sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Meditações da Via Sacra no Coliseu 2011

Nesta primeira sexta-feira da Quaresma, como é tradição neste blog, publicamos um modelo de meditações para a Via Sacra. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a Via Sacra.

Nesta ocasião recordamos a Via Sacra presidida pelo Papa Bento XVI (†2022) junto ao Coliseu na noite da Sexta-feira Santa de 2011Para saber mais, confira nossa postagem sobre a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.

As meditações foram escritas pela Irmã Maria Rita Piccione, O.S.A., Presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália. Com essa postagem, portanto, honramos o Papa Leão XIV, que também pertence à Ordem de Santo Agostinho (O.S.A.).

Como ilustrações, por sua vez, propomos as esculturas realizadas pelo artista Mickey Wells para o Santuário da Paixão de Cristo (Shrine of Christ’s Passion) na cidade de St. John (Indiana, EUA), próximo de Chicago (Illinois), cidade natal do primeiro Papa norte-americano [1].

Ofício das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice
Via Sacra no Coliseu presidida pelo Papa Bento XVI
Sexta-feira Santa, 22 de abril de 2011

Meditações da Irmã Maria Rita Piccione, O.S.A.
Presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália

Apresentação

«Se alguém contemplasse de longe a sua pátria, mas no meio estivesse o mar, veria aonde chegar, mas não disporia dos meios para chegar. O mesmo se passa conosco... Vislumbramos a meta a alcançar, mas no meio está o mar deste século... Ora, para que pudéssemos dispor também dos meios para chegar, veio de lá Aquele para quem nós queríamos ir... e forneceu-nos o madeiro com o qual atravessar o mar. De fato, ninguém pode atravessar o mar deste século se não é levado pela cruz de Cristo... Não abandones [pois] a cruz, e a cruz te levará».
Estas palavras de Santo Agostinho, tomadas do seu Comentário ao Evangelho de João (2, 2), nos introduzem na oração da Via Sacra (Via Crucis).


A Via Sacra, com efeito, quer estimular em nós este gesto de nos agarrarmos ao madeiro da Cruz de Cristo ao longo do mar da vida. A Via Sacra, portanto, não é uma simples prática de devoção popular com caráter sentimental, mas exprime a essência da experiência cristã: «Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga» (Mc 8,34).

(...) No início de cada estação, depois da clássica enunciação, aparece uma brevíssima frase que pretende oferecer a chave de leitura da respectiva estação. Podemos recebê-la idealmente como pronunciada por uma criança, quase como um apelo à simplicidade dos pequeninos, que sabem captar o coração da realidade, e em um espaço simbólico de acolhida, na oração de Igreja, da voz da infância por vezes ofendida e explorada.

A Palavra de Deus proclamada é tomada do Evangelho de João, exceto nas estações sem texto evangélico de referência ou que o têm em outros Evangelhos. Com esta escolha se pretende evidenciar a mensagem de glória da Cruz de Jesus.
Em seguida o texto bíblico é ilustrado por uma breve reflexão, clara e original.

A oração dirigida ao «Humilde Jesus» - expressão cara ao coração de Agostinho (Confissões 7, 18, 24), mas que abandona o adjetivo humilde com a crucificação-exaltação de Cristo - é a confissão que a Igreja-Esposa dirige ao Esposo que a redimiu com o seu Sangue.

Segue-se uma invocação ao Espírito Santo, que guia os nossos passos e derrama no nosso coração o amor divino (cf. Rm 5,5): é a Igreja apostólico-petrina que bate à porta do coração de Deus.

Cada uma das estações individualiza uma pegada particular deixada por Jesus ao longo do Caminho da Cruz, que o fiel é chamado a imitar. Assim os passos que marcam o caminho da Via Sacra são: verdade, honestidade, humildade, oração, obediência, liberdade, paciência, conversão, perseverança, essencialidade, realeza, dom de si mesmo, maternidade, expectativa silenciosa... [2].

Introdução
«Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais os seus passos» (1Pd 2,21).

Irmãos e irmãs em Cristo,
Encontramo-nos esta noite no sugestivo cenário do Coliseu romano, convocados pela Palavra há pouco proclamada, para percorrer, juntamente com o Papa Bento XVI, o Caminho da Cruz de Jesus.
Fixemos o nosso olhar interior em Cristo e o invoquemos com coração ardente: «Peço-vos, Senhor, dizei à minha alma: Eu sou a tua salvação! Dizei-o de maneira que eu escute!» (Santo Agostinho, Confissões 1, 5, 5) [Doravante todas as citações que não indiquem o autor são de Santo Agostinho].
A sua voz reconfortante cruza-se com o fio débil do nosso «sim» e o Espírito Santo, dedo de Deus, tece a trama segura da fé que conforta e conduz.
Seguir, acreditar, rezar: eis os passos simples e seguros que sustentam a nossa estrada ao longo do Caminho da Cruz e nos deixam vislumbrar, gradualmente, o caminho da Verdade e da Vida.

