sábado, 23 de maio de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Pentecostes (2001)

Há cerca de 25 anos, no dia 03 de junho de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Solenidade de Pentecostes na Praça de São Pedro.

Na ocasião teve lugar a transladação do corpo do Papa João XXIII (†1963): após sua Beatificação no dia 03 de setembro de 2000, com efeito, seu corpo foi depositado na Basílica Vaticana, sob o altar de São Jerônimo. Em 2014, por sua vez, este seria canonizado junto com o próprio João Paulo II.

Confira a seguir a homilia do Papa polonês durante a celebração:

Missa na Solenidade de Pentecostes
Trasladação da urna com o corpo do Beato João XXIII, Papa
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Domingo, 03 de junho de 2001

1. «Todos ficaram cheios do Espírito Santo» (At 2,4).
Assim aconteceu em Jerusalém no dia de Pentecostes. Hoje, reunidos nesta Praça, centro do mundo católico, nós revivemos o clima daquele dia. Também no nosso tempo, como no Cenáculo de Jerusalém, a Igreja é atravessada por um “vento impetuoso”. Ela experimenta o sopro divino do Espírito, que a abre para a evangelização do mundo.

Por uma feliz coincidência, na Solenidade de hoje temos a alegria de acolher, junto ao altar, os veneráveis restos mortais do Beato João XXIII, que Deus plasmou com o seu Espírito, fazendo dele uma admirável testemunha do seu amor. Este meu venerado predecessor faleceu há 38 anos, no dia 03 de junho de 1963, precisamente enquanto na Praça de São Pedro uma imensa multidão de fiéis rezava, espiritualmente reunida em torno do seu leito de morte. A celebração de hoje se une a essa oração e, enquanto comemoramos o trânsito deste Beato Pontífice, louvamos a Deus que o doou à Igreja e ao mundo.


Como sacerdote, como Bispo e como Papa, o Beato Ângelo Roncalli foi extremamente dócil à ação do Espírito, que o guiou pelo caminho da santidade. Por isso, na comunhão viva dos Santos, queremos celebrar a Solenidade de Pentecostes em singular sintonia com ele, deixando-nos acompanhar por algumas das suas inspiradas reflexões.

2. «A luz do Espírito Santo irrompe das primeiras palavras do Livro dos Atos dos Apóstolos... A marcha impetuosa do Divino Espírito precede e acompanha os evangelizadores, penetrando na alma de quem os escuta e dilatando as tendas da Igreja Católica até os extremos confins da terra, percorrendo todos os séculos da história» (Discursos, Mensagens e Colóquios do Papa João XXIII, II, p. 398).

Com estas palavras, pronunciadas no Pentecostes de 1960, o Papa João XXIII nos ajuda a compreender o irrefreável impulso missionário próprio do mistério que celebramos nesta Solenidade. A Igreja nasce missionária porque nasce do Pai, que enviou Cristo ao mundo; nasce do Filho que, morto e ressuscitado, enviou os Apóstolos a todas as nações; e nasce do Espírito Santo, que infunde neles a luz e a força necessárias para cumprir essa missão.

Também nessa dimensão missionária original a Igreja é ícone da Santíssima Trindade: ela reflete na história a superabundante fecundidade que é própria de Deus, fonte de amor subsistente que gera vida e comunhão. Com a sua presença e a sua ação no mundo, a Igreja propaga entre os homens esse misterioso dinamismo, difundindo o Reino de Deus, que «é justiça e paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14,17).

3. O Concílio Ecumênico Vaticano II, anunciado, convocado e inaugurado pelo Papa João XXIII, foi consciente dessa vocação da Igreja.

O Espírito Santo pode justamente ser definido como o protagonista do Concílio, desde quando o Papa o convocou, declarando ter acolhido, como que vinda do Alto, uma voz íntima que ressoou no seu espírito (cf. Constituição Apostólica Humanae salutis, 25 de dezembro de 1961, n. 6). Aquela “brisa ligeira” tornou-se um “vento impetuoso” e o evento conciliar tomou a forma de um renovado Pentecostes. «Com efeito, é na doutrina e no espírito do Pentecostes - afirmou o Papa João XXIII - que o grande acontecimento do Concílio Ecumênico adquire substância e vida» (Discursos, Mensagens e Colóquios..., II, p. 398).

