quarta-feira, 1 de abril de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Missa Crismal (2001)

Há cerca de 25 anos, na manhã da Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa Crismal (Missa dos Santos Óleos) na Basílica de São Pedro. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa Crismal
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de São Pedro
Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001

1. «Spiritus Domini super me, eo quod unxerit Dominus me» - «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu» (Is 61,1).

Nestes versículos, tomados do Livro de Isaías, está contido o “fio-condutor” da Missa Crismal. A nossa atenção se concentra sobre a unção, dado que daqui a pouco serão abençoados o Óleo dos Catecúmenos, o Óleo dos Enfermos e o Crisma.

Vivemos esta manhã uma festa particular no sinal do «óleo da alegria» (Sl 44,8). É festa do povo de Deus, que hoje fixa o olhar no mistério da unção, que marca a vida de cada cristão, a partir do dia do Batismo.


É festa, de maneira especial, de todos nós, caríssimos e venerados irmãos no Sacerdócio, ordenados presbíteros para o serviço do povo cristão. Agradeço-vos cordialmente pela vossa numerosa presença em torno do altar da Confissão de São Pedro. Vós representais o presbitério romano e, em certo sentido, o presbitério do mundo.

Celebramos a Missa Crismal às portas do Tríduo Pascal, centro e ápice do Ano Litúrgico. Este sugestivo rito toma a sua luz, por assim dizer, do Cenáculo, isto é, do mistério de Cristo Sacerdote, que na Última Ceia se consagra a si mesmo, antecipando o sacrifício cruento do Gólgota. É da Mesa eucarística que desce a sagrada unção. O Espírito divino difunde o seu místico perfume em toda a casa (cf. Jo 12,3), isto é, na Igreja, e torna especialmente os sacerdotes participantes da mesma consagração de Jesus (cf. Coleta).

2. «Misericordias Domini in aeternum cantabo» - «Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor» (Refrão do Salmo responsorial; cf. Sl 88,2a).
Renovados interiormente pela experiência jubilar há pouco concluída, entramos no terceiro milênio levando no coração e nos lábios as palavras do Salmo: «Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor». Todo batizado é chamado a louvar e testemunhar o amor misericordioso de Deus com a santidade da vida, e assim também toda comunidade cristã. O Apóstolo Paulo escreve: «Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação» (1Ts 4,3). E o Concílio Vaticano II esclarece: «Todos os fiéis, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade» (Constituição Dogmática Lumen gentium, n. 40).

Essa verdade fundamental, que deve ser traduzida em prioridade pastoral, diz respeito antes de tudo a nós, Bispos, e a vós, caríssimos sacerdotes. Antes de interpelar o nosso “agir”, interpela o nosso “ser”. «Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo» (Lv 19,2); mas poderíamos acrescentar: sede santos, para que o povo que Deus vos confiou seja santo. A santidade do rebanho certamente não deriva da santidade do Pastor, mas sem dúvida é favorecida, incentivada e alimentada por ela.

Na Carta que envio todos os anos aos sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa escrevi: este «dia especial da nossa vocação nos chama a refletir sobretudo sobre o nosso “ser”, e particularmente sobre o nosso caminho de santidade. É daí que brota também o dinamismo apostólico» (n. 6).

Quis ressaltar o fato de que a vocação sacerdotal é «mistério de misericórdia» (n. 7). Como Pedro e Paulo, sabemos que somos indignos de um dom tão grande. Por isso, diante de Deus não deixamos de sentir admiração e reconhecimento pela gratuidade com que Ele nos escolheu, pela confiança que tem em nós, pelo perdão que nunca nos recusa (cf. n. 6).

3. Caríssimos irmãos, com esse espírito daqui a pouco renovaremos as promessas sacerdotais. É um rito que adquire plenitude de valor e de significado precisamente como expressão do caminho de santidade ao qual o Senhor nos chamou pela via do sacerdócio. É um caminho que cada um percorre de maneira muito pessoal, conhecida apenas por Deus, que perscruta e conhece os corações. Contudo, na Liturgia de hoje a Igreja nos oferece a confortadora oportunidade de nos unirmos, de nos apoiarmos uns aos outros no momento em que repetimos a uma só voz: «Sim, quero».

Esta solidariedade fraterna não pode deixar de se tornar empenho concreto a carregar os fardos uns dos outros, nas circunstâncias ordinárias da vida e do ministério. Com efeito, se é verdade que ninguém pode se tornar santo no lugar do outro, é igualmente verdade que todos podem e devem se tornar santos com e para os outros, segundo o modelo de Cristo.

A santidade pessoal não se alimenta, porventura, daquela espiritualidade de comunhão que deve sempre preceder e acompanhar as iniciativas concretas de caridade? (cf. Carta Apostólica Novo millennio ineunte, n. 43). Para educar os fiéis a essa espiritualidade de comunhão é pedido a nós Pastores que demos um testemunho coerente dela. Nesse sentido, a Missa Crismal assume uma extraordinária eloquência. Com efeito, entre as celebrações do Ano Litúrgico, esta manifesta em maior medida o vínculo de comunhão existente entre o Bispo e os presbíteros e dos presbíteros entre si: é um sinal que o povo cristão espera e aprecia com fé e afeto.

4. «Vos autem sacerdotes Domini vocabimini, ministri Dei nostri dicetur vobis» - «Vós sois os sacerdotes do Senhor, chamados ministros de nosso Deus» (Is 61,6a).
Assim o profeta Isaías se dirige aos israelitas, profetizando os tempos messiânicos, nos quais todos os membros do povo de Deus receberiam a dignidade sacerdotal, profética e régia por obra do Espírito Santo. Tudo isso se realizou em Cristo com a nova Aliança. Jesus transmite aos seus discípulos a unção recebida do Pai, isto é, o “batismo no Espírito Santo” que o constitui Messias e Senhor. Comunica-lhes o mesmo Espírito; o seu mistério de salvação estende assim a sua eficácia até os confins da terra.

Hoje, caríssimos irmãos no Sacerdócio, recordamos com gratidão a unção sacramental que recebemos, e, ao mesmo tempo, renovamos o empenho de difundir sempre e em toda a parte o bom odor de Cristo (cf. Oração após a Comunhão).

Ajude-nos a Mãe de Cristo, Mãe dos sacerdotes, à qual a Ladainha se dirige com o título de “Vas spirituale” - “Vaso espiritual”. Maria obtenha para nós, frágeis vasos de barro, que sejamos repletos da unção divina. Ela nos ajude a nunca esquecer que o Espírito do Senhor nos enviou “para anunciar a boa-nova aos povos”. Dóceis ao Espírito de Cristo, seremos ministros fiéis do seu Evangelho. Sempre. Amém!

Ânforas dos Santos Óleos
(Com o brasão do Papa João Paulo II)

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

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