terça-feira, 23 de junho de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Natividade de São João Batista (2001)

Há 25 anos, no dia 24 de junho de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Solenidade da Natividade de São João Batista no Aeroporto de Chayka em Kiev (Ucrânia), durante sua Viagem Apostólica ao país. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Viagem Apostólica à Ucrânia
Missa na Solenidade da Natividade de São João Batista
Homilia do Papa João Paulo II
Aeroporto de Chayka, Kiev (Ucrânia)
Domingo, 24 de junho de 2001

1. «O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe Ele tinha na mente o meu nome» (Is 49,1).
Celebramos hoje o nascimento de São João Batista. As palavras do profeta Isaías aplicam-se bem a esta grande figura bíblica que se situa entre o Antigo e o Novo Testamento. Na longa esteira dos profetas e dos justos de Israel, João o “Batizador” foi posto pela Providência imediatamente antes do Messias, para preparar o caminho diante d’Ele com a pregação e o testemunho da vida.

Entre todos os Santos e Santas, João é o único do qual a Liturgia celebra o nascimento. Ouvimos na 1ª Leitura que o Senhor chamou o seu Servo “desde o ventre materno”. Esta afirmação se refere na sua plenitude a Cristo, mas, quase por reflexo, pode ser aplicada também ao seu Precursor. Ambos vêm à luz graças a uma intervenção especial de Deus: o primeiro nasce da Virgem, o segundo de uma mulher idosa e estéril. Desde o ventre materno João anuncia Aquele que revelará ao mundo a iniciativa de amor de Deus.

São João Paulo II durante a Missa em Kiev (2001)

2. «No seio de minha mãe vós me tecestes» (Sl 138,13).
Hoje podemos fazer nossa esta exclamação do Salmista. Deus nos conheceu e nos amou antes ainda que os nossos olhos pudessem contemplar as maravilhas da criação. Todo homem, ao nascer, recebe um nome humano. Mas, antes ainda, ele possui um nome divino: o nome com que Deus Pai o conhece e o ama desde sempre e para sempre. É assim para todos, sem excluir ninguém. Nenhum homem é anônimo para Deus! Todos têm o mesmo valor aos seus olhos: todos diferentes, mas todos iguais, todos chamados a ser filhos no Filho.

«João é o seu nome» (Lc 1,63). Zacarias confirma aos parentes admirados o nome do filho, escrevendo-o em uma tabuinha. O próprio Deus, através do seu anjo, indicou esse nome, que em hebraico significa “Deus é favorável”. Deus é favorável ao homem: quer a sua vida, a sua salvação. Deus é favorável ao seu povo: quer fazer dele uma bênção para todas as nações da terra. Deus é favorável à humanidade: guia o seu caminho rumo à terra onde reinam paz e justiça. Tudo isso está inscrito naquele nome: João!

Caríssimos irmãos e irmãs, João Batista era o mensageiro, o precursor: foi enviado para preparar o caminho a Cristo. Que nos diz a figura de São João Batista precisamente aqui, em Kiev, no início desta peregrinação na vossa terra? Não é providencial, em certo sentido, o fato de que esta figura se dirija a nós precisamente em Kiev?

3. Aqui teve lugar o Batismo da Rus’. Em Kiev começou aquele florescimento de vida cristã que o Evangelho suscitou primeiro na terra da antiga Rus’, depois nos territórios da Europa do Leste e, em seguida, para além dos Montes Urais, nos territórios asiáticos. Também Kiev, portanto, desempenhou em certo sentido o papel de precursor do Senhor” entre os numerosos povos aos quais, partindo daqui, chegaria o anúncio da salvação.

São Vladimir e os habitantes da Rus’ de Kiev receberam o Batismo de missionários provenientes de Constantinopla, o maior centro do Cristianismo do Oriente, e assim a jovem Igreja entrou no âmbito da riquíssima herança de fé e de cultura da Igreja bizantina. Era o final do primeiro milênio. Mesmo vivendo segundo duas tradições diferentes, a Igreja de Constantinopla e a Igreja de Roma permaneciam ainda em plena comunhão. Escrevi na Carta Apostólica Euntes in mundum: «Juntos devemos agradecer ao Senhor por este fato, que constitui hoje um desejo e uma esperança. Deus quis que a mãe Igreja, visivelmente unida, acolhesse no seu seio, já rico de nações e de povos, e em um momento de expansão missionária tanto no Ocidente como no Oriente, esta sua nova filha nas margens do rio Dnipro» (n. 4).

Portanto, se hoje, celebrando a Eucaristia segundo a tradição romana, recordamos aquele momento tão profundamente conectado com a tradição bizantina, fazemo-lo com gratidão. Fazemo-lo também com o desejo de que a recordação da única fonte batismal favoreça a recuperação daquela situação de comunhão na qual a diversidade das tradições não impedia a unidade da fé e da vida eclesial.

