Nesta primeira sexta-feira da Quaresma, como é tradição neste blog, publicamos um modelo de meditações para a Via Sacra. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a Via Sacra.
Nesta ocasião recordamos a Via Sacra presidida pelo Papa Bento XVI (†2022) junto ao Coliseu na noite da Sexta-feira Santa de 2011. Para saber mais, confira nossa postagem sobre a Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.
As meditações foram escritas pela Irmã Maria Rita Piccione, O.S.A., Presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália. Com essa postagem, portanto, honramos o Papa Leão XIV, que também pertence à Ordem de Santo Agostinho (O.S.A.).
Como ilustrações, por sua vez, propomos as esculturas realizadas pelo artista Mickey Wells para o Santuário da Paixão de Cristo (Shrine of Christ’s Passion) na cidade de St. John (Indiana, EUA), próximo de Chicago (Illinois), cidade natal do primeiro Papa norte-americano [1].
Ofício das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice
Via Sacra no Coliseu presidida pelo Papa Bento XVI
Sexta-feira Santa, 22 de abril de 2011
Meditações da Irmã Maria Rita Piccione, O.S.A.
Presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália
Apresentação
«Se alguém contemplasse de longe a sua pátria, mas no meio
estivesse o mar, veria aonde chegar, mas não disporia dos meios para chegar. O
mesmo se passa conosco... Vislumbramos a meta a alcançar, mas no meio está o
mar deste século... Ora, para que pudéssemos dispor também dos meios para
chegar, veio de lá Aquele para quem nós queríamos ir... e forneceu-nos o
madeiro com o qual atravessar o mar. De fato, ninguém pode atravessar o mar deste
século se não é levado pela cruz de Cristo... Não abandones [pois] a cruz, e a
cruz te levará».
Estas palavras de Santo Agostinho, tomadas do seu Comentário
ao Evangelho de João (2, 2), nos introduzem na oração da Via Sacra (Via
Crucis).
A Via Sacra, com efeito, quer estimular em nós este
gesto de nos agarrarmos ao madeiro da Cruz de Cristo ao longo do mar da
vida. A Via Sacra, portanto, não é uma simples prática de devoção
popular com caráter sentimental, mas exprime a essência da experiência cristã:
«Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga» (Mc
8,34).
(...) No início de cada estação, depois da clássica enunciação,
aparece uma brevíssima frase que pretende oferecer a chave de leitura da
respectiva estação. Podemos recebê-la idealmente como pronunciada por uma
criança, quase como um apelo à simplicidade dos pequeninos, que sabem captar o
coração da realidade, e em um espaço simbólico de acolhida, na oração de
Igreja, da voz da infância por vezes ofendida e explorada.
A Palavra de Deus proclamada é tomada do Evangelho de
João, exceto nas estações sem texto evangélico de referência ou que o têm
em outros Evangelhos. Com esta escolha se pretende evidenciar a mensagem de
glória da Cruz de Jesus.
Em seguida o texto bíblico é ilustrado por uma breve reflexão,
clara e original.
A oração dirigida ao «Humilde Jesus» - expressão cara ao
coração de Agostinho (Confissões 7, 18, 24), mas que abandona o adjetivo
humilde com a crucificação-exaltação de Cristo - é a confissão que a
Igreja-Esposa dirige ao Esposo que a redimiu com o seu Sangue.
Segue-se uma invocação ao Espírito Santo, que guia os nossos
passos e derrama no nosso coração o amor divino (cf. Rm 5,5): é a Igreja
apostólico-petrina que bate à porta do coração de Deus.
Cada uma das estações individualiza uma pegada
particular deixada por Jesus ao longo do Caminho da Cruz, que o fiel é chamado
a imitar. Assim os passos que marcam o caminho da Via Sacra são:
verdade, honestidade, humildade, oração, obediência, liberdade, paciência,
conversão, perseverança, essencialidade, realeza, dom de si mesmo, maternidade,
expectativa silenciosa... [2].
Introdução
«Cristo sofreu por
vós, deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais os seus passos» (1Pd
2,21).
Irmãos e irmãs em Cristo,
Encontramo-nos esta noite no sugestivo cenário do Coliseu
romano, convocados pela Palavra há pouco proclamada, para percorrer, juntamente
com o Papa Bento XVI, o Caminho da Cruz de Jesus.
Fixemos o nosso olhar interior em Cristo e o invoquemos com
coração ardente: «Peço-vos, Senhor, dizei à minha alma: Eu sou a tua
salvação! Dizei-o de maneira que eu escute!» (Santo Agostinho, Confissões
1, 5, 5) [Doravante todas as citações que
não indiquem o autor são de Santo Agostinho].
A sua voz reconfortante cruza-se com o fio débil do nosso
«sim» e o Espírito Santo, dedo de Deus, tece a trama segura da fé que conforta
e conduz.
Seguir, acreditar, rezar: eis os passos simples e seguros
que sustentam a nossa estrada ao longo do Caminho da Cruz e nos deixam
vislumbrar, gradualmente, o caminho da Verdade e da Vida.
