terça-feira, 21 de julho de 2026

Homilia do Papa: São Pedro e São Paulo (2026)

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo
Santa Missa e Imposição do Pálio aos novos Arcebispos Metropolitanos
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Segunda-feira, 29 de junho de 2026

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje, em uma única Solenidade, recordamos São Pedro e São Paulo, padroeiros da cidade e da Diocese de Roma: um deles escolhido por Jesus como pastor do seu rebanho e o outro eleito como Apóstolo dos gentios. Neles veneramos duas colunas da Igreja.

Pedro, guardião do Povo de Deus, aparece muitas vezes no Novo Testamento empenhado em conservar a comunhão entre os irmãos. É ele quem, no lago da Galileia, depois de uma noite de trabalho aparentemente inútil, diz ao Mestre: «Nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes» (Lc 5,5), e volta a fazer-se ao largo, levando os outros consigo. É também ele que, quando muitos se afastam de Jesus, após o duro discurso sobre o Pão da Vida, diz ao Messias: «A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6,68), e permanece, com os outros Onze. É ainda ele que, em Cesareia, reconhece em Jesus o Filho de Deus e se faz voz de todos na profissão da única fé, como ouvimos no Evangelho (cf. Mt 16,13-19). Após a Ressurreição, lançando-se à água e precedendo, a nado, os outros nas margens do lago, é ele o primeiro a chegar até Cristo, para renovar humildemente o seu amor e receber a confirmação da sua missão (cf. Jo 21,1-17).


E a esta missão, Pedro mantém-se fiel, mesmo quando, por exemplo, em Jerusalém, a questão da admissão ao Batismo dos pagãos não circuncisos corre o risco de dividir a comunidade. Ele reúne os irmãos, os escuta e, por fim, guiado pelo Espírito Santo, toma a decisão, preservando a comunhão e inaugurando uma nova era para todo o Povo de Deus. Afirma ele: «É pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles» (At 15,11).

Esta grandeza de espírito não significa que Pedro seja perfeito. Durante a Paixão, nega o Mestre, para depois chorar lágrimas sinceras de arrependimento (cf. Lc 22,54-62); e o próprio Paulo, em diversas circunstâncias, repreende-o pela incoerência de alguns dos seus comportamentos (cf. Gl 2,11-14). Porém, sabe reconhecer os seus erros e arrepender-se, sem desanimar nem desistir da missão de anunciar o Evangelho e reunir o rebanho de Cristo, chegando ao martírio, que recebe precisamente aqui, em Roma, perto de onde nos encontramos.

Esta solicitude fiel e paciente pela unidade está bem representada no símbolo das chaves, com o qual frequentemente o identificamos (cf. Mt 16,19). Com efeito, uma chave não derruba portas, mas as abre e fecha, procurando no seu interior as alavancas certas e acompanhando os seus movimentos, para que os bloqueios desapareçam, os trincos deslizem e as dobradiças girem livremente, unindo os espaços e transformando tantos compartimentos isolados em uma única casa acolhedora. Da mesma forma, a comunhão na Igreja não se constrói endurecendo nas próprias posições, mas procurando, no coração de todos, os pontos de encontro na Verdade, à luz da qual cada um se torna, para o outro, instrumento de crescimento.

Nesta perspectiva, poderíamos interpretar a tarefa confiada pelo Senhor a Pedro e aos seus Sucessores, em benefício de todo o Povo Santo de Deus: escutar, com a ajuda d’Ele, as vozes de cada um, discernir as inspirações, orientar os caminhos, corrigir os erros, instruir, encorajar, exortar e acompanhar os irmãos para que, dóceis à ação do mesmo Espírito (cf. 1Cor 12,1-11), cooperem para a salvação uns dos outros e de toda a humanidade. Porém, o exemplo de Pedro é também um convite a cada cristão se tornar construtor de unidade, colocando Deus no centro da sua existência e aproximando-se dos irmãos, atento às suas circunstâncias e necessidades (cf. Francisco, Catequese, 09 de outubro de 2024), para viver com eles na caridade e assim levar a bom termo o anúncio do Evangelho (cf. 2Tm 4,17).

Este é também o ensinamento de Paulo - o outro grande Apóstolo que hoje celebramos -, incansável anunciador da Boa Nova. Também ele tem símbolos distintivos: o livro e a espada, estreitamente unidos entre si. O autor da Carta aos Hebreus os explica bem ao escrever: «A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante que cortante espada de dois gumes», capaz de penetrar «até dividir alma e espírito» e de discernir «os pensamentos e as intenções do coração» (Hb 4,12).

Foi isso que Deus operou no coração do jovem Saulo, alcançando-o (cf. Fl 3,12) e levando-o primeiro a converter-se ao Evangelho, assumindo um novo nome, depois a anunciá-lo por todo o mundo e, por fim, nesta mesma cidade, a dar testemunho dele até o dom da vida, como Pedro. O Apóstolo dos gentios deixou-se transformar pelo poder da Palavra de Deus, que o tirou da violência para conduzi-lo pelo caminho do amor.

Ao comentar a sua conversão e missão, Santo Agostinho dizia: «Enquanto se dirigia [a Damasco] com o coração fervilhando de ameaças e massacres, foi chamado pelo nome e derrubado por terra pela voz celeste (cf. At 9,1-7), ou seja, pelo Verbo que o chamava» (Sermão 299/A augm., 6). E acrescentava: «Deus tomou o perseguidor da Igreja e fez dele um mensageiro da paz. Perdoou-lhe todos os pecados e colocou-o em um ministério onde ele pudesse perdoar os pecados dos outros» (ibid.).

Caríssimos, hoje para nós é importante olhar para estes dois santos - Pedro e Paulo - a fim de compreender como, no que nos diz respeito, podemos ser apóstolos e construtores de unidade, servos generosos da verdade na caridade. Com este espírito, preparamo-nos para celebrar o antigo e sugestivo rito da entrega dos pálios aos Arcebispos Metropolitanos. Estas faixas de lã branca, embelezadas com cruzes, expressam, na verdade, o compromisso de cada Pastor - mas também de cada cristão - de tomar sobre os próprios ombros os irmãos e irmãs que lhe são confiados, como outros tantos cordeiros do rebanho do Senhor, e de sacrificar por eles forças, tempo, cansaços e até mesmo a vida, para que o Evangelho chegue a todos e o mundo inteiro encontre nele harmonia e concórdia (cf. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, n. 38).

Com estes sentimentos, tenho a alegria de saudar cordialmente os membros da Delegação do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, enviada pelo querido irmão Sua Santidade Bartolomeu e liderada por Sua Eminência Emmanuel, Metropolita de Calcedônia.

Rezemos a São Pedro e São Paulo para que nos apoiem no caminho da comunhão, seguindo os passos do Salvador. É a via que Ele traçou, pela qual intercedeu ao Pai na Última Ceia (cf. Jo 17,21-23), a meta que nos ensinou a ansiar com esperança confiante (cf. Bento XVI, Homilia na Solenidade de São Pedro e São Paulo, 29 de junho de 2012).


Fonte: Santa Sé.

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