quinta-feira, 28 de maio de 2026

Catequeses do Jubileu 2025: Ressurreição 4

Concluindo a publicação das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, trazemos as duas últimas meditações do Papa Leão XIV sobre “A Ressurreição de Cristo e os desafios do mundo de hoje”:

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
4.7. A Ressurreição de Cristo e os desafios do mundo de hoje:
A Páscoa de Jesus Cristo, resposta definitiva à questão da nossa morte

Queridos irmãos e irmãs, bom dia! Sejam todos bem-vindos!
O mistério da morte sempre suscitou profundos questionamentos no ser humano. Com efeito, ela parece ser o acontecimento mais natural e, ao mesmo tempo, mais antinatural que existe. É natural, porque na terra todos os seres vivos morrem. É antinatural, porque o desejo de vida e de eternidade que sentimos por nós mesmos e pelas pessoas que amamos nos faz ver a morte como uma condenação, como um “contrassenso”.

Muitos povos antigos desenvolveram ritos e costumes ligados ao culto dos mortos, para acompanhar e recordar aqueles que se encaminhavam ao mistério supremo. Hoje, porém, se verifica uma tendência diferente. A morte parece uma espécie de tabu, um acontecimento a manter distante; algo de que falar em voz baixa, para evitar perturbar a nossa sensibilidade e tranquilidade. Por isso, muitas vezes se evita até mesmo visitar os cemitérios, onde quem nos precedeu repousa à espera da ressurreição.

O Ressuscitado conduz as almas dos justos ao Paraíso
(Nikolay Koshelev, detalhe)

Portanto, o que é a morte? É realmente a última palavra sobre a nossa vida? Só o ser humano se coloca esta pergunta, porque somente ele sabe que deve morrer. Mas ser consciente disso não o salva da morte; antes, em certo sentido, isso o “sobrecarrega” em relação a todas as outras criaturas vivas. Os animais sofrem, certamente, e percebem que a morte está próxima, mas não sabem que a morte faz parte do seu destino. Não se interrogam sobre o sentido, sobre o fim, sobre o resultado da vida.

Constatando esse aspecto, deveríamos então pensar que somos criaturas paradoxais, infelizes, não só porque morremos, mas também porque temos a certeza de que este acontecimento ocorrerá, embora ignoremos como e quando. Descobrimo-nos conscientes e, ao mesmo tempo, impotentes. Provavelmente é daqui que provêm as frequentes repressões, as fugas existenciais perante a questão da morte.

No seu famoso escrito intitulado Preparação para a morte, Santo Afonso Maria de Ligório reflete sobre o valor pedagógico da morte, evidenciando como ela é uma grande mestra de vida. Saber que existe e, sobretudo, meditar sobre ela nos ensina a escolher o que realmente fazer com a nossa existência. Rezar para compreender o que é benéfico em vista do Reino dos céus, e abandonar o supérfluo que, ao contrário, nos liga às realidades efêmeras, é o segredo para viver de modo autêntico, na consciência de que a passagem pela terra nos prepara para a eternidade.

No entanto, muitas visões antropológicas atuais prometem imortalidades imanentes, teorizam o prolongamento da vida terrena através da tecnologia. É o cenário do transumano, que se abre caminho no horizonte dos desafios do nosso tempo. A morte poderia ser verdadeiramente derrotada com a ciência? Mas então, a própria ciência poderia nos garantir que uma vida sem a morte também é uma vida feliz?

O acontecimento da Ressurreição de Cristo nos revela que a morte não se opõe à vida, mas é uma parte constitutiva dela, como passagem para a vida eterna. A Páscoa de Jesus nos faz saborear antecipadamente, neste tempo ainda cheio de sofrimentos e provações, a plenitude do que acontecerá após a morte.

O evangelista Lucas parece captar esse presságio de luz na escuridão quando, no final daquela tarde na qual as trevas envolveram o Calvário, escreve: «Era o dia da preparação da Páscoa, e já resplandeciam as luzes do sábado» (Lc 23,54). Esta luz, que antecipa a manhã da Páscoa, já brilha na escuridão do céu que ainda parece fechado e emudecido. Pela primeira e única vez, as luzes do sábado anunciam antecipadamente a aurora do dia depois do sábado: a nova luz da Ressurreição! Só este acontecimento é capaz de iluminar até o fundo o mistério da morte. Nesta luz, e só nela, torna-se verdadeiro o que o nosso coração deseja e espera, isto é, que a morte não seja o fim, mas a passagem para a luz plena, para uma eternidade feliz.

O Ressuscitado nos precedeu na grande prova da morte, saindo vitorioso graças ao poder do Amor divino. Assim, nos preparou o lugar do descanso eterno, a casa onde somos esperados; nos doou a plenitude da vida, na qual não há mais sombras nem contradições.

