Viagem Apostólica à Espanha
Santa Missa em Barcelona
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica da Sagrada Família (Barcelona)
Quarta-feira, 10 de junho de 2026
Foi celebrada a Missa em ação de graças com leituras escolhidas especificamente para a ocasião, em vista da bênção da torre de Jesus Cristo: Ap 21,1-7; Sl 8; Jo 8,21-30.
«Ó Senhor, nosso Deus, como é grande vosso nome por todo o
universo!» (Sl 8,2.10).
Com o louvor deste Salmo, tão cheio de alegria e admiração, saúdo
todos vós, queridos irmãos e irmãs. Expresso o meu reconhecimento a Suas
Majestades, agradeço ao Cardeal Juan José Omella, Arcebispo de Barcelona, bem
como aos demais irmãos no Episcopado e a todos aqueles que se unem à nossa
oração: sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas. Nesta tarde de festa
para toda a cidade de Barcelona, estendo a minha grata saudação às autoridades
públicas, assim como aos membros de outras comunidades cristãs e de outras religiões
que participam na nossa ação de graças.
Hoje a Basílica da Sagrada Família nos acolhe nesta bela cidade,
abrindo as suas portas como se fossem os seus braços para convidar cada um a
este altar e a escutar a Palavra de Deus. É um templo que nos constitui em uma
família amada pelo Senhor, alimentada pela sua própria vida na Eucaristia.
Assim é com la ciutat comtal [cidade condal] e com toda a
Catalunha que se reúnem neste templo, igualmente sinal de unidade e concórdia,
e elevam o seu olhar para se encontrar com o rosto de Deus Pai, resplandecente
no seu Filho que se fez homem, Jesus Cristo.
Enquanto damos graças ao Senhor pela sua caridade para conosco, o louvamos
pelo que Ele realiza em nossas vidas. Damos graças, em particular, por esta
extraordinária Basílica, que o Papa Bento XVI consagrou em 2010, recordando que
é um sinal visível do Deus invisível, para cuja glória se erguem as suas torres
(cf. Homilia na Dedicação da Basílica da Sagrada Família, 07
de novembro de 2010). Dando continuidade à oração do meu Predecessor, dentro de
alguns momentos abençoarei a torre mais alta, a de Jesus Cristo.
Esta igreja é um edifício único, composto por muitas pedras. Uma casa
que cresce com constância ao longo dos anos, seguindo um mesmo projeto. Todos
nós somos as pedras vivas desta obra, que tem Cristo como fundamento e ápice,
princípio e fim. Muito mais que um monumento, a Basílica da Sagrada Família
continua sendo hoje uma obra em construção, que nos recorda como a vida cristã
é sempre um caminho, porque se trata de um projeto que é levado a cabo por
Deus.
Portanto, não habitamos uma obra inacabada, mas um templo ainda em
construção. Sua imperfeição não é um defeito, pois testemunha um desejo; não
significa uma carência, mas expressa uma promessa que queremos honrar com
coerência. Nossa gratidão se transforma então em compromisso, enquanto
cooperamos no projeto de Deus, ou seja, na edificação à qual Ele mesmo nos
chama. Dado que somos templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 6,16.19),
esta obra coincide com a nossa vida, que Deus concebe como uma obra-prima que
devemos realizar juntos e para a qual nos chama a colaborar com Ele (cf. 1Cor 3,9).
A este respeito, conservamos no nosso coração as palavras que o Senhor
dirigiu ao rei Davi: «És tu que me construirás uma casa para Eu habitar?» (2Sm 7,5).
Pelo contrário, «o Senhor te anuncia que Ele mesmo te fará uma casa» (v. 11).
Com este anúncio, a Escritura nos ensina que não somos nós que damos um lugar a
Deus, como se fosse um elemento de uma série ou parte de um todo maior do que
Ele. Antes, é Deus quem nos dá um lugar, e o lugar que nos oferece é o seu
próprio coração: o lugar do Filho, para nós que éramos estrangeiros; o lugar do
Amado, para nós que somos pecadores.
Esta sua vontade se cumpre através de Jesus; podemos então compreender
o sentido do que ouvimos no Evangelho, quando o Senhor disse aos fariseus: «Se
não acreditais que Eu sou, morrereis nos vossos pecados» (Jo 8,24).
Palavras fortes, que não são, de modo algum, uma ameaça ou uma chantagem. São
um convite à salvação, isto é, um apelo à liberdade por parte de Cristo, que
deseja para nós o bem definitivo, eterno. Diante da ameaça do mal, o Senhor
está sempre conosco, sempre a nosso favor. “Eu sou”: este é o Nome Santíssimo que
Deus entregou a Moisés na sarça ardente, revelando sua fidelidade inabalável.
