quarta-feira, 6 de maio de 2026

Homilia do Papa: Missa em Kilamba

Viagem Apostólica à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial
Missa em Kilamba
Homilia do Papa Leão XIV
Esplanada de Kilamba (Angola)
Domingo, 19 de abril de 2026

Foi celebrada a Missa do III Domingo da Páscoa (Ano A).

Queridos irmãos e irmãs,
Com o coração cheio de gratidão, celebro a Eucaristia no meio vós. Graças sejam dadas a Deus por este dom e obrigado a todos pela festiva acolhida!

Neste III Domingo da Páscoa o Senhor nos falou através do Evangelho dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Deixemo-nos iluminar por esta Palavra de vida.

Dois discípulos do Senhor, com o coração ferido e triste, partem de Jerusalém para regressar à sua aldeia de Emaús. Viram morrer aquele Jesus em quem tinham depositado a sua confiança e a quem tinham seguido e, agora, desiludidos e abatidos, regressam às suas casas. Pelo caminho, «conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido» (v. 14). Precisam falar sobre isso, contar um ao outro o que viram, partilhar o que viveram. Porém, arriscavam ficar presos na dor e fechados à esperança.


Irmãos e irmãs, nesta primeira cena do Evangelho, vejo refletida a história de Angola, deste país belíssimo e ferido, que tem fome e sede de esperança, de paz e de fraternidade. Na verdade, ao longo do caminho, a conversa dos dois discípulos, que recordam com desânimo o que aconteceu ao seu Mestre, traz à memória a dor que marcou o vosso país: uma longa guerra civil com o seu rastro de inimizades e divisões, de recursos desperdiçados e de pobreza.

Quando se permanece imerso durante muito tempo em uma história tão marcada pela dor, corre-se o mesmo risco dos dois discípulos de Emaús: perder a esperança e ficar paralisados pelo desânimo. Com efeito, eles caminham, mas continuam presos aos acontecimentos ocorridos três dias antes, quando viram Jesus morrer; conversam entre si, mas sem ter esperança em uma saída; continuam falando do que aconteceu, com o cansaço de quem não sabe como recomeçar, nem se isso é possível.

Caríssimos, a Boa-Nova do Senhor, hoje também para nós, é precisamente esta: Ele está vivo, ressuscitou e caminha ao nosso lado enquanto percorremos o caminho do sofrimento e da amargura, abrindo-nos os olhos para que possamos reconhecer a sua obra e concedendo-nos a graça de recomeçar e reconstruir o futuro.

O Senhor se aproxima dos dois discípulos desiludidos e com pouca esperança e, fazendo-se companheiro de viagem, ajuda-os a juntar as peças daquela história, a olhar para além da dor, a descobrir que não estão sozinhos no caminho e que os espera um futuro, habitado ainda pelo Deus do amor. E quando Ele se detém para jantar com eles, se senta à mesa e parte o pão, então «os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus» (v. 31).

Eis aqui traçado também para nós, para vós, queridos irmãos e irmãs angolanos, o caminho para recomeçar: por um lado, a certeza de que o Senhor nos acompanha e tem compaixão de nós; por outro lado, o compromisso que Ele nos pede.

Experimentamos a companhia do Senhor sobretudo na relação com Ele, na oração, na escuta da sua Palavra que faz arder o nosso coração como o dos dois discípulos e, sobretudo, na celebração da Eucaristia. É aqui que encontramos Deus. Por isso, é necessário estar sempre atentos às formas de religiosidade tradicional, que certamente pertencem às raízes da vossa cultura, mas que, ao mesmo tempo, correm o risco de confundir e misturar elementos mágicos e supersticiosos que não ajudam no caminho espiritual. Permanecei fiéis ao que a Igreja ensina, confiai nos vossos pastores e conservai o olhar fixo em Jesus, que se revela especialmente na Palavra e na Eucaristia. Em ambas experimentamos que o Senhor Ressuscitado caminha ao nosso lado e, unidos a Ele, também nós vencemos as mortes que nos cercam e vivemos como ressuscitados.

A essa certeza de não estarmos sozinhos ao longo do caminho junta-se também um esforço generoso capaz de aliviar as feridas e reacender a esperança. Com efeito, se os dois de Emaús reconheceram Jesus ao partir o pão para eles, isso significa que também nós devemos reconhecê-lo assim: não apenas na Eucaristia, mas em qualquer lugar onde há uma vida que se torna pão partido, em qualquer lugar onde alguém se torna dom de compaixão, tal como Ele.

A história do vosso país, as consequências ainda difíceis que suportais, os problemas sociais e econômicos e as diversas formas de pobreza exigem a presença de uma Igreja que saiba estar próxima no caminho e saiba ouvir o clamor dos seus filhos. Uma Igreja que, com a luz da Palavra e o alimento da Eucaristia, saiba reavivar a esperança perdida. Uma Igreja feita de pessoas como vós, que se doam assim como Jesus parte o pão para os dois discípulos de Emaús. Angola precisa de Bispos, sacerdotes, missionários, religiosos e religiosas, leigos e leigas que tenham no coração o desejo de partir a sua vida e doá-la uns aos outros, de se empenhar no amor e no perdão mútuos, de construir espaços de fraternidade e paz, de realizar gestos de compaixão e solidariedade para com quem mais precisa.

Com a graça de Cristo Ressuscitado, podemos nos tornar esse pão partido que transforma a realidade. E assim como a Eucaristia nos recorda que somos um só corpo e um só espírito, unidos ao único Senhor, também nós podemos e queremos construir um país onde as antigas divisões sejam superadas para sempre, onde o ódio e a violência desapareçam, onde a chaga da corrupção seja curada por uma nova cultura de justiça e partilha. Só assim será possível um futuro de esperança, sobretudo para os muitos jovens que a perderam.

Irmãos e irmãs, hoje é necessário olhar para o futuro com esperança e construir a esperança do futuro. Não tenhais medo de o fazer! Jesus Ressuscitado, que percorre o caminho convosco e por vós se parte como pão, vos encoraja a ser testemunhas da sua Ressurreição e protagonistas de uma nova humanidade e de uma nova sociedade.

Neste caminho, caríssimos, podeis contar com a proximidade e com a oração do Papa! Também eu sei que posso contar convosco, e por isso vos agradeço! Confio-vos à proteção e à intercessão da Virgem Maria, Nossa Senhora de Muxima, para que ela vos sustente sempre na fé, na esperança e na caridade.


Fonte: Santa Sé.

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