quinta-feira, 4 de junho de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Corpus Christi (2001)

Nesta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) recordamos a homilia proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, no dia 14 de junho de 2001, na Missa da Solenidade (Ano C) diante da Basílica do Latrão seguida da procissão eucarística até a Basílica de Santa Maria Maior.

Recordamos também sua meditação durante a oração do Ângelus do domingo seguinte, 17 de junho.

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Santa Missa e Procissão Eucarística
Homilia do Papa João Paulo II
Adro da Basílica de São João do Latrão
Quinta-feira, 14 de junho de 2001

1. «Ecce panis Angelorum, factus cibus viatorum: vere panis filiorum» - «Eis o pão dos Anjos, feito alimento dos peregrinos: verdadeiro pão dos filhos» (Sequência).
Hoje a Igreja mostra ao mundo o Corpus Christi, o Corpo de Cristo, e nos convida a adorá-lo: Venite adoremus! Vinde, adoremos!

O olhar dos fiéis se concentra no Sacramento, no qual Cristo deixou todo o seu ser: Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Por isso foi sempre considerado o mais Santo: o “Santíssimo Sacramento”, memorial vivo do Sacrifício redentor.


Na Solenidade do Corpus Christi voltamos àquela “Quinta-feira” que todos chamamos “Santa”, na qual o Redentor celebrou a sua última Páscoa com os discípulos: foi a Última Ceia, cumprimento da ceia pascal hebraica e inauguração do rito eucarístico.

Por isso a Igreja, há séculos, escolheu uma quinta-feira para a Solenidade do Corpus Christi, festa de adoração, de contemplação e de exaltação. Festa na qual o Povo de Deus se reúne em torno do tesouro mais precioso herdado de Cristo, o Sacramento da sua própria Presença, e o louva, o canta e o leva em procissão pelas ruas da cidade.

2. «Lauda, Sion, Salvatorem!» - «Louva Sião, o Salvador!» (Sequência).
A nova Sião, a Jerusalém espiritual, na qual se reúnem os filhos de Deus de todos os povos, línguas e culturas, louva o Salvador com hinos e cânticos. Com efeito, a admiração e o reconhecimento pelo dom recebido são inexauríveis. Este dom «supera todo louvor, não há cântico que lhe seja digno» (ibid.).

Eis um mistério sublime e inefável. Mistério diante do qual permanecemos espantados e silenciosos, em atitude de contemplação profunda e extasiada.

3. «Tantum ergo Sacramentum veneremur cernui» - «Adoremos, prostrados, tão sublime Sacramento» (Hino Pange lingua).
Na sagrada Eucaristia está realmente presente Cristo, morto e ressuscitado por nós.

No Pão e no Vinho consagrados permanece conosco o mesmo Jesus dos Evangelhos, que os discípulos encontraram e seguiram, que viram crucificado e ressuscitado, cujas chagas Tomé tocou, prostrando-se em adoração e exclamando: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20,28).

No Sacramento do altar é oferecida à nossa amorosa contemplação toda a profundidade do mistério de Cristo, o Verbo e a carne, a glória divina e a sua morada entre os homens. Diante disso não podemos duvidar de que Deus está “conosco”, que em Jesus Cristo assumiu todas as dimensões do humano, exceto o pecado, despojando-se da sua glória para nos revestir com ela.

No seu Corpo e no seu Sangue se manifesta o rosto invisível de Cristo, o Filho de Deus, na modalidade mais simples e ao mesmo tempo mais nobre possível neste mundo. Aos homens de todos os tempos que, perplexos, pedem: «Queremos ver Jesus» (Jo 12,21), a Comunidade eclesial responde repetindo o gesto que o próprio Senhor realizou para os discípulos de Emaús: parte o pão. Então, ao partir o pão, se abrem os olhos de quem o busca com coração sincero. Na Eucaristia o olhar do coração reconhece Jesus e o seu inconfundível amor que se doa «até o fim» (Jo 13,1). E n’Ele, naquele seu gesto, reconhece o Rosto de Deus!

4. «Ecce panis Angelorum... vere panis filiorum» - «Eis o pão dos Anjos... verdadeiro pão dos filhos» (Sequência).
Desse pão nos alimentamos para nos tornarmos testemunhas autênticas do Evangelho. Precisamos desse pão para crescer no amor, condição indispensável para reconhecer o rosto de Cristo no rosto dos irmãos.

A nossa Comunidade diocesana precisa da Eucaristia para prosseguir no caminho de renovação missionária que empreendeu. Precisamente nos últimos dias foi realizado em Roma o Congresso Diocesano que analisou “as perspectivas de comunhão, de formação e de missionariedade na Diocese de Roma para os próximos anos”. É preciso continuar a caminhar “recomeçando” a partir de Cristo, isto é, da Eucaristia. Caminhamos com generosidade e coragem, buscando a comunhão dentro da nossa Comunidade eclesial e dedicando-nos com amor ao serviço humilde e desinteressado de todos, especialmente dos mais necessitados.

