sábado, 16 de maio de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Ascensão do Senhor (2001)

Há cerca de 25 anos, no dia 24 de maio de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Solenidade da Ascensão do Senhor (Ano C) na Basílica de São Pedro por ocasião do encerramento do Consistório Extraordinário, isto é, a reunião com os Cardeais para refletir sobre a missão da Igreja no terceiro milênio.

Confira a seguir a homilia do Papa durante a celebração:

Solenidade da Ascensão do Senhor
Concelebração Eucarística no Encerramento do Consistório Extraordinário
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 24 de maio de 2001

Senhores Cardeais,
Venerados irmãos no Episcopado,
Caríssimos irmãos e irmãs,
1. Estamos reunidos em torno do altar do Senhor para celebrar a sua Ascensão ao Céu. Escutamos as suas palavras: «Recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas... até os confins da terra» (At 1,8). Há dois mil anos estas palavras do Senhor Ressuscitado impelem a Igreja a “fazer-se ao largo” na história, tornando-a contemporânea de todas as gerações, transformando-a no fermento de todas as culturas do mundo.


Voltamos a ouvi-las hoje para acolher com renovado fervor o mandato «Duc in altum!» - «Faz-te ao largo!», «Avança para águas mais profundas» - que um dia Jesus dirigiu a Pedro (cf. Lc 5,4): um mandato que desejei fazer ressoar em toda a Igreja na Carta Apostólica Novo millennio ineunte e que, à luz desta Solenidade litúrgica, adquire um significado ainda mais profundo. O “altum rumo ao qual a Igreja deve caminhar não é apenas um compromisso missionário mais vigoroso, mas antes ainda um empenho contemplativo mais intenso. Também nós somos convidados, como os Apóstolos, testemunhas da Ascensão, a fixar o olhar no rosto de Cristo, elevado no esplendor da glória divina.

Certamente contemplar o céu não significa esquecer a terra. Caso se apresentasse esta tentação, bastaria escutar novamente os «dois homens vestidos de branco» da passagem do Evangelho de hoje: «Por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?» (At 1,11). A contemplação cristã não nos subtrai ao compromisso histórico. O “céu” da Ascensão de Jesus não é distância, mas ocultamento e custódia de uma presença que nunca nos abandona, até que Ele venha na glória. Entretanto, é a hora exigente do testemunho, para que em nome de Cristo «sejam anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações» (Lc 24,47).

2. É precisamente para reavivar essa consciência que desejei convocar o Consistório Extraordinário que hoje se conclui. Os senhores Cardeais de todo o mundo, que saúdo com afeto fraternal, se reuniram nestes dias comigo para afrontar alguns dos temas mais relevantes da evangelização e do testemunho cristão no mundo de hoje, no início de um novo milênio. Para nós foi, antes de tudo, um momento de comunhão, no qual experimentamos um pouco daquela alegria que inundou a alma dos Apóstolos, depois que o Ressuscitado, abençoando-os, afastou-se deles para subir aos céus. Com efeito, Lucas diz que «eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus» (Lc 24,52-53).

A natureza missionária da Igreja afunda suas raízes nesse ícone das origens. Porta os seus traços. Repropõe o seu espírito, começando pela experiência da alegria que o Senhor Jesus prometeu àqueles que o amam: «Eu vos disse isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena» (Jo 15,11). Se a nossa fé no Senhor Ressuscitado está viva, a alma não pode deixar de estar plena de alegria, e a missão se configura como um “transbordar” de alegria, que nos leva a transmitir a todos a “boa nova” da salvação com uma coragem livre de temores e de complexos, inclusive à custa do sacrifício da nossa própria vida.

A natureza missionária da Igreja, que parte de Cristo, encontra apoio na colegialidade episcopal e é encorajada pelo Sucessor de Pedro, cujo ministério visa promover a comunhão na Igreja, garantindo a unidade de todos os fiéis em Cristo.

3. Foi precisamente essa experiência que fez de Paulo o “Apóstolo das Nações”, levando-o a percorrer boa parte do mundo então conhecido sob o impulso de uma força interior que o obrigava a falar de Cristo: «Vae mihi est si non evangelizavero!» - «Ai de mim se eu não pregar o evangelho!» (1Cor 9,16). Também eu quis, na recente Peregrinação Apostólica à Grécia, Síria e Malta, seguir os seus passos, quase completando, dessa forma, a minha Peregrinação Jubilar. Nela experimentei a alegria de compartilhar, com afetuosa admiração, alguns aspectos da vida dos nossos caríssimos irmãos católicos orientais e de ver abrirem-se novas perspectivas ecumênicas nas relações com os nossos não menos amados irmãos ortodoxos: com a ajuda de Deus, foram dados passos significativos rumo à almejada meta da plena comunhão.

Também foi significativo o encontro com os muçulmanos. Como durante a tão desejada peregrinação na Terra do Senhor, realizada durante o Grande Jubileu, tive a ocasião de salientar os especiais vínculos da nossa fé com aquela do povo hebraico, assim também foi muito intenso o momento de diálogo com os fiéis do Islã. Com efeito, o Concílio Vaticano II nos ensinou que o anúncio de Cristo, único Salvador, não nos impede, ao contrário, nos sugere pensamentos e gestos de paz em relação aos fiéis pertencentes a outras religiões (cf. Nostra aetate, n. 2).

