quarta-feira, 4 de março de 2026

Catequeses do Jubileu 2025: Vida de Jesus 6

Concluindo as meditações sobre as “curas” e com elas a seção sobre a vida pública de Jesus dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, o Papa refletiu sobre a hemorroíssa e a filha de Jairo (Mc 5,21-43) e sobre o homem surdo (Mc 7,31-37):

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 25 de junho de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.11. A vida de Jesus - As curas: A hemorroíssa e a filha de Jairo (Mc 5,21-43)

Queridos irmãos e irmãs,
Também hoje meditamos sobre as curas de Jesus como sinal de esperança. N’Ele há uma força que também nós podemos experimentar quando entramos em relação com a sua Pessoa.

Uma doença muito difundida no nosso tempo é o cansaço de viver: a realidade nos parece demasiado complexa, pesada, difícil de enfrentar. Então nos sentimos abatidos, adormecemos na ilusão de que quando acordarmos as coisas serão diferentes. Mas a realidade deve ser enfrentada e, com Jesus, podemos fazê-lo bem. Às vezes nos sentimos bloqueados pelo julgamento de quem pretende colocar rótulos nos outros.

Parece-me que estas situações podem encontrar correspondência em uma passagem do Evangelho de Marcos onde se entrelaçam duas histórias: a de uma menina de doze anos, que está doente na cama e prestes a morrer, e a de uma mulher que tem hemorragias há precisamente doze anos e procura Jesus para poder ser curada (cf. Mc 5,21-43).

Jesus e a mulher com hemorragia
(Catacumbas de Marcelino e Pedro, Roma)

Entre estas duas figuras femininas o evangelista coloca a figura do pai da menina: ele não permanece em casa lamentando-se pela doença da filha, mas sai e pede ajuda. Embora seja o chefe da sinagoga, não faz reivindicações em virtude da sua posição social. Quando é preciso esperar, não perde a paciência e aguarda. E quando vêm lhe dizer que a filha está morta e é inútil incomodar o Mestre, ele continua a ter fé e a esperar.

A conversa desse pai com Jesus é interrompida pela mulher hemorroíssa, que consegue aproximar-se de Jesus e tocar o seu manto (v. 27). Com grande coragem, esta mulher tomou a decisão que muda a sua vida: todos continuavam dizendo-lhe que se mantivesse à distância, que não se mostrasse. Tinham-na condenado a permanecer escondida e isolada. Às vezes também nós podemos ser vítimas do julgamento dos outros, que pretendem vestir-nos com uma roupa que não é nossa. E então nos sentimos mal e não conseguimos superar essa situação.

Aquela mulher toma o caminho da salvação quando germina nela a fé de que Jesus pode curá-la: então encontra a força para sair e ir à sua procura. Quer chegar a tocar pelo menos a sua veste.

Havia uma grande multidão ao redor de Jesus, e por isso muitas pessoas tocavam n’Ele, mas nada lhes acontece. Pelo contrário, quando esta mulher toca em Jesus, fica curada. Onde está a diferença? Comentando este ponto do texto, Santo Agostinho diz, em nome de Jesus: «A multidão se aglomera em torno de mim, mas a fé me toca» (Discurso 243, 2, 2). É assim: cada vez que praticamos um ato de fé destinado a Jesus, se estabelece um contato com Ele e imediatamente brota d’Ele a sua graça. Às vezes não nos damos conta, mas de modo secreto e real a graça chega até nós e, a partir de dentro, transforma lentamente a vida.

Talvez ainda hoje muitas pessoas se aproximem de Jesus de modo superficial, sem acreditar verdadeiramente no seu poder. Pisamos a superfície das nossas igrejas, mas talvez o coração esteja em outro lugar! Esta mulher, silenciosa e anônima, vence os seus medos, tocando o coração de Jesus com as suas mãos consideradas impuras por causa da doença. Eis que, imediatamente, se sente curada. Jesus lhe diz: «Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica curada» (Mc 5,34).

Enquanto isso, levam ao pai a notícia de que a sua filha morreu. Jesus lhe diz: «Não tenhas medo. Basta ter fé!» (v. 36). Depois vai até sua casa e, vendo que todos choram e gritam, diz: «A criança não morreu, mas está dormindo» (v. 39). Então, entra no quarto onde a menina estava deitada, toma a sua mão e diz: «Talitá kum» - «Menina, levanta-te!». A menina levantou-se e começou a andar (vv. 41-42). Esse gesto de Jesus nos mostra que Ele não só cura de todas as doenças, mas também desperta da morte. Para Deus, que é Vida eterna, a morte do corpo é como o sono. A verdadeira morte é aquela da alma: desta devemos ter medo!

Um último detalhe: depois de ter ressuscitado a menina, Jesus diz aos pais que lhe deem de comer (v. 43). Eis outro sinal muito concreto da proximidade de Jesus à nossa humanidade. Mas podemos entendê-lo também em um sentido mais profundo, perguntando-nos: quando os nossos filhos estão em crise e precisam de alimento espiritual, sabemos dá-lo? E como podemos fazê-lo, se nós mesmos não nos nutrimos do Evangelho?

