Nesta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) recordamos a homilia proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, no dia 14 de junho de 2001, na Missa da Solenidade (Ano C) diante da Basílica do Latrão seguida da procissão eucarística até a Basílica de Santa Maria Maior.
Recordamos também sua meditação durante a oração do Ângelus do domingo seguinte, 17 de junho.
Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Santa Missa e Procissão Eucarística
Homilia do Papa João Paulo II
Adro da Basílica de São João do Latrão
Quinta-feira, 14 de junho de 2001
1. «Ecce
panis Angelorum, factus cibus viatorum: vere panis filiorum» - «Eis
o pão dos Anjos, feito alimento dos peregrinos: verdadeiro pão dos filhos»
(Sequência).
Hoje a Igreja
mostra ao mundo o Corpus Christi, o Corpo de Cristo, e nos convida
a adorá-lo: Venite adoremus! Vinde, adoremos!
O olhar dos fiéis
se concentra no Sacramento, no qual Cristo deixou todo o seu ser: Corpo,
Sangue, Alma e Divindade. Por isso foi sempre considerado o mais Santo: o “Santíssimo
Sacramento”, memorial vivo do Sacrifício redentor.
Na Solenidade
do Corpus Christi voltamos àquela “Quinta-feira” que todos
chamamos “Santa”, na qual o Redentor celebrou a sua última Páscoa com os
discípulos: foi a Última Ceia, cumprimento da ceia pascal hebraica e
inauguração do rito eucarístico.
Por isso a
Igreja, há séculos, escolheu uma quinta-feira para a Solenidade do Corpus
Christi, festa de adoração, de contemplação e de exaltação. Festa na
qual o Povo de Deus se reúne em torno do tesouro mais precioso herdado de
Cristo, o Sacramento da sua própria Presença, e o louva, o canta e o leva em
procissão pelas ruas da cidade.
2. «Lauda,
Sion, Salvatorem!» - «Louva Sião, o Salvador!» (Sequência).
A nova Sião, a
Jerusalém espiritual, na qual se reúnem os filhos de Deus de todos os povos,
línguas e culturas, louva o Salvador com hinos e cânticos. Com efeito, a
admiração e o reconhecimento pelo dom recebido são inexauríveis. Este dom «supera
todo louvor, não há cântico que lhe seja digno» (ibid.).
Eis um mistério
sublime e inefável. Mistério diante do qual permanecemos espantados e
silenciosos, em atitude de contemplação profunda e extasiada.
3. «Tantum
ergo Sacramentum veneremur cernui» - «Adoremos, prostrados, tão
sublime Sacramento» (Hino Pange lingua).
Na sagrada
Eucaristia está realmente presente Cristo, morto e ressuscitado por nós.
No Pão e no
Vinho consagrados permanece conosco o mesmo Jesus dos Evangelhos, que
os discípulos encontraram e seguiram, que viram crucificado e ressuscitado,
cujas chagas Tomé tocou, prostrando-se em adoração e exclamando: «Meu Senhor e
meu Deus!» (Jo 20,28).
No Sacramento do
altar é oferecida à nossa amorosa contemplação toda a profundidade do
mistério de Cristo, o Verbo e a carne, a glória divina e a sua
morada entre os homens. Diante disso não podemos duvidar de que Deus está “conosco”,
que em Jesus Cristo assumiu todas as dimensões do humano, exceto o pecado,
despojando-se da sua glória para nos revestir com ela.
No seu Corpo e
no seu Sangue se manifesta o rosto invisível de Cristo, o
Filho de Deus, na modalidade mais simples e ao mesmo tempo mais nobre possível
neste mundo. Aos homens de todos os tempos que, perplexos, pedem: «Queremos
ver Jesus» (Jo 12,21), a Comunidade eclesial responde
repetindo o gesto que o próprio Senhor realizou para os discípulos de Emaús: parte
o pão. Então, ao partir o pão, se abrem os olhos de quem o busca
com coração sincero. Na Eucaristia o olhar do coração reconhece Jesus e o seu
inconfundível amor que se doa «até o fim» (Jo 13,1). E
n’Ele, naquele seu gesto, reconhece o Rosto de Deus!
4. «Ecce
panis Angelorum... vere panis filiorum» - «Eis o pão dos
Anjos... verdadeiro pão dos filhos» (Sequência).
Desse pão nos
alimentamos para nos tornarmos testemunhas autênticas do Evangelho. Precisamos
desse pão para crescer no amor, condição indispensável para reconhecer o rosto
de Cristo no rosto dos irmãos.
A nossa
Comunidade diocesana precisa da Eucaristia para prosseguir no caminho
de renovação missionária que empreendeu. Precisamente nos últimos dias
foi realizado em Roma o Congresso Diocesano que analisou “as
perspectivas de comunhão, de formação e de missionariedade na Diocese de Roma para
os próximos anos”. É preciso continuar a caminhar “recomeçando” a
partir de Cristo, isto é, da Eucaristia. Caminhamos com generosidade e coragem,
buscando a comunhão dentro da nossa Comunidade eclesial e dedicando-nos com
amor ao serviço humilde e desinteressado de todos, especialmente dos mais
necessitados.