Agonia de Jesus no Getsêmani

Oração inicial

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. R. Amém.

Oremos (Breve pausa de silêncio)
Senhor Jesus, Vós nos convidais a seguir-vos também nesta vossa hora extrema. Em Vós está cada um de nós e nós, embora muitos, somos um só em Vós [cf. Exposição sobre o Salmo 127]. Na vossa hora está presente a hora da provação da nossa vida, nos seus aspectos mais crus e duros; está presente a hora da paixão da vossa Igreja e de toda a humanidade.
Está presente a hora das trevas: quando «abalaram-se os fundamentos da terra» (Is 24,18) e o homem, «parcela da vossa criação» (Confissões 1, 1, 1), geme e sofre com ela; quando as várias máscaras da mentira ridicularizam a verdade e as lisonjas do sucesso sufocam o apelo íntimo da honestidade; quando o vazio de sentido e de valores anula a obra educativa e a desordem do coração desfigura a ingenuidade dos pequeninos e dos frágeis; quando o homem perde o caminho que o leva ao Pai e já não reconhece em Vós o rosto belo da própria humanidade.
Nessa hora se insinua a tentação da fuga, o sentimento da desolação e da angústia, enquanto a traça da dúvida corrói a mente e, como no palco, o pano da escuridão cai sobre a alma.
E Vós, Senhor, que ledes no livro aberto do nosso frágil coração, voltais a nos perguntar nesta noite, como um dia aos Doze: «Vós também quereis ir embora?» (Jo 6,67).
Não, Senhor, não podemos nem queremos ir embora, porque «só Vós tendes palavras de vida eterna» (Jo 6,68), só Vós sois «a palavra da verdade» (Ef 1,13) e a vossa Cruz é a única «chave que nos abre os segredos da verdade e da vida» (Exposição sobre o Salmo 45, 1).
«Nós vos seguiremos para onde quer que fordes!» (cf. Mt 8,19).
Nesta adesão está a nossa adoração, enquanto, do horizonte do “ainda não”, um raio de alegria beija o “já” do nosso caminho. R. Amém.

I Estação: Jesus é condenado à morte
Jesus se cala, guarda em si a verdade

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo João (Jo 18,37-40)
Pilatos disse a Jesus: «Então tu és rei?». Jesus respondeu: «Tu o dizes: Eu sou rei! Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz». Pilatos disse a Jesus: «O que é a verdade?». Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus, e disse-lhes: «Eu não encontro nenhuma culpa nele. Mas existe entre vós um costume, que pela Páscoa eu vos solte um preso. Quereis que vos solte o rei dos judeus?». Então, começaram a gritar de novo: «Este não, mas Barrabás!». Barrabás era um bandido.


Pilatos não encontra motivo de condenação em Jesus, assim como não encontra em si mesmo a força para se opor a essa condenação.
O seu ouvido interior permanece surdo à palavra de Jesus e não compreende o seu testemunho da verdade.
«Ouvir a verdade é obedecê-la e acreditar nela» (Comentário ao Evangelho de João 115, 4). É viver livremente sob a sua orientação e entregar-lhe o próprio coração.
Pilatos não é livre: está condicionado desde o exterior, mas aquela verdade escutada continua a ressoar no seu íntimo como um eco que bate à porta e inquieta.
Por isso sai ao encontra os judeus; «saiu de novo», sublinha o texto, como que um impulso a fugir de si mesmo.
E a voz que lhe chega de fora prevalece sobre a Palavra que está dentro.
Aqui se decide a condenação de Jesus, a condenação da verdade.

Humilde Jesus, também nós nos deixamos condicionar por aquilo que está fora. Já não sabemos escutar a voz sutil, exigente e libertadora da nossa consciência que, dentro, exorta e convida amorosamente: «Não saias fora, reentra em ti mesmo: é no teu homem interior que habita a verdade» (A verdadeira religião 39, 72).

Vinde, Espírito da Verdade, ajudai-nos a encontrar no «homem oculto no íntimo do coração» (cf. 1Pd 3,4) o Rosto Sagrado do Filho que nos renova na Semelhança Divina!

Pai nosso...


II Estação: Jesus é carregado com a Cruz
Jesus leva a cruz, carrega sobre si o peso da verdade

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo João (Jo 19,6-7.16-17)
Quando viram Jesus, os sumos sacerdotes e os guardas começaram a gritar: «Crucifica-o! Crucifica-o!». Pilatos respondeu:  «Levai-o vós mesmos para o crucificar, pois eu não encontro nele crime algum». Os judeus responderam: «Nós temos uma Lei, e, segundo esta Lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus». (...) Então Pilatos entregou Jesus para ser crucificado, e eles o levaram. Jesus tomou a cruz sobre si e saiu para o lugar chamado «Calvário», em hebraico «Gólgota».


