Quase concluindo as reflexões sobre a Páscoa de Jesus dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, confira as duas meditações do Papa Leão XIV ligadas ao Sábado Santo: o sepulcro (Jo 19,38-42) e a descida (1Pd 3,18-19).
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.7. A Páscoa de Jesus: O sepulcro (Jo 19,38-42)
Queridos irmãos e irmãs,
No nosso caminho de Catequeses sobre Jesus, nossa esperança,
contemplemos hoje o mistério do Sábado Santo. O Filho de Deus jaz no sepulcro.
Mas esta sua “ausência” não é um vazio: é espera, plenitude contida, promessa guardada
na escuridão. É o dia do grande silêncio, no qual o céu parece mudo e a terra
imóvel, mas é precisamente ali que se realiza o mistério mais profundo da fé
cristã. É um silêncio “grávido” de sentido, como o ventre de uma mãe que guarda
o filho que ainda não nasceu, mas já está vivo.
O corpo de Jesus, descido da cruz, é cuidadosamente envolvido
em faixas, como se faz com o que é precioso. O evangelista João nos diz que foi
sepultado em um jardim, dentro de «um túmulo novo, onde ninguém ainda
tinha sido sepultado» (Jo 19,41). Nada é deixado ao acaso.
Aquele jardim remete ao Éden perdido, o lugar onde Deus e o homem estavam
unidos. E aquele sepulcro nunca usado fala de algo que ainda deve acontecer: é
um limiar, não um fim. No início da criação, Deus plantou um jardim; agora
também a nova criação tem início em um jardim: com um túmulo fechado que logo
se abrirá!
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| Sepultamento de Jesus (Alessandro Tiarini) |
O Sábado Santo é também um dia de repouso. Segundo a Lei
judaica, no sétimo dia não se deve trabalhar: com efeito, após seis dias de
criação, Deus descansou (cf. Gn 2,2). Agora também o
Filho, depois de ter completado a sua obra de salvação, descansa. Não porque
está cansado, mas porque terminou o seu trabalho. Não porque se rendeu, mas
porque amou até o fim. Não há mais nada a acrescentar. Esse descanso é o selo
da obra realizada, é a confirmação de que aquilo que devia ser feito foi
verdadeiramente concluído. É um descanso repleto da presença oculta do Senhor.
Temos dificuldade de parar e descansar. Vivemos como se a
vida nunca fosse suficiente. Corremos para produzir, para demonstrar, para não
perder terreno. Mas o Evangelho nos ensina que saber parar é um gesto de
confiança que devemos aprender a realizar. O Sábado Santo nos convida a
descobrir que a vida nem sempre depende daquilo que fazemos, mas também de como
sabemos nos desapegar daquilo que pudemos fazer.
No sepulcro, Jesus, a Palavra viva do Pai, se cala. Mas é precisamente
naquele silêncio que a vida nova começa a fermentar. Como uma semente na terra,
como a escuridão antes da aurora. Deus não tem medo do tempo que passa, porque
também é Senhor da espera. Assim, mesmo o nosso tempo “inútil”, o tempo das
pausas, dos vazios, dos momentos estéreis, pode se tornar ventre de
ressurreição. Cada silêncio acolhido pode ser a premissa de uma Palavra nova.
Cada tempo suspenso pode se tornar tempo de graça, se o oferecermos a Deus.
Jesus, sepultado na terra, é o rosto manso de um Deus que
não ocupa todo o espaço. É o Deus que deixa fazer, que espera, que se retira
para nos deixar a liberdade. É o Deus que confia, mesmo quando tudo parece
acabado. E nós, naquele sábado suspenso, aprendemos que não devemos ter pressa de
ressurgir: primeiro é preciso permanecer, acolher o silêncio, nos deixarmos
abraçar pelo limite. Às vezes buscamos respostas rápidas, soluções imediatas.
Mas Deus trabalha nas profundezas, no tempo lento da confiança. O sábado da
sepultura se torna assim o ventre do qual pode brotar a força de uma luz
invencível, a luz da Páscoa!
Caros amigos, a esperança cristã não nasce no barulho, mas
no silêncio de uma espera habitada pelo amor. Não é filha da euforia, mas do
abandono confiante. É a Virgem Maria quem nos ensina: ela encarna essa espera,
essa confiança, essa esperança. Quando parece que tudo está parado, que a vida
é um caminho interrompido, lembremos do Sábado Santo. Até no sepulcro Deus está
preparando a maior surpresa. E se soubermos acolher com gratidão o que
aconteceu, descobriremos que, precisamente na pequenez e no silêncio, Deus ama
transfigurar a realidade, fazendo novas todas as coisas com a fidelidade do seu
amor. A verdadeira alegria nasce da espera habitada, da fé paciente, da
esperança de que aquilo que é vivido no amor certamente renascerá para a vida
eterna.
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 24 de setembro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.8. A Páscoa de Jesus: A descida (1Pd 3,18-19)
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Também hoje meditamos sobre o mistério do Sábado Santo. É o
dia do Mistério Pascal, no qual tudo parece imóvel e silencioso, enquanto na
realidade se cumpre uma ação invisível de salvação: Cristo desce à “mansão dos
mortos” para levar a mensagem da Ressurreição a todos aqueles que estavam nas
trevas e na sombra da morte.