Oração inicial
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. R. Amém.
Oremos (Breve pausa de silêncio)
Senhor Jesus, Vós nos convidais a seguir-vos também nesta
vossa hora extrema. Em Vós está cada um de nós e nós, embora muitos, somos um
só em Vós [cf. Exposição sobre o Salmo 127]. Na vossa hora está presente
a hora da provação da nossa vida, nos seus aspectos mais crus e duros; está
presente a hora da paixão da vossa Igreja e de toda a humanidade.
Está presente a hora das trevas: quando «abalaram-se os
fundamentos da terra» (Is 24,18) e o homem, «parcela da vossa criação» (Confissões
1, 1, 1), geme e sofre com ela; quando as várias máscaras da mentira
ridicularizam a verdade e as lisonjas do sucesso sufocam o apelo íntimo da
honestidade; quando o vazio de sentido e de valores anula a obra educativa e a
desordem do coração desfigura a ingenuidade dos pequeninos e dos frágeis;
quando o homem perde o caminho que o leva ao Pai e já não reconhece em Vós o rosto
belo da própria humanidade.
Nessa hora se insinua a tentação da fuga, o sentimento da
desolação e da angústia, enquanto a traça da dúvida corrói a mente e, como no
palco, o pano da escuridão cai sobre a alma.
E Vós, Senhor, que ledes no livro aberto do nosso frágil
coração, voltais a nos perguntar nesta noite, como um dia aos Doze: «Vós também
quereis ir embora?» (Jo 6,67).
Não, Senhor, não podemos nem queremos ir embora, porque «só Vós
tendes palavras de vida eterna» (Jo 6,68), só Vós sois «a palavra da
verdade» (Ef 1,13) e a vossa Cruz é a única «chave que nos abre os
segredos da verdade e da vida» (Exposição sobre o Salmo 45, 1).
«Nós vos seguiremos para onde quer que fordes!» (cf. Mt
8,19).
Nesta adesão está a nossa adoração, enquanto, do horizonte
do “ainda não”, um raio de alegria beija o “já” do nosso caminho. R. Amém.
I Estação: Jesus é condenado à morte
Jesus se cala, guarda em si a verdade
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo João (Jo 18,37-40)
Pilatos disse a Jesus: «Então tu és rei?». Jesus respondeu:
«Tu o dizes: Eu sou rei! Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho
da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz». Pilatos disse a
Jesus: «O que é a verdade?». Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos
judeus, e disse-lhes: «Eu não encontro nenhuma culpa nele. Mas existe entre vós
um costume, que pela Páscoa eu vos solte um preso. Quereis que vos solte o rei
dos judeus?». Então, começaram a gritar de novo: «Este não, mas Barrabás!». Barrabás
era um bandido.
Pilatos não encontra motivo de condenação em Jesus, assim
como não encontra em si mesmo a força para se opor a essa condenação.
O seu ouvido interior permanece surdo à palavra de Jesus e
não compreende o seu testemunho da verdade.
«Ouvir a verdade é obedecê-la e acreditar nela» (Comentário
ao Evangelho de João 115, 4). É viver livremente sob a sua orientação e
entregar-lhe o próprio coração.
Pilatos não é livre: está condicionado desde o exterior, mas
aquela verdade escutada continua a ressoar no seu íntimo como um eco que bate à
porta e inquieta.
Por isso sai ao encontra os judeus; «saiu de novo», sublinha
o texto, como que um impulso a fugir de si mesmo.
E a voz que lhe chega de fora prevalece sobre a
Palavra que está dentro.
Aqui se decide a condenação de Jesus, a condenação da
verdade.
Humilde Jesus, também nós nos deixamos condicionar por
aquilo que está fora. Já não sabemos escutar a voz sutil, exigente e
libertadora da nossa consciência que, dentro, exorta e convida amorosamente:
«Não saias fora, reentra em ti mesmo: é no teu homem interior que habita a
verdade» (A verdadeira religião 39, 72).
Vinde, Espírito da Verdade, ajudai-nos a encontrar no «homem
oculto no íntimo do coração» (cf. 1Pd 3,4) o Rosto Sagrado do
Filho que nos renova na Semelhança Divina!
Pai nosso...
II Estação: Jesus é carregado com a Cruz
Jesus leva a cruz, carrega sobre si o peso da verdade
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo João (Jo 19,6-7.16-17)
Quando viram Jesus, os sumos sacerdotes e os guardas
começaram a gritar: «Crucifica-o! Crucifica-o!». Pilatos respondeu: «Levai-o vós mesmos para o crucificar, pois
eu não encontro nele crime algum». Os judeus responderam: «Nós temos uma Lei,
e, segundo esta Lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus». (...) Então
Pilatos entregou Jesus para ser crucificado, e eles o levaram. Jesus tomou a
cruz sobre si e saiu para o lugar chamado «Calvário», em hebraico «Gólgota».
