sexta-feira, 17 de julho de 2026

Homilia do Papa: Missa com os Cardeais (2026)

Consistório Extraordinário - Missa com os Cardeais
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 26 de junho de 2026

Caríssimos irmãos,
Estamos reunidos ao redor do altar do Senhor, junto ao túmulo de São Pedro, para dar início ao Consistório. Viemos de todas as partes do mundo para celebrar esta Eucaristia: junto com a nossa vida, ofereçamos a Deus as comunidades e os povos que trazemos no coração, bem como os projetos e as experiências pastorais, alegres e difíceis.

Esta diversidade de sentimentos e de pensamentos agora se concentra, isto é, encontra o centro luminoso que é Cristo. Ele mesmo, em pessoa, se dirige a nós dizendo: «Eu sou a videira verdadeira» (Jo 15,1). Através de Jesus a graça e a verdade fluem na nossa vida (cf. Jo 1,17), renovando-nos interiormente: estes dons divinos são a seiva fecunda também do Consistório que hoje iniciamos. É o próprio Evangelho que estabelece a condição para que seja frutífero: «Permanecei em mim e Eu permanecerei em vós» (Jo 15,4). Por um lado, o Mestre nos adverte: «Sem mim nada podeis fazer» (v. 5); por outro, deseja que os seus discípulos deem «muito fruto» (v. 8). Sim, muito fruto: a graça de Deus não provoca atrofiamento em quem a acolhe, mas um desenvolvimento vigoroso. O Verbo eterno, com efeito, se fez homem para que todos «tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10). Iniciada na fé, esta vida é ainda reforçada pela provação da poda, porque é cultivada pela solicitude do Pai.


Portanto, enquanto pedimos a Deus que nos conceda força e sabedoria, é significativo que o nosso Consistório tenha lugar nas vésperas da Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Detemo-nos juntos nesta memória, que recorda as colunas da Igreja Católica e Romana, os dois missionários mártires cuja pregação se fundiu com a sua vida, a ponto de se tornarem parte das Sagradas Escrituras.

Ao escutarmos hoje as palavras de São Paulo aos coríntios, podemos notar a feliz consonância com aquelas do Evangelho. Com efeito, os diversos carismas, os ministérios e a atividade eclesiais são como que os ramos da única videira, isto é, do único Senhor (cf. 1Cor 12,4-6), que infunde o Espírito Santo na sua Igreja. A esta unidade orgânica corresponde o critério que torna bons e agradáveis todos esses serviços eclesiais: o critério do bem comum (cf. v. 7).

Caríssimos, da Palavra de Deus que acabamos de ouvir [1] gostaria de extrair algumas orientações para o nosso discernimento nestes dias.

Em primeiro lugar, o exemplo dos Santos Pedro e Paulo nos encoraja a partilhar na fé a verdadeira liberdade. Com efeito, é precisamente a relação com o Senhor Jesus que nos liberta do pecado e do medo: enquanto nos chama a segui-lo, Ele mesmo nos envia ao mundo como sucessores dos Apóstolos. O anúncio do Evangelho, a celebração os Sacramentos e a dedicação ao rebanho do Senhor se realizam e dão fruto na medida em que cremos n’Ele, o Bom Pastor. A fé é aquela virtude que, embora nunca deve ser dada como garantida, dá vida à Igreja, pois corresponde à graça que alimenta os ramos da única videira. A Igreja viva é a Igreja que crê, pelo dom do Espírito Santo derramado nos nossos corações: esta Igreja dá muito fruto. Como a graça divina precede a liberdade humana, assim a fé da Igreja precede a nossa e pede para ser testemunhada com fervor. Esta missão tem Cristo como princípio e fim. Citando as palavras do salmista: «Dia após dia anunciai sua salvação, manifestai a sua glória entre as nações» (Sl 95,2-3).

