quinta-feira, 7 de maio de 2026

Catequeses do Jubileu 2025: Ressurreição 1

Neste Tempo Pascal retomamos e concluímos a publicação das Catequeses proferidas pelo Papa Leão XIV durante o Jubileu Ordinário de 2025: “Jesus Cristo, nossa esperança”.

Após as reflexões sobre a infância, a vida pública e a Páscoa de Jesus, confira nesta postagem as primeiras duas meditações da quarta e última seção: “A Ressurreição de Cristo e os desafios do mundo de hoje”.

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 15 de outubro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
4.1. A Ressurreição de Cristo e os desafios do mundo de hoje:
O Ressuscitado, fonte viva da esperança humana

Queridos irmãos e irmãs, bom dia,
Nas Catequeses do Ano Jubilar, até este momento, percorremos a vida de Jesus seguindo os Evangelhos, do Nascimento até a Morte e Ressurreição. Assim, a nossa peregrinação na esperança encontrou o seu fundamento sólido, o seu caminho seguro. Agora, na última parte do caminho, deixaremos que o mistério de Cristo, que culmina na Ressurreição, irradie a sua luz de salvação em contato com a realidade humana e histórica atual, com as suas interrogações e os seus desafios.

Ressurreição de Cristo (Nicolas Bertin)

A nossa vida é marcada por inúmeros acontecimentos, cheios de diferentes nuances e experiências. Às vezes nos sentimos alegres, outras vezes tristes, outras ainda realizados, ou estressados, gratificados ou desmotivados. Vivemos muito ocupados, nos concentramos para obter resultados, até chegamos a atingir metas elevadas, prestigiadas. Por outro lado, permanecemos suspensos, precários, à espera de sucessos e reconhecimentos que demoram a chegar, ou que nunca chegam. Em suma, experimentamos uma situação paradoxal: gostaríamos de ser felizes, porém é muito difícil conseguir ser feliz de modo contínuo e sem sombras. Fazemos as contas com o nosso limite e, ao mesmo tempo, com o ímpeto irreprimível de procurar ultrapassá-lo. No íntimo, sentimos que nos falta sempre algo.

Na verdade, não fomos criados para a falta, mas para a plenitude, para se alegrar com a vida, com a vida em abundância, segundo a expressão de Jesus no Evangelho de João (cf. Jo 10,10).

Esse desejo profundo do nosso coração pode encontrar a sua resposta última não nos cargos, não no poder, não no ter, mas na certeza de que existe alguém que se faz garante deste impulso constitutivo da nossa humanidade; na consciência de que essa espera não será desiludida ou frustrada. Essa certeza coincide com a esperança. Isso não quer dizer pensar de modo otimista: muitas vezes o otimismo nos decepciona, vê implodir as nossas expectativas, enquanto a esperança promete e cumpre.

Irmãos e irmãs, Jesus Ressuscitado é a garantia dessa meta! Ele é a fonte que sacia a nossa aridez, a infinita sede de plenitude que o Espírito Santo infunde no nosso coração. A Ressurreição de Cristo, com efeito, não é um simples acontecimento da história humana, mas o evento que a transformou a partir de dentro.

Pensemos em uma fonte de água. Quais são as suas características? Sacia e refresca as criaturas, irriga a terra, as plantas, torna fértil e vivo o que de outra forma permaneceria árido. Refresca o viajante cansado, oferecendo-lhe a alegria de um oásis de vigor. Uma fonte aparece como um dom gratuito para a natureza, para as criaturas, para os seres humanos. Sem água não se pode viver!

O Ressuscitado é a fonte viva que não seca e não sofre alterações. Permanece sempre pura e pronta para quem quer que tenha sede. E quanto mais saboreamos o mistério de Deus, mais nos sentimos atraídos por Ele, sem nunca nos saciarmos completamente. Santo Agostinho, no décimo livro das Confissões, colhe precisamente esse inesgotável anseio do nosso coração e o exprime no célebre Hino à beleza: «Infundiste a tua fragrância: respirei e anseio por ti; saboreei, e tenho fome e sede; me tocaste, e ardi de desejo da tua paz» (Confissões X, 27, 38).