Pilatos hesita, procura um pretexto para soltar Jesus, mas
cede à vontade que prevalece e que grita, que se apela à Lei e faz insinuações.
Continua a repetir-se a história do coração ferido do homem:
a sua mesquinhez, a sua incapacidade de elevar o olhar de si mesmo para não se
deixar enganar pelas ilusões da pequena compensação pessoal e, assim, voar alto,
impulsionado pelo voo livre da bondade e da honestidade.
O coração do homem é um microcosmo.
Nele se decidem os grandes destinos da humanidade, se resolvem
ou se agravam os seus conflitos. Mas o ponto decisivo é sempre o mesmo: acolher
ou perder a verdade que liberta.
Humilde Jesus, na contínua sucessão dos dias da vida o nosso
coração olha para baixo, para o seu pequeno mundo, e, totalmente absorvido pela
contabilidade do próprio bem-estar, fica cego à mão do pobre e do indefeso que
mendiga atenção e pede ajuda. Quando muito se comove, mas não se move.
Vinde, Espírito da Verdade, cativai o nosso coração e
atraí-o a Vós. «Guardai sadio o seu paladar interior, para que possa saborear e
beber a sabedoria, a justiça, a verdade, a eternidade» (Comentário ao
Evangelho de João 26, 5).
Pai nosso...
Cuius ánimam
geméntem, contristátam et doléntem, pertransívit gládius.
III Estação: Jesus cai pela primeira vez
Jesus cai, mas, manso e humilde, se levanta
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo Mateus (Mt 11,28-30)
«Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados sob
o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e
aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis
descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve».
As quedas de Jesus ao longo do Caminho da Cruz não pertencem
à Sagrada Escritura; são um legado da piedade tradicional, guardado e cultivado
no coração de tantos orantes.
Na sua primeira queda, Jesus nos dirige um convite, nos abre
um caminho, inaugura uma escola para nós.
É o convite a ir ter com Ele na experiência da impotência
humana, para descobrir nela o enxerto da Potência divina.
É o caminho que conduz à fonte da autêntica saciedade, aquela
da Graça que basta.
É a escola onde se aprende a mansidão que acalma a rebeldia
e onde a confiança toma o lugar da presunção.
Da cátedra da sua queda Jesus nos propõe sobretudo a grande
lição da humildade, «o caminho que o levou à Ressurreição» (Exposição sobre
o Salmo 127, 10). O caminho que, depois de cada queda, nos dá a força para
dizer: «Agora recomeço, Senhor; mas convosco, não sozinho!»
Humilde Jesus, as nossa quedas, tecidas de limitações e de pecado,
ferem o orgulho do nosso coração, o fecham à graça da humildade e obstaculizam
o caminho que nos leva ao vosso encontro.
Vinde, Espírito da Verdade, libertai-nos de toda a pretensão
de autossuficiência e concedei-nos reconhecer em cada uma das nossas quedas um
degrau da escada para subir até Vós!
Pai nosso...
O quam tristis et afflícta fuit illa benedícta Mater
Unigéniti!
IV Estação: Jesus encontra sua Mãe
Junto à Cruz de Jesus «está» a Mãe: esta é a sua oração e a sua maternidade
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo João (Jo 19,25-27)
Perto da cruz de Jesus estavam de pé a sua mãe, a irmã da
sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado
dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: «Mulher, este é o teu filho!».
Depois disse ao discípulo: «Esta é a tua mãe!». Daquela hora em diante, o
discípulo a acolheu consigo.
São João nos relata que a Mãe está junto à Cruz de Jesus,
mas nenhum evangelista nos fala diretamente de um encontro entre ambos.
Na realidade, nesse «estar» da Mãe se concentra a expressão
mais densa e alta do encontro. Na aparente estaticidade do verbo estar,
vibra a íntima vitalidade de um dinamismo.
É o dinamismo intenso da oração, que se conjuga com a sua
pacata passividade. Rezar é deixar-se envolver pelo olhar amoroso e verdadeiro
de Deus, que nos revela a nós mesmos e nos envia em missão.
Na oração autêntica, o encontro pessoal com Jesus torna mãe
e discípulo amado, gera vida e transmite amor. Dilata o espaço
interior da acolhida e tece místicos laços de comunhão, confiando-nos um ao
outro e abrindo o tu ao nós da Igreja.
Humilde Jesus, quando as adversidades e as injustiças da
vida, o sofrimento inocente e a cruel violência nos fazem investir contra Vós,
convidais-nos a estar, como vossa Mãe, aos pés da Cruz.
Quando as nossas expectativas e as nossas iniciativas,
desprovidas de futuro ou marcadas pelo fracasso, nos levam a cair no desespero,
Vós nos chamais à força da esperança. Verdadeiramente tínhamos esquecido a
força desse estar como expressão do rezar!
Vinde, Espírito da Verdade, sede o «grito do nosso coração» (Exposição
sobre o Salmo 118, 29, 1) que, incessante e inexprimível, está
confiante na presença de Deus!
Pai nosso...
Quae maerébat et dolébat pia Mater, cum vidébat Nati
poenas íncliti.
