sábado, 23 de maio de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: Pentecostes (2006)

Há cerca de 20 anos, no dia 04 de junho de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa da Solenidade de Pentecostes na Praça de São Pedro. Confira a seguir sua homilia na ocasião:

Solenidade de Pentecostes
Homilia do Papa Bento XVI
Praça de São Pedro
Domingo, 04 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs,
No dia de Pentecostes o Espírito Santo desceu com poder sobre os Apóstolos; teve início assim a missão da Igreja no mundo. O próprio Jesus tinha preparado os Onze para esta missão aparecendo-lhes várias vezes depois da sua Ressurreição (cf. At 1,3). Antes da Ascensão ao Céu, ordenou que “não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem que se realizasse a promessa do Pai” (cf. vv. 4-5); isto é, pediu que permanecessem juntos para se prepararem a receber o dom do Espírito Santo. E eles se reuniram em oração com Maria no Cenáculo à espera do acontecimento prometido (cf. v. 14).

Permanecer juntos foi a condição posta por Jesus para receber o dom do Espírito Santo; pressuposto da sua concórdia foi uma prolongada oração. Encontramos delineada assim uma formidável lição para toda comunidade cristã. Às vezes se pensa que a eficiência missionária dependa principalmente de uma atenta programação e da sucessiva realização inteligente através de um empenho concreto. Certamente o Senhor pede a nossa colaboração, mas antes de qualquer resposta nossa é necessária a sua iniciativa: é o seu Espírito o verdadeiro protagonista da Igreja. As raízes do nosso ser e do nosso agir estão no silêncio sábio e providente de Deus.


As imagens que São Lucas usa para indicar o irromper do Espírito Santo - o vento e o fogo - recordam o Sinai, onde Deus tinha se revelado ao povo de Israel e lhe tinha concedido a sua aliança (cf. Ex 19,3ss). A festa do Sinai, que Israel celebrava cinquenta dias depois da Páscoa, era a festa da Aliança. Falando de línguas de fogo (cf. At 2,3), São Lucas quer representar o Pentecostes como um novo Sinai, como a festa da nova Aliança, na qual a Aliança com Israel é estendida a todos os povos da Terra. A Igreja é católica e missionária desde a sua origem. A universalidade da salvação é evidenciada significativamente pelo elenco das numerosas etnias a que pertencem aqueles que escutam o primeiro anúncio dos Apóstolos (cf. vv. 9-11).

O Povo de Deus, que tinha encontrado no Sinai a sua primeira configuração, hoje é ampliado até não conhecer qualquer fronteira de raça, cultura, espaço ou tempo. Diferentemente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Gn 11,1-9), quando os homens, que pretendiam construir com as suas mãos um caminho para o céu, tinham acabado por destruir a sua própria capacidade de compreender-se reciprocamente, no Pentecostes o Espírito, com o dom das línguas, mostra que a sua presença une e transforma a confusão em comunhão. O orgulho e o egoísmo do homem criam sempre divisões, erguem muros de indiferença, de ódio e de violência. O Espírito Santo, ao contrário, torna os corações capazes de compreender as línguas de todos, porque restabelece a ponte da autêntica comunicação entre a Terra e o Céu. O Espírito Santo é Amor.

Mas como entrar no mistério do Espírito Santo, como compreender o segredo do Amor? A passagem do Evangelho nos conduz hoje ao Cenáculo onde, terminada a Última Ceia, um sentido de desorientação entristece os Apóstolos [1]. A razão é que as palavras de Jesus suscitam perguntas inquietantes: Ele fala do ódio do mundo por Ele e pelos seus, fala da sua misteriosa partida e há muitas outras coisas ainda para dizer, mas no momento os Apóstolos não são capazes de carregar o seu peso (cf. Jo 16,12). Para confortá-los, Ele explica o significado do seu afastamento: irá, mas voltará; enquanto isso, não os abandonará, não os deixará órfãos. Enviará o Consolador, o Espírito do Pai, e será o Espírito que dará a conhecer que a obra de Cristo é obra de amor: amor d’Ele que se ofereceu, amor do Pai que o concedeu.

Este é o mistério do Pentecostes: o Espírito Santo ilumina o espírito humano e, revelando Cristo Crucificado e Ressuscitado, indica o caminho para nos tornarmos mais semelhantes a Ele, isto é, para sermos «expressão e instrumento do amor que d’Ele provém» (Encíclica Deus caritas est, n. 33).

Reunida com Maria, como na sua origem, a Igreja hoje reza: «Veni Sancte Spiritus!» - «Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor!». Amém.

Solenidade de Pentecostes
Papa Bento XVI
Regina Coeli
Praça de São Pedro
Domingo, 04 de junho de 2006

Queridos irmãos e irmãs,
A hodierna Solenidade de Pentecostes nos convida a voltar às origens da Igreja, que, como afirma o Concílio Vaticano II, foi «manifestada pela efusão do Espírito» (Lumen gentium, n. 2). No Pentecostes a Igreja se manifestou una, santa, católica e apostólica; se manifestou missionária, com o dom de falar todas as línguas do mundo, porque a Boa Nova do amor de Deus é destinada a todos os povos. «O Espírito - ensina ainda o Concílio - conduz a Igreja à verdade total, unifica-a na comunhão e no ministério, a instrui e dirige com diversos dons hierárquicos e carismáticos e a adorna com seus frutos» (ibid., 4).

Entre as realidades suscitadas pelo Espírito na Igreja estão os Movimentos e as Comunidades eclesiais, que ontem tive a alegria de encontrar nesta Praça, em uma grande reunião mundial. Toda a Igreja, como o Papa João Paulo II gostava de dizer, é um único grande movimento animado pelo Espírito Santo, um rio que atravessa a história para irrigá-la com a graça de Deus e torná-la fecunda de vida, de bondade, de beleza, de justiça, de paz.

Pentecostes (Jen Norton)

Fonte: Santa Sé (Homilia / Regina Coeli), com pequenas correções feitas pelo autor deste blog.

Nota:
[1] Pela homilia do Papa se deduz que foi proclamado o Evangelho à escolha para o Ano B: Jo 15,26-27; 16,12-15.

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