Com a sua Ressurreição, Jesus nos garantiu uma fonte permanente de vida: Ele é o Vivente (cf. Ap 1,18), o amante da vida, o vitorioso sobre toda morte. Por isso é capaz de nos oferecer descanso no caminho terreno e de nos assegurar a perfeita quietude na eternidade. Só Jesus Morto e Ressuscitado responde às perguntas mais profundas do nosso coração: existe realmente um ponto de chegada para nós? A nossa existência tem sentido? E como pode ser redimido o sofrimento de tantos inocentes?

Jesus Ressuscitado não faz descer uma resposta “do alto”, mas se faz nosso companheiro nesta viagem muitas vezes cansativa, dolorosa, misteriosa. Só Ele pode encher o nosso cantil vazio quando a sede se torna insuportável.

E Ele é também o ponto de chegada do nosso caminho. Sem o seu amor, a viagem da vida se tornaria um perambular sem meta, um trágico erro com um destino fracassado. Somos criaturas frágeis. O erro faz parte da nossa humanidade, é a ferida do pecado que nos faz cair, renunciar, desesperar. Ressuscitar, ao contrário, significa levantar-se de novo, pôr-se de pé. O Ressuscitado garante a meta, nos conduz para casa, onde somos esperados, amados, salvos. Percorrer o caminho com Ele ao nosso lado significa experimentar que, apesar de tudo, somos sustentados, saciados e revigorados nas provações e nas fadigas que, como pedras pesadas, ameaçam bloquear ou desviar a nossa história.

Caríssimos, da Ressurreição de Cristo brota a esperança que nos faz saborear desde já, apesar do cansaço da vida, uma profunda e alegre quietude: aquela paz que só Ele nos poderá conceder no fim, sem fim.

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 22 de outubro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
4.2. A Ressurreição de Cristo e os desafios do mundo de hoje:
A Ressurreição, resposta à tristeza humana

Queridos irmãos e irmãs, bom dia! Sejam todos bem-vindos!
A Ressurreição de Jesus Cristo é um acontecimento que nunca terminamos de contemplar e meditar, e quanto mais o aprofundamos mais ficamos cheios de admiração, atraídos como que por uma luz insustentável e ao mesmo tempo fascinante. Foi uma explosão de vida e de alegria que mudou o sentido de toda a realidade, de negativo para positivo; e, no entanto, não ocorreu de modo retumbante, e muito menos violento, mas suave, oculto, poderíamos dizer humilde.

Hoje refletiremos sobre como a Ressurreição de Cristo pode curar uma das doenças do nosso tempo: a tristeza. Invasiva e difusa, a tristeza acompanha os dias de tantas pessoas. Trata-se de um sentimento de precariedade, às vezes de profundo desespero, que invade o espaço interior e parece prevalecer sobre qualquer ímpeto de alegria.

A tristeza tira sentido e vigor à vida, que se torna como que uma viagem sem rumo e sem significado. Essa experiência tão atual nos remete ao célebre relato do Evangelho de Lucas sobre os dois discípulos de Emaús (Lc 24,13-29). Desiludidos e desanimados, eles partem de Jerusalém, deixando para trás as esperanças depositadas em Jesus, que foi crucificado e sepultado. Inicialmente, esse episódio mostra como que um paradigma da tristeza humana: o fim do objetivo no qual foram investidas tantas energias, a destruição daquilo que parecia ser o essencial da própria vida. A esperança se dissipou, a desolação tomou posse do coração. Tudo implodiu em brevíssimo tempo, entre a sexta-feira e o sábado, em uma dramática sucessão de eventos.

