Por ocasião da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi) recordamos a homilia proferida pelo Papa Bento XVI (†2022) há 20 anos, no dia 15 de junho de 2006, durante a Missa da Solenidade (Ano B) diante da Basílica do Latrão seguida da procissão eucarística até a Basílica de Santa Maria Maior.
Recordamos também sua meditação durante a oração do Ângelus do domingo seguinte, 18 de junho.
Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Santa Missa e Procissão Eucarística
Homilia do Papa Bento XVI
Adro da Basílica de São João do Latrão
Quinta-feira, 15 de junho de 2006
Queridos irmãos e irmãs,
Na véspera da sua Paixão, durante a Ceia pascal, como ouvimos há pouco no Evangelho, o Senhor «tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu e o entregou aos discípulos, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo”. Em seguida, tomou o cálice, deu graças, entregou-lhes e todos beberam dele. Jesus lhes disse: “Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos”» (Mc 14,22-24). Toda a história de Deus com os homens está resumida nessas palavras. Não só é recolhido e interpretado o passado, mas também é antecipado o futuro - a vinda do Reino de Deus ao mundo. O que Jesus diz não são simplesmente palavras. O que Jesus diz é acontecimento, o acontecimento central da história do mundo e da nossa vida pessoal.
Essas palavras
são inesgotáveis. Porém, neste momento gostaria de meditar convosco apenas um
aspecto: Jesus, como sinal da sua presença, escolheu pão e vinho. Com cada um
dos dois sinais Ele se doa inteiramente, não só uma parte de si. O Ressuscitado
não está dividido. Ele é uma pessoa que, através dos sinais, se aproxima de nós
e se une a nós.
Mas cada um dos
sinais representa, a seu modo, um aspecto particular do seu mistério e, com a
sua manifestação típica, querem falar a nós, para que aprendamos a compreender
um pouco mais do mistério de Jesus Cristo. Durante a procissão e na adoração
nós contemplamos a Hóstia consagrada - a forma mais simples de pão e de
alimento, feito apenas com um pouco de farinha e água. Assim ele se apresenta como
o alimento dos pobres, aos quais o Senhor destinou em primeiro lugar a sua
proximidade.
A oração com a
qual a Igreja, durante a Liturgia da Missa, entrega esse pão ao Senhor o qualifica
como fruto da terra e do trabalho do homem. Nele está contida o esforço humano,
o trabalho quotidiano de quem cultiva a terra, semeia, colhe e finalmente
prepara o pão. No entanto, o pão não é simplesmente e apenas o nosso produto,
uma coisa feita por nós; é fruto da terra e, portanto, também dom. Porque o
fato de que a terra dê frutos não é mérito nosso; só o Criador poderia conferir-lhe
a fertilidade.
E agora podemos
alargar um pouco mais essa oração da Igreja, dizendo: o pão é fruto da terra e,
ao mesmo tempo, do céu. Pressupõe a sinergia das forças da terra e dos dons do
alto, isto é, do sol e da chuva. E a água, da qual temos necessidade para
preparar o pão, nós também não podemos produzir. Em um período no qual se fala
da desertificação e se denuncia sempre de novo o perigo de que homens e animais
morram de sede nessas regiões sem água, nos damos conta novamente da grandeza
do dom da água e de quanto somos incapazes de obtê-lo sozinhos.
Então, olhando
mais de perto, este pequeno pedaço de Hóstia branca, este pão dos pobres, aparece
como uma síntese da criação. Nele concorrem o céu e a terra, assim como a
atividade e o espírito do homem. A sinergia das forças que torna possível o
mistério da vida e a existência do homem no nosso pobre planeta vem ao nosso
encontro em toda a sua maravilhosa grandeza. Assim começamos a compreender
porque o Senhor escolhe este pedaço de pão como seu sinal. A criação, com todos
os seus dons, aspira, para além de si mesma, a algo de ainda maior. Além da
síntese das próprias forças, além da síntese de natureza e de espírito que, de
certa forma, experimentamos nesse pedaço de pão, a criação se orienta para a
divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador.
Mas ainda não explicamos plenamente a mensagem desse sinal do pão. O Senhor indicou o seu mistério mais profundo no Domingo de Ramos, quando lhe apresentaram o pedido de alguns gregos de encontrar-se com Ele. Na sua resposta a esse pedido encontra-se a frase: «Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só; mas, se morre, então produz muito fruto» (Jo 12,24). No pão feito de grãos moídos se encerra o mistério da Paixão. A farinha, o grão moído, pressupõe o morrer e o ressuscitar do grão. Ao ser moído e cozido ele porta em si mais uma vez o mesmo mistério da Paixão. Só através do morrer chega o ressuscitar, chega o fruto e a vida nova.
As culturas do
Mediterrâneo, nos séculos antes de Cristo, intuíram profundamente esse
mistério. Com base na experiência desse morrer e ressurgir conceberam mitos de
divindades que, morrendo e ressuscitando, davam vida nova. O céu da natureza lhes
parecia como que uma promessa divina no meio das trevas do sofrimento e da
morte que nos são impostos. Nesses mitos a alma dos homens, de certa forma, se
orientava para aquele Deus que se fez homem, se humilhou até a morte na cruz e
assim abriu para todos nós a porta da vida.
No pão e no seu
transformar-se, os homens descobriram como que uma expectativa da natureza, uma
promessa da natureza de que isso deveria existir: o Deus que morre e assim nos
conduz à vida. O que nos mitos era expectativa e que no próprio grão está
escondido como sinal da esperança da criação aconteceu realmente em Cristo.
Através do seu sofrer e morrer livremente, Ele se tornou pão para todos nós, e
com isso esperança viva e fidedigna: Ele nos acompanha em todos os nossos
sofrimentos até a morte. Os caminhos que Ele percorre conosco e através dos
quais nos conduz à vida são caminhos de esperança.