4. Com o Batismo que teve lugar aqui, em Kiev, teve início a milenária história do Cristianismo nos territórios da atual Ucrânia e de toda a região. Hoje, tendo a graça de me deter neste lugar histórico, o meu olhar é levado a percorrer os mais de dez séculos durante os quais a graça daquele primeiro Batismo continuou derramando-se sobre as sucessivas gerações dos filhos desta nação. Que florescimento de vida espiritual, litúrgica e eclesial se desenvolveu a partir do encontro das diversas culturas e tradições religiosas! Esta maravilhosa herança agora é confiada a vós, queridos irmãos e irmãs. Nestes dias, que me veem peregrino na vossa terra, rezo a Deus juntamente convosco para que a vossa geração, no início de um novo milênio, esteja à altura das grandes tradições do passado.

A partir desta cidade, berço da fé cristã para a Ucrânia e para toda a região, dirijo o olhar e abraço com afeto cordial os homens que vivem nestas terras. Saúdo, de maneira especial, os Senhores Cardeais Marian Jaworski e Lubomyr Husar, o querido Bispo de Kiev-Zhytomyr, Dom Jan Purwinski, os venerados irmãos da Conferência Episcopal Ucraniana e do Sínodo dos Bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana, o clero, os religiosos, as religiosas e os fiéis das vossas gloriosas e martirizadas Igrejas, que com tanta coragem souberam manter acesa a chama da fé mesmo nos tempos obscuros da perseguição. Saúdo cordialmente o Senhor Presidente da República, Leonid Kucma, e o agradeço pela sua presença.

5. Povo de Deus que crês, esperas e amas na terra ucraniana, volta a saborear com alegria o dom do Evangelho, que recebeste há mais de mil anos! Olha neste dia para João Batista, modelo perene de fidelidade a Deus e à sua Lei. Ele preparou o caminho para Cristo com o testemunho da palavra e da vida. Imita-o com dócil e confiante generosidade.

São João Batista é, antes de tudo, modelo de fé. Na esteira do grande profeta Elias, para ouvir melhor a Palavra do único Senhor da sua vida ele deixa tudo e se retira no deserto, de onde fará ressoar o convite a preparar os caminhos do Senhor (cf. Mt 3,3 e paralelos).

É modelo de humildade, porque aos que veem nele não só um Profeta, mas até mesmo o Messias, responde: «Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem Aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias» (At 13,25).

É modelo de coerência e de coragem na defesa da verdade, pela qual está disposto a pagar pessoalmente até a prisão e a morte.

Terra da Ucrânia, impregnada pelo sangue dos mártires, obrigado pelo exemplo de fidelidade ao Evangelho que ofereceste aos cristãos de todas as partes do mundo! Muitos dos teus filhos e filhas caminharam em plena fidelidade a Cristo; muitos levaram a sua coerência até o sacrifício supremo. O seu testemunho sirva de exemplo e de estímulo aos cristãos do terceiro milênio.

6. Na escola de Cristo, seguindo os passos de São João Batista, dos Santos e dos Mártires desta Terra, tende também vós, caríssimos irmãos e irmãs, a coragem de colocar sempre em primeiro lugar os valores espirituais.

Queridos Bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, que acompanhastes fielmente este povo ao preço de sacrifícios pessoais de todo tipo e o apoiastes nos tempos obscuros do terror comunista, vos agradeço e vos exorto: continuai a ser zelosas testemunhas de Cristo e bons pastores do seu rebanho na amada Ucrânia.

Vós, queridos jovens, sede fortes e livres! Não vos deixeis encantar por ilusões enganadoras de felicidade barata. Segui o caminho de Cristo: Ele, sem dúvida, é exigente, mas pode fazer-vos saborear o sentido pleno da vida e a paz do coração.

Vós, queridos pais, preparai o caminho do Senhor diante dos vossos filhos. Educai-os com amor e dai-lhes um exemplo válido de coerência com os princípios que ensinais. E vós que tendes responsabilidades educativas e sociais, senti-vos empenhados em promover sempre o desenvolvimento integral da pessoa humana, cultivando nos jovens um profundo sentido de justiça e de solidariedade com os mais frágeis.

Sede, todos e cada um, «luz das nações» (Is 49,6)!

7. Tu, cidade de Kiev, sê “luz da Ucrânia”. De ti partiram os evangelizadores que, ao longo dos séculos, foram “João Batista para os povos que habitavam estas terras. Quantos deles, como João, sofreram por dar testemunho da verdade e se tornaram, com o seu sangue, semente de novos cristãos! Não faltem nas novas gerações homens e mulheres com a índole destes vossos gloriosos antepassados!

Virgem Santíssima, Protetora da Ucrânia, tu sempre guiaste o caminho do povo cristão. Continua a vigiar sobre os teus filhos. Ajuda-os a nunca esquecer o “nome”, a identidade espiritual que receberam no Batismo. Ajuda-os a alegrar-se sempre pela graça inestimável de ser discípulos de Cristo (cf. Jo 3,29). Sê tu a guia de cada um. Tu, Mãe de Deus e nossa Mãe, Maria!

Mosaico de São João Batista em uma igreja ucraniana

Fonte: Santa Sé (Com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

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