terça-feira, 5 de maio de 2026

Homilia do Papa: Missa em Yaoundé

Viagem Apostólica à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial
Missa em Yaoundé
Homilia do Papa Leão XIV
Aeroporto de Yaoundé (Camarões)
Sábado, 18 de abril de 2026

Foi celebrada a Missa votiva da Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos, com as leituras do dia (sábado da II semana da Páscoa)

Queridos irmãos e irmãs, que a paz esteja convosco! A paz de Cristo, cuja presença ilumina o nosso caminho e acalma as tempestades da vida.

Celebramos esta Missa ao final da minha visita a Camarões, e agradeço muito pela forma como me acolhestes e pelos momentos de alegria e de fé que vivemos juntos.

Como ouvimos no Evangelho, a fé não nos poupa de agitações e tribulações e, em certos momentos, pode parecer que o medo prevalece. Sabemos, porém, que mesmo nessas circunstâncias, como aconteceu aos discípulos no mar da Galileia, Jesus não nos abandona.



Três evangelistas relatam o episódio que acabamos de ouvir, cada um à sua maneira, com uma mensagem diferente, de acordo com os leitores a quem se dirigem. São Marcos (cf. Mc 6,45-52) apresenta o Senhor que alcança os discípulos, enquanto estes remam com dificuldade devido ao vento contrário, que, no entanto, se acalma assim que Ele entra com eles no barco. São Mateus (cf. Mt 14,22-33) acrescenta um detalhe: Pedro quer ir ao encontro do Mestre caminhando sobre as ondas. Contudo, assim que desce do barco, deixa-se dominar pelo medo e começa a afundar. Cristo o toma pela mão, o salva e o repreende pela sua incredulidade.

Na versão de São João, que hoje foi proclamada (Jo 6,16-21), o Salvador, caminhando sobre as águas, aproxima-se dos discípulos e diz: «Sou Eu, não tenhais medo!» (v. 20), e o evangelista destaca que era «ao cair da tarde» (v. 18). Para a tradição judaica, as “águas”, com a sua profundidade e o seu mistério, evocam frequentemente o mundo dos infernos, o caos, o perigo, a morte. Evocam, junto com as trevas, as forças do mal, que o homem, por si só, não pode dominar. Ao mesmo tempo, porém, em memória dos prodígios do êxodo, também são percebidas como um lugar de passagem, uma travessia através da qual Deus, com poder, liberta o seu povo da escravidão.

No seu navegar ao longo dos séculos, a Igreja enfrentou muitas vezes tempestades e “ventos contrários”; e também nós podemos nos identificar com os sentimentos de medo e dúvida que os discípulos experimentaram durante a travessia do lago de Tiberíades. É o que sentimos nos momentos em que, oprimidos por forças adversas, parece que estamos afundando, quando tudo parece ser sombrio e nos sentimos sozinhos e fracos. Mas não é assim. Jesus está sempre conosco, mais forte do que qualquer poder do mal; em cada tormenta, Ele chega até nós e repete: “Eu estou aqui contigo: não tenhas medo”. Por isso, nos levantamos após cada queda e não nos deixamos deter por nenhuma tempestade, mas seguimos em frente, com coragem e confiança, sempre. E é graças a Ele que, como dizia o Papa Francisco, tantos «homens e mulheres (...) honram o nosso povo, honram a nossa Igreja (...): fortes ao levar em frente a própria vida, a própria família, o seu trabalho, a sua fé» (Catequese, 14 de maio de 2014, 2).

Jesus se aproxima de nós: não acalma imediatamente as tempestades, mas vem ao nosso encontro no meio dos perigos, convidando-nos a permanecer juntos e solidários, nas alegrias e nas dores, como os discípulos, na mesma barca; a não olhar de longe para quem sofre, mas a aproximar-nos e a unir-nos uns aos outros. Ninguém deve ser deixado sozinho a enfrentar as adversidades da vida, e, para tal, cada comunidade tem a tarefa de criar e apoiar estruturas de solidariedade e de ajuda mútua nas quais, perante as crises - sejam elas sociais, políticas, sanitárias ou econômicas - todos possam dar e receber ajuda, de acordo com as suas capacidades e segundo as suas necessidades. As palavras de Jesus, “sou Eu”, nos recordam que, em uma sociedade fundamentada no respeito pela dignidade da pessoa, a contribuição de todos é importante e tem um valor único, independentemente do status ou da posição de cada um aos olhos do mundo.