Pilatos hesita, procura um pretexto para soltar Jesus, mas cede à vontade que prevalece e que grita, que se apela à Lei e faz insinuações.
Continua a repetir-se a história do coração ferido do homem: a sua mesquinhez, a sua incapacidade de elevar o olhar de si mesmo para não se deixar enganar pelas ilusões da pequena compensação pessoal e, assim, voar alto, impulsionado pelo voo livre da bondade e da honestidade.
O coração do homem é um microcosmo.
Nele se decidem os grandes destinos da humanidade, se resolvem ou se agravam os seus conflitos. Mas o ponto decisivo é sempre o mesmo: acolher ou perder a verdade que liberta.

Humilde Jesus, na contínua sucessão dos dias da vida o nosso coração olha para baixo, para o seu pequeno mundo, e, totalmente absorvido pela contabilidade do próprio bem-estar, fica cego à mão do pobre e do indefeso que mendiga atenção e pede ajuda. Quando muito se comove, mas não se move.

Vinde, Espírito da Verdade, cativai o nosso coração e atraí-o a Vós. «Guardai sadio o seu paladar interior, para que possa saborear e beber a sabedoria, a justiça, a verdade, a eternidade» (Comentário ao Evangelho de João 26, 5).

Pai nosso...

Cuius ánimam geméntem, contristátam et doléntem, pertransívit gládius.

III Estação: Jesus cai pela primeira vez
Jesus cai, mas, manso e humilde, se levanta

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo Mateus (Mt 11,28-30)
«Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve».


As quedas de Jesus ao longo do Caminho da Cruz não pertencem à Sagrada Escritura; são um legado da piedade tradicional, guardado e cultivado no coração de tantos orantes.
Na sua primeira queda, Jesus nos dirige um convite, nos abre um caminho, inaugura uma escola para nós.
É o convite a ir ter com Ele na experiência da impotência humana, para descobrir nela o enxerto da Potência divina.
É o caminho que conduz à fonte da autêntica saciedade, aquela da Graça que basta.
É a escola onde se aprende a mansidão que acalma a rebeldia e onde a confiança toma o lugar da presunção.
Da cátedra da sua queda Jesus nos propõe sobretudo a grande lição da humildade, «o caminho que o levou à Ressurreição» (Exposição sobre o Salmo 127, 10). O caminho que, depois de cada queda, nos dá a força para dizer: «Agora recomeço, Senhor; mas convosco, não sozinho!»

Humilde Jesus, as nossa quedas, tecidas de limitações e de pecado, ferem o orgulho do nosso coração, o fecham à graça da humildade e obstaculizam o caminho que nos leva ao vosso encontro.

Vinde, Espírito da Verdade, libertai-nos de toda a pretensão de autossuficiência e concedei-nos reconhecer em cada uma das nossas quedas um degrau da escada para subir até Vós!

Pai nosso...

O quam tristis et afflícta fuit illa benedícta Mater Unigéniti!

IV Estação: Jesus encontra sua Mãe
Junto à Cruz de Jesus «está» a Mãe: esta é a sua oração e a sua maternidade

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo João (Jo 19,25-27)
Perto da cruz de Jesus estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: «Mulher, este é o teu filho!». Depois disse ao discípulo: «Esta é a tua mãe!». Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo.


São João nos relata que a Mãe está junto à Cruz de Jesus, mas nenhum evangelista nos fala diretamente de um encontro entre ambos.
Na realidade, nesse «estar» da Mãe se concentra a expressão mais densa e alta do encontro. Na aparente estaticidade do verbo estar, vibra a íntima vitalidade de um dinamismo.
É o dinamismo intenso da oração, que se conjuga com a sua pacata passividade. Rezar é deixar-se envolver pelo olhar amoroso e verdadeiro de Deus, que nos revela a nós mesmos e nos envia em missão.
Na oração autêntica, o encontro pessoal com Jesus torna mãe e discípulo amado, gera vida e transmite amor. Dilata o espaço interior da acolhida e tece místicos laços de comunhão, confiando-nos um ao outro e abrindo o tu ao nós da Igreja.

Humilde Jesus, quando as adversidades e as injustiças da vida, o sofrimento inocente e a cruel violência nos fazem investir contra Vós, convidais-nos a estar, como vossa Mãe, aos pés da Cruz.
Quando as nossas expectativas e as nossas iniciativas, desprovidas de futuro ou marcadas pelo fracasso, nos levam a cair no desespero, Vós nos chamais à força da esperança. Verdadeiramente tínhamos esquecido a força desse estar como expressão do rezar!