V Estação: Jesus é ajudado por Simão de Cirene a levar a Cruz
Jesus, ao longo do caminho da Paixão, aprende a obediência de amor
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo Lucas (Lc 23,26)
Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene,
que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para carregá-la atrás de Jesus.
Simão de Cirene é um homem retratado pelos evangelistas com
particular precisão de nome e proveniência, família e atividade; é um homem
fotografado em um lugar e um tempo determinados, de certo modo forçado a
levar uma cruz que não é sua. Na realidade, Simão de Cirene é cada um de nós.
Recebe o madeiro da Cruz de Cristo, como nós um dia recebemos e acolhemos o seu
sinal no santo Batismo.
A vida do discípulo de Jesus é esta obediência ao sinal da
Cruz, em um gesto cada vez mais marcado pela liberdade do amor. É o reflexo da
obediência do seu Mestre. É deixar-se, com pleno abandono, instruir como Ele
pela geometria do amor (cf. Ef 3,18), pelas próprias
dimensões da Cruz: «a largura das obras de bondade; o comprimento
da perseverança nas adversidades; a altura da expectativa que aguarda e olha
para o alto; a profundidade da raiz da graça que se afunda na
gratuidade» (Carta 140, 26, 64).
Humilde Jesus, quando a vida nos oferece um cálice amargo e
difícil de beber, a nossa natureza se fecha, protesta, não ousa deixar-se
atrair pela loucura daquele amor maior que faz da renúncia alegria, da
obediência liberdade, do sacrifício dilatação do coração!
Vinde, Espírito da Verdade, tornai-nos obedientes à visita
da Cruz, dóceis ao seu sinal que tudo abraça em nós: «corpo e alma, pensamentos
e vontade, mente e sentimento, agir e sofrer» (Romano Guardini, Os Sinais
Sagrados, Bréscia, 2000, p. 126), e tudo dilata na medida do amor!
Pai nosso...
Quis est homo qui non fleret, Matrem Christi si vidéret in tanto supplício?
VI Estação: Verônica enxuga o rosto de Jesus
Jesus não olha à aparência; Jesus vê o coração
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios (2Cor
4,6)
«O Deus que disse: “Do meio das trevas brilhe a luz”, é o
mesmo que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para tornar claro o
conhecimento da sua glória na face de Cristo».
Ao longo do Caminho da Cruz a piedade popular registra o
gesto de uma mulher, denso de delicadeza e veneração, quase que um rastro do
perfume de Betânia: Verônica enxuga o rosto de Jesus. Naquele Rosto,
desfigurado pela dor, Verônica reconhece o Rosto transfigurado pela glória; no semblante
do Servo sofredor, ela vê o mais Belo dos filhos dos homens. Este é o olhar que
suscita o gesto gratuito da ternura e recebe, em recompensa, a marca da Santa
Face! Verônica nos ensina o segredo do seu olhar de mulher, «que vai ao
encontro do outro e lhe porta ajuda: ver com o coração!» (João Paulo II,
Carta às mulheres, n. 12).
Humilde Jesus, o nosso olhar é um olhar incapaz de ir além:
além da indigência, para reconhecer a vossa presença,
além da sombra do pecado, para vislumbrar o sol da
vossa misericórdia,
além das rugas da Igreja, para contemplar o rosto da
Mãe.
Vinde, Espírito da Verdade, derramai nos nossos olhos «o
colírio da fé» (Comentário ao Evangelho de João 34, 9) para que não se
deixem atrair pela aparência das coisas visíveis, mas aprendam o fascínio das coisas
invisíveis!
Pai nosso...
Quis non posset contristári, Christi Matrem contemplári, doléntem cum Filio?
VII Estação: Jesus cai pela segunda vez
Jesus demonstra a força, mas ensina a paciência
(Exposição sobre o Salmo 40, 13)
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Da Primeira Carta de São Pedro (1Pd 2,21b-24)
«Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, a fim de
que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado algum, mentira nenhuma foi
encontrada em sua boca. Quando injuriado, não retribuía as injúrias;
atormentado, não ameaçava; antes, colocava a sua causa nas mãos d’Aquele que
julga com justiça. Sobre a cruz, carregou nossos pecados em seu próprio corpo,
a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça. Por suas chagas fomos curados».
Jesus cai de novo sob o peso da Cruz. Sobre o madeiro da
nossa salvação pesam não só as enfermidades da natureza humana, mas também as
adversidades da existência. Jesus carregou o peso da perseguição contra a
Igreja de ontem e de hoje, a perseguição que mata os cristãos em nome de um
deus estranho ao amor e que ataca a sua dignidade com «lábios mentirosos e
palavras arrogantes» (cf. Sl 11,4). Jesus carregou o peso da
perseguição contra Pedro, contra a voz clara da «verdade que interroga e
liberta o coração» (Bento XVI, O elogio da consciência: A verdade interroga
o coração, Siena, 2009). Com a sua Cruz, Jesus carregou o peso da
perseguição contra o seus servos e discípulos, contra aqueles que respondem ao
ódio com o amor, à violência com a mansidão. Com a sua Cruz, Jesus carregou o
peso daquele exaltado «amor de si mesmo que chega ao desprezo de Deus» (Cidade
de Deus 14, 28) e espezinha o irmão. Tudo carregou voluntariamente, tudo
sofreu «com a sua paciência, para dar uma lição à nossa paciência» (Discurso
175, 3, 3).
