Consistório Extraordinário - Missa com os Cardeais
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 08 de janeiro de 2026
Foram proclamadas as leituras do dia 08 de janeiro: 1Jo 4,7-10; Sl 71; Mc 6,34-44 [1].
«Caríssimos, amemo-nos uns aos outros,
porque o amor vem de Deus» (1Jo 4,7). A Liturgia nos propõe esta
exortação ao celebrarmos o Consistório Extraordinário: momento de graça no qual
se expressa a nossa união ao serviço da Igreja.
Como sabemos, a palavra Consistório, Consistorium, “assembleia”, pode ser interpretada à luz da raiz do verbo consistere, ou seja, “parar”. E, com efeito, todos nós “paramos” para estar aqui: interrompemos por algum tempo as nossas atividades e renunciamos a compromissos importantes, para nos reunirmos e discernirmos o que o Senhor nos pede para o bem do seu Povo. Este é, por si só, um gesto muito significativo, profético, especialmente no contexto da sociedade frenética em que vivemos. Lembra-nos, pois, a importância, em cada percurso de vida, de parar para rezar, ouvir, refletir e assim voltar a focar cada vez melhor o olhar na meta, direcionando para ela cada esforço e recurso, para não corrermos o risco de andar às cegas ou dar golpes no ar em vão, como adverte o Apóstolo Paulo (cf. 1Cor 9,26). Na verdade, não estamos aqui para promover “agendas” - pessoais ou de grupo -, mas para confiar os nossos projetos e inspirações ao juízo de um discernimento que nos ultrapassa «tanto quanto os céus estão acima da terra» (Is 55,9) e que só pode vir do Senhor.
Por isso, é importante que agora, na
Eucaristia, coloquemos sobre o Altar, com o dom da nossa vida, todos os nossos
desejos e pensamentos, oferecendo-os ao Pai em união com o Sacrifício de
Cristo, para os recebermos purificados, iluminados, fundidos e transformados,
pela graça, em um único Pão. Com efeito, só assim saberemos realmente ouvir a
sua voz, acolhendo-a no dom que somos uns para os outros: motivo pelo qual nos
reunimos.
O nosso Colégio, embora rico de tantas
competências e dons notáveis, na verdade, não é chamado a ser, em primeiro
lugar, uma equipe de especialistas, mas uma comunidade de fé, na qual os dons
que cada um traz, oferecidos ao Senhor e por Ele restituídos, produzam, segundo
a sua Providência, o máximo fruto.
Afinal, o Amor de Deus, do qual somos
discípulos e apóstolos, é um Amor “trinitário”, “relacional”, fonte daquela
espiritualidade de comunhão da qual vive a Esposa de Cristo e da qual ela quer
ser casa e escola (cf. Carta Apostólica Novo millennio
ineunte, 06 de janeiro de 2001, n. 43). São João Paulo II, desejando o seu
crescimento no início do terceiro milênio, definiu-a como um «o olhar do
coração voltado para o mistério da Trindade, que habita em nós e cuja luz há de
ser percebida também no rosto dos irmãos que estão ao nosso redor» (ibid.).
Assim, o nosso “parar” é, antes de tudo, um
grande ato de amor - a Deus, à Igreja e aos homens e mulheres de todo o mundo -,
com o qual deixamo-nos moldar pelo Espírito: primeiro, na oração e no silêncio,
mas também olhando-nos nos olhos, ouvindo-nos reciprocamente e dando voz,
através da partilha, a todos aqueles que o Senhor confiou, nas mais diversas
partes do mundo, aos nossos cuidados de Pastores. Um ato a ser vivido com
coração humilde e generoso, na consciência de que é por graça que aqui estamos
e que não há nada, do que trazemos, que não tenha sido recebido como dom e
talento a não ser desperdiçado, mas a ser investido com perspicácia e coragem (cf. Mt 25,14-30).
São Leão Magno ensinava que «é algo
grandioso e muito precioso aos olhos do Senhor quando todo o povo de Cristo se
dedica em conjunto aos mesmos deveres, em todos os graus e em todas as ordens...
colaboram com um mesmo espírito... Então os famintos são alimentados, os nus
são vestidos, os doentes são visitados, e ninguém busca os próprios interesses,
mas os dos outros» (Sermões, 88, 4). Este é o espírito com que juntos
queremos trabalhar: o de quem deseja que, no Corpo místico de Cristo, cada
membro coopere ordenadamente para o bem de todos (cf. Ef 4,11-13),
desempenhando com dignidade e plenamente o seu ministério sob a orientação do
Espírito, feliz por oferecer e ver amadurecer os frutos do seu trabalho, assim
como por receber e ver crescer os frutos do trabalho dos outros (cf. São Leão Magno, Sermões, 88, 5).
Há dois milênios que a Igreja encarna este
mistério na sua poliédrica beleza (cf. Francisco, Encíclica Fratelli tutti,
n. 280). Disso é testemunha esta mesma assembleia, na variedade das
proveniências e idades e na unidade de graça e fé que nos reúne e irmana.
Evidentemente também nós, diante da “grande
multidão” de uma humanidade faminta de bem e de paz, em um mundo em que a
saciedade e a fome, a abundância e a miséria, a luta pela sobrevivência e o
desesperado vazio existencial continuam a dividir e a ferir as pessoas, as
nações e as comunidades, às palavras do Mestre - «Dai-lhes vós mesmos de comer»
(Mc 6,37) - podemos nos sentir como os discípulos: incapazes e
desprovidos de meios. Porém, Jesus volta a repetir-nos: «Quantos pães tendes?
Ide ver» (v. 38), e isso podemos fazê-lo juntos. Nem sempre, contudo,
conseguiremos encontrar soluções imediatas para os problemas que temos de
enfrentar. Todavia, em qualquer lugar e circunstância, poderemos sempre
ajudar-nos mutuamente - e, em particular, ajudar o Papa - a encontrar os “cinco
pães e dois peixes” que a Providência nunca deixa faltar ali onde os seus
filhos imploram ajuda; e acolhê-los, entregá-los, recebê-los e distribuí-los,
enriquecidos com a bênção de Deus e com a fé e o amor de todos, de modo que a ninguém
falte o necessário (cf. Mc 6,42).
Caríssimos, o que vós ofereceis à Igreja com
o vosso serviço, a todos os níveis, é algo grandioso, extremamente pessoal e
profundo, único para cada um e precioso para todos; e a responsabilidade que
partilhais com o Sucessor de Pedro é grave e pesada.
Por isso, agradeço-vos de coração e gostaria
de concluir confiando os nossos trabalhos e a nossa missão ao Senhor com as
palavras de Santo Agostinho: «Concedei-nos muitos benefícios quando vos
invocamos. Todo o bem que recebemos antes de orar, o recebemos de Vós. Enfim, é
ainda um dom que nos concedeis, o reconhecemos depois como vosso, esse
benefício. (...) Mas lembrai-vos, Senhor, que somos pó e que do pó criastes o
homem» (Confissões, 10, 31, 45). Por isso, vos dizemos: «Concedei-me o
que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes» (ibid.).
Fonte: Santa Sé.
Nota:
[1] No Brasil, onde a Solenidade da Epifania
do Senhor é celebrada no domingo entre os dias 02 e 08 de janeiro, essas
leituras são proclamadas na terça-feira após a Epifania.


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