quarta-feira, 24 de junho de 2026

Homilia do Papa: Hora Média em Barcelona

Viagem Apostólica à Espanha
Oração da Hora Média
Homilia do Papa Leão XIV
Catedral da Santa Cruz e Santa Eulália (Barcelona)
Terça-feira, 09 de junho de 2026

Foi rezada a Hora Sexta (12h) da terça-feira da II semana do Saltério.

Queridos irmãos e irmãs,
É com grande alegria que inicio a minha visita rezando convosco a Hora Sexta nesta Catedral.
O Concílio Vaticano II define o Ofício Divino como «a voz da Esposa que fala com o Esposo» e «a oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai» (Sacrosanctum Concilium, n. 84). Também a Leitura que ouvimos (1Cor 12,12-13) sublinha que «todos... fomos batizados em um único Espírito, para formarmos um único corpo» (v. 13). Podemos, então, deixar-nos ajudar, na nossa reflexão, precisamente por estas duas imagens: a Esposa e o Corpo.

A primeira nos recorda que a Igreja, e em particular esta assembleia, rica em dons e carismas e na diversidade das histórias de cada um, é antes de tudo uma Esposa amada. Deus vos quis aqui, porque ama em vós e no vosso estar juntos uma beleza e uma bondade únicas e sagradas. Ele vos escolheu para representardes hoje a “comunidade dos santos” (cf. 1Cor 1,2) que está em Barcelona. E é com esta consciência que vos convido a renovar, em um só coração, o propósito de caminhar juntos, todos, fiéis e Pastores, seguindo os passos de Cristo, rumo à plenitude da vida. A Igreja é fruto de um ato de amor que a precede e que provém de Deus, e cresce antes de tudo deixando-se amar por Ele, unida, com coração humilde e agradecido, porque só quem se deixa amar por Deus pode construir, com os outros, as obras do amor.


A este respeito, há alguns anos o Papa Francisco recomendava a esta Comunidade diocesana « partir do encontro com Cristo» para crescer «na fraternidade, no anúncio da Boa Nova do Evangelho» (Mensagem por ocasião da inauguração da Torre da Virgem Maria da Basílica da Sagrada Família, 08 de dezembro de 2021); e, um ano depois, repetia aos seminaristas desta mesma Diocese, peregrinos em Roma: «Nunca deixeis de saborear e recordar este amor de predileção que se derrama e se derramará abundantemente no vosso coração (...). Nunca apagueis esse fogo que vos tornará intrépidos pregadores do Evangelho» (Discurso à Comunidade do Seminário de Barcelona, 10 de dezembro de 2022).

As suas palavras indicam o clima que somos chamados a difundir nos nossos ambientes, nas famílias, nas paróquias, nos locais de trabalho e de formação, nos ambientes da Cúria e em qualquer outro âmbito da vida: um clima de família, no qual se vive juntos, conscientes da filiação e do chamado comum, solidários, abertos, capazes de misericórdia, de sacrifício, de atenção mútua, de perdão.

Queridos amigos, Barcelona, neste aspecto, possui uma grande tradição eclesial. São João Paulo II o recordava quando, em sua visita a esta cidade, louvava o «espírito acolhedor que ao longo da história levou vós, barcelonenses e catalães, a compartilhar a cidadania humana e cristã com inúmeros povos» (Ângelus, Barcelona, 07 de novembro de 1982), e vos encorajava a «proclamar diante da Igreja que esta cidade e esta região são um lar amplo e aberto à fraternidade cristã» (ibid.).

Nas suas palavras se refletem os rostos de tantos irmãos e irmãs que se doaram e continuam a se doar entre vós para construir harmonia e comunhão, para além de toda polarização. E também hoje essas palavras são confirmadas pela vitalidade das numerosas obras de anúncio, de formação e de caridade das quais todos vós sois animadores e protagonistas.

Isto nos leva à segunda imagem sobre a qual queremos nos deter: a do Corpo, tema principal da leitura que ouvimos (cf. 1Cor 12,12-13). Com efeito, se Cristo é o Esposo que nos amou primeiro, Ele é também a Cabeça à qual estamos unidos como membros de um único organismo, uns a serviço dos outros, «homens de toda tribo, língua, povo e nação» (Ap 5,9), todos animados pela ação do mesmo Espírito, todos chamados à mesma santidade. Isto também é importante, porque nos recorda que, para nós, trabalhar juntos não é uma questão de “estilo”, mas uma necessidade fisiológica, fundamentada na graça concedida a cada um «segundo a medida do dom de Cristo» (Ef 4,7), e à qual correspondemos colocando em ação os carismas recebidos e respeitando os ministérios confiados. É o Espírito que, como partes de uma única estrutura viva, nos impele não só a nos entregarmos sem reservas, ali onde a Providência nos chama, mas a fazê-lo segundo os desígnios de Deus, na obediência e na confiança.

Como em um corpo, também entre nós há membros mais fortes e outros mais fracos; alguns visíveis, que desempenham funções reconhecíveis externamente, outros escondidos, que atuam a partir de dentro, em alguns casos sem nunca parar e desempenhando funções vitais, sem que ninguém sequer perceba.

São muitas as imagens com as quais poderíamos ilustrar a variedade e a importância das funções e das missões que encontramos entre nós, mas a mensagem é sempre a mesma: na riqueza dos dons recebidos, somos fortes porque unidos, e estamos unidos porque animados pelo mesmo Espírito, o Espírito de Cristo, que é Espírito de comunhão para a salvação de todos (cf. Ef 4,4). Portanto, para cada um de nós é importante não permitir que algo destrua a unidade na qual Deus nos constituiu e para cuja plenitude nos conduz dia a dia.

Barcelona é chamada «Cap i Casal de Catalunya». O que confere a esta comunidade, a todos vós, barcelonenses e catalães, uma vocação e uma responsabilidade especial de vos tornardes, com a ajuda de Deus, construtores de unidade.

Daqui a pouco veneraremos os restos mortais de Santa Eulália, copadroeira desta Catedral, desta Arquidiocese e desta cidade.
Santo Agostinho, falando dos Mártires, dizia: «Não nos pareça pouca coisa ser membros daquele corpo do qual também são membros aqueles aos quais não podemos nos equiparar (...). Obedecemos ao mesmo Senhor (...), somos animados pela mesma caridade e (...) abraçamos a mesma unidade» (Sermão 280, 6).

Queridos irmãos e irmãs, é com este espírito que também nós, em um mundo dilacerado por guerras e divisões, em uma sociedade cada vez mais fragmentada e individualista, queremos ser “mártires”, isto é, testemunhas e profetas de unidade, de acolhida, de concórdia e de paz, mesmo que isso implique sacrifícios e renúncias. Como a Santa Virgem Eulália e tantos outros Mártires, queremos dar o nosso “sim”, dispostos, no que for preciso, a morrer para nós mesmos, a perdermo-nos para reencontrarmo-nos, a renunciar ao supérfluo para construir sobre o que é essencial e dura para sempre (cf. Mt 16,24-26).

É isto que nos ensina o Crucificado, é a isto nos convidam o Apóstolo Paulo e os exemplos dos Santos, é isto que queremos fazer juntos, segundo a oração de Jesus ao Pai, durante a Última Ceia: «Eu neles e Tu em mim, para que assim eles cheguem à unidade perfeita e o mundo reconheça que Tu me enviaste e os amaste, como amaste a mim» (Jo 17,23).

Que Maria, Mãe da Igreja e Mãe da unidade, nos ajude a ser fiéis a este compromisso e a esta missão: «Santa Maria de la Mercè, pregueu per nosaltres».


Fonte: Santa Sé.

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