domingo, 26 de abril de 2026

Homilia do Papa Bento XVI: IV Domingo da Páscoa (2006)

Há cerca de 20 anos, no dia 07 de maio de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa do IV Domingo da Páscoa (Ano B), o “Domingo do Bom Pastor”, na Basílica de São Pedro, durante a qual conferiu a Ordenação Presbiteral a quinze novos sacerdotes [1].

Na mesma ocasião, com efeito, se celebrou o 43º Dia Mundial de Oração pelas Vocações.

Reproduzimos aqui sua homilia durante a celebração:

43º Dia Mundial de Oração pelas Vocações
Santa Missa com Ordenações Presbiterais
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Domingo, 07 de maio de 2006

Queridos irmãos e irmãs,
Caros ordenandos,
1. Nesta hora na qual vós, caros amigos, mediante o Sacramento da Ordenação sacerdotal, sois introduzidos como pastores a serviço do Pastor supremo, Jesus Cristo, é o próprio Senhor que nos fala no Evangelho do serviço em favor do rebanho de Deus.

A imagem do pastor vem de longe. No Antigo Oriente os reis costumavam designar a si mesmos como pastores dos seus povos. No Antigo Testamento, Moisés e Davi, antes de serem chamados a se tornar chefes e pastores do Povo de Deus, foram efetivamente pastores de rebanhos. Nas dificuldades do período do exílio, diante do fracasso dos pastores de Israel, isto é, dos chefes políticos e religiosos, Ezequiel traçou a imagem do próprio Deus como Pastor do seu povo. Através do profeta, Deus disse: «Como o pastor toma conta do rebanho... assim vou cuidar de minhas ovelhas e vou resgatá-las de todos os lugares em que foram dispersadas em um dia de nuvens e escuridão» (Ez 34,12).

Note-se a imagem do Bom Pastor na mitra

Agora Jesus anuncia que esta hora chegou: Ele mesmo é o Bom Pastor no qual o próprio Deus cuida da sua criatura, o homem, reunindo os seres humanos e conduzindo-os à verdadeira pastagem. São Pedro, a quem o Senhor Ressuscitado tinha dado a missão de apascentar as suas ovelhas, de se tornar pastor com Ele e por Ele, qualifica Jesus como o «archipoimen», o Pastor Supremo (1Pd 5,4), e assim pretende dizer que só é possível ser pastor do rebanho de Jesus Cristo por meio d’Ele e na mais íntima comunhão com Ele. É precisamente isto que se exprime no Sacramento da Ordenação: mediante o Sacramento, o sacerdote é totalmente inserido em Cristo para que, partindo d’Ele e agindo em vista d’Ele, realize em comunhão com Cristo o serviço do único Pastor, Jesus, em quem Deus, como homem, quer ser o nosso Pastor.

2. O Evangelho que ouvimos neste domingo (Jo 10,11-18) é apenas uma parte do grande discurso de Jesus sobre os pastores. Nessa passagem o Senhor nos diz três coisas sobre o verdadeiro pastor: ele dá a própria vida pelas ovelhas; ele as conhece e elas o conhecem; ele está a serviço da unidade. Antes de refletir sobre estas três características essenciais do ser pastor, talvez seja útil recordar brevemente a parte precedente do discurso sobre os pastores, na qual Jesus, antes de designar a si mesmo como Pastor, diz algo que nos surpreende: «Eu sou a porta» (v. 7). É através d’Ele que se deve entrar no serviço de pastor. Jesus põe em evidência muito claramente esta condição fundamental afirmando: «Quem... sobe por outro lugar é ladrão e assaltante» (v. 1).

Essa palavra, «sobe» - «anabainei» em grego -, evoca a imagem de alguém que escala um recinto para alcançar um lugar onde legitimamente não poderia chegar. “Subir”: aqui se pode ver também a imagem do carreirismo, da tentativa de chegar “ao alto”, de buscar uma posição por meio da Igreja: servir-se, não servir. É a imagem do homem que, através do sacerdócio, quer se tornar importante, ser um personagem; a imagem daquele que tem em vista a sua própria exaltação e não o humilde serviço de Jesus Cristo.

Mas a única subida legítima ao ministério do pastor é a cruz. Esta é a autêntica ascese, esta é a verdadeira porta. Não desejar tornar-se pessoalmente alguém, mas, ao contrário, ser para o outro, para Cristo e, assim, através d’Ele e com Ele, ser para os homens que Ele busca, que Ele quer conduzir pelo caminho da vida.

