Solenidade da Epifania do Senhor
Fechamento da Porta Santa e conclusão do Jubileu Ordinário de 2025
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Terça-feira, 06 de janeiro de 2026
Queridos irmãos e irmãs,
O Evangelho (Mt 2,1-12)
descreveu-nos a grande alegria dos Magos ao reverem a estrela (v. 10), mas
também a perturbação sentida por Herodes e por toda a cidade de Jerusalém
diante da sua busca (v. 3). Sempre que se trata das manifestações de Deus, a
Sagrada Escritura não esconde este tipo de contrastes: alegria e perturbação,
resistência e obediência, medo e desejo. Celebramos hoje a Epifania do Senhor,
conscientes de que, na sua presença, nada permanece como antes. Este é o início
da esperança. Deus revela-se e nada pode permanecer imóvel. Acaba certa
tranquilidade, aquela que leva os melancólicos a repetir: «Não há nada de novo debaixo do sol» (Ecl 1,10).
Começa algo do qual dependem o presente e o futuro, como anuncia o Profeta:
«Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu
sobre ti a glória do Senhor» (Is 60,1).
Surpreende que seja perturbada precisamente
Jerusalém, cidade palco de tantos novos começos. Dentro dela, exatamente
aqueles que estudam as Escrituras e pensam ter todas as respostas dão a
impressão de ter perdido a capacidade de formular perguntas e cultivar desejos.
Aliás, a cidade fica assustada com aqueles que vêm de longe, movidos pela
esperança, a ponto de pressentir uma ameaça naquilo que, pelo contrário,
deveria dar-lhe muita alegria. Esta reação interpela também todos nós, como
Igreja.
A Porta Santa desta Basílica que, por
último, foi fechada hoje, recebeu o fluxo de inúmeros homens e mulheres,
peregrinos de esperança, a caminho da Cidade cujas portas estão sempre abertas,
a nova Jerusalém (cf. Ap 21,25). Quem foram eles
e o que os motivava? No final do Ano Jubilar, questiona-nos com particular
seriedade a busca espiritual dos nossos contemporâneos, muito mais rica do que
talvez possamos compreender. Milhões deles atravessaram a soleira da Igreja. E
o que encontraram? Que corações, que atenção, que acolhida? Sim, os Magos ainda
existem. São pessoas que aceitam o desafio de arriscar cada um a própria
viagem, que em um mundo conturbado como o nosso, sob muitos aspectos repulsivo
e perigoso, sentem a necessidade de partir, de procurar.
Homo viator, assim diziam os antigos.
Somos vidas a caminho. O Evangelho compromete a Igreja a não ter medo desse
dinamismo, mas a apreciá-lo e a orientá-lo para o Deus que o suscita. É um Deus
que pode perturbar-nos, porque não está imóvel nas nossas mãos como os ídolos
de prata e ouro: pelo contrário, é vivo e vivificante, como aquele Menino que
Maria acolheu nos seus braços e que os Magos adoraram. Os lugares santos, como
as Catedrais, as Basílicas, os Santuários, que se tornaram destinos de
peregrinação jubilar, devem difundir o perfume da vida, a impressão indelével
de que outro mundo começou.
Perguntemo-nos: há vida na nossa Igreja? Há
espaço para o que está nascendo? Amamos e anunciamos um Deus que nos põe
novamente a caminho?
No relato, Herodes teme pelo seu trono,
agita-se com o que sente fugir ao seu controle. Tenta aproveitar-se do desejo
dos Magos e procura desviar em seu benefício a busca deles. Está pronto a
mentir, está disposto a tudo; verdadeiramente, o medo cega. Em contrapartida, a
alegria do Evangelho liberta: torna-nos prudentes, sim, mas também audazes,
atentos e criativos; sugere estradas diferentes daquelas já percorridas.
Os Magos trazem a Jerusalém uma pergunta
simples e essencial: «Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer?» (Mt 2,2).
Como é importante que quem atravessa a porta da Igreja sinta que o Messias
acaba de nascer ali e que ali se reúne uma comunidade na qual surgiu a
esperança e que ali está acontecendo uma história de vida! O Jubileu veio para
nos lembrar que é possível recomeçar, ou melhor, que estamos ainda no início,
que o Senhor deseja crescer no meio de nós, deseja ser o Deus-conosco. Sim,
Deus põe em questão a ordem existente: tem sonhos que ainda hoje inspira nos
seus profetas; está determinado a resgatar-nos de antigas e novas escravidões;
envolve jovens e idosos, pobres e ricos, homens e mulheres, santos e pecadores
nas suas obras de misericórdia, nas maravilhas da sua justiça. Não faz barulho,
mas o seu Reino já está germinando em todo o mundo.
Quantas epifanias nos são concedidas ou
estão prestes a ser concedidas! No entanto, elas devem ser desviadas das
intenções de Herodes, dos medos sempre prontos a transformar-se em agressão.
«Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e
são os violentos que o conquistam» (Mt 11,12). Esta misteriosa
expressão de Jesus, relatada no Evangelho
de Mateus, não pode deixar de
nos fazer pensar nos numerosos conflitos com os quais os homens podem resistir
e até mesmo atingir o Novo que Deus reserva para todos. Amar a paz e procurá-la
significa proteger o que é santo e, por isso mesmo, nascente: pequeno,
delicado, frágil como uma criança. À nossa volta, uma economia distorcida tenta
tirar proveito de tudo. Vemo-lo: o mercado transforma em negócios até mesmo a
sede humana de procurar, viajar e recomeçar. Perguntemo-nos: o Jubileu
ensinou-nos a fugir desse tipo de eficiência que reduz tudo a um produto e o
ser humano a um consumidor? Depois deste ano, estaremos mais capacitados para
reconhecer no visitante um peregrino, no desconhecido um buscador, no distante
um vizinho, no diferente um companheiro de viagem?
O modo como Jesus encontrou todos e deixou
que todos se aproximassem d’Ele ensina-nos a valorizar o segredo dos corações
que só Ele sabe ler. Com Ele, aprendemos a interpretar os sinais dos tempos (cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et
spes, n. 4). Ninguém pode nos vender isso. O Menino que os Magos adoram é
um Bem sem preço nem medida. É a Epifania da gratuidade. Não nos aguarda em
lugares prestigiados, mas nas realidades humildes. «E tu, Belém, terra de Judá,
de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá» (Mt 2,6).
Quantas cidades, quantas comunidades precisam ouvir: “De modo algum és a
menor”. Sim, o Senhor continua a nos surpreender! Ele se deixa encontrar. Os
nossos caminhos não são os seus caminhos, que nem os violentos conseguem
dominar, nem os poderes do mundo podem obstruir. Daí a grande alegria dos
Magos, que deixam para trás o palácio e o templo e partem para Belém: voltam
então a ver a estrela!
Por isso, queridos irmãos e irmãs, é bom
sermos peregrinos de esperança. E é bom continuar a sê-lo, juntos! A fidelidade
de Deus continuará a nos surpreender. Se não reduzirmos as nossas igrejas a
monumentos, se as nossas comunidades forem casas, se resistirmos unidos às
seduções dos poderosos, então seremos a geração da aurora. Maria, Estrela da
Manhã, caminhará sempre à nossa frente! No seu Filho, contemplaremos e
serviremos uma magnífica humanidade, transformada não por delírios de
onipotência, mas pelo Deus que, por amor, se fez carne.
Fonte: Santa Sé.


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