Caros irmãos e irmãs, na vida há momentos de desilusão e desânimo, e há também a experiência da morte. Aprendamos com aquela mulher, com aquele pai: vamos ao encontro de Jesus: Ele pode nos curar, pode nos fazer renascer. Jesus é a nossa esperança!

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 30 de julho de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.12. A vida de Jesus - As curas: O homem surdo (Mc 7,31-37)

Queridos irmãos e irmãs,
Com esta Catequese concluímos o nosso itinerário sobre a vida pública de Jesus, feita de encontros, parábolas e curas.

Também este tempo que vivemos tem necessidade de cura. O nosso mundo é permeado por um clima de violência e de ódio que aflige a dignidade humana. Vivemos em uma sociedade que está adoecendo devido a uma “bulimia” das conexões das redes sociais: estamos hiperconectados, bombardeados por imagens, às vezes até falsas ou deturpadas. Somos oprimidos por múltiplas mensagens que suscitam em nós uma tempestade de emoções contraditórias.

Neste cenário, é possível que nasça em nós o desejo de desligar tudo. Podemos chegar a preferir não sentir mais nada. Até as nossas palavras correm o risco de ser mal interpretadas e podemos ser tentados a nos fechar no silêncio, em uma incomunicabilidade onde, por mais próximos que estejamos, já não conseguimos dizer as coisas mais simples e profundas.

A este respeito, gostaria de refletir hoje sobre um texto do Evangelho de Marcos que nos apresenta um homem que não fala e não ouve (cf. Mc 7,31-37). Precisamente como poderia nos acontecer hoje, este homem talvez tenha decidido não falar mais porque não se sentia compreendido, e desligar todas as vozes porque se sentiu desiludido e ferido com o que ouviu. Com efeito, não é ele que vai até Jesus para ser curado, mas é levado por outras pessoas. Poderíamos pensar que aqueles que o conduzem ao Mestre estão preocupados com o seu isolamento. No entanto, a comunidade cristã viu nessas pessoas também a imagem da Igreja, que acompanha cada homem ao encontro de Jesus, para que ouça a sua palavra. O episódio tem lugar em território pagão, portanto, estamos em um contexto onde outras vozes tendem a abafar a voz de Deus.

Inicialmente o comportamento de Jesus pode parecer estranho, dado que toma aquela pessoa à parte (v. 33a). Assim, parece acentuar o seu isolamento, mas, olhando bem, ajuda-nos a compreender o que se esconde por trás do silêncio e do fechamento desse homem, como se tivesse entendido a sua necessidade de intimidade e de proximidade.

Jesus lhe oferece, antes de tudo, uma proximidade silenciosa, através de gestos que falam de um encontro profundo: toca os ouvidos e a língua do homem (v. 33b). Jesus não profere muitas palavras, diz a única coisa que lhe é necessária neste momento: «Abre-te!» (v. 34). Marcos reporta a palavra em aramaico, efatá, como que para nos fazer sentir o som e o sopro “ao vivo”. Esta palavra, simples e maravilhosa, contém o convite que Jesus dirige a este homem que deixou de ouvir e de falar. É como se Jesus lhe dissesse: «Abre-te a este mundo que te assusta! Abre-te às relações que te desiludiram! Abre-te à vida que renunciaste a enfrentar!». Com efeito, fechar-se nunca é a solução.

Depois do encontro com Jesus, aquela pessoa não só volta a falar, mas o faz «sem dificuldade», «corretamente» (v. 35). Este advérbio inserido pelo evangelista parece querer nos dizer algo mais sobre os motivos do seu silêncio. Talvez este homem tenha deixado de falar porque julgava dizer as coisas de modo errado, talvez não se sentisse adequado. Todos nós passamos pela experiência de ser mal interpretados e de não nos sentirmos compreendidos. Todos nós temos necessidade de pedir ao Senhor que cure o nosso modo de comunicar, não só para ser mais eficazes, mas também para evitar ferir os outros com as nossas palavras.

Voltar a falar corretamente é o início de um caminho, ainda não é o ponto de chegada. Com efeito, Jesus proíbe aquele homem de contar o que lhe aconteceu (v. 36). Para conhecer verdadeiramente Jesus é preciso percorrer um caminho, é preciso estar com Ele e atravessar também a sua Paixão. Quando o tivermos visto humilhado e sofredor, quando experimentarmos o poder salvífico da sua Cruz, só então poderemos dizer que o conhecemos verdadeiramente. Não existem atalhos para ser discípulo de Jesus.

Caros irmãos e irmãs, peçamos ao Senhor que nos ensine a comunicar de maneira honesta e prudente. Rezemos por todos aqueles que foram feridos pelas palavras dos outros. Rezemos pela Igreja, para que nunca desista da sua tarefa de levar as pessoas a Jesus, para que possam ouvir a sua Palavra, ser curadas por ela e, à sua vez, tornar-se portadoras do seu anúncio de salvação.

Jesus e o homem surdo

Fonte: Santa Sé (25 de junho e 30 de julho de 2025).

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