Quando nós contemplamos
a Hóstia consagrada em adoração, o sinal da criação nos fala. Então encontramos
a grandeza do seu dom; mas encontramos também a Paixão, a Cruz de Jesus e a sua
Ressurreição. Através desse olhar em adoração Ele nos atrai a si, ao seu
mistério, por meio do qual quer nos transformar, como transformou a Hóstia.
A Igreja primitiva também encontrou no pão outro simbolismo. A Doutrina dos Doze Apóstolos, um livro escrito por volta do ano 100, contém entre as suas orações a afirmação: «Como este pão partido estava disperso pelas colinas e ao ser recolhido se tornou uma só coisa, assim a tua Igreja dos confins da terra seja reunida no teu Reino» (Didaché, IX, 4). O pão feito por muitos grãos encerra também um acontecimento de união: o tornar-se pão dos grãos moídos é um processo de unificação. Nós mesmos, sendo muitos, devemos nos tornar um só pão, um só corpo, como nos diz São Paulo (cf. 1Cor 10,17). Assim o sinal do pão se torna ao mesmo tempo esperança e missão.
De maneira muito
semelhante nos fala também o sinal do vinho. Mas enquanto o pão nos remete à
quotidianidade, à simplicidade e à peregrinação, o vinho expressa o requinte da
criação: a festa da alegria que Deus quer nos oferecer no fim dos tempos e que
já agora antecipa sempre de novo como um aceno através desse sinal. Mas o vinho
também fala da Paixão: a videira deve ser podada repetidamente para assim ser
purificada; as uvas devem amadurecer sob o sol e a chuva e devem ser esmagadas:
só através dessa paixão amadurece um vinho de qualidade.
Na festa do Corpus Christi contemplamos sobretudo o sinal do pão. Ele nos recorda também a peregrinação de Israel durante os quarenta anos no deserto. A Hóstia é o nosso maná, com o qual o Senhor nos alimenta - é verdadeiramente o pão do céu, através do qual Ele doa a si mesmo.
Na procissão nós
seguimos esse sinal e, assim, seguimos Ele mesmo. E lhe pedimos: guiai-nos
pelos caminhos desta nossa história! Mostrai sempre de novo à Igreja e aos seus
Pastores o justo caminho! Olhai para a humanidade que sofre, que vagueia
insegura entre tantas interrogações; olhai para a fome física e psíquica que a
atormenta! Dai aos homens pão para o corpo e para a alma! Dai-lhes trabalho! Dai-lhes
luz! Dai-lhes a Vós mesmo! Purificai e santificai todos nós! Fazei-nos
compreender que só através da participação na vossa Paixão, através do “sim” à
cruz, à renúncia, às purificações que nos impões, a nossa vida pode amadurecer
e alcançar o seu verdadeiro cumprimento. Reuni-nos de todos os confins da
terra. Uni a vossa Igreja, uni a humanidade dilacerada! Concedei-nos a vossa
salvação! Amém!
Bento XVI
Ângelus
Praça de São Pedro
Domingo, 18 de junho de 2006
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje, na Itália
e em outros Países, se celebra a Solenidade do Corpus Christi, que em Roma já teve o seu momento
forte na procissão pela cidade na quinta-feira passada. É a festa solene e
pública da Eucaristia, sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo: o mistério
instituído na Última Ceia e comemorado a cada ano na Quinta-feira Santa, neste
dia é manifestado a todos, circundado pelo fervor de fé e de devoção da
Comunidade eclesial.
Com efeito, a
Eucaristia é o “tesouro” da Igreja, a preciosa herança que o seu Senhor lhe
deixou. E a Igreja a conserva com o máximo cuidado, celebrando-a
quotidianamente na Santa Missa, adorando-a nas igrejas e nas capelas,
distribuindo-a aos enfermos e, como viático, a quantos partem para a última
viagem.
Mas esse
tesouro, destinado aos batizados, não esgota o seu raio de ação no âmbito da
Igreja: a Eucaristia é o Senhor Jesus que se doa «para a vida do mundo» (Jo 6,51). Em todo tempo e em todo lugar,
Ele quer encontrar o homem e levar-lhe a vida de Deus. Não só. A Eucaristia tem
também um valor cósmico: a transformação do pão e do vinho no Corpo e Sangue de
Cristo, com efeito, constitui o princípio de divinização da própria criação.
Por isso a festa
do Corpus Christi se caracteriza de modo particular pela
tradição de levar o Santíssimo Sacramento em procissão, um gesto rico de
significado. Levando a Eucaristia pelas estradas e nas praças, queremos imergir
o Pão descido do céu na quotidianidade da nossa vida; queremos que Jesus
caminhe onde nós caminhamos, que viva onde nós vivemos. O nosso mundo, as
nossas existências devem se tornar o seu templo.
Neste dia de
festa a Comunidade cristã proclama que a Eucaristia é tudo para ela, é a sua
própria vida, a fonte do amor que vence a morte. Da comunhão com Cristo
Eucaristia brota a caridade que transforma a nossa existência e sustenta o
caminho de todos nós rumo à pátria celeste.
Por isso a Liturgia
nos faz cantar: «Bom Pastor, verdadeiro pão, (...) Vós que tudo sabeis e podeis,
que nos alimentais na terra, conduzi os vossos irmãos à mesa do céu na glória
dos vossos santos».
Maria é a “mulher
eucarística”, como o Papa João Paulo II a definiu na sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia. Peçamos à
Virgem para que cada cristão aprofunde a fé no mistério eucarístico, para viver
em constante comunhão com Jesus e ser sua autêntica testemunha.
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| Vitral da Eucaristia (Catedral de Leicester, Inglaterra) |


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