Viagem Apostólica à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial
Missa em Bamenda
Homilia do Papa Leão XIV
Aeroporto de Bamenda (Camarões)
Quinta-feira, 16 de abril de 2026
Foi celebrada a Missa pela paz e a justiça com as leituras do dia (quinta-feira da II semana da Páscoa)
Queridos irmãos e irmãs em Cristo,
Venho até vós como peregrino da paz e da unidade, expressando a minha
alegria por estar aqui visitando a vossa terra e, sobretudo, por partilhar o
vosso caminho, os vossos esforços e as vossas esperanças.
As manifestações festivas que acompanham as vossas Liturgias e a
alegria que brota da oração que elevais a Deus são o sinal do vosso abandono
confiante n’Ele, da vossa esperança inquebrantável, do vosso agarrar-vos com
todas as forças ao amor do Pai que se faz próximo e olha com compaixão para os
sofrimentos dos seus filhos. No Salmo que rezamos juntos é cantada esta
confiança n’Ele, que hoje somos chamados a renovar: «Do coração atribulado ele
está perto e conforta os de espírito abatido» (Sl 33,19).
Irmãos e irmãs, são muitos os motivos e as situações que atribulam
nosso coração e nos lançam na aflição. As esperanças em um futuro de paz e
reconciliação, no qual cada um seja respeitado na sua dignidade e a cada um
sejam garantidos os direitos necessários, são continuamente desvanecidas pelos
muitos problemas que marcam esta belíssima terra: as numerosas formas de
pobreza, que continuam afetando inúmeras pessoas com uma crise alimentar em
curso; a corrupção moral, social e política, ligada sobretudo à gestão da
riqueza, que impede o desenvolvimento das instituições e das estruturas; os
graves e consequentes problemas que atingem o sistema educativo e de saúde, bem
como a grande migração para o estrangeiro, em particular dos jovens. E às
problemáticas internas, frequentemente alimentadas pelo ódio e pela violência,
junta-se ainda o mal causado pelo exterior, por aqueles que, em nome do lucro,
continuam a pôr as mãos no continente africano para explorá-lo e saqueá-lo.
Tudo isso corre o risco de nos fazer sentir impotentes e de
enfraquecer a nossa confiança. No entanto, este é o momento para mudar,
transformar a história deste país. Hoje, não amanhã; agora, não no futuro!
Chegou o momento de reconstruir, de recompor o mosaico da unidade, combinando
as diversidades e as riquezas do país e do continente, de edificar uma
sociedade onde reinem a paz e a reconciliação.
É verdade que, quando uma situação se consolida há muito tempo, o
risco é o da resignação e da impotência, porque não esperamos nenhuma novidade;
no entanto, a Palavra do Senhor abre novos espaços e gera transformação e cura,
porque é capaz de colocar o coração em movimento, de pôr em crise o curso
normal das coisas a que facilmente corremos o risco de nos habituar, de nos
tornar protagonistas ativos da mudança. Lembremo-nos: Deus é novidade, Deus
cria coisas novas, Deus nos torna pessoas corajosas que, desafiando o mal,
constroem o bem.
Vemos isso no testemunho dos Apóstolos, tal como ouvimos na 1ª
Leitura: enquanto as autoridades do Sinédrio interrogam os Apóstolos, os
repreendem e ameaçam por que estão anunciando publicamente Cristo, eles
respondem: «É preciso obedecer a Deus, antes que aos homens. O Deus de nossos
pais ressuscitou Jesus, a quem vós matastes, pregando-o em uma cruz» (At 5,29-30).
A coragem dos Apóstolos torna-se consciência crítica, profecia,
denúncia do mal, e este é o primeiro passo para mudar as coisas. Na verdade,
obedecer a Deus não é um ato de submissão que nos oprime ou anula a nossa
liberdade; pelo contrário, a obediência a Deus nos torna livres, porque
significa confiar a Ele a nossa vida e deixar que seja a sua Palavra a inspirar
a nossa maneira de pensar e de agir. Assim, como ouvimos no Evangelho, que nos
apresenta a última parte do diálogo entre Jesus e Nicodemos: «O que é da terra,
pertence à terra e fala das coisas da terra. Aquele que vem do céu está acima
de todos» (Jo 3,31). Quem obedece a Deus antes do que aos homens e
ao modo humano e terreno de pensar, reencontra a própria liberdade interior,
consegue descobrir o valor do bem e não se resignar ao mal, redescobre o
caminho da vida e se torna construtor de paz e fraternidade.
Irmãos e irmãs, o consolo para os corações despedaçados e a esperança
na transformação da sociedade são possíveis se nos confiarmos a Deus e à sua
Palavra. Devemos, porém, guardar sempre no coração e recordar o apelo do Apóstolo
Pedro: obedecer a Deus, mais do que aos homens. Obedecer a Ele, porque só Ele é
Deus. E isto nos convida a promover a inculturação do Evangelho e a vigiar com
atenção, também sobre a nossa religiosidade, para não cairmos no engano de
seguir aqueles caminhos que misturam a fé católica com outras crenças e
tradições de caráter esotérico ou gnóstico, que, na realidade, têm
frequentemente objetivos políticos e econômicos. Só Deus liberta, só a sua
Palavra abre caminhos de liberdade, só o seu Espírito nos torna pessoas novas,
que podem mudar este país.
Acompanho-vos com a minha incessante oração e abençoo, em particular,
a Igreja aqui presente: tantos sacerdotes, missionários, religiosos e leigos
que trabalham para ser fonte de consolação e esperança. Encorajo-vos a
prosseguir por este caminho e confio-vos à intercessão de Maria Santíssima,
Rainha dos Apóstolos e Mãe da Igreja.
Fonte: Santa Sé.


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