Em segundo lugar, peçamos o dom da paz na unidade. Enquanto convidamos todos os povos à fé, na qual somos verdadeiramente livres, tensões internacionais e conflitos ferem gravemente a família humana. No entanto, não faltam - antes, se multiplicam - na Igreja e no mundo iniciativas e experiências que apelam ao respeito pela dignidade humana, pela justiça, pelo direito e, simplesmente, pelo que é humano. Isto é motivo de esperança, pois atesta a beleza da obra de Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, como sinal da sua glória no mundo. Quando este sinal é ferido, todos somos feridos. Quando é corrompido, todos sofremos. Quando é assassinado, todos nos sentimos dilacerados. Por isso a guerra nunca é digna do homem e nunca é abençoada por Deus, pois o Criador nos dotou de inteligência e vontade para resolver os conflitos como seres humanos e não como animais, mesmo que dotados de armas hipertecnológicas. A unidade da família humana precede cada povo e cada Estado. Não se trata apenas de um dado biológico: é um princípio ético. A paz é um dever de justiça, porque somos uma única família humana, uma magnifica humanitas que encontra em Cristo sua Cabeça e Redentor.

Refletindo sobre a Encíclica que promulguei no passado dia 15 de maio, é necessário prosseguir o caminho traçado por São Paulo VI: quando ele «introduziu a expressão “civilização do amor”, o mundo era marcado pela Guerra Fria, pela corrida armamentista e por fortes desequilíbrios econômicos. Naquele contexto, a Igreja apontava um caminho alternativo à oposição ideológica entre sistemas, imaginando uma ordem social na qual justiça e caridade se entrelaçam» (Encíclica Magnifica humanitas, n. 186; cf. São Paulo VI, Regina Coeli, 17 de maio de 1970). É assim, com efeito, que o testemunho cristão se torna profecia de um mundo novo, evangelização e serviço, projeto cultural e social que promove integralmente o desenvolvimento humano. Enquanto anuncia o Evangelho, entre alegrias e perseguições, a Igreja nunca toma partido: é para todos, e a cada um dirige a mesma palavra de conversão e de salvação.

Em terceiro lugar, saboreemos hoje e sempre a concórdia na obediência, isto é, na escuta que reconhece o dom do Verbo, que se fez carne por nós. Através deste exercício, o Espírito Santo nos orienta, indicando Ele mesmo os problemas e as oportunidades pastorais, purificando as intenções e corrigindo aquilo que desvia do caminho comum. A implementação do Sínodo, pela qual nos empenhamos, convida todos a avançar na unidade da fé, na promoção da paz, na obediência à Palavra viva, que é Jesus. Nesta perspectiva, «as enormes e rápidas mudanças culturais exigem que prestemos constante atenção ao buscar expressar as verdades de sempre em uma linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade» (Francisco, Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 41). Com efeito, o único Verbo, que se fez homem, se expressa em todas as línguas: o Cristo morto e ressuscitado é a videira verdadeira que dá fruto através de todas as culturas, que os cristãos transformam a partir de dentro. Assim, enquanto as ideologias do mundo murcham, o Espírito Santo faz florescer na Igreja o entendimento fraterno, a caridade, o impulso missionário.

Trabalhando juntos, a nossa colegialidade resume a sinodalidade na qual todos os batizados participam, na unidade do povo de Deus. Sinodalidade e colegialidade são, com efeito, formas de fraternidade cristã, que nos une como batizados e como Bispos. Por isso, a ajuda que me podereis prestar, no exercício do ministério petrino, encontra em mim alguém que pede, não alguém que manda. Com efeito, a autoridade do primado é própria de quem escuta e, só por causa disso, guia; de quem aprende e, só por causa disso, ensina, sempre no seguimento do único Mestre. Que a intercessão dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo nos acompanhe neste apaixonante caminho.


Fonte: Santa Sé.

Nota:
[1] Pela homilia do Papa é razoável supor que foi celebrada a Missa “pela Igreja” com a seguintes leituras: 1Cor 12,3b-7.12-13; Sl 95; Jo 15,1-8.

Nenhum comentário:

Postar um comentário