Humilde Jesus, nas injustiças e adversidades desta vida, nós
não resistimos com paciência. Muitas vezes imploramos, como sinal da vossa
força, que nos livreis do peso do madeiro da nossa cruz.
Vinde, Espírito da Verdade, ensinai-nos a caminhar seguindo
o exemplo de Cristo, para «realizar os seus grandes preceitos de paciência com
as atitudes do coração» (Comentário ao Evangelho de João 113, 4).
Pai nosso...
Pro peccátis suae gentis vidit Iesum in torméntis et
flagéllis súbditum.
VIII Estação: Jesus encontra as mulheres de Jerusalém que choram por Ele
Jesus fixa em nós o olhar e suscita o pranto da conversão
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo Lucas (Lc 23,27-31)
Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres que
batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se e disse: «Filhas de
Jerusalém, não choreis por mim! Chorai antes por vós mesmas e por vossos
filhos! Porque dias virão em que se dirá: “Felizes as mulheres que nunca
tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca
amamentaram”. Então começarão a pedir às montanhas: “Caí sobre nós!” e às
colinas: “Escondei-nos!” Porque, se fazem assim com a árvore verde, o que não
farão com a árvore seca?».
Jesus Mestre, ao longo do Caminho do Calvário, continua a
instruir a nossa humanidade. Encontrando as mulheres de Jerusalém, recolhe no
seu olhar de verdade e misericórdia as lágrimas de compaixão derramadas por Ele.
O Deus que chorou e se lamentou sobre Jerusalém (cf. Lc 19,41),
educa agora o pranto daquelas mulheres para que não permaneça estéril
lamentação externa. Convida-as a reconhecerem n’Ele o destino do Inocente
injustamente condenado e, como árvore verde, queimado pelo «castigo que
nos salva» (cf. Is 53,5). Ajuda-as a interrogar a árvore seca
do próprio coração para sentir a dor benéfica da compunção.
Aqui brota o pranto autêntico, quando os olhos confessam com
as lágrimas não só o pecado, mas também a dor do coração. São lágrimas benditas,
como as de Pedro, sinal de arrependimento e penhor de conversão, que renovam em
nós a graça do Batismo.
Humilde Jesus, no vosso Corpo sofredor e maltratado,
insultado e escarnecido, não sabemos reconhecer as feridas das nossas
infidelidades e das nossas ambições, das nossas traições e das nossas rebeliões.
São feridas que clamam e invocam o bálsamo da nossa conversão, enquanto nós hoje
já não sabemos chorar pelos nossos pecados.
Vinde, Espírito da Verdade, infundi sobre nós o dom da
Sabedoria! Na luz do Amor que salva, dai-nos o conhecimento da nossa miséria,
«as lágrimas que dissolvem a culpa, o pranto que merece o perdão» (Santo
Ambrósio, Exposição do Evangelho segundo Lucas 10, 90).
Pai nosso...
Eia, mater, fons amóris, me sentíre vim dolóris fac, ut
tecum lúgeam.
IX Estação: Jesus cai pela terceira vez
Jesus, com a sua fraqueza, torna forte a nossa debilidade
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo Lucas (Lc 22,28-30a.31-32)
«Vós ficastes comigo em minhas provações. Por isso, assim
como o meu Pai me confiou o Reino, Eu também vos confio o Reino. Vós havereis
de comer e beber à minha mesa no meu Reino... Simão, Simão! Olha que Satanás
pediu permissão para vos peneirar como trigo. Eu, porém, rezei por ti, para que
tua fé não se apague. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos».
Com a sua terceira queda, Jesus confessa com quanto amor
abraçou por nós o peso da provação e renova o chamado a segui-lo até o fim na
fidelidade. Mas nos concede também lançar um olhar para além do véu da
promessa: «Se com Ele ficamos firmes, com Ele reinaremos» (2Tm 2,12).
As suas quedas pertencem ao mistério da sua Encarnação.
Procurou-nos na nossa fraqueza, descendo até o fundo dela, para nos elevar até
Ele. «Mostrou-nos em si mesmo o caminho da humildade, para nos abrir o caminho
do regresso» (Discurso 50, 11). «Ensinou-nos a paciência como arma para
vencer o mundo» (Comentário ao Evangelho de João 113, 4). Agora, caído no
chão pela terceira vez, enquanto «se compadece das nossas fraquezas» (Hb
4,15), nos indica o modo para não sucumbir na provação: perseverar, permanecer
firmes e inabaláveis. Simplesmente: «permanecer n’Ele» (cf. Jo
15,7).