O paradoxo é verdadeiramente emblemático: essa triste viagem de derrota e de regresso à normalidade se realiza no mesmo dia da vitória da luz, da Páscoa que se consumou plenamente. Os dois homens viram as costas para o Gólgota, para o terrível cenário da cruz ainda gravado nos seus olhos e no seu coração. Tudo parece perdido. É preciso voltar à vida de antes, com perfil baixo, esperando não ser reconhecidos.

Em certo ponto, um viajante se aproxima dos dois discípulos, talvez um dos tantos peregrinos que estiveram em Jerusalém para a Páscoa. É Jesus Ressuscitado, mas eles não o reconhecem. A tristeza ofusca o seu olhar, apaga a promessa que o Mestre tinha feito várias vezes: que seria morto e que ao terceiro dia ressuscitaria. O desconhecido se aproxima e se mostra interessado nas coisas que eles estão dizendo. O texto refere que os dois «pararam, com o rosto triste» (Lc 24,17). O adjetivo grego utilizado descreve uma tristeza integral: no seu rosto transparece a paralisia da alma.

Jesus os escuta, deixa que desabafem a sua desilusão. Depois, com grande franqueza, os repreende por serem «sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram» (v. 25) e, através das Escrituras, demonstra que o Cristo devia sofrer, morrer e ressuscitar. No coração dos dois discípulos se reacende o calor da esperança e então, quando a noite cai e eles chegam ao destino, convidam o misterioso companheiro a permanecer com eles.

Jesus aceita e senta à mesa com eles. Em seguida, toma o pão, o parte e o oferece. Naquele momento os dois discípulos o reconhecem, mas Ele imediatamente desaparece da sua presença (vv. 30-31). O gesto do pão partido reabre os olhos do coração, ilumina novamente a visão ofuscada pelo desespero. E então tudo se esclarece: o caminho compartilhado, a palavra terna e forte, a luz da verdade... Imediatamente se reacende a alegria, a energia flui de novo nos membros cansados, a memória volta a fazer-se grata. E os dois regressam apressadamente a Jerusalém, para narrar tudo aos outros.

«Verdadeiramente o Senhor ressuscitou» (v. 34). Nesse advérbio, verdadeiramente, cumpre-se o desfecho certo da nossa história de seres humanos. Não por acaso é a saudação que os cristãos trocam no dia da Páscoa. Jesus não ressuscitou com palavras, mas com ações, com o seu corpo que conserva os sinais da Paixão, selo perene do seu amor por nós. A vitória da vida não é uma palavra vã, mas um fato real, concreto.

A alegria inesperada dos discípulos de Emaús seja para nós uma doce exortação quando o caminho se torna duro. É o Ressuscitado que muda radicalmente a perspectiva, infundindo a esperança que preenche o vazio da tristeza. Nas sendas do coração, o Ressuscitado caminha conosco e por nós. Testemunha a derrota da morte, afirma a vitória da vida, apesar das trevas do Calvário. A história ainda tem muito a esperar de bom!

Reconhecer a Ressurreição significa mudar o olhar sobre o mundo: voltar à luz para reconhecer a Verdade que nos salvou e nos salva. Irmãos e irmãs, permaneçamos vigilantes todos os dias no enlevo da Páscoa de Jesus Ressuscitado. Só Ele torna possível o impossível!

Jesus com os dois discípulos a caminho de Emaús

Fonte: Santa Sé (15 de outubro e 22 de outubro de 2025).

Confira também as demais Catequeses sobre a Ressurreição de Cristo a serem publicadas:
3. A Páscoa dá esperança à vida quotidiana (14 de maio)
4. A espiritualidade pascal anima a fraternidade
5. Espiritualidade pascal e ecologia integral (21 de maio)
6. Esperar na vida para gerar vida
7. A Páscoa de Jesus Cristo, resposta última à pergunta sobre a nossa morte (28 de maio)
8. A Páscoa como refúgio do coração inquieto

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