Caríssimos irmãos e irmãs, se hoje recordamos aquele singular período eclesial, é porque o Grande Jubileu do Ano 2000 se colocou em continuidade com o Concílio Vaticano II, retomando numerosos aspectos tanto de doutrina como de método. E o recente Consistório Extraordinário repropôs sua atualidade e sua riqueza para as novas gerações cristãs. Tudo isso é para nós um ulterior motivo de reconhecimento ao Beato Papa João XXIII.

4. Em particular, no contexto da celebração de hoje, que associa ao Pentecostes um solene ato de veneração, gostaria de destacar que o dom mais precioso que o Papa João XXIII deixou ao Povo de Deus foi ele mesmo, isto é, o seu testemunho de santidade.

Também para ele é válido o que ele mesmo afirmou sobre os Santos, isto é, que cada um deles «é uma obra-prima de graça do Espírito Santo» (ibid., p. 400). E pensando nos Mártires e nos Pontífices sepultados na Basílica de São Pedro, acrescentava palavras que hoje escutamos de novo com emoção: «Às vezes as relíquias dos seus corpos foram reduzidas a pouco, mas sempre palpitam aqui a sua recordação e oração». E exclamava: «Ó, são os Santos, os Santos do Senhor, que em toda a parte nos alentam, nos encorajam, nos abençoam» (ibid., p. 401).

Essas expressões do Papa João XXIII, apoiadas pelo exemplo luminoso da sua vida, ressaltam claramente a importância da escolha da santidade como caminho privilegiado da Igreja no início do novo milênio (cf. Carta Apostólica Novo millennio ineunte, nn. 30-31). Com efeito, a vontade generosa de colaborar com o Espírito para a santificação pessoal e dos irmãos é condição prévia e indispensável para a nova evangelização.

5. Se a evangelização requer a santidade, esta, por sua vez, tem necessidade da linfa da vida espiritual: da oração e da íntima união com Deus através da Palavra e dos Sacramentos. Em síntese, tem necessidade da pessoal e profunda vida no Espírito.

A esse respeito, como não recordar a rica herança espiritual que o Beato João XXIII nos deixou no seu Diário da alma? Na suas páginas se pode admirar de perto o empenho diário com que ele, desde os anos do Seminário, quis corresponder plenamente à ação do Espírito Santo. Ele se deixou plasmar pelo Espírito dia a dia, buscando com paciente tenacidade conformar-se cada vez mais à sua vontade. Eis o segredo da bondade com a qual ele conquistou o Povo de Deus e tantos homens de boa vontade!

6. Confiando-nos à sua intercessão, queremos hoje pedir ao Senhor que a graça do Grande Jubileu se irradie no novo milênio, através do testemunho de santidade dos cristãos. Professamos com confiança que isso é possível. É possível pela ação do Espírito Paráclito que, segundo a promessa de Cristo, permanece sempre conosco.

Animados por uma firme esperança, digamos com as mesmas palavras do Beato João XXIII: «Ó Espírito Santo Paráclito... torna forte e contínua a prece que fazemos em nome do mundo inteiro: apressa para cada um de nós o tempo de uma profunda vida interior; dá impulso ao nosso apostolado, que deseja alcançar todos os homens e todos os povos... Mortifica em nós a presunção natural e eleva-nos às regiões da santa humildade, do verdadeiro temor de Deus, da coragem generosa. Que nenhum vínculo terreno nos impeça de honrar a nossa vocação; nenhum interesse, por ignorância nossa, sacrifique as exigências da justiça; nenhum cálculo reduza os espaços imensos da caridade dentro das angústias dos pequenos egoísmos. Tudo seja grande em nós: a busca e o culto da verdade; a prontidão para o sacrifício, até a cruz e a morte; e tudo, enfim, corresponda à última oração do Filho ao Pai celeste; e àquela efusão que de ti, ó Santo Espírito de amor, o Pai e o Filho desejaram sobre a Igreja e sobre suas instituições, sobre cada alma e sobre todos os povos. Amém!» (Discursos, Mensagens e Colóquios..., IV, p. 350).

Veni, Sancte Spiritus, veni! Vinde, Espírito Santo, vinde!

Corpo do Papa João XXIII na Praça de São Pedro
(03 de junho de 2001)

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

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