Entra-se no sacerdócio através do Sacramento - e isto significa precisamente: através da entrega de si mesmo a Cristo, para que Ele disponha de mim; para que eu o sirva e siga o seu chamado, mesmo que este não coincida com os meus desejos de autorrealização e estima. Entrar pela porta, que é Cristo, quer dizer conhecê-lo e amá-lo cada vez mais, para que a nossa vontade se una à sua e o nosso agir se torne um só com o seu.

Caros amigos, queremos rezar sempre de novo por essa intenção, queremos nos empenhar precisamente por isso, isto é, para que Cristo cresça em nós, que a nossa união com Ele se torne cada vez mais profunda, de modo que através de nós seja o próprio Cristo a apascentar.

3. Observemos agora mais de perto as três afirmações fundamentais de Jesus sobre o bom pastor. A primeira, que com grande vigor permeia todo o discurso sobre os pastores, diz: o pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O mistério da Cruz está no centro do serviço de Jesus como pastor: é o grande serviço que Ele presta a todos nós. Ele entrega a si mesmo, e não apenas em um passado distante. Na sagrada Eucaristia Ele realiza isso todos os dias, entregando a si mesmo através das nossas mãos, entregando-se a nós. Por isso, justamente, no centro da vida sacerdotal está a sagrada Eucaristia, na qual o sacrifício de Jesus na Cruz permanece contínua e realmente presente no meio de nós.

E a partir disso aprendemos também o que significa celebrar a Eucaristia de maneira adequada: é um encontro com o Senhor que por nós se despoja da sua glória divina, se deixa humilhar até a morte de Cruz e assim se entrega a cada um de nós. É muito importante para o sacerdote a Eucaristia quotidiana, na qual se expõe sempre de novo a este mistério; na qual se coloca sempre de novo nas mãos de Deus, experimentando ao mesmo tempo a alegria de saber que Ele está presente, me acolhe, me levanta e me carrega sempre de novo, me dá a mão, entrega a si mesmo.

A Eucaristia deve se tornar para nós uma escola de vida, na qual aprendemos a entregar a nossa própria vida. A vida não se entrega somente no momento da morte, e não apenas na forma do martírio. Nós devemos entregá-la cada dia. É preciso aprender cada dia que eu não possuo a minha vida para mim mesmo. Devo aprender cada dia a abandonar a mim mesmo; a me colocar à disposição para aquilo que Ele, o Senhor, precisar de mim no momento, mesmo que outras coisas me pareçam mais bonitas e mais importantes. Entregar a vida, não tomá-la. É precisamente assim que fazemos a experiência da liberdade. A liberdade de nós mesmos, a vastidão do ser. É precisamente assim, ao sermos úteis, ao sermos pessoas das quais o mundo tem necessidade, que a nossa vida se torna importante e bela. Somente quem entregar a própria vida a encontrará.


4. Como segunda coisa o Senhor nos diz: «Eu conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai» (Jo 10,14-15). Nesta frase duas relações que parecem totalmente diferentes se encontram entrelaçadas uma com a outra: a relação entre Jesus e o Pai e a relação entre Jesus e os homens que lhe são confiados. Mas as duas relações caminham precisamente juntas, porque os homens, no final das contas, pertencem ao Pai e estão à procura do Criador, de Deus. Quando percebem que alguém fala unicamente em seu próprio nome e só haure de si mesmo, intuem que é demasiado pouco e que ele não pode ser aquilo que estão buscando.

Porém, quando em uma pessoa ressoa outra voz, a voz do Criador, do Pai, se abre a porta da relação que o homem espera. Assim deve ser, portanto, também no nosso caso. Antes de tudo, no nosso íntimo, devemos viver a relação com Cristo e através d’Ele com o Pai; só então podemos compreender verdadeiramente os homens, só à luz de Deus é possível compreender a profundidade do homem. Então quem nos ouve percebe que não falamos de nós mesmos, de algo, mas do verdadeiro Pastor.

Sem dúvida as palavras de Jesus se referem também a toda a tarefa pastoral prática de acompanhar os homens, de ir ao seu encontro, de estar abertos às suas necessidades e às suas interrogações. Sem dúvida é fundamental o conhecimento prático, concreto, das pessoas que me são confiadas e sem dúvida é importante compreender este “conhecer” os outros em sentido bíblico: não existe um verdadeiro conhecimento sem amor, sem uma relação interior, sem uma profunda aceitação do outro.