A exortação “não tenhais medo” assume, assim, uma dimensão ampla, também a nível social e político, como encorajamento para enfrentar problemas e desafios - particularmente aqueles ligados à pobreza e à justiça - em conjunto, com sentido cívico e responsabilidade civil. A fé não separa o espiritual do social; pelo contrário, dá ao cristão a força para interagir com o mundo, para responder às necessidades dos outros, especialmente dos mais fracos. Para a salvação de uma comunidade não bastam os esforços individuais e isolados dos indivíduos: é necessária uma decisão comum, que integre a dimensão espiritual e ética do Evangelho no coração das instituições e das estruturas, tornando-as instrumentos para o bem comum, e não locais de conflito, de interesse ou palco de lutas estéreis.

Fala-nos disso a 1ª leitura (At 6,1-7), na qual vemos como a Igreja enfrenta a sua primeira crise de crescimento. O rápido aumento do número de discípulos (v. 1) implica novos desafios para a comunidade no exercício da caridade, aos quais os Apóstolos já não conseguem responder sozinhos. Alguns são negligenciados no serviço das mesas, e por isso o murmúrio cresce e um sentimento de injustiça ameaça a unidade. O serviço diário aos pobres era uma prática essencial na Igreja primitiva e visava apoiar os mais frágeis, em particular os órfãos e as viúvas. Porém, era preciso completá-lo às necessidades do anúncio e do ensino, que também eram prementes, e a solução não era simples. Os Apóstolos, então, se reuniram, partilharam as preocupações, se confrontaram à luz dos ensinamentos de Jesus e rezaram juntos, conseguindo superar obstáculos e incompreensões que, à primeira vista, pareciam insuperáveis. Assim, deram vida a algo novo, escolhendo homens «de boa fama, repletos do Espírito e de sabedoria» (v. 3), e destinando-os, mediante a imposição das mãos, a um serviço prático que era também uma missão espiritual. Ao escutarem a voz do Espírito Santo e ao estarem atentos ao clamor dos que sofrem, não só evitaram uma divisão interna na comunidade, como também a dotaram, por inspiração divina, de novos e adequados instrumentos para o seu crescimento, transformando um momento de crise em uma oportunidade de enriquecimento e desenvolvimento para todos.

Às vezes também a vida de uma família e de uma sociedade exige isso: a coragem de mudar hábitos e estruturas, para que a dignidade da pessoa permaneça sempre no centro e as desigualdades e a marginalização sejam superadas. Afinal, ao tornar-se homem, Deus se identificou com os últimos, e isso torna a atenção preferencial aos pobres uma opção fundamental para a nossa identidade cristã (cf. Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 198; Exortação Apostólica Dilexi te, nn. 16-17).

Irmãos e irmãs, despedimo-nos hoje. Cada um regressa às suas ocupações habituais e a barca da Igreja, pela graça de Deus e com o empenho de todos, prossegue o seu percurso rumo à meta. Conservemos viva no coração a recordação dos lindos momentos que vivemos juntos; mesmo em meio às dificuldades, continuemos a dar espaço a Jesus, deixando-nos iluminar e recriar cada dia pela sua presença. A Igreja camaronense é viva, jovem, rica de dons e entusiasmo, vibrante na sua diversidade e maravilhosa na sua harmonia. Com a ajuda da Virgem Maria, nossa Mãe, fazei florescer cada vez mais a vossa presença festiva; e fazei com que mesmo os ventos contrários, que nunca faltam na vida, se tornem oportunidades de crescimento no serviço alegre a Deus e aos irmãos, na partilha, na escuta, na oração e no desejo de crescer juntos.


Fonte: Santa Sé.

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