terça-feira, 2 de junho de 2026

Homilia do Papa: Domingo de Pentecostes (2026)

Santa Missa na Solenidade de Pentecostes
Homilia do Papa Leão XIV
Basílica de São Pedro
Domingo, 24 de maio de 2026

Queridos irmãos e irmãs,
O Tempo Pascal chega hoje, Solenidade de Pentecostes, ao seu cumprimento. Para evidenciar a unidade deste acontecimento de salvação, o Evangelho nos conduz novamente ao «primeiro dia da semana» (Jo 20,19), isto é, àquele dia novo no qual Jesus Ressuscitado aparece aos discípulos mostrando-lhes «as mãos e o lado» (v. 20). O Senhor revela o seu corpo glorioso, precisamente as suas chagas, as feridas da crucificação. Estes sinais da Paixão, mais eloquentes do que qualquer discurso, são transfigurados: Aquele que estava morto vive para sempre.

Ao ver o Senhor, também os discípulos voltam a viver: tinham se sepultado no Cenáculo cheios de medo, mas Jesus, apesar das portas fechadas, entra e os enche de alegria. Ele passa através da nossa morte, abre o sepulcro e o escancara onde já não havia saída para nós. Ao seu gesto, Cristo une a palavra: «A paz esteja convosco» (v. 19); e logo em seguida sopra sobre os discípulos o Espírito Santo. O Ressuscitado é pleno de vida: depois de ter mostrado a vida do corpo, como verdadeiro homem, doa a vida de Deus, como Filho amado do Pai, feito por nós irmão e Redentor. No mesmo Cenáculo onde instituiu a nova e eterna aliança, Jesus derrama o Espírito: o lugar da Ceia e da traição se transforma e, de sepulcro dos Apóstolos, torna-se para toda a Igreja seio de ressurreição. Por isso o Pentecostes é festa pascal e festa do corpo de Cristo, que por graça somos nós.


Ao celebrarmos este mistério, gostaria de me deter em três aspectos.

Em primeiro lugar, o Espírito do Ressuscitado é o Espírito da paz. Na sua Páscoa, com efeito, Cristo estabelece a paz entre Deus e a humanidade, e o Espírito Santo a infunde nos corações e a difunde pelo mundo. Esta paz provém do perdão e nos leva ao perdão: começa com o perdão doado pelo próprio Jesus, que foi traído, condenado e crucificado por nós. Surpreendendo-nos com o seu amor, precisamente Ele, o Ressuscitado, diz: «A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados» (Jo 20,23). Com estas palavras, Jesus nos confia uma obra divina, porque só Deus pode perdoar os pecados (cf. Mc 2,7). Essa autoridade é concedida no sinal de uma reconciliação universal: o Senhor derrama o Espírito da paz de um extremo ao outro da história, porque Aquele que redimiu todos da morte não exclui ninguém. O Espírito Santo, com efeito, é o Senhor que dá a vida desde o início da criação, quando pairava sobre as águas (cf. Gn 1,2), e agora, com a sua redenção, transforma a história do mundo: o Pentecostes verdadeiramente se cumpre como festa da nova Aliança, isto é, da aliança entre Deus e todos os povos da terra. Enquanto o ruído vindo do céu, o vento e as línguas de fogo no Cenáculo recordam os antigos sinais do Sinai (cf. At 2,2-3; Ex 19,16-19), a santa lei de Deus é escrita nos corações, gravada pelo Espírito com letras de amor na carne de Cristo e no seu corpo, que é a Igreja.

Esta lei é o código da paz, é o duplo mandamento do amor que o Espírito nos recorda a cada batimento cardíaco. Portanto, com o nosso coração podemos invocar: «Veni Sancte Spiritus» - «Vinde Espírito Santo», porque Ele já nos foi dado. Podemos desejá-lo, porque já nos foi prometido. Podemos acolhê-lo, porque Ele mesmo é o doce hóspede da alma.