Vinde, Espírito da Verdade, sede o «grito do nosso coração» (Exposição sobre o Salmo 118, 29, 1) que, incessante e inexprimível, está confiante na presença de Deus!

Pai nosso...

Quae maerébat et dolébat pia Mater, cum vidébat Nati poenas íncliti.

V Estação: Jesus é ajudado por Simão de Cirene a levar a Cruz
Jesus, ao longo do caminho da Paixão, aprende a obediência de amor

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo Lucas (Lc 23,26)
Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para carregá-la atrás de Jesus.


Simão de Cirene é um homem retratado pelos evangelistas com particular precisão de nome e proveniência, família e atividade; é um homem fotografado em um lugar e um tempo determinados, de certo modo forçado a levar uma cruz que não é sua. Na realidade, Simão de Cirene é cada um de nós. Recebe o madeiro da Cruz de Cristo, como nós um dia recebemos e acolhemos o seu sinal no santo Batismo.
A vida do discípulo de Jesus é esta obediência ao sinal da Cruz, em um gesto cada vez mais marcado pela liberdade do amor. É o reflexo da obediência do seu Mestre. É deixar-se, com pleno abandono, instruir como Ele pela geometria do amor (cf. Ef 3,18), pelas próprias dimensões da Cruz: «a largura das obras de bondade; o comprimento da perseverança nas adversidades; a altura da expectativa que aguarda e olha para o alto; a profundidade da raiz da graça que se afunda na gratuidade» (Carta 140, 26, 64).

Humilde Jesus, quando a vida nos oferece um cálice amargo e difícil de beber, a nossa natureza se fecha, protesta, não ousa deixar-se atrair pela loucura daquele amor maior que faz da renúncia alegria, da obediência liberdade, do sacrifício dilatação do coração!

Vinde, Espírito da Verdade, tornai-nos obedientes à visita da Cruz, dóceis ao seu sinal que tudo abraça em nós: «corpo e alma, pensamentos e vontade, mente e sentimento, agir e sofrer» (Romano Guardini, Os Sinais Sagrados, Bréscia, 2000, p. 126), e tudo dilata na medida do amor!

Pai nosso...

Quis est homo qui non fleret, Matrem Christi si vidéret in tanto supplício?

VI Estação: Verônica enxuga o rosto de Jesus
Jesus não olha à aparência; Jesus vê o coração

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios (2Cor 4,6)
«O Deus que disse: “Do meio das trevas brilhe a luz”, é o mesmo que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para tornar claro o conhecimento da sua glória na face de Cristo».


Ao longo do Caminho da Cruz a piedade popular registra o gesto de uma mulher, denso de delicadeza e veneração, quase que um rastro do perfume de Betânia: Verônica enxuga o rosto de Jesus. Naquele Rosto, desfigurado pela dor, Verônica reconhece o Rosto transfigurado pela glória; no semblante do Servo sofredor, ela vê o mais Belo dos filhos dos homens. Este é o olhar que suscita o gesto gratuito da ternura e recebe, em recompensa, a marca da Santa Face! Verônica nos ensina o segredo do seu olhar de mulher, «que vai ao encontro do outro e lhe porta ajuda: ver com o coração!» (João Paulo II, Carta às mulheres, n. 12).

Humilde Jesus, o nosso olhar é um olhar incapaz de ir além:
além da indigência, para reconhecer a vossa presença,
além da sombra do pecado, para vislumbrar o sol da vossa misericórdia,
além das rugas da Igreja, para contemplar o rosto da Mãe.

Vinde, Espírito da Verdade, derramai nos nossos olhos «o colírio da fé» (Comentário ao Evangelho de João 34, 9) para que não se deixem atrair pela aparência das coisas visíveis, mas aprendam o fascínio das coisas invisíveis!

Pai nosso...

Quis non posset contristári, Christi Matrem contemplári, doléntem cum Filio?

VII Estação: Jesus cai pela segunda vez
Jesus demonstra a força, mas ensina a paciência
(Exposição sobre o Salmo 40, 13)

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Da Primeira Carta de São Pedro (1Pd 2,21b-24)
«Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado algum, mentira nenhuma foi encontrada em sua boca. Quando injuriado, não retribuía as injúrias; atormentado, não ameaçava; antes, colocava a sua causa nas mãos d’Aquele que julga com justiça. Sobre a cruz, carregou nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça. Por suas chagas fomos curados».


