Confira nesta postagem as últimas duas meditações sobre os “encontros”, primeira parte da seção sobre a vida pública de Jesus dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”: Zaqueu (Lc 19,1-10) e o homem rico (Mc 10,17-22).
Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 02 de abril de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.3. A vida de Jesus - Os encontros: Zaqueu (Lc 19,1-10)
Amados irmãos e irmãs,
Continuemos a contemplar os encontros de Jesus com alguns
personagens do Evangelho. Desta vez gostaria de meditar sobre a figura de
Zaqueu: um episódio que me é particularmente caro, porque ocupa um lugar
especial no meu caminho espiritual.
O Evangelho de Lucas nos apresenta Zaqueu como alguém
que parece irremediavelmente perdido. Talvez também nós nos sintamos assim às
vezes: sem esperança. Zaqueu, pelo contrário, descobrirá que o Senhor já estava
à sua procura.
Com efeito, Jesus desceu a Jericó, cidade situada abaixo do
nível do mar, considerada uma imagem do submundo, onde Jesus quer ir procurar
aqueles que se sentem perdidos. E, na realidade, o Senhor Ressuscitado continua
a descer aos submundos de hoje, aos lugares de guerra, à dor dos inocentes, ao
coração das mães que veem morrer os seus filhos, à fome dos pobres.
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| Jesus e Zaqueu |
Em certo sentido Zaqueu se perdeu, talvez tenha feito
escolhas equivocadas ou a vida o tenha colocado em situações das quais tem
dificuldade de sair. Com efeito, Lucas insiste em descrever as características
deste homem: não só é um publicano, isto é, alguém que cobra os impostos dos
seus concidadãos para os invasores romanos, mas é inclusive o chefe dos
publicanos, como se dissesse que o seu pecado é multiplicado.
Além disso, Lucas acrescenta que Zaqueu é rico, dando a entender
que enriqueceu às custas dos outros, abusando da sua posição. Mas tudo isso tem
consequências: Zaqueu provavelmente se sente excluído, desprezado por todos.
Quando descobre que Jesus está atravessando a cidade, Zaqueu
sente o desejo de vê-lo. Não ousa imaginar um encontro, limita-se a contemplá-lo
de longe. Mas os nossos desejos encontram também obstáculos, não se realizam
automaticamente: Zaqueu é de baixa estatura! É a nossa realidade, temos
limitações com as quais devemos lidar. E depois há os outros, que às vezes não
nos ajudam: a multidão impede que Zaqueu veja Jesus. Talvez seja também um
pouco a sua “revanche”.
Mas quando temos um desejo forte, não desanimamos: encontramos
uma solução. Mas é preciso ser corajoso, não ter vergonha; é necessário ter um
pouco da simplicidade das crianças e não se preocupar muito com a própria
imagem. Precisamente como uma criança, Zaqueu sobe em uma árvore. Devia ser um
bom ponto de observação, sobretudo para olhar sem ser visto, escondido atrás
dos ramos.
Mas com o Senhor acontece sempre o inesperado: quando se
aproxima, Jesus eleva o olhar. Zaqueu sente-se descoberto e provavelmente
espera uma repreensão pública. O povo talvez o esperasse, mas fica desiludido:
Jesus pede a Zaqueu que desça imediatamente, quase surpreendido por vê-lo na
árvore, e lhe diz: «Hoje devo ficar na tua casa» (Lc 19,5). Deus
não pode passar sem procurar quem se perdeu.
Lucas destaca a alegria do coração de Zaqueu. É a alegria de
quem se sente visto, reconhecido e, sobretudo, perdoado. O olhar de Jesus não é
um olhar de repreensão, mas de misericórdia. É a misericórdia que, às vezes,
temos dificuldade de aceitar, sobretudo quando Deus perdoa aqueles que, na
nossa opinião, não o merecem. Murmuramos porque gostaríamos de pôr limites ao
amor de Deus.
Na cena em casa, depois de ouvir as palavras de perdão de
Jesus, Zaqueu se levanta, como se ressuscitasse da sua condição de morte. E se levanta
para assumir um compromisso: devolver quatro vezes o que roubou. Não se trata
de um preço a pagar, porque o perdão de Deus é gratuito, mas se trata do desejo
de imitar Aquele por quem se sentiu amado. Zaqueu assume um compromisso ao qual
não estava obrigado, mas o faz porque compreende que esse é o seu modo de amar.
E o faz unindo a legislação romana relativa ao roubo à legislação rabínica
sobre a penitência. Assim, Zaqueu não é apenas o homem do desejo, é também
alguém que sabe dar passos concretos. O seu propósito não é genérico ou
abstrato, mas nasce precisamente da sua história: olhou para a sua vida e
identificou o ponto a partir do qual começar a sua mudança.
Caros irmãos e irmãs, aprendamos de Zaqueu a não perder a
esperança, nem mesmo quando nos sentimos rejeitados ou incapazes de mudar.
Cultivemos o nosso desejo de ver Jesus e, sobretudo, deixemo-nos encontrar pela
misericórdia de Deus, que vem sempre à nossa procura, independentemente da
situação em que nos perdemos.
