que parece à primeira vista, e a não cair em uma atitude negativa, pessimista, incapaz de gerar vida nova. Pelo contrário, o olhar que nos é pedido - e que o Espírito Santo nos concede - é o de Jesus. No meio das dificuldades e das incompreensões, Ele vê a mão providencial do Pai nos lírios do campo, nas aves do céu (cf. Mt 6,28-29), alimenta a esperança na pequena semente que cresce (cf. Mc 4,30-33) e nos convida a elevar o nosso olhar e contemplar os campos que já estão dourados para a colheita (cf. Jo 4,35). Na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, o Papa Francisco nos exortou a esta leitura espiritual da realidade, dizendo: «O olhar da fé é capaz de reconhecer a luz que o Espírito Santo sempre irradia no meio da escuridão (...). A nossa fé é desafiada a entrever o vinho no qual a água pode ser transformada e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio» (n. 84).

Iluminados pela esperança do Evangelho e inspirando-nos no que o Apóstolo Pedro nos disse na Leitura (1Pd 2,4-10), que chama “pedras vivas” aos discípulos do Senhor, perguntemo-nos: como podemos hoje, aqui em Pavia, ser uma Igreja viva?

A primeira indicação do Apóstolo é essencial: permanecer unidos a Cristo, pedra viva, descartada pelos homens, mas escolhida por Deus. Cristo é o fundamento do edifício espiritual, é a pedra angular colocada como base do nosso caminho eclesial, da ação pastoral e da evangelização (cf. vv. 4-5).

Este ser construídos e construir em Cristo nos preserva do risco de nos dispersarmos e nos cansarmos com coisas secundárias, talvez boas, mas que não vão ao essencial. Naturalmente, somos chamados a ser realistas, e sabemos que nas comunidades paroquiais e na vida de uma Diocese há muitas urgências e muitos compromissos que exigem presença e múltiplas atividades. Porém, trata-se de reconduzir tudo ao centro, de construir sempre a partir da pedra angular, de impedir que as nossas ações se revelem dispersivas, centradas unicamente em nós mesmos e nos nossos esforços. Dado que o centro é Cristo, todos bebemos desta única fonte e submetemos os nossos esforços ao discernimento que deriva da sua luz e da sua Palavra. Assim fazemos crescer uma Igreja na qual caminhamos juntos, capaz de se renovar sem se dividir, na qual todos se reconhecem irmãos e trabalham com alegria a serviço do Reino de Deus.

Isto implica o que o vosso Bispo dizia no início: devemos aprender a ser comunidades cristãs centradas no essencial, mesmo que isto implique a renúncia a algumas estruturas e certezas do passado. O essencial é viver com Cristo e difundir o seu Evangelho deve ser a nossa preocupação. Recomendo-o, antes de tudo, aos presbíteros, que às vezes podem sofrer de uma sensação de dispersão interior, de cansaço pelas múltiplas incumbências: retornai sempre ao centro, unificai tudo na relação com o Senhor e descobri n’Ele a alegria da fraternidade presbiteral e do trabalho pastoral comum com os leigos. E recomendo-o também aos religiosos e religiosas, que muitas vezes conhecem o cansaço de atualizar o carisma a que pertencem, mas que sempre têm necessidade de recomeçar a partir de Cristo e partilhar os talentos recebidos, quer com outras comunidades religiosas, quer com o conjunto da Igreja diocesana.

Aderir a Cristo, pedra angular, também nos permite enfrentar as problemáticas atuais que dizem respeito à transmissão da fé e à prática religiosa. Em uma época na qual muitas pessoas parecem ter perdido o gosto espiritual ou, por várias razões, já não conseguem sentir como atraente a proposta da fé cristã para a sua vida, somos chamados antes de tudo a levar o anúncio do Evangelho, um anúncio alegre e libertador de Jesus Cristo, que faça emergir a beleza da fé para a nossa vida e para a nossa sociedade. Hoje há cada vez mais necessidade de acompanhar as pessoas na descoberta ou redescoberta da fé. Portanto, é preciso anunciar o núcleo do Evangelho, isto é, Jesus, que na sua Encarnação, Morte e Ressurreição nos revela o mistério de Deus e, ao mesmo tempo, o mistério que somos nós mesmos. «Uma pastoral de caráter missionário (...) se concentra no essencial, naquilo que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário» (Evangelii gaudium, n. 35).

