Há cerca de 20 anos, na manhã da Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou a Missa Crismal (Missa dos Santos Óleos) na Basílica de São Pedro. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:
Santa Missa Crismal
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2006
Caros irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs,
1. A Quinta-feira
Santa é o dia no qual o Senhor confiou aos Doze a tarefa sacerdotal de
celebrar, no pão e no vinho, o Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue até a
sua volta. O cordeiro pascal e todos os sacrifícios da Antiga Aliança são
substituídos pelo dom do seu Corpo e do seu Sangue, pelo dom de si mesmo.
Assim, o novo culto se fundamenta no fato de que, antes de tudo, Deus nos concede
um dom e nós, repletos deste dom, nos tornamos seus: a criação regressa ao
Criador. Assim, também o sacerdócio se tornou uma coisa nova: não é mais
questão de descendência, mas um encontrar-se no mistério de Jesus Cristo.
Ele é sempre Aquele que doa e nos eleva, nos atrai a si. Somente Ele pode dizer: «Isto é o meu Corpo - Isto é o meu Sangue». O mistério do sacerdócio da Igreja se encontra no fato de que nós, pobres seres humanos, em virtude do Sacramento podemos falar com o seu Eu: in persona Christi. Ele quer exercer o seu sacerdócio através de nós. Este mistério comovedor, que em cada celebração do Sacramento nos toca novamente, nós o recordamos de maneira particular na Quinta-feira Santa. Para que a vida quotidiana não desperdice o que é grande e misterioso, temos necessidade dessa lembrança específica, precisamos retornar àquela hora em que Ele impôs as suas mãos sobre nós e nos tornou participantes desse mistério.
2. Reflitamos
novamente, portanto, sobre os sinais pelos quais o Sacramento nos foi
concedido. No centro se encontra o antiquíssimo gesto da imposição das mãos,
com o qual Ele tomou posse de mim, dizendo-me: “Tu me pertences”. Mas com isso também
disse: “Tu estás sob a proteção das minhas mãos. Tu estás sob a proteção do meu
coração. Tu estás conservado na palma da minha mão e é precisamente assim que
te encontras na vastidão do meu amor. Permanece no espaço das minhas mãos e dá-me
as tuas”.
3. Recordemos, além
disso, que as nossas mãos foram ungidas com o óleo, que é o sinal do Espírito
Santo e da sua força. Por que precisamente as mãos? A mão do homem é o
instrumento do seu agir, é o símbolo da sua capacidade de enfrentar o mundo, precisamente
de “tomá-lo pela mão”. O Senhor impôs as suas mãos sobre nós e agora quer as
nossas mãos para que, no mundo, se tornem as suas. Quer que elas não sejam mais
instrumentos para tomar as coisas, os homens e o mundo para nós, para reduzi-lo
à nossa posse, mas que, ao contrário, transmitam o seu toque divino,
colocando-se a serviço do seu amor. Quer que elas sejam instrumentos do serviço
e, portanto, expressão da missão de toda a pessoa que se faz garante d’Ele e o leva
aos homens.
Se as mãos do
homem representam simbolicamente as suas faculdades e, em geral, a técnica como
poder de dispor do mundo, então as mãos ungidas devem ser um sinal da sua
capacidade de doar, da criatividade ao plasmar o mundo com o amor - e para
isso, sem dúvida, temos necessidade do Espírito Santo. No Antigo Testamento a
unção é sinal da admissão em um serviço: o rei, o profeta, o sacerdote faz e doa
mais do que aquilo que deriva da sua pessoa. De certo modo é despojado de si mesmo
em função de um serviço, no qual se põe à disposição de alguém maior que ele.
Se hoje Jesus se
apresenta no Evangelho como o Ungido de Deus, o Cristo, então isso quer dizer
precisamente que Ele age por missão do Pai e na unidade com o Espírito Santo e
que, dessa forma, doa ao mundo uma nova realeza, um novo sacerdócio, um novo
modo de ser profeta, que não busca a si mesmo, mas vive para Aquele em vista de
quem o mundo foi criado. Coloquemos as nossas mãos hoje novamente à sua
disposição e peçamos-lhe que nos tome sempre de novo pela mão e nos guie.
4. No gesto sacramental da imposição das mãos por parte do Bispo foi o próprio Senhor que impôs as mãos sobre nós. Este sinal sacramental resume todo um percurso existencial. Uma vez, como aconteceu com os primeiros discípulos, encontramos o Senhor e ouvimos a sua palavra: «Segue-me!». Talvez inicialmente o seguimos de maneira um pouco insegura, olhando para trás e perguntando-nos se esse era realmente o nosso caminho. E talvez em algum ponto do caminho fizemos a experiência de Pedro depois da pesca milagrosa, isto é, nos assustamos diante da sua grandeza, diante da grandeza da missão e da insuficiência da nossa pobre pessoa, a ponto de desejarmos voltar atrás: «Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!» (Lc 5,8).
Mas em seguida, com grande bondade, Ele nos tomou pela mão, nos atraiu a si e nos disse: “Não tenhas medo! Eu estou contigo. Não te abandono. Tu também não me abandones!”. E talvez, em mais de uma ocasião, a cada um de nós aconteceu a mesma coisa que passou com Pedro quando, caminhando sobre as águas ao encontro do Senhor, repentinamente sentiu que a água não o sustentava e que estava prestes a afundar. E, como Pedro, também nós gritamos: «Senhor, salva-me!» (Mt 14,30). Vendo toda a violência dos elementos, como poderíamos passar pelas águas ruidosas e espumosas do século passado e do último milênio? Mas então olhamos para Ele... e Ele nos tomou pela mão e nos deu um novo “peso específico”: a ligeireza que deriva da fé e que nos atrai para o alto. E depois estende-nos a mão que apoia e orienta. Ele nos sustenta. Fixemos sempre de novo o nosso olhar n’Ele e estendamos-lhe as mãos. Deixemos que a sua mão nos sustente, e assim não afundaremos, mas serviremos a vida que é mais forte do que a morte, e o amor, que é mais forte do que o ódio.
A fé em Jesus,
Filho do Deus vivo, é o meio através do qual sempre de novo tomamos a mão de
Jesus e pelo qual Ele toma as nossas mãos e nos guia. Uma das minhas orações
preferidas é a súplica que a Liturgia coloca nos nossos lábios antes da
Comunhão: «Dai-me... jamais separar-me de vós». Peçamos para que jamais nos
afastemos da comunhão com o seu Corpo, com o próprio Cristo, que jamais nos
afastemos do mistério eucarístico. Peçamos que Ele jamais solte a nossa mão...
5. O Senhor impôs suas mãos sobre nós. E expressou o significado desse gesto com as seguintes palavras: «Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai» (Jo 15,15). “Já não vos chamo servos, mas amigos”: nestas palavras poderíamos chegar a ver a instituição do sacerdócio. O Senhor nos torna seus amigos: confia-nos tudo; confia-nos a si mesmo, de modo que possamos falar com o seu Eu - in persona Christi capitis. Que confiança! Ele verdadeiramente se colocou nas nossas mãos.
Todos os sinais
essenciais da Ordenação Sacerdotal são, no fundo, manifestações dessa palavra:
a imposição das mãos; a entrega do livro - da sua Palavra, que Ele nos confia;
a entrega do cálice, com o qual nos transmite o seu mistério mais profundo e
pessoal. De tudo isso faz parte também o poder de absolver: Ele nos faz
participar até mesmo da sua consciência em relação à miséria do pecado e a toda
a escuridão do mundo, e põe