quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Catequeses do Jubileu 2025: Vida de Jesus 2

Confira nesta postagem as últimas duas meditações sobre os encontros”, primeira parte da seção sobre a vida pública de Jesus dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”: Zaqueu (Lc 19,1-10) e o homem rico (Mc 10,17-22).

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 02 de abril de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.3. A vida de Jesus - Os encontros: Zaqueu (Lc 19,1-10)

Amados irmãos e irmãs,
Continuemos a contemplar os encontros de Jesus com alguns personagens do Evangelho. Desta vez gostaria de meditar sobre a figura de Zaqueu: um episódio que me é particularmente caro, porque ocupa um lugar especial no meu caminho espiritual.

O Evangelho de Lucas nos apresenta Zaqueu como alguém que parece irremediavelmente perdido. Talvez também nós nos sintamos assim às vezes: sem esperança. Zaqueu, pelo contrário, descobrirá que o Senhor já estava à sua procura.

Com efeito, Jesus desceu a Jericó, cidade situada abaixo do nível do mar, considerada uma imagem do submundo, onde Jesus quer ir procurar aqueles que se sentem perdidos. E, na realidade, o Senhor Ressuscitado continua a descer aos submundos de hoje, aos lugares de guerra, à dor dos inocentes, ao coração das mães que veem morrer os seus filhos, à fome dos pobres.

Jesus e Zaqueu

Em certo sentido Zaqueu se perdeu, talvez tenha feito escolhas equivocadas ou a vida o tenha colocado em situações das quais tem dificuldade de sair. Com efeito, Lucas insiste em descrever as características deste homem: não só é um publicano, isto é, alguém que cobra os impostos dos seus concidadãos para os invasores romanos, mas é inclusive o chefe dos publicanos, como se dissesse que o seu pecado é multiplicado.

Além disso, Lucas acrescenta que Zaqueu é rico, dando a entender que enriqueceu às custas dos outros, abusando da sua posição. Mas tudo isso tem consequências: Zaqueu provavelmente se sente excluído, desprezado por todos.

Quando descobre que Jesus está atravessando a cidade, Zaqueu sente o desejo de vê-lo. Não ousa imaginar um encontro, limita-se a contemplá-lo de longe. Mas os nossos desejos encontram também obstáculos, não se realizam automaticamente: Zaqueu é de baixa estatura! É a nossa realidade, temos limitações com as quais devemos lidar. E depois há os outros, que às vezes não nos ajudam: a multidão impede que Zaqueu veja Jesus. Talvez seja também um pouco a sua “revanche”.

Mas quando temos um desejo forte, não desanimamos: encontramos uma solução. Mas é preciso ser corajoso, não ter vergonha; é necessário ter um pouco da simplicidade das crianças e não se preocupar muito com a própria imagem. Precisamente como uma criança, Zaqueu sobe em uma árvore. Devia ser um bom ponto de observação, sobretudo para olhar sem ser visto, escondido atrás dos ramos.

Mas com o Senhor acontece sempre o inesperado: quando se aproxima, Jesus eleva o olhar. Zaqueu sente-se descoberto e provavelmente espera uma repreensão pública. O povo talvez o esperasse, mas fica desiludido: Jesus pede a Zaqueu que desça imediatamente, quase surpreendido por vê-lo na árvore, e lhe diz: «Hoje devo ficar na tua casa» (Lc 19,5). Deus não pode passar sem procurar quem se perdeu.

Lucas destaca a alegria do coração de Zaqueu. É a alegria de quem se sente visto, reconhecido e, sobretudo, perdoado. O olhar de Jesus não é um olhar de repreensão, mas de misericórdia. É a misericórdia que, às vezes, temos dificuldade de aceitar, sobretudo quando Deus perdoa aqueles que, na nossa opinião, não o merecem. Murmuramos porque gostaríamos de pôr limites ao amor de Deus.

Na cena em casa, depois de ouvir as palavras de perdão de Jesus, Zaqueu se levanta, como se ressuscitasse da sua condição de morte. E se levanta para assumir um compromisso: devolver quatro vezes o que roubou. Não se trata de um preço a pagar, porque o perdão de Deus é gratuito, mas se trata do desejo de imitar Aquele por quem se sentiu amado. Zaqueu assume um compromisso ao qual não estava obrigado, mas o faz porque compreende que esse é o seu modo de amar. E o faz unindo a legislação romana relativa ao roubo à legislação rabínica sobre a penitência. Assim, Zaqueu não é apenas o homem do desejo, é também alguém que sabe dar passos concretos. O seu propósito não é genérico ou abstrato, mas nasce precisamente da sua história: olhou para a sua vida e identificou o ponto a partir do qual começar a sua mudança.

Caros irmãos e irmãs, aprendamos de Zaqueu a não perder a esperança, nem mesmo quando nos sentimos rejeitados ou incapazes de mudar. Cultivemos o nosso desejo de ver Jesus e, sobretudo, deixemo-nos encontrar pela misericórdia de Deus, que vem sempre à nossa procura, independentemente da situação em que nos perdemos.

Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 09 de abril de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.4. A vida de Jesus - Os encontros: O homem rico (Mc 10,17-22)

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje nos detemos sobre outro dos encontros de Jesus narrados pelos Evangelhos. Desta vez, porém, a pessoa encontrada não tem nome. O evangelista Marcos o apresenta simplesmente como «alguém» (Mc 10,17). Trata-se de um homem que desde jovem observou os mandamentos, mas que, apesar disso, ainda não encontrou o sentido da sua vida. Está à sua procura. Talvez seja alguém que não tenha se decidido totalmente, apesar da aparência de pessoa empenhada. Com efeito, para além das coisas que fazemos, dos sacrifícios ou dos sucessos, o que realmente conta para sermos felizes é o que trazemos no coração. Se um navio deve zarpar e deixar o porto para navegar em mar aberto, pode até ser um navio maravilhoso, com uma tripulação excepcional, mas se não puxa os lastros e as âncoras que o prendem, nunca conseguirá partir. Este homem construiu para si um navio de luxo, mas ficou no porto!

Enquanto Jesus caminha pela estrada, este homem corre ao seu encontro, se ajoelha diante d’Ele e pergunta: «Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?» (v. 17). Reparemos nos verbos: “que devo fazer para ganhar a vida eterna”. Como a observância da Lei não lhe deu a felicidade e a segurança de ser salvo, dirige-se ao mestre Jesus. O que chama a atenção é que este homem não conhece o vocabulário da gratuidade! Tudo parece devido. Tudo é um dever. A vida eterna para ele é uma herança, algo que se obtém por direito, através da observância meticulosa dos compromissos. Mas em uma vida vivida assim, ainda que certamente para o bem, que lugar pode ter o amor?

Como sempre, Jesus vai além das aparências. Se por um lado este homem coloca diante de Jesus o seu belo currículo, Jesus vai além e olha para dentro. O verbo que Marcos utiliza é muito significativo: «fixou nele o olhar» (v. 21). Precisamente porque Jesus olha para dentro de cada um de nós, nos ama como somos verdadeiramente. O que terá visto de fato dentro dessa pessoa? O que Jesus vê quando olha para dentro de nós e nos ama, apesar das nossas distrações e dos nossos pecados? Vê a nossa fragilidade, mas também o nosso desejo de ser amados tal como somos.

«Olhou para ele com amor» (v. 21), diz o Evangelho. Jesus ama este homem antes ainda de convidá-lo a segui-lo. Ama-o assim como é. O amor de Jesus é gratuito: exatamente o contrário da lógica do mérito que atormentava esta pessoa. Somos verdadeiramente felizes quando percebemos que somos amados assim, gratuitamente, pela graça. E isto vale também nas relações entre nós: enquanto procurarmos comprar o amor ou mendigar o afeto, essas relações nunca nos farão sentir felizes.

A proposta que Jesus faz a este homem é a de mudar sua maneira de viver e de se relacionar com Deus. Com efeito, Jesus reconhece que dentro dele, como em todos nós, há uma carência. É o desejo que de ser amados trazemos no coração. Há uma ferida que nos pertence enquanto seres humanos, a ferida através da qual o amor pode passar.

Para preencher esta carência não é preciso “comprar” reconhecimentos, afeto, consideração; é preciso, pelo contrário, “vender” tudo aquilo que nos pesa, para que o nosso coração seja mais livre. Não é necessário continuar a tomar para nós mesmos, mas sim dar aos pobres, colocar à disposição, partilhar.

Por fim, Jesus convida este homem a não ficar sozinho. Convida-o a segui-lo, a estar dentro de um vínculo, a viver uma relação. Só assim, com efeito, será possível sair do anonimato. Só podemos ouvir o nosso nome dentro de uma relação, na qual alguém nos chama. Se permanecermos sozinhos, nunca ouviremos pronunciar o nosso nome e continuaremos a ser “alguéns”, anônimos. Talvez hoje, precisamente porque vivemos em uma cultura da autossuficiência e do individualismo, descobrimo-nos mais infelizes, porque já não ouvimos pronunciar o nosso nome por alguém que nos quer bem gratuitamente.

Esse homem não acolhe o convite de Jesus e fica sozinho, porque os lastros da sua vida o retêm no porto. A tristeza é o sinal de que não conseguiu partir. Às vezes pensamos que sejam riquezas e, no entanto, são apenas pesos que estão nos bloqueando. A esperança é que esta pessoa, como cada um de nós, mais cedo ou mais tarde possa mudar e decidir se fazer ao largo.

Irmãos e irmãs, confiemos ao Coração de Jesus todas as pessoas tristes e indecisas, para que possam sentir o olhar de amor do Senhor, que se comove olhando com ternura para dentro de nós.

Jesus e o homem rico (Heinrich Hofmann)

Fonte: Santa Sé (02 de abril e 09 de abril de 2025).

Observação: As duas Catequeses acima foram preparadas pelo Papa Francisco e divulgadas pela Santa Sé, uma vez que este se encontrava hospitalizado.

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