Papa Francisco
Audiência Geral
Quarta-feira, 09 de abril de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.4. A vida de Jesus - Os encontros: O homem rico (Mc 10,17-22)
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje nos detemos sobre outro dos encontros de Jesus narrados
pelos Evangelhos. Desta vez, porém, a pessoa encontrada não tem nome. O
evangelista Marcos o apresenta simplesmente como «alguém» (Mc 10,17).
Trata-se de um homem que desde jovem observou os mandamentos, mas que, apesar
disso, ainda não encontrou o sentido da sua vida. Está à sua procura. Talvez
seja alguém que não tenha se decidido totalmente, apesar da aparência de pessoa
empenhada. Com efeito, para além das coisas que fazemos, dos sacrifícios ou dos
sucessos, o que realmente conta para sermos felizes é o que trazemos no
coração. Se um navio deve zarpar e deixar o porto para navegar em mar aberto,
pode até ser um navio maravilhoso, com uma tripulação excepcional, mas se não
puxa os lastros e as âncoras que o prendem, nunca conseguirá partir. Este homem
construiu para si um navio de luxo, mas ficou no porto!
Enquanto Jesus caminha pela estrada, este homem corre ao seu
encontro, se ajoelha diante d’Ele e pergunta: «Bom Mestre, que devo fazer para
ganhar a vida eterna?» (v. 17). Reparemos nos verbos: “que devo fazer para ganhar a
vida eterna”. Como a observância da Lei não lhe deu a felicidade e a segurança
de ser salvo, dirige-se ao mestre Jesus. O que chama a atenção é que este homem
não conhece o vocabulário da gratuidade! Tudo parece devido. Tudo é um dever. A
vida eterna para ele é uma herança, algo que se obtém por direito, através da
observância meticulosa dos compromissos. Mas em uma vida vivida assim, ainda
que certamente para o bem, que lugar pode ter o amor?
Como sempre, Jesus vai além das aparências. Se por um lado
este homem coloca diante de Jesus o seu belo currículo, Jesus vai além e olha
para dentro. O verbo que Marcos utiliza é muito significativo: «fixou nele o
olhar» (v. 21). Precisamente porque Jesus olha para dentro de cada um de
nós, nos ama como somos verdadeiramente. O que terá visto de fato dentro dessa
pessoa? O que Jesus vê quando olha para dentro de nós e nos ama, apesar das
nossas distrações e dos nossos pecados? Vê a nossa fragilidade, mas também o
nosso desejo de ser amados tal como somos.
«Olhou para ele com amor» (v. 21), diz o Evangelho.
Jesus ama este homem antes ainda de convidá-lo a segui-lo. Ama-o assim como é.
O amor de Jesus é gratuito: exatamente o contrário da lógica do mérito que
atormentava esta pessoa. Somos verdadeiramente felizes quando percebemos que
somos amados assim, gratuitamente, pela graça. E isto vale também nas relações
entre nós: enquanto procurarmos comprar o amor ou mendigar o afeto, essas
relações nunca nos farão sentir felizes.
A proposta que Jesus faz a este homem é a de mudar sua
maneira de viver e de se relacionar com Deus. Com efeito, Jesus reconhece que
dentro dele, como em todos nós, há uma carência. É o desejo que de ser amados trazemos
no coração. Há uma ferida que nos pertence enquanto seres humanos, a ferida
através da qual o amor pode passar.
Para preencher esta carência não é preciso “comprar”
reconhecimentos, afeto, consideração; é preciso, pelo contrário, “vender” tudo
aquilo que nos pesa, para que o nosso coração seja mais livre. Não é necessário
continuar a tomar para nós mesmos, mas sim dar aos pobres, colocar à
disposição, partilhar.
Por fim, Jesus convida este homem a não ficar sozinho.
Convida-o a segui-lo, a estar dentro de um vínculo, a viver uma relação. Só
assim, com efeito, será possível sair do anonimato. Só podemos ouvir o nosso
nome dentro de uma relação, na qual alguém nos chama. Se permanecermos
sozinhos, nunca ouviremos pronunciar o nosso nome e continuaremos a ser “alguéns”,
anônimos. Talvez hoje, precisamente porque vivemos em uma cultura da
autossuficiência e do individualismo, descobrimo-nos mais infelizes, porque já
não ouvimos pronunciar o nosso nome por alguém que nos quer bem gratuitamente.
Esse homem não acolhe o convite de Jesus e fica sozinho,
porque os lastros da sua vida o retêm no porto. A tristeza é o sinal de que não
conseguiu partir. Às vezes pensamos que sejam riquezas e, no entanto, são
apenas pesos que estão nos bloqueando. A esperança é que esta pessoa, como cada
um de nós, mais cedo ou mais tarde possa mudar e decidir se fazer ao largo.
Irmãos e irmãs, confiemos ao Coração de Jesus todas as
pessoas tristes e indecisas, para que possam sentir o olhar de amor do Senhor,
que se comove olhando com ternura para dentro de nós.
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| Jesus e o homem rico (Heinrich Hofmann) |
Fonte: Santa Sé (02 de abril e 09 de abril de 2025).
Observação: As duas Catequeses acima foram preparadas pelo Papa Francisco e divulgadas pela Santa Sé, uma vez que este se encontrava hospitalizado.


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