Humilde Jesus, diante das provações que desafiam a nossa fé nos
sentimos desolados: ainda não acreditamos que estas nossas provações já
foram as vossas e que Vós nos convidais simplesmente a vivê-las convosco.
Vinde, Espírito da Verdade, nas quedas que marcam o nosso
caminho! Ensinai-nos a apoiar-nos na fidelidade de Jesus, a crer na sua oração
por nós, para acolher aquela corrente de força que só Ele, o Deus-conosco,
pode nos dar!
Pai nosso...
Fac ut
árdeat cor meum in amándo Christum Deum, ut sibi compláceam.
X Estação: Jesus é despojado das suas vestes
Jesus fica nu para nos revestir com a veste de filhos
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo João (Jo 19,23-24)
Os soldados repartiram a sua roupa em quatro partes, uma
parte para cada soldado. Quanto à túnica, esta era tecida sem costura, em peça
única de alto a baixo. Disseram então entre si: «Não vamos dividir a túnica.
Tiremos a sorte para ver de quem será». Assim se cumpria a Escritura que diz:
«Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sorte sobre a minha túnica».
Assim procederam os soldados.
Jesus fica nu. A imagem de Jesus despojado das vestes é rica
de ressonâncias bíblicas: nos reporta à nudez inocente das origens e à vergonha
da queda (cf. Gn 2,25; 3,7).
Na inocência original, a nudez era a veste gloriosa do
homem: a sua amizade transparente e bela com Deus. Com a queda, a harmonia dessa
relação se rompe, a nudez causa vergonha e traz consigo a lembrança dramática
daquela perda.
Nudez é sinônimo de verdade do ser.
Despojado das suas vestes, Jesus, a partir da Cruz, tece a
veste nova da dignidade filial do homem. Aquela túnica sem costura permanece
ali, íntegra, para nós: a veste da sua filiação divina não foi rompida, mas, do
alto da Cruz, nos foi dada.
Humilde Jesus, diante da vossa nudez descobrimos o essencial
da nossa vida e da nossa alegria: sermos, em Vós, filhos do Pai. Mas
confessamos também a resistência a abraçar a pobreza como dependência do Pai e
a acolher a nudez como veste filial.
Vinde, Espírito da Verdade, ajudai-nos a reconhecer e a bendizer,
em cada despojamento que sofremos, um encontro com a verdade do nosso ser, um
encontro com a nudez redentora do Salvador, um trampolim que nos lança para o
abraço filial com o Pai!
Pai nosso...
Sancta Mater, istud agas, Crucifíxi fige plagas cordi
meo válide.
XI Estação: Jesus é pregado na Cruz
Jesus, elevado da terra, atrai todos a si
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo João (Jo 19,18-22)
Ali o crucificaram, com outros dois: um de cada lado, e
Jesus no meio. Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na cruz;
nele estava escrito: “Jesus, o Nazareno, o Rei dos Judeus”. Muitos judeus
puderam ver o letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado ficava
perto da cidade. O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. Então os
sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: «Não escrevas “O Rei dos
Judeus”, mas sim o que ele disse: “Eu sou o Rei dos judeus”». Pilatos respondeu:
«O que escrevi, está escrito».
Jesus crucificado está no centro; a inscrição régia, no alto
da Cruz, desvela a profundidade do mistério: Jesus é o Rei e a Cruz é o seu
trono. A realeza de Jesus, escrita em três línguas, é uma mensagem universal:
para o simples e o sábio, para o pobre e o poderoso, para quem se abandona à
Lei divina e para quem confia no poder político. A imagem do Crucificado, que
nenhuma sentença humana poderá jamais remover das paredes do nosso coração,
permanecerá para sempre a Palavra régia da Verdade: «Luz crucificada que
ilumina os cegos» (Discurso 136, 4), «tesouro escondido que só a oração
pode revelar» (Discurso 160, 3), coração do mundo.
Jesus não reina dominando com um poder deste mundo, Ele «não
dispõe de nenhuma legião» (Bento XVI, Jesus de Nazaré: Da Entrada em
Jerusalém até a Ressurreição, 2011, p. 174). «Jesus reina atraindo» (cf.
Jo 12,32): o seu ímã é o amor do Pai que n’Ele se entrega por nós «até o
fim sem confins» (Hans Urs von Balthasar, Vós coroais o ano com a vossa
graça, Milão, 1990, p. 188). «Nada pode fugir ao seu calor!» (Sl
18,7).
Senhor Jesus, crucificado por nós! Vós sois a confissão do
grande amor do Pai pela humanidade, a imagem da única verdade credível.
Atraí-nos a Vós, para aprendermos a viver «por amor do vosso amor» (Confissões
2, 1, 1).
Vinde, Espírito da Verdade, ajudai-nos a escolher sempre
«Deus e a sua vontade ao invés dos interesses do mundo e as suas potências»
para descobrirmos na impotência externa do Crucificado «a força sempre nova da
verdade» (cf. Bento XVI, op. cit., pp. 176-177).
Pai nosso...
