Há cerca de 25 anos, no dia 03 de junho de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Solenidade de Pentecostes na Praça de São Pedro.
Na ocasião teve lugar a transladação do corpo do Papa João XXIII (†1963): após sua Beatificação no dia 03 de setembro de 2000, com efeito, seu corpo foi depositado na Basílica Vaticana, sob o altar de São Jerônimo. Em 2014, por sua vez, este seria canonizado junto com o próprio João Paulo II.
Confira a seguir a homilia do Papa polonês durante a celebração:
Missa na Solenidade de Pentecostes
Trasladação da urna com o corpo do Beato João XXIII, Papa
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Domingo, 03 de junho de 2001
1. «Todos
ficaram cheios do Espírito Santo» (At 2,4).
Assim aconteceu
em Jerusalém no dia de Pentecostes. Hoje, reunidos
nesta Praça, centro do mundo católico, nós revivemos o clima daquele dia.
Também no nosso tempo, como no Cenáculo de Jerusalém, a Igreja é atravessada
por um “vento impetuoso”. Ela experimenta o sopro divino do Espírito, que a
abre para a evangelização do mundo.
Por uma feliz
coincidência, na Solenidade de hoje temos a alegria de acolher, junto ao altar,
os veneráveis restos mortais do Beato João XXIII, que Deus
plasmou com o seu Espírito, fazendo dele uma admirável testemunha do seu amor.
Este meu venerado predecessor faleceu há 38 anos, no dia 03 de junho de
1963, precisamente enquanto na Praça de São Pedro uma imensa
multidão de fiéis rezava, espiritualmente reunida em torno do seu leito de
morte. A celebração de hoje se une a essa oração e, enquanto comemoramos o
trânsito deste Beato Pontífice, louvamos a Deus que o doou à Igreja e ao mundo.
Como sacerdote, como
Bispo e como Papa, o Beato Ângelo Roncalli foi extremamente dócil à ação do
Espírito, que o guiou pelo caminho da santidade. Por isso, na comunhão viva dos
Santos, queremos celebrar a Solenidade de Pentecostes em singular sintonia com
ele, deixando-nos acompanhar por algumas das suas inspiradas reflexões.
2. «A luz do
Espírito Santo irrompe das primeiras palavras do Livro dos Atos dos
Apóstolos... A marcha impetuosa do Divino Espírito precede e acompanha os
evangelizadores, penetrando na alma de quem os escuta e dilatando as tendas da
Igreja Católica até os extremos confins da terra, percorrendo todos os séculos
da história» (Discursos, Mensagens e Colóquios do Papa João XXIII, II,
p. 398).
Com estas
palavras, pronunciadas no Pentecostes de 1960, o Papa João XXIII nos ajuda a
compreender o irrefreável impulso missionário próprio do mistério que
celebramos nesta Solenidade. A Igreja nasce missionária porque
nasce do Pai, que enviou Cristo ao mundo; nasce do Filho que,
morto e ressuscitado, enviou os Apóstolos a todas as nações; e nasce do Espírito
Santo, que infunde neles a luz e a força necessárias para cumprir essa
missão.
Também nessa
dimensão missionária original a Igreja é ícone da Santíssima Trindade: ela
reflete na história a superabundante fecundidade que é própria de Deus, fonte
de amor subsistente que gera vida e comunhão. Com a sua presença e a sua ação
no mundo, a Igreja propaga entre os homens esse misterioso dinamismo,
difundindo o Reino de Deus, que «é justiça e paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14,17).
3. O Concílio
Ecumênico Vaticano II, anunciado, convocado e inaugurado pelo Papa
João XXIII, foi consciente dessa vocação da Igreja.
O Espírito
Santo pode justamente ser definido como o protagonista do
Concílio, desde quando o Papa o convocou, declarando ter acolhido, como que
vinda do Alto, uma voz íntima que ressoou no seu espírito (cf.
Constituição Apostólica Humanae salutis, 25 de dezembro
de 1961, n. 6). Aquela “brisa ligeira” tornou-se um “vento impetuoso” e o evento
conciliar tomou a forma de um renovado Pentecostes. «Com efeito, é na doutrina
e no espírito do Pentecostes - afirmou o Papa João XXIII - que o grande
acontecimento do Concílio Ecumênico adquire substância e vida» (Discursos,
Mensagens e Colóquios..., II, p. 398).