Jesus nos precede nesse caminho com o dom de si mesmo até o sacrifício e se oferece a nós como alimento e apoio. Ademais, em todos os tempos Ele não cessa de repetir aos Pastores do Povo de Deus: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Lc 9,13); parti para todos este pão de vida eterna.
Tarefa comprometedora e emocionante. Missão que dura até o fim dos tempos.

5. «Todos comeram e ficaram satisfeitos» (Lc 9,17).
Através das palavras do Evangelho que escutamos há pouco chega até nós o eco de uma festa que, há dois mil anos, não tem fim. Festa do povo a caminho no êxodo do mundo, alimentado por Cristo, verdadeiro Pão de salvação.

No final da Santa Missa também nós nos colocaremos a caminho no coração de Roma, levando o Corpo de Cristo escondido nos corações e bem visível no ostensório. Acompanharemos o Pão de vida imortal pelas ruas da cidade; o adoraremos e em torno d’Ele se reunirá a Igreja, ostensório vivo do Salvador do mundo.

Que os cristãos de Roma, fortalecidos pelo seu Corpo e pelo seu Sangue, mostrem Cristo a todos com o seu modo de viver: com a sua unidade, com a sua fé alegre, com a sua bondade!
Que a nossa Comunidade diocesana recomece corajosamente a partir de Cristo, Pão de vida imortal!

E Vós, Jesus, Pão vivo que dá vida, pão dos peregrinos, «alimentai-nos e defendei-nos, conduzi-nos aos bens eternos na terra dos vivos» (Sequência). Amém.

João Paulo II
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 17 de junho de 2001

Caríssimos irmãos e irmãs,
1. Ainda conservo viva a recordação da devota Celebração Eucarística que pude presidir na quinta-feira passada, Solenidade do Corpus Christi, diante da Basílica de São João do Latrão, e da sucessiva procissão solene, que concluiu na Basílica de Santa Maria Maior. Por razões pastorais, na Itália e em muitos países essa bela e tradicional festa é celebrada hoje, domingo. A Comunidade eclesial se reúne em adoração em torno do tesouro mais precioso que Cristo Senhor lhe deixou como herança: o Sacramento da Eucaristia, memorial perpétuo do seu sacrifício redentor.

O Corpus Christi é uma festa que tem sugestivas ressonâncias populares, ligadas sobretudo à eloquente tradição de acompanhar o Santíssimo Sacramento em procissão pelas ruas das cidades e dos povoados. É uma festa de alegria, pelo maravilhoso dom do Pão ao qual Cristo vinculou a sua promessa de vida eterna: Pão que é realmente a sua carne, isto é, a sua humanidade, através da qual Deus santifica os corações, as pessoas, as comunidades, as nações e o todo o cosmo.

A Eucaristia se torna assim princípio da nova humanidade e do mundo renovado, cuja manifestação plena terá lugar no fim da história. Já agora, porém, ela cresce como semente e fermento do Reino de Deus.

2. O caráter distintivo da nova humanidade redimida por Cristo é a plenitude do amor fraterno. Na realidade, a Eucaristia é por excelência o Sacramento do amor, entendido como dom de si.

Sem o alimento espiritual que provém do Corpo e do Sangue de Cristo, o amor humano permanece sempre contaminado pelo egoísmo. A comunhão com o Pão do céu, porém, converte os corações e infunde neles a capacidade de amar como Jesus nos amou.

Comunhão”: esta palavra, com a qual muitas vezes definimos a Eucaristia, é particularmente significativa a respeito. Quem recebe o Corpo de Cristo com fé se une intimamente a Ele e, n’Ele, a Deus Pai, no amor do Espírito Santo. Deus no homem, o homem em Deus. E este se torna o autêntico fundamento da comunhão na Igreja. Como escreve o Apóstolo Paulo aos coríntios: «Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo» (1Cor 10,17).

3. Jesus, Pão de vida eterna, desceu do céu graças à fé de Maria Santíssima. Depois de portá-lo em seu seio com amor inefável, ela seguiu fielmente o Verbo encarnado até a Cruz e a Ressurreição. Peçamos a Maria que nos ajude a redescobrir a centralidade da Eucaristia, especialmente no dia do Senhor, para vivermos em plenitude a comunhão fraterna.

Peçamos a ela, ademais, que nos conduza à verdadeira unidade. De modo muito especial gostaria de confiar a Maria a peregrinação que realizarei à Ucrânia a partir do próximo sábado. Que esta Viagem Apostólica possa marcar mais uma etapa no caminho rumo à desejada unidade de todos os cristãos.

Adoração do Santíssimo Sacramento
(Cristóbal de Villalpando)

Fonte: Santa Sé (Homilia / Ângelus), com pequenas correções feitas pelo autor deste blog. 

Observação: Na homilia o Papa cita a sequência do Corpus Christi (Lauda Sion) e o hino Pange lingua. Como a tradução oficial para o português do Brasil de ambos é relativamente distinta do original, nesta postagem se conserva uma tradução mais literal, distinta dos textos oficiais.

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