Graças a Ele, morto e ressuscitado por amor, com São Francisco podemos chamar a morte de “irmã”. Aguardá-la com a esperança certa da Ressurreição nos preserva do medo de desaparecer para sempre e nos prepara para a alegria da vida sem fim!

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
4.8. A Ressurreição de Cristo e os desafios do mundo de hoje:
A Páscoa como destino do coração inquieto

Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
A vida humana é caracterizada por um movimento constante que nos impele a fazer, a agir. Hoje se exige em toda a parte rapidez em conseguir resultados ótimos nos âmbitos mais variados. De que modo a Ressurreição de Jesus ilumina esta característica da nossa experiência? Quando participarmos da sua vitória sobre a morte, descansaremos? A fé nos diz: sim, descansaremos! Não ficaremos inativos, mas entraremos no descanso de Deus, que é paz e alegria. Então, devemos apenas esperar, ou isto pode nos mudar desde já?

Estamos absorvidos por tantas atividades que nem sempre nos satisfazem. Muitas das nossas ações têm a ver com coisas práticas, concretas. Devemos assumir a responsabilidade de muitos compromissos, resolver problemas, enfrentar dificuldades. Também Jesus se envolveu com as pessoas e com a vida, sem se poupar, mas doando-se até o fim. No entanto, muitas vezes percebemos que o muito fazer, em vez de nos dar plenitude, torna-se um turbilhão que nos atordoa, nos tira a serenidade, nos impede de viver da melhor forma o que é realmente importante para a nossa vida. Então nos sentimos cansados, insatisfeitos: o tempo parece dispersar-se em mil coisas práticas que, porém, não resolvem o significado último da nossa existência. Às vezes, no final de dias cheios de atividades, nos sentimos vazios. Por quê? Porque não somos máquinas, temos um “coração”, ou melhor, podemos dizer, somos um coração.

O coração é o símbolo de toda a nossa humanidade, síntese de pensamentos, sentimentos e desejos, o centro invisível da nossa pessoa. O evangelista Mateus nos convida a refletir sobre a importância do coração, citando esta belíssima frase de Jesus: «Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6,21).

Portanto, é no coração que se conserva o verdadeiro tesouro, não nos cofres da terra, não nos grandes investimentos financeiros, hoje mais do que nunca enlouquecidos e injustamente concentrados, idolatrados ao preço sangrento de milhões de vidas humanas e da devastação da criação de Deus.

É importante refletir sobre esses aspectos, pois nos inúmeros compromissos que enfrentamos continuamente sobressai cada vez mais o risco da dispersão, por vezes do desespero, da falta de sentido, até mesmo em pessoas aparentemente bem-sucedidas. Ao contrário, ler a vida no sinal da Páscoa, olhar para ela com Jesus Ressuscitado, significa encontrar o acesso à essência da pessoa humana, ao nosso coração: cor inquietum. Com este adjetivo, “inquieto”, Santo Agostinho nos faz compreender o impulso do ser humano orientado para a sua plena realização. A frase integral remete ao início das Confissões, onde Agostinho escreve: «Fizestes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto, enquanto não repousar em Vós» (Confissões I, 1, 1).

A inquietação é o sinal de que o nosso coração não se move por acaso, de modo desordenado, sem um fim nem uma meta, mas está orientado para o seu destino último, o “regresso a casa”. E o verdadeiro destino do coração não consiste na posse dos bens deste mundo, mas em alcançar aquilo que pode preenchê-lo plenamente, ou seja, o amor de Deus, ou melhor, Deus Amor. Este tesouro, porém, só se encontra amando o próximo que se encontra ao longo do caminho: os irmãos e irmãs em carne e osso, cuja presença interpela e questiona o nosso coração, chamando-o a abrir-se e a doar-se. O próximo nos pede para ir mais devagar, para o olhar nos olhos, às vezes para mudar de programa, talvez até para mudar de direção.

Caríssimos, eis o segredo do movimento do coração humano: voltar à fonte do seu ser, desfrutar da alegria que não esmorece, que não decepciona. Ninguém pode viver sem um significado que vá além do contingente, além daquilo que passa. O coração humano não pode viver sem esperar, sem saber que foi feito para a plenitude, não para a falta.

Jesus Cristo, com a sua Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição deu um fundamento sólido a essa esperança. O coração inquieto não ficará decepcionado se entrar no dinamismo do amor para o qual é criado. O destino é certo, a vida venceu e, em Cristo, continuará a vencer em cada morte do dia-a-dia. Esta é a esperança cristã: bendigamos e demos graças sempre ao Senhor que a concedeu a nós!

O Ressuscitado conduz as almas dos justos ao Paraíso
(Nikolay Koshelev)

Fonte: Santa Sé (10 de dezembro e 17 de dezembro de 2025).

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