Tui Nati vulneráti, tam dignáti pro me pati, poenas
mecum dívide.
XII Estação: Jesus morre na Cruz
Jesus vive a sua morte como dom de amor
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo João (Jo 19,28-30)
Jesus, sabendo que tudo estava consumado, e para que a
Escritura se cumprisse até o fim, disse: «Tenho sede». Havia ali uma jarra
cheia de vinagre. Amarraram uma esponja embebida em vinagre em uma vara e
levaram-na à boca de Jesus. Ele tomou o vinagre e disse: «Tudo está consumado».
E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.
«Tenho sede». «Tudo está consumado». Nessas duas frases
Jesus nos confia, com um olhar voltado para a humanidade e outro para o Pai, o
desejo ardente que envolveu a sua pessoa e a sua missão: o amor ao homem e a
obediência ao Pai. Um amor horizontal e um amor vertical: eis o
desenho da Cruz! E do ponto de encontro desse duplo amor, lá onde Jesus inclina
a cabeça, brota o Espírito Santo, primeiro fruto do seu regresso ao Pai.
Nesse sopro vital da consumação vibra a referência à obra da
criação (cf. Gn 2,2.7) agora redimida. Mas vibra também o apelo a
todos nós, que cremos n’Ele, a «completarmos na nossa própria carne o que falta
das tribulações de Cristo» (cf. Cl 1,24). Até que tudo esteja
consumado!
Senhor Jesus, morto por nós! Vós pedis para dar, morreis
para entregar e, no entanto, nos fazeis descobrir no dom de si mesmo o gesto
que cria o espaço da unidade. Perdoai o vinagre da nossa rejeição e da nossa
incredulidade, perdoai a surdez do nosso coração ao vosso grito de sede que
continua a elevar-se do sofrimento de tantos irmãos.
Vinde, Espírito Santo, herança do Filho que morre por nós:
sede Vós o guia que «nos conduz à plena verdade» (cf. Jo 16,13) e
«a raiz que nos conserva na unidade!» (Exposição sobre o Salmo 143, 3).
Pai nosso...
Vidit suum dulcem Natum moriéntem desolátum, cum emísit
spíritum.
XIII Estação: Jesus é descido da Cruz e entregue à sua Mãe
O corpo de Jesus é acolhido no abraço da Mãe
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo João (Jo 19,32-35.38)
Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do
outro que foram crucificados com Jesus. Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que
já estava morto, não lhe quebraram as pernas; mas um soldado abriu-lhe o lado
com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que viu dá testemunho e seu
testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também
acrediteis. (...) Depois disso, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus -
mas às escondidas, por medo dos judeus -, pediu a Pilatos para tirar o corpo de
Jesus. Pilatos consentiu. Então José veio tirar o corpo de Jesus.
A perfuração do lado de Jesus de ferida tornou-se fresta,
porta aberta para o coração de Deus. Aqui o seu infinito amor por nós se deixa extrair
como água que vivifica e bebida que invisivelmente sacia e faz renascer. Também
nós nos aproximamos do Corpo de Jesus descido da Cruz e sustentado pelos braços
da Mãe. Aproximamo-nos «não caminhando, mas crendo, não com os passos do corpo,
mas com a livre decisão do coração» (Comentário ao Evangelho de João 26,
3). Neste Corpo inanimado reconhecemo-nos como seus membros feridos e
sofredores, mas guardados pelo abraço amoroso da Mãe. E reconhecemo-nos também
nestes braços maternos, ao mesmo tempo fortes e ternos.
Os braços abertos da Igreja-Mãe são como o altar que nos
oferece o Corpo de Cristo e onde nos tornamos Corpo místico de Cristo.
Senhor Jesus, entregue à Mãe, figura da Igreja-Mãe! Diante da
imagem da Pietà, a Senhora da Piedade, aprendemos a dedicação ao “sim”
do amor, o abandono e a acolhida, a confiança e a atenção concreta, a ternura
que cura a vida e suscita a alegria.
Vinde, Espírito Santo, guiai-nos, como guiastes Maria, na
gratuidade irradiante do amor, «derramado por Deus nos nossos corações» (Rm
5,5) com o dom da vossa presença!
Pai nosso...
Fac me vere tecum flere, Crucifíxo condolére, donec ego
víxero.
XIV Estação: Jesus é deposto no sepulcro
A terra do silêncio e da expectativa guarda Jesus, semente fecunda de vida nova
Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos.
R. Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
Do Evangelho segundo João (Jo 19,40-42)
Então tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no, com os
aromas, em faixas de linho, como os judeus costumam sepultar. No lugar onde
Jesus foi crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda
ninguém tinha sido sepultado. Por causa da preparação da Páscoa, e como o
túmulo estava perto, foi ali que colocaram Jesus.
Um jardim, símbolo da vida com as suas cores, acolhe o
mistério do homem criado e redimido. Em um jardim Deus colocou a sua criatura (cf.