Neste contexto, a figura de Santo Agostinho resplandece com uma luz preciosa. O seu pensamento, a história da sua conversão e a sua espiritualidade nos recordam o valor e o primado da interioridade: «Não saias de ti mesmo, volta para dentro de ti: a verdade habita no homem interior» (De vera religione, XXXIX, 72). A necessidade de regressar a nós mesmos, de não nos dispersarmos na fragmentação exterior, de procurar e encontrar um sentido que oriente a nossa vida e anime as nossas relações, é uma exigência comum a todos: hoje ela sobressai de várias maneiras, até mesmo na pressa e na dispersão da vida diária, sobretudo nas interrogações dos mais jovens.

Quando o nosso testemunho de fé é coerente e apaixonado, nós mesmos nos tornamos “pedras vivas” que compõem o edifício espiritual que é a Igreja. O estilo de vida dos cristãos, que nos primórdios era novo e surpreendente em relação ao mundo judaico e àquele pagão, deve sê-lo também hoje, no mundo atual. Com efeito, unidos a Cristo podemos expressar o nosso sacerdócio santo, oferecendo diariamente sacrifícios espirituais (cf. 1Pd 2,5). Entrelaçado de oração e de serviço ao próximo, este culto transforma a nossa vida em sinal do Evangelho através de escolhas, ações e relações.

Caríssimos, como pedras vivas, somos chamados a ser Igreja bem enraizada no território, Igreja que caminha no meio das dificuldades e das esperanças das pessoas, perita na arte de ouvir e de acompanhar, cuidando das relações com as famílias, com aqueles que se preparam para receber os Sacramentos e também com quem se aproxima ocasionalmente ou está afastado da vida de fé.

Sei que já sois animados por esta paixão pastoral e vos convido a cultivá-la sem desanimar, buscando alcançar todos com a alegria do Evangelho, valorizando o melhor da vossa história - pensemos nos oratórios - e experimentando novas possibilidades de encontro. Merece particular atenção o compromisso de tornar orgânicas as redes de pequenas comunidades que se reúnem nas casas em torno do Evangelho, abertas ao serviço da comunidade paroquial ou pastoral. A escuta da Palavra gera vivacidade espiritual, estimula o testemunho nos ambientes de vida - também através dos movimentos e associações -, impulsiona a nos fazermos próximos dos pobres. E, especialmente aqui em Pavia, realço a importância da pastoral universitária e do diálogo com a cultura. O estudo e a elaboração científica impulsionam os fiéis a conceber uma proposta de fé capaz de iluminar a busca da verdade, da justiça e da beleza que move a alma humana. Sei que começastes a dar passos significativos para assumir um estilo sinodal na vida comunitária, integrando o percurso tradicional das paróquias com novas iniciativas de evangelização. Convido-vos, portanto, a prosseguir neste percurso, aprendendo sempre mais a caminhar juntos, no discernimento comum e na elaboração de projetos partilhados, cultivando a fraternidade e promovendo a corresponsabilidade.

Queridos irmãos e irmãs, que Maria Santíssima, Mãe da Igreja, vos conceda o desejo ardente de viver e testemunhar o Evangelho, na caridade fraterna que nos torna um único povo a caminho rumo a Deus. Venerando as relíquias do santo padre Agostinho, peço que ele, juntamente com o vosso padroeiro, São Siro, interceda sempre por esta Igreja e pela cidade de Pavia. Obrigado!


Fonte: Santa Sé.

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