Jesus cai de novo sob o peso da Cruz. Sobre o madeiro da nossa salvação pesam não só as enfermidades da natureza humana, mas também as adversidades da existência. Jesus carregou o peso da perseguição contra a Igreja de ontem e de hoje, a perseguição que mata os cristãos em nome de um deus estranho ao amor e que ataca a sua dignidade com «lábios mentirosos e palavras arrogantes» (cf. Sl 11,4). Jesus carregou o peso da perseguição contra Pedro, contra a voz clara da «verdade que interroga e liberta o coração» (Bento XVI, O elogio da consciência: A verdade interroga o coração, Siena, 2009). Com a sua Cruz, Jesus carregou o peso da perseguição contra o seus servos e discípulos, contra aqueles que respondem ao ódio com o amor, à violência com a mansidão. Com a sua Cruz, Jesus carregou o peso daquele exaltado «amor de si mesmo que chega ao desprezo de Deus» (Cidade de Deus 14, 28) e espezinha o irmão. Tudo carregou voluntariamente, tudo sofreu «com a sua paciência, para dar uma lição à nossa paciência» (Discurso 175, 3, 3).

Humilde Jesus, nas injustiças e adversidades desta vida, nós não resistimos com paciência. Muitas vezes imploramos, como sinal da vossa força, que nos livreis do peso do madeiro da nossa cruz.

Vinde, Espírito da Verdade, ensinai-nos a caminhar seguindo o exemplo de Cristo, para «realizar os seus grandes preceitos de paciência com as atitudes do coração» (Comentário ao Evangelho de João 113, 4).

Pai nosso...

Pro peccátis suae gentis vidit Iesum in torméntis et flagéllis súbditum.

VIII Estação: Jesus encontra as mulheres de Jerusalém que choram por Ele
Jesus fixa em nós o olhar e suscita o pranto da conversão

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo Lucas (Lc 23,27-31)
Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se e disse: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai antes por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: “Felizes as mulheres que nunca tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram”. Então começarão a pedir às montanhas: “Caí sobre nós!” e às colinas: “Escondei-nos!” Porque, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?».


Jesus Mestre, ao longo do Caminho do Calvário, continua a instruir a nossa humanidade. Encontrando as mulheres de Jerusalém, recolhe no seu olhar de verdade e misericórdia as lágrimas de compaixão derramadas por Ele. O Deus que chorou e se lamentou sobre Jerusalém (cf. Lc 19,41), educa agora o pranto daquelas mulheres para que não permaneça estéril lamentação externa. Convida-as a reconhecerem n’Ele o destino do Inocente injustamente condenado e, como árvore verde, queimado pelo «castigo que nos salva» (cf. Is 53,5). Ajuda-as a interrogar a árvore seca do próprio coração para sentir a dor benéfica da compunção.
Aqui brota o pranto autêntico, quando os olhos confessam com as lágrimas não só o pecado, mas também a dor do coração. São lágrimas benditas, como as de Pedro, sinal de arrependimento e penhor de conversão, que renovam em nós a graça do Batismo.

Humilde Jesus, no vosso Corpo sofredor e maltratado, insultado e escarnecido, não sabemos reconhecer as feridas das nossas infidelidades e das nossas ambições, das nossas traições e das nossas rebeliões. São feridas que clamam e invocam o bálsamo da nossa conversão, enquanto nós hoje já não sabemos chorar pelos nossos pecados.

Vinde, Espírito da Verdade, infundi sobre nós o dom da Sabedoria! Na luz do Amor que salva, dai-nos o conhecimento da nossa miséria, «as lágrimas que dissolvem a culpa, o pranto que merece o perdão» (Santo Ambrósio, Exposição do Evangelho segundo Lucas 10, 90).

Pai nosso...

Eia, mater, fons amóris, me sentíre vim dolóris fac, ut tecum lúgeam.

IX Estação: Jesus cai pela terceira vez
Jesus, com a sua fraqueza, torna forte a nossa debilidade

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo Lucas (Lc 22,28-30a.31-32)
«Vós ficastes comigo em minhas provações. Por isso, assim como o meu Pai me confiou o Reino, Eu também vos confio o Reino. Vós havereis de comer e beber à minha mesa no meu Reino... Simão, Simão! Olha que Satanás pediu permissão para vos peneirar como trigo. Eu, porém, rezei por ti, para que tua fé não se apague. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos».


Com a sua terceira queda, Jesus confessa com quanto amor abraçou por nós o peso da provação e renova o chamado a segui-lo até o fim na fidelidade. Mas nos concede também lançar um olhar para além do véu da promessa: «Se com Ele ficamos firmes, com Ele reinaremos» (2Tm 2,12).
As suas quedas pertencem ao mistério da sua Encarnação. Procurou-nos na nossa fraqueza, descendo até o fundo dela, para nos elevar até Ele. «Mostrou-nos em si mesmo o caminho da humildade, para nos abrir o caminho do regresso» (Discurso 50, 11). «Ensinou-nos a paciência como arma para vencer o mundo» (Comentário ao Evangelho de João 113, 4). Agora, caído no chão pela terceira vez, enquanto «se compadece das nossas fraquezas» (Hb 4,15), nos indica o modo para não sucumbir na provação: perseverar, permanecer firmes e inabaláveis. Simplesmente: «permanecer n’Ele» (cf. Jo 15,7).