Gn 2,8) e a expulsou dele após a queda (cf. Gn 3,23). Em um
jardim teve início a Paixão de Jesus (cf. Jo 18,1) e, em um
jardim, um sepulcro novo acolhe o novo Adão que volta à terra (cf. Jo
19,41), ventre materno que guarda a semente fecunda que morre.
É o tempo da fé que aguarda silenciosa, é o tempo da
esperança que no ramo seco já vislumbra o despontar de um pequeno rebento,
promessa de salvação e de alegria.
Agora a voz de Deus «fala no grande silêncio do coração» (Exposição
sobre o Salmo 38, 20).
Pai nosso...
Quando corpus moriétur fac ut ánimae donétur paradísi
glória. Amen.
Discurso do Papa Bento XVI
Amados irmãos e irmãs,
Esta noite acompanhamos
na fé Jesus que percorre o último trecho do seu caminho terreno, o trecho mais
doloroso: aquele do Calvário. Ouvimos o clamor da multidão, as palavras da
condenação, a zombaria dos soldados, o pranto da Virgem Maria e das outras
mulheres. Agora mergulhamos no silêncio desta noite, no silêncio da cruz, no
silêncio da morte. É um silêncio que traz em si o peso da dor do homem
rejeitado, oprimido, esmagado, o peso do pecado que desfigura o seu rosto, o
peso do mal. Esta noite, no íntimo do nosso coração, revivemos o drama de
Jesus, carregado com o sofrimento, o mal, o pecado do homem.
E agora, o que permanece
diante dos nossos olhos? Permanece um Crucificado; uma Cruz elevada no Gólgota,
uma Cruz que parece marcar a derrota definitiva d’Aquele que havia portado luz
a quem estava mergulhado na escuridão, d’Aquele que havia falado da força do
perdão e da misericórdia, que havia convidado a acreditar no amor infinito de
Deus por cada pessoa humana. Desprezado e rejeitado pelos homens, diante de nós
está o «homem das dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o
rosto» (Is 53,3).
Mas olhemos bem para
aquele homem crucificado entre a terra e o Céu, contemplemo-lo com um olhar
mais profundo, e descobriremos que a Cruz não é o sinal da vitória da morte, do
pecado, do mal, mas é o sinal luminoso do amor, da imensidão do amor de Deus,
daquilo que jamais teríamos podido pedir, imaginar ou esperar: Deus se debruçou
sobre nós, se abaixou até chegar ao ângulo mais escuro da nossa vida, para nos
estender a mão e atrair-nos a si, levar-nos a Ele. A Cruz nos fala do amor
supremo de Deus e nos convida a renovar, hoje, a nossa fé na força desse amor,
a crer que em cada situação da nossa vida, da história, do mundo, Deus é capaz
de vencer a morte, o pecado, o mal, e dar-nos uma vida nova, ressuscitada. Na
morte do Filho de Deus na cruz está a semente de uma nova esperança de vida,
como o grão de trigo que morre no seio da terra.
Nesta noite
carregada de silêncio, carregada de esperança, ressoa o convite que Deus nos
dirige através das palavras de Santo Agostinho: «Tende fé! Vireis a mim e
saboreareis os bens da minha mesa, como é verdade que Eu não recusei saborear
os males da vossa mesa... Prometi-vos a minha vida... Como antecipação, vos dei
a minha morte, como que para vos dizer: Vede, convido-vos a participar da minha
vida... É uma vida onde ninguém morre, uma vida verdadeiramente feliz, que
oferece um alimento incorruptível, um alimento que restaura e nunca acaba. A
meta a que vos convido... é a amizade com o Pai e o Espírito Santo, é a ceia
eterna, é a comunhão comigo... é participar da minha vida» (cf. Discurso 231, 5).
Fixemos o nosso
olhar em Jesus Crucificado e peçamos na oração: Iluminai, Senhor, o nosso
coração, para que possamos seguir-vos pelo caminho da Cruz; fazei morrer em nós
o «homem velho», ligado ao egoísmo, ao mal, ao pecado, e tornai-nos «homens
novos», mulheres e homens santos, transformados e animados pelo vosso amor.
Bênção Apostólica / Canto final: Crux
fidelis
Confira outros modelos de meditações em nossa postagem sobre a história da Via Sacra presidida pelo Papa no Coliseu.
Notas:
[1] O livreto da celebração foi ilustrado pela Irmã Helena Maria Manganelli, O.S.A. Como não encontramos essas imagens em boa resolução, propusemos as esculturas realizadas por Mickey Wells para o Santuário da Paixão de Cristo (Shrine of Christ’s Passion) na cidade de St. John (Indiana, EUA). Como vimos, o Santuário se encontra muito próximo de Chicago (Illinois), cidade natal de Robert Francis Prevost, o Papa Leão XIV [1].
[2] Os dois trechos
que omitimos da “Apresentação” são um agradecimento à Irmã Maria Rita
Piccione, que escreveu as meditações, e à Irmã Helena Maria Manganelli, que
elaborou as imagens das estações, e um breve resumo do carisma agostiniano.


















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