Este acontecimento, que a Liturgia e a tradição nos
transmitiram, representa o gesto mais profundo e radical do amor de Deus pela
humanidade. Com efeito, não basta dizer ou acreditar que Jesus morreu por nós:
é preciso reconhecer que a fidelidade do seu amor quis nos procurar lá onde nós
mesmos tínhamos nos perdido, lá onde só pode chegar a força de uma luz capaz de
atravessar o domínio das trevas.
A “mansão dos mortos”, na concepção bíblica, não é tanto um
lugar, mas uma condição existencial: aquela condição na qual a vida é
debilitada e reinam a dor, a solidão, a culpa e a separação de Deus e dos
outros. Cristo nos alcança também neste abismo, atravessando as portas deste
reino de trevas. Entra, por assim dizer, na própria casa da morte, para esvaziá-la,
para libertar os seus habitantes, tomando-os pela mão, um por um. É a humildade
de um Deus que não se detém diante do nosso pecado, que não se assusta perante
a extrema rejeição do ser humano.
Na breve passagem que ouvimos da sua Primeira Carta,
o Apóstolo Pedro nos diz que Jesus, vivificado no Espírito Santo, foi levar o
anúncio de salvação «também aos espíritos na prisão» (1Pd 3,19). É
uma das imagens mais comovedoras, que não é aprofundada nos Evangelhos canônicos,
mas em um texto apócrifo chamado Evangelho de Nicodemos. Segundo essa
tradição, o Filho de Deus adentrou nas trevas mais densas para alcançar até o
último dos seus irmãos e irmãs, para levar a sua luz até lá em baixo. Nesse
gesto estão toda a força e a ternura do anúncio pascal: a morte nunca tem a
última palavra!
Caríssimos, essa descida de Cristo não diz respeito apenas
ao passado, mas toca a vida de cada um de nós. A “mansão dos mortos” não é
apenas a condição de quem morreu, mas também daqueles que vivem a morte por
causa do mal e do pecado. É também o “inferno” diário da solidão, da vergonha,
do abandono, do cansaço de viver. Cristo entra em todas essas realidades escuras
para nos testemunhar o amor do Pai. Não para julgar, mas para libertar. Não
para culpar, mas para salvar. E o faz sem clamor, na ponta dos pés, como quem
entra em um quarto de hospital para oferecer conforto e ajuda.
Em páginas de extraordinária beleza, os Padres da Igreja
descreveram esse momento como um encontro entre Cristo e Adão. Um encontro que
é símbolo de todos os encontros possíveis entre Deus e o homem. O Senhor desce lá
onde o homem se escondeu por medo e o chama pelo nome, o toma pela mão, o levanta
e o leva de novo para a luz. E o faz com plena autoridade, mas também com
infinita docilidade, como um pai com o filho que tem receio de não ser mais
amado.
Nos ícones orientais da Ressurreição, Cristo é representado
enquanto arromba as portas da “mansão dos mortos” e, estendendo os braços,
agarra os pulsos de Adão e Eva. Não salva apenas a si mesmo, não volta à vida
sozinho, mas porta consigo toda a humanidade. Esta é a verdadeira glória do
Ressuscitado: é poder de amor, é solidariedade de um Deus que não quer
salvar-se sem nós, mas somente conosco. Um Deus que não ressuscita senão
abraçando as nossas misérias e levantando-nos para uma vida nova.
O Sábado Santo, portanto, é o dia em que o céu visita a
terra mais profundamente. É o tempo em que cada ângulo da história humana é
tocado pela luz da Páscoa. E se Cristo pôde descer até lá, nada pode ser
excluído da sua redenção. Nem as nossas noites, nem as nossas culpas mais
antigas, nem os nossos laços rompidos. Não há passado tão arruinado, não há
história tão comprometida que não possa ser tocada pela misericórdia!
Amados irmãos e irmãs, para Deus descer não é uma derrota,
mas o cumprimento do seu amor. Não é um fracasso, mas o caminho através do qual
Ele mostra que nenhum lugar é demasiado distante, nenhum coração é demasiado
fechado, nenhum sepulcro é demasiado selado para o seu amor. Isso nos consola,
isso nos sustenta. E se às vezes nos parece que tocamos o fundo, lembremos:
este é o lugar a partir do qual Deus é capaz de começar uma nova criação. Uma
criação feita de pessoas reerguidas, de corações perdoados, de lágrimas
enxugadas. O Sábado Santo é o abraço silencioso com o qual Cristo apresenta
toda a criação ao Pai para reinseri-la no seu desígnio de salvação.
| Descida de Cristo à “mansão dos mortos” (Igreja do Salvador em Chora, Turquia) |
Fonte: Santa Sé (17 de setembro e 24 de setembro de 2025).
Para saber mais, confira nossas postagens sobre a história do Sábado Santo e sobre o ícone da Ressurreição do Senhor.
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