Um segundo aspecto: o Espírito do Ressuscitado é o Espírito da missão. «Como o Pai me enviou - diz o Senhor -, também Eu vos envio» (Jo 20,21). Somos assim envolvidos na missão de Jesus: a missão d’Aquele que sai de Deus e a Deus regressa com o poder do Espírito, o qual procede do Pai e do Filho e com Eles é adorado e glorificado, único Deus. O Espírito Santo é a caridade viva de Cristo que nos preenche, nos impele e nos sustenta na missão (cf. 2Cor 5,14). Enquanto dá aos Apóstolos o poder de se expressar na variedade das línguas (cf. At 2,4), o mesmo Espírito ensina à humanidade a palavra da salvação. Agora que os Apóstolos receberam o Sopro do Ressuscitado dentro de si, este anúncio sai da sua boca, tem a voz de Pedro e dos que estão com ele. Precisamente no dia de Pentecostes, os Apóstolos começam a anunciar Jesus, crucificado e ressuscitado: as «maravilhas de Deus» (At 2,11) se resumem todas na redenção, que começa com a fé. Com efeito, a primeira obra do Espírito Santo em nós é a fé com a qual professamos: «Jesus é o Senhor!» (1Cor 12,3). Esta fé vive e se expressa em cada boa ação, em cada ato de misericórdia e de virtude. A obra de Deus, portanto, somos nós, que viemos hoje aqui de todas as partes do mundo, convidados à mesa do Senhor, reunidos para escutar a sua palavra e enviados para testemunhá-la em toda a parte.

Caríssimos, somos verdadeiramente participantes do Evangelho: toda a Igreja é protagonista dele, não apenas guardiã. Com a força do Espírito, o nosso anúncio se enche de alegria e de esperança, porque nós, precisamente nós, somos a novidade do mundo, a luz e o sal da terra (cf. Mt 5,13-14). Certamente não por nosso mérito, nem por privilégio, mas pela palavra do Senhor, que santifica o pecador, cura o leproso, faz daquele que o renegou um apóstolo. Por um lado - como vemos bem -, há mudanças que não renovam o mundo, mas o envelhecem entre erros e violências. Por outro lado, ao contrário, o Espírito Santo ilumina as mentes e suscita nos corações novas forças de vida. É assim que transfigura a história, abrindo-a à salvação, isto é, ao dom que o único Senhor partilha com todos. A missão da Igreja atesta essa partilha, transformando a confusão do mundo em comunhão com Deus e entre nós.

Essa missão começa anunciando a verdade de Deus e do homem, porque o Espírito do Ressuscitado é o «Espírito da verdade» (Jo 14,17). O próprio Senhor nos prometeu isso, pedindo unidade para a sua Igreja, uma unidade fundamentada no amor de Deus, fonte do nosso amor. O Espírito, que falou pelos profetas, promove sempre a unidade na verdade, porque suscita em nós compreensão, concórdia e coerência de vida. Como ensina Santo Agostinho, «o Espírito Santo quis que este fosse o sinal da sua presença» (Discurso 269,1): o dom das línguas que se compreendem na única fé. O Paráclito nos defende de tudo o que obstaculiza esta compreensão: das facções, das hipocrisias, das modas que obscurecem a luz do Evangelho. A verdade que Deus nos doa permanece assim como palavra libertadora para todos os povos, mensagem que transforma por dentro cada cultura.

O Espírito do Ressuscitado, com efeito, não é derramado apenas uma vez, mas constantemente. Como a Eucaristia é a presença viva de Cristo, que sempre nos alimenta, assim o Espírito Santo imprime em nós o seu caráter no Batismo, que nos faz cristãos; na Crisma, que nos torna testemunhas; na Ordem, que constitui ministros e pastores para o povo de Deus. Em cada Sacramento Ele é «dator munerum», fonte de santidade que multiplica dons e carismas na oração, nas obras de misericórdia, no estudo da Palavra de Deus. Como ensina o Apóstolo: «A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum» (1Cor 12,7). Precisamente por isso somos Igreja, único corpo que vive de Deus e serve o mundo. Graças ao Espírito podemos levar a todos a paz autêntica, a verdade que salva, isto é, o próprio Cristo Senhor.

Caríssimos, com coração ardente, rezemos hoje para que o Espírito do Ressuscitado nos salve do mal da guerra, que é vencida não por uma superpotência, mas pela Onipotência do amor. Rezemos para que Ele liberte a humanidade da miséria, que é redimida não por uma riqueza incalculável, mas por um dom inesgotável. Rezemos para que Ele nos cure da ferida do pecado, pela redenção anunciada a todos os povos em nome de Jesus. É esta a graça que infunde coragem aos Apóstolos: que Ele a infunda também em nós, hoje e sempre, por intercessão de Maria, Mãe da Igreja.


Fonte: Santa Sé.

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