Caríssimos irmãos
e irmãs, se hoje recordamos aquele singular período eclesial, é porque o
Grande Jubileu do Ano 2000 se colocou em continuidade com o Concílio Vaticano
II, retomando numerosos aspectos tanto de doutrina como de
método. E o recente Consistório Extraordinário repropôs sua atualidade
e sua riqueza para as novas gerações cristãs. Tudo isso é para nós um ulterior
motivo de reconhecimento ao Beato Papa João XXIII.
4. Em
particular, no contexto da celebração de hoje, que associa ao Pentecostes um
solene ato de veneração, gostaria de destacar que o dom mais precioso que o
Papa João XXIII deixou ao Povo de Deus foi ele mesmo, isto é, o seu
testemunho de santidade.
Também para ele é
válido o que ele mesmo afirmou sobre os Santos, isto é, que cada um deles «é
uma obra-prima de graça do Espírito Santo» (ibid., p.
400). E pensando nos Mártires e nos Pontífices sepultados na Basílica de São
Pedro, acrescentava palavras que hoje escutamos de novo com emoção: «Às vezes as
relíquias dos seus corpos foram reduzidas a pouco, mas sempre palpitam aqui a
sua recordação e oração». E exclamava: «Ó, são os Santos, os Santos do Senhor,
que em toda a parte nos alentam, nos encorajam, nos abençoam» (ibid., p.
401).
Essas expressões
do Papa João XXIII, apoiadas pelo exemplo luminoso da sua vida, ressaltam
claramente a importância da escolha da santidade como caminho
privilegiado da Igreja no início do novo milênio (cf. Carta
Apostólica Novo millennio ineunte, nn. 30-31). Com efeito, a
vontade generosa de colaborar com o Espírito para a santificação pessoal e dos
irmãos é condição prévia e indispensável para a nova evangelização.
5. Se a
evangelização requer a santidade, esta, por sua vez, tem necessidade da linfa
da vida espiritual: da oração e da íntima união com Deus através
da Palavra e dos Sacramentos. Em síntese, tem necessidade da pessoal e profunda
vida no Espírito.
A esse respeito,
como não recordar a rica herança espiritual que o Beato João XXIII nos deixou no
seu Diário da alma? Na suas páginas se pode admirar de
perto o empenho diário com que ele, desde os anos do Seminário, quis
corresponder plenamente à ação do Espírito Santo. Ele se deixou
plasmar pelo Espírito dia a dia, buscando com paciente tenacidade conformar-se
cada vez mais à sua vontade. Eis o segredo da bondade com a qual ele conquistou
o Povo de Deus e tantos homens de boa vontade!
6. Confiando-nos
à sua intercessão, queremos hoje pedir ao Senhor que a graça do Grande
Jubileu se irradie no novo milênio, através do testemunho de santidade dos
cristãos. Professamos com confiança que isso é possível. É
possível pela ação do Espírito Paráclito que, segundo a promessa de Cristo,
permanece sempre conosco.
Animados por uma
firme esperança, digamos com as mesmas palavras do Beato João XXIII: «Ó
Espírito Santo Paráclito... torna forte e contínua a prece que fazemos em nome
do mundo inteiro: apressa para cada um de nós o tempo de uma profunda vida
interior; dá impulso ao nosso apostolado, que deseja alcançar todos os homens e
todos os povos... Mortifica em nós a presunção natural e eleva-nos às regiões
da santa humildade, do verdadeiro temor de Deus, da coragem generosa. Que
nenhum vínculo terreno nos impeça de honrar a nossa vocação; nenhum interesse,
por ignorância nossa, sacrifique as exigências da justiça; nenhum cálculo reduza
os espaços imensos da caridade dentro das angústias dos pequenos egoísmos. Tudo
seja grande em nós: a busca e o culto da verdade; a prontidão para o
sacrifício, até a cruz e a morte; e tudo, enfim, corresponda à última oração do
Filho ao Pai celeste; e àquela efusão que de ti, ó Santo Espírito de amor, o
Pai e o Filho desejaram sobre a Igreja e sobre suas instituições, sobre cada
alma e sobre todos os povos. Amém!» (Discursos, Mensagens e Colóquios...,
IV, p. 350).
Veni, Sancte Spiritus, veni! Vinde, Espírito Santo, vinde!
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| Corpo do Papa João XXIII na Praça de São Pedro (03 de junho de 2001) |
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).


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