4. «Sereis minhas testemunhas!». Estas palavras de Jesus aos Apóstolos antes da Ascensão determinam muito bem o sentido da evangelização de sempre, mas de maneira particular soam atuais no nosso tempo. Aquele que vivemos é um tempo no qual superabunda a palavra, multiplicada até o cansaço pelos meios de comunicação social, que têm muito poder sobre a opinião pública, tanto para o bem quanto para o mal. Mas a palavra da qual temos necessidade é aquela rica de sabedoria e de santidade. Por isso, na Carta Novo millennio ineunte escrevi que «o horizonte para o qual deve tender todo o caminho pastoral é a santidade» (n. 30), cultivada na escuta da Palavra de Deus, na oração e na vida eucarística, especialmente por ocasião da celebração semanal do “dies Domini”, o “dia do Senhor”. A mensagem de Cristo só pode penetrar no nosso mundo graças ao testemunho de cristãos verdadeiramente comprometidos a viver o Evangelho de forma radical.

A Igreja enfrenta hoje desafios enormes, que põem à prova a confiança e o entusiasmo dos anunciadores. E não se trata apenas de problemas “quantitativos”, devidos ao fato de que os cristãos representam uma minoria, enquanto o processo de secularização continua a debilitar a tradição cristã inclusive em países de antiga evangelização. Problemas ainda mais graves derivam de uma transformação geral do horizonte cultural, dominado pelo primado das ciências experimentais inspiradas nos critérios da epistemologia científica. Mesmo quando se demonstra sensível à dimensão religiosa e até parece redescobri-la, o mundo moderno aceita no máximo a imagem de Deus criador, enquanto encontra difícil acolher - como aconteceu com os ouvintes de Paulo no areópago de Atenas (cf. At 17,32-34) - o “scandalum crucis (cf. 1Cor 1,23), o “escândalo” de um Deus que, por amor, entra na nossa história e se faz homem, morrendo e ressuscitando por nós. É fácil intuir o desafio que isso comporta para as escolas e as universidades católicas, assim como para os centros de formação filosófica e teológica dos candidatos ao sacerdócio, todos eles lugares nos quais é preciso oferecer uma preparação que esteja à altura do presente momento cultural.

Problemas ulteriores derivam do fenômeno da globalização que, embora ofereça a vantagem de aproximar os povos e as culturas, tornando mais acessíveis a cada um inúmeras mensagens, não facilita, todavia, o discernimento e uma síntese madura, favorecendo uma atitude relativista que torna mais difícil aceitar Cristo como «caminho, verdade e vida» (Jo 14,6) para cada homem.

E o que dizer então daquilo que vai emergindo no âmbito dos questionamentos morais? Mais do que nunca, sobretudo no plano dos grandes temas da bioética, mas também naqueles da justiça social, da instituição familiar e da vida conjugal, a humanidade é interpelada por problemas significativos, que põem em questão o seu próprio destino.

O Consistório refletiu amplamente sobre alguns desses problemas, desenvolvendo análises profundas e propondo soluções meditadas. Diversas questões serão retomadas no próximo Sínodo dos Bispos, que se demonstrou válido e eficaz instrumento da colegialidade episcopal a serviço das Igrejas particulares. Venerados irmãos Cardeais, vos agradeço pelas preciosas contribuições que agora ofereceis: desejo colher delas oportunas indicações de ação, para que a ação pastoral e evangelizadora de toda a Igreja cresça na tensão missionária, com plena consciência dos desafios atuais.

5. Hoje o mistério da Ascensão abre diante de nós o horizonte ideal no qual esse compromisso deve se situar. Antes de tudo, é o horizonte da vitória de Cristo sobre a morte e o pecado. Ele sobe ao céu como Rei de amor e de paz, fonte de salvação para toda a humanidade. Sobe para «comparecer na presença de Deus, em nosso favor» como escutamos na leitura da Carta aos Hebreus (Hb 9,24). É um convite à confiança que nos vem da Palavra de Deus: «É fiel quem fez a promessa» (Hb 10,23).

Também nos dá força o Espírito, que Cristo derramou sem medida. O Espírito é o segredo da Igreja de hoje, como o foi para a Igreja da primeira hora. Estaríamos condenados ao fracasso se não continuasse a ser eficaz em nós a promessa que Jesus fez aos primeiros Apóstolos: «Eu enviarei sobre vós Aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto» (Lc 24,49). O Espírito, Cristo, o Pai: toda a Trindade está comprometida conosco!

Sim, meus caros irmãos e irmãs, não percorreremos sozinhos o caminho que nos espera. Acompanham-nos os sacerdotes, os religiosos e os leigos, jovens e adultos, seriamente comprometidos em dar à Igreja, seguindo o exemplo de Jesus, um rosto de pobreza e de misericórdia especialmente pelos necessitados e marginalizados, um rosto que resplandeça pelo testemunho da comunhão na verdade e no amor. Não estaremos sozinhos, sobretudo porque estará conosco a Trindade Santíssima. Os compromissos que confiei como mandato a toda a Igreja na Carta Novo millennio ineunte, os problemas sobre os quais o Consistório refletiu, não os enfrentaremos apenas com nossas forças humanas, mas com a força que vem “do alto”. É esta a certeza que se alimenta continuamente na contemplação de Cristo elevado ao céu. Contemplando-o, acolhemos de bom grado a exortação da Carta aos Hebreus a que, «sem desânimo, continuemos a afirmar a nossa esperança, porque é fiel quem fez a promessa» (Hb 10,23).

O nosso renovado compromisso se faz cântico de louvor, enquanto com as palavras do Salmo indicamos Cristo ressuscitado e elevado ao céu a todos os povos do mundo: «Povos todos do universo, batei palmas, gritai a Deus aclamações de alegria... Porque Deus é o grande Rei de toda a terra» (Sl 46,2.8).

Portanto, com renovada confiança, “façamo-nos ao largo”, “avancemos para águas mais profundas” em seu Nome!

Ascensão (Sebastiano Ricci)

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

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