Humilde Jesus, diante das provações que desafiam a nossa fé nos sentimos desolados: ainda não acreditamos que estas nossas provações já foram as vossas e que Vós nos convidais simplesmente a vivê-las convosco.

Vinde, Espírito da Verdade, nas quedas que marcam o nosso caminho! Ensinai-nos a apoiar-nos na fidelidade de Jesus, a crer na sua oração por nós, para acolher aquela corrente de força que só Ele, o Deus-conosco, pode nos dar!

Pai nosso...

Fac ut árdeat cor meum in amándo Christum Deum, ut sibi compláceam.

X Estação: Jesus é despojado das suas vestes
Jesus fica nu para nos revestir com a veste de filhos

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo João (Jo 19,23-24)
Os soldados repartiram a sua roupa em quatro partes, uma parte para cada soldado. Quanto à túnica, esta era tecida sem costura, em peça única de alto a baixo. Disseram então entre si: «Não vamos dividir a túnica. Tiremos a sorte para ver de quem será». Assim se cumpria a Escritura que diz: «Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sorte sobre a minha túnica». Assim procederam os soldados.


Jesus fica nu. A imagem de Jesus despojado das vestes é rica de ressonâncias bíblicas: nos reporta à nudez inocente das origens e à vergonha da queda (cf. Gn 2,25; 3,7).
Na inocência original, a nudez era a veste gloriosa do homem: a sua amizade transparente e bela com Deus. Com a queda, a harmonia dessa relação se rompe, a nudez causa vergonha e traz consigo a lembrança dramática daquela perda.
Nudez é sinônimo de verdade do ser.
Despojado das suas vestes, Jesus, a partir da Cruz, tece a veste nova da dignidade filial do homem. Aquela túnica sem costura permanece ali, íntegra, para nós: a veste da sua filiação divina não foi rompida, mas, do alto da Cruz, nos foi dada.

Humilde Jesus, diante da vossa nudez descobrimos o essencial da nossa vida e da nossa alegria: sermos, em Vós, filhos do Pai. Mas confessamos também a resistência a abraçar a pobreza como dependência do Pai e a acolher a nudez como veste filial.

Vinde, Espírito da Verdade, ajudai-nos a reconhecer e a bendizer, em cada despojamento que sofremos, um encontro com a verdade do nosso ser, um encontro com a nudez redentora do Salvador, um trampolim que nos lança para o abraço filial com o Pai!

Pai nosso...

Sancta Mater, istud agas, Crucifíxi fige plagas cordi meo válide.

XI Estação: Jesus é pregado na Cruz
Jesus, elevado da terra, atrai todos a si

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo João (Jo 19,18-22)
Ali o crucificaram, com outros dois: um de cada lado, e Jesus no meio. Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na cruz; nele estava escrito: “Jesus, o Nazareno, o Rei dos Judeus”. Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade. O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. Então os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: «Não escrevas “O Rei dos Judeus”, mas sim o que ele disse: “Eu sou o Rei dos judeus”». Pilatos respondeu: «O que escrevi, está escrito».


Jesus crucificado está no centro; a inscrição régia, no alto da Cruz, desvela a profundidade do mistério: Jesus é o Rei e a Cruz é o seu trono. A realeza de Jesus, escrita em três línguas, é uma mensagem universal: para o simples e o sábio, para o pobre e o poderoso, para quem se abandona à Lei divina e para quem confia no poder político. A imagem do Crucificado, que nenhuma sentença humana poderá jamais remover das paredes do nosso coração, permanecerá para sempre a Palavra régia da Verdade: «Luz crucificada que ilumina os cegos» (Discurso 136, 4), «tesouro escondido que só a oração pode revelar» (Discurso 160, 3), coração do mundo.
Jesus não reina dominando com um poder deste mundo, Ele «não dispõe de nenhuma legião» (Bento XVI, Jesus de Nazaré: Da Entrada em Jerusalém até a Ressurreição, 2011, p. 174). «Jesus reina atraindo» (cf. Jo 12,32): o seu ímã é o amor do Pai que n’Ele se entrega por nós «até o fim sem confins» (Hans Urs von Balthasar, Vós coroais o ano com a vossa graça, Milão, 1990, p. 188). «Nada pode fugir ao seu calor!» (Sl 18,7).

Senhor Jesus, crucificado por nós! Vós sois a confissão do grande amor do Pai pela humanidade, a imagem da única verdade credível. Atraí-nos a Vós, para aprendermos a viver «por amor do vosso amor» (Confissões 2, 1, 1).

Vinde, Espírito da Verdade, ajudai-nos a escolher sempre «Deus e a sua vontade ao invés dos interesses do mundo e as suas potências» para descobrirmos na impotência externa do Crucificado «a força sempre nova da verdade» (cf. Bento XVI, op. cit., pp. 176-177).