O pastor não pode se contentar com saber nomes e datas. O seu conhecer as ovelhas deve ser sempre também um conhecer com o coração. Em última análise, porém, isso só pode se realizar se o Senhor abrir o nosso coração; se o nosso conhecimento não vincular as pessoas ao nosso pequeno “eu” particular, ao nosso próprio pequeno coração, mas, ao contrário, as faça sentir o Coração de Jesus, o Coração do Senhor. Deve ser um conhecer com o Coração de Jesus e orientado para Ele, um conhecer que não vincule o homem a mim, mas o guie para Jesus, tornando-o assim livre e aberto. E assim também nós nos tornamos próximos dos homens. Queremos pedir sempre de novo ao Senhor para que nos seja concedido esse modo de conhecer com o Coração de Jesus, de não vincular a mim, mas ao Coração de Jesus e de criar assim uma verdadeira comunidade.

5. Por fim, o Senhor nos fala do serviço da unidade confiado ao pastor: «Tenho outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor» (Jo 10,16). É a mesma coisa que João repete depois da decisão do Sinédrio de matar Jesus, quando Caifás disse que seria melhor se um só morresse pelo povo do que a nação inteira perecesse. João reconhece nestas palavras de Caifás uma palavra profética e acrescenta: «Jesus devia morrer pela nação. E não só pela nação, mas também para reunir os filhos de Deus dispersos» (Jo 11,52).

Revela-se assim a relação entre a Cruz e a unidade; a unidade se paga com a Cruz. Porém, emerge sobretudo o horizonte universal do agir de Jesus. Se Ezequiel na sua profecia sobre o pastor tinha em vista o restabelecimento da unidade entre as tribos dispersas de Israel (cf. Ez 34,22-24), agora não se trata apenas da unificação do Israel disperso, mas da unificação de todos os filhos de Deus, da humanidade, da Igreja dos judeus e dos pagãos. A missão de Jesus diz respeito à humanidade inteira e, portanto, é confiada à Igreja uma responsabilidade por toda a humanidade, para que ela reconheça Deus, aquele Deus que em Jesus Cristo se fez homem, sofreu, morreu e ressuscitou por todos nós.

A Igreja jamais deve se contentar com a multidão daqueles que ela alcançou em certo momento e dizer que os outros estão bem assim: os muçulmanos, os hindus e assim por diante. A Igreja não pode se retirar comodamente nos limites do seu ambiente. Ela tem a responsabilidade da solicitude universal, deve se preocupar por todos e com todos. De modo geral, devemos “traduzir” essa grande tarefa nas nossas respectivas missões. Sem dúvida um sacerdote, um pastor de almas, deve se preocupar antes de tudo por aqueles que creem e vivem com a Igreja, que buscam nela o caminho da vida e que, por sua vez, como pedras vivas, constroem a Igreja e assim edificam e sustentam ao mesmo tempo também o sacerdote.

No entanto, devemos também sempre de novo, como diz o Senhor, sair «pelas estradas e caminhos» (Lc 14,23) para levar o convite de Deus ao seu banquete também àqueles homens que até agora não ouviram falar d’Ele ou ainda não foram tocados interiormente por Ele. Este serviço universal, serviço em prol da unidade, possui muitas formas. Sempre faz parte dele também o compromisso pela unidade interior da Igreja, para que ela, além de todas as diversidades e limites, seja um sinal da presença de Deus no mundo, o único que pode criar tal unidade.

6. A Igreja antiga encontrou na escultura do seu tempo a figura do pastor que carrega uma ovelha sobre os ombros. Talvez estas imagens fizessem parte do sonho idílico da vida campestre que tinha fascinado a sociedade da época. Mas para os cristãos essa figura se tornou com toda a naturalidade a imagem d’Aquele que saiu para buscar a ovelha perdida: a humanidade; a imagem d’Aquele que nos acompanha até mesmo nos nossos desertos e nas nossas confusões; a imagem d’Aquele que tomou sobre os seus ombros a ovelha perdida, que é a humanidade, e a leva para casa. Ela se tornou a imagem do verdadeiro Pastor, Jesus Cristo. Confiemo-nos a Ele. A Ele confiamos vós, caros amigos, especialmente nesta hora, para que Ele vos conduza e vos carregue todos os dias; para que vos ajude a ser, por meio d’Ele e com Ele, bons pastores do seu rebanho. Amém!

Ícone de Cristo, o Bom Pastor

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

Nota:
[1] Esta foi a primeira vez que Bento XVI celebrou as Ordenações Presbiterais no “Domingo do Bom Pastor”, uma vez que em 2005 essas foram transferidas para o Domingo de Pentecostes, no dia 15 de maio, dado que o Papa foi eleito no dia 19 de abril, terça-feira da IV semana da Páscoa.

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