Jesus nos precede
nesse caminho com o dom de si mesmo até o sacrifício e se oferece a nós como
alimento e apoio. Ademais, em todos os tempos Ele não cessa de repetir aos
Pastores do Povo de Deus: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Lc 9,13);
parti para todos este pão de vida eterna.
Tarefa
comprometedora e emocionante. Missão que dura até o fim dos tempos.
5. «Todos
comeram e ficaram satisfeitos» (Lc 9,17).
Através das
palavras do Evangelho que escutamos há pouco chega até nós o eco de uma festa
que, há dois mil anos, não tem fim. Festa do povo a caminho no êxodo do
mundo, alimentado por Cristo, verdadeiro Pão de salvação.
No final da
Santa Missa também nós nos colocaremos a caminho no coração de Roma, levando
o Corpo de Cristo escondido nos corações e bem visível no ostensório. Acompanharemos
o Pão de vida imortal pelas ruas da cidade; o adoraremos e em torno d’Ele se
reunirá a Igreja, ostensório vivo do Salvador do mundo.
Que os cristãos
de Roma, fortalecidos pelo seu Corpo e pelo seu Sangue, mostrem Cristo a todos
com o seu modo de viver: com a sua unidade, com a
sua fé alegre, com a sua bondade!
Que a nossa
Comunidade diocesana recomece corajosamente a partir de Cristo, Pão de vida
imortal!
E Vós, Jesus,
Pão vivo que dá vida, pão dos peregrinos, «alimentai-nos e defendei-nos, conduzi-nos
aos bens eternos na terra dos vivos» (Sequência). Amém.
João Paulo II
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 17 de junho de 2001
Caríssimos irmãos e irmãs,
1. Ainda
conservo viva a recordação da devota Celebração Eucarística que pude presidir
na quinta-feira passada, Solenidade do Corpus Christi, diante da
Basílica de São João do Latrão, e da sucessiva procissão solene, que concluiu na
Basílica de Santa Maria Maior. Por razões pastorais, na Itália e em muitos
países essa bela e tradicional festa é celebrada hoje, domingo. A Comunidade
eclesial se reúne em adoração em torno do tesouro mais precioso que Cristo
Senhor lhe deixou como herança: o Sacramento da Eucaristia, memorial perpétuo
do seu sacrifício redentor.
O Corpus Christi
é uma festa que tem sugestivas ressonâncias populares, ligadas sobretudo à
eloquente tradição de acompanhar o Santíssimo Sacramento em procissão pelas
ruas das cidades e dos povoados. É uma festa de alegria, pelo maravilhoso dom
do Pão ao qual Cristo vinculou a sua promessa de vida eterna: Pão que é
realmente a sua carne, isto é, a sua humanidade, através da qual Deus santifica
os corações, as pessoas, as comunidades, as nações e o todo o cosmo.
A Eucaristia se torna
assim princípio da nova humanidade e do mundo renovado, cuja manifestação plena
terá lugar no fim da história. Já agora, porém, ela cresce como semente e
fermento do Reino de Deus.
2. O caráter
distintivo da nova humanidade redimida por Cristo é a plenitude do amor
fraterno. Na realidade, a Eucaristia é por excelência o Sacramento do
amor, entendido como dom de si.
Sem o alimento
espiritual que provém do Corpo e do Sangue de Cristo, o amor humano permanece
sempre contaminado pelo egoísmo. A comunhão com o Pão do céu, porém, converte
os corações e infunde neles a capacidade de amar como Jesus nos amou.
“Comunhão”:
esta palavra, com a qual muitas vezes definimos a Eucaristia, é particularmente
significativa a respeito. Quem recebe o Corpo de Cristo com fé se une
intimamente a Ele e, n’Ele, a Deus Pai, no amor do Espírito Santo. Deus no
homem, o homem em Deus. E este se torna o autêntico fundamento da comunhão na
Igreja. Como escreve o Apóstolo Paulo aos coríntios: «Porque há um só pão, nós
todos somos um só corpo» (1Cor 10,17).
3. Jesus, Pão de
vida eterna, desceu do céu graças à fé de Maria Santíssima. Depois de portá-lo
em seu seio com amor inefável, ela seguiu fielmente o Verbo encarnado até a Cruz
e a Ressurreição. Peçamos a Maria que nos ajude a redescobrir a centralidade da
Eucaristia, especialmente no dia do Senhor, para vivermos em plenitude a
comunhão fraterna.
Peçamos a ela,
ademais, que nos conduza à verdadeira unidade. De modo muito especial gostaria
de confiar a Maria a peregrinação que realizarei à Ucrânia a partir do próximo
sábado. Que esta Viagem Apostólica possa marcar mais uma etapa no caminho rumo
à desejada unidade de todos os cristãos.
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| Adoração do Santíssimo Sacramento (Cristóbal de Villalpando) |
Observação: Na homilia o Papa cita a sequência do Corpus Christi (Lauda Sion) e o hino Pange lingua. Como a tradução oficial para o português do Brasil de ambos é relativamente distinta do original, nesta postagem se conserva uma tradução mais literal, distinta dos textos oficiais.


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