Pai nosso...

Tui Nati vulneráti, tam dignáti pro me pati, poenas mecum dívide.

XII Estação: Jesus morre na Cruz
Jesus vive a sua morte como dom de amor

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo João (Jo 19,28-30)
Jesus, sabendo que tudo estava consumado, e para que a Escritura se cumprisse até o fim, disse: «Tenho sede». Havia ali uma jarra cheia de vinagre. Amarraram uma esponja embebida em vinagre em uma vara e levaram-na à boca de Jesus. Ele tomou o vinagre e disse: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.


«Tenho sede». «Tudo está consumado». Nessas duas frases Jesus nos confia, com um olhar voltado para a humanidade e outro para o Pai, o desejo ardente que envolveu a sua pessoa e a sua missão: o amor ao homem e a obediência ao Pai. Um amor horizontal e um amor vertical: eis o desenho da Cruz! E do ponto de encontro desse duplo amor, lá onde Jesus inclina a cabeça, brota o Espírito Santo, primeiro fruto do seu regresso ao Pai.
Nesse sopro vital da consumação vibra a referência à obra da criação (cf. Gn 2,2.7) agora redimida. Mas vibra também o apelo a todos nós, que cremos n’Ele, a «completarmos na nossa própria carne o que falta das tribulações de Cristo» (cf. Cl 1,24). Até que tudo esteja consumado!

Senhor Jesus, morto por nós! Vós pedis para dar, morreis para entregar e, no entanto, nos fazeis descobrir no dom de si mesmo o gesto que cria o espaço da unidade. Perdoai o vinagre da nossa rejeição e da nossa incredulidade, perdoai a surdez do nosso coração ao vosso grito de sede que continua a elevar-se do sofrimento de tantos irmãos.

Vinde, Espírito Santo, herança do Filho que morre por nós: sede Vós o guia que «nos conduz à plena verdade» (cf. Jo 16,13) e «a raiz que nos conserva na unidade!» (Exposição sobre o Salmo 143, 3).

Pai nosso...

Vidit suum dulcem Natum moriéntem desolátum, cum emísit spíritum.

XIII Estação: Jesus é descido da Cruz e entregue à sua Mãe
O corpo de Jesus é acolhido no abraço da Mãe

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo João (Jo 19,32-35.38)
Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas; mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que viu dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis. (...) Depois disso, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus - mas às escondidas, por medo dos judeus -, pediu a Pilatos para tirar o corpo de Jesus. Pilatos consentiu. Então José veio tirar o corpo de Jesus.


A perfuração do lado de Jesus de ferida tornou-se fresta, porta aberta para o coração de Deus. Aqui o seu infinito amor por nós se deixa extrair como água que vivifica e bebida que invisivelmente sacia e faz renascer. Também nós nos aproximamos do Corpo de Jesus descido da Cruz e sustentado pelos braços da Mãe. Aproximamo-nos «não caminhando, mas crendo, não com os passos do corpo, mas com a livre decisão do coração» (Comentário ao Evangelho de João 26, 3). Neste Corpo inanimado reconhecemo-nos como seus membros feridos e sofredores, mas guardados pelo abraço amoroso da Mãe. E reconhecemo-nos também nestes braços maternos, ao mesmo tempo fortes e ternos.
Os braços abertos da Igreja-Mãe são como o altar que nos oferece o Corpo de Cristo e onde nos tornamos Corpo místico de Cristo.

Senhor Jesus, entregue à Mãe, figura da Igreja-Mãe! Diante da imagem da Pietà, a Senhora da Piedade, aprendemos a dedicação ao “sim” do amor, o abandono e a acolhida, a confiança e a atenção concreta, a ternura que cura a vida e suscita a alegria.

Vinde, Espírito Santo, guiai-nos, como guiastes Maria, na gratuidade irradiante do amor, «derramado por Deus nos nossos corações» (Rm 5,5) com o dom da vossa presença!

Pai nosso...

Fac me vere tecum flere, Crucifíxo condolére, donec ego víxero.

XIV Estação: Jesus é deposto no sepulcro
A terra do silêncio e da expectativa guarda Jesus, semente fecunda de vida nova

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.

Do Evangelho segundo João (Jo 19,40-42)
Então tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no, com os aromas, em faixas de linho, como os judeus costumam sepultar. No lugar onde Jesus foi crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. Por causa da preparação da Páscoa, e como o túmulo estava perto, foi ali que colocaram Jesus.