Feito homem, Ele se torna para nós o Emmanuel, fonte de graça e perdão, de salvação
e de vida nova. Queridos irmãos, não podemos acreditar em Jesus e promover a
guerra. Não podemos acreditar em Jesus e matar o inocente. Não podemos
acreditar em Jesus e abandonar quem sofre, quem chora, quem foge da miséria.
Portanto, recordemos nesta tarde que la Creu de Crist [a
Cruz de Cristo] que coroa esta Basílica, és la Creu dels últims [é
a Cruz dos últimos] que se tornam os primeiros, dos pecadores que se tornam
santos, dos mortos que ressuscitarão. As três fachadas da Sagrada Família o atestam:
o Primeiro se faz o último por nós na Natividade; com o seu sacrifício, nos redime
através da Paixão; sua morte nos dá a vida eterna, tornando-nos participantes
da Glória divina. Ao admirar a torre de Jesus Cristo, elevamos o olhar
para Ele, para Aquele que nos revela apenas a verdade de Deus e a verdade
de nós mesmos. Olhando para Cristo podemos ver o mundo com olhos renovados: a
torre da cruz transforma-se então em estandarte de caridade, porque Deus nos
ama assim, transformando um instrumento de morte em sinal de esperança. Na cruz
de Jesus nossa fé atinge o seu ápice, como professa a inscrição que se encontra
na base da agulha: “Tu solus Sanctus, Tu solus Dominus, Tu solus Altissimus”
[Só vós sois o Santo, só vós o Senhor, só vós o Altíssimo]. Esta cruz brilha de
dia, refletindo a luz do sol, e brilha de noite, iluminando a cidade como um
farol aberto para o Mediterrâneo.
Sim, a luz de Cristo brilha nas trevas, embora as trevas não a tenham acolhido
(cf. Jo 1,5.11). No entanto, esta rejeição não faz com que
falte o amor de Deus: «Quando tiverdes elevado o Filho do homem - diz o Senhor
-, então sabereis que Eu sou e que nada faço por mim mesmo, mas apenas falo
aquilo que o Pai me ensinou» (Jo 8,28). É necessário passar pela Paixão
do Crucificado para sermos iluminados pela Glória do Ressuscitado: com efeito, desde
sempre o Pai ensina a dar a vida e o Filho, que a recebe d’Ele, a dá a todos
com o poder do Espírito Santo. Eis porque precisamente a cruz é o sinal
luminoso do seu amor.
É a fé que dá forma às pedras e sentido ao edifício que habitamos
juntos. Portanto, na nossa oração descobrimos o vínculo originário das coisas
com Deus, Criador do céu e da terra: Ele é o artista que imprimiu o seu
esplendor no cosmos. Criado à sua imagem, o homem responde à obra de Deus com sua
própria criatividade: é assim que o artista converte o talento em louvor e a
criatividade em testemunho do próprio Criador. Como arquiteto ardente de fé, o Venerável
Antoni Gaudí concebeu estes espaços com o desejo de narrar os mistérios da vida
do Senhor: assim, nos propôs uma peregrinação espiritual, que conduz ao
encontro com Cristo nascido, morto e ressuscitado por nós. Junto com Gaudí, de
quem comemoramos o centenário da morte, nesta tarde recordamos e agradecemos
todos os promotores e benfeitores, os artistas e os trabalhadores que cooperam
na construção de uma obra-prima arquitetônica, que é também uma eloquente catequese
feita de pedras, cores e luz. Na sua sabedoria, a Igreja renova assim a Biblia
pauperum [Bíblia dos pobres] das antigas Catedrais, que são em si
mesmas mensagens de evangelização de grande riqueza. Nesta era da imagem, é
ainda mais evidente como a arte e a beleza são eminentes canais de
evangelização.
Queridos irmãos e irmãs, a beleza deste templo nos anima a aprender
cada vez mais do nosso Mestre e Senhor a arte de viver segundo o seu Evangelho.
Enquanto elevamos o olhar para Ele, o Crucificado Ressuscitado,
comprometamo-nos a elevar o rosto daqueles que jazem no pó (cf. 1Sm 2,8).
E demonstremos assim que a Sagrada Família é a igreja mais alta do mundo, não
para se destacar em classificações mundanas, mas para guiar os passos do povo
de Deus que peregrina na terra da Catalunha, com a cruz que ilumina o caminho,
como uma lâmpada acesa na espera do regresso do Esposo.
Bendito seja Deus para sempre!
Fonte: Santa Sé.


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