Um jardim, símbolo da vida com as suas cores, acolhe o mistério do homem criado e redimido. Em um jardim Deus colocou a sua criatura (cf. Gn 2,8) e a expulsou dele após a queda (cf. Gn 3,23). Em um jardim teve início a Paixão de Jesus (cf. Jo 18,1) e, em um jardim, um sepulcro novo acolhe o novo Adão que volta à terra (cf. Jo 19,41), ventre materno que guarda a semente fecunda que morre.
É o tempo da fé que aguarda silenciosa, é o tempo da esperança que no ramo seco já vislumbra o despontar de um pequeno rebento, promessa de salvação e de alegria.
Agora a voz de Deus «fala no grande silêncio do coração» (Exposição sobre o Salmo 38, 20).

Pai nosso...

Quando corpus moriétur fac ut ánimae donétur paradísi glória. Amen.

Discurso do Papa Bento XVI

Amados irmãos e irmãs,
Esta noite acompanhamos na fé Jesus que percorre o último trecho do seu caminho terreno, o trecho mais doloroso: aquele do Calvário. Ouvimos o clamor da multidão, as palavras da condenação, a zombaria dos soldados, o pranto da Virgem Maria e das outras mulheres. Agora mergulhamos no silêncio desta noite, no silêncio da cruz, no silêncio da morte. É um silêncio que traz em si o peso da dor do homem rejeitado, oprimido, esmagado, o peso do pecado que desfigura o seu rosto, o peso do mal. Esta noite, no íntimo do nosso coração, revivemos o drama de Jesus, carregado com o sofrimento, o mal, o pecado do homem.

E agora, o que permanece diante dos nossos olhos? Permanece um Crucificado; uma Cruz elevada no Gólgota, uma Cruz que parece marcar a derrota definitiva d’Aquele que havia portado luz a quem estava mergulhado na escuridão, d’Aquele que havia falado da força do perdão e da misericórdia, que havia convidado a acreditar no amor infinito de Deus por cada pessoa humana. Desprezado e rejeitado pelos homens, diante de nós está o «homem das dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto» (Is 53,3).


Mas olhemos bem para aquele homem crucificado entre a terra e o Céu, contemplemo-lo com um olhar mais profundo, e descobriremos que a Cruz não é o sinal da vitória da morte, do pecado, do mal, mas é o sinal luminoso do amor, da imensidão do amor de Deus, daquilo que jamais teríamos podido pedir, imaginar ou esperar: Deus se debruçou sobre nós, se abaixou até chegar ao ângulo mais escuro da nossa vida, para nos estender a mão e atrair-nos a si, levar-nos a Ele. A Cruz nos fala do amor supremo de Deus e nos convida a renovar, hoje, a nossa fé na força desse amor, a crer que em cada situação da nossa vida, da história, do mundo, Deus é capaz de vencer a morte, o pecado, o mal, e dar-nos uma vida nova, ressuscitada. Na morte do Filho de Deus na cruz está a semente de uma nova esperança de vida, como o grão de trigo que morre no seio da terra.

Nesta noite carregada de silêncio, carregada de esperança, ressoa o convite que Deus nos dirige através das palavras de Santo Agostinho: «Tende fé! Vireis a mim e saboreareis os bens da minha mesa, como é verdade que Eu não recusei saborear os males da vossa mesa... Prometi-vos a minha vida... Como antecipação, vos dei a minha morte, como que para vos dizer: Vede, convido-vos a participar da minha vida... É uma vida onde ninguém morre, uma vida verdadeiramente feliz, que oferece um alimento incorruptível, um alimento que restaura e nunca acaba. A meta a que vos convido... é a amizade com o Pai e o Espírito Santo, é a ceia eterna, é a comunhão comigo... é participar da minha vida» (cf. Discurso 231, 5).

Fixemos o nosso olhar em Jesus Crucificado e peçamos na oração: Iluminai, Senhor, o nosso coração, para que possamos seguir-vos pelo caminho da Cruz; fazei morrer em nós o «homem velho», ligado ao egoísmo, ao mal, ao pecado, e tornai-nos «homens novos», mulheres e homens santos, transformados e animados pelo vosso amor.

Bênção Apostólica / Canto final: Crux fidelis



Confira outros modelos de meditações em nossa postagem sobre a história da Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.

Notas:

[1] O livreto da celebração foi ilustrado pela Irmã Helena Maria Manganelli, O.S.A. Como não encontramos essas imagens em boa resolução, propusemos as esculturas realizadas por Mickey Wells para o Santuário da Paixão de Cristo (Shrine of Christ’s Passion) na cidade de St. John (Indiana, EUA). Como vimos, o Santuário se encontra muito próximo de Chicago (Illinois), cidade natal de Robert Francis Prevost, o Papa Leão XIV [1].

[2] Os dois trechos que omitimos da “Apresentação” são um agradecimento à Irmã Maria Rita Piccione, que escreveu as meditações, e à Irmã Helena Maria Manganelli, que elaborou as imagens das estações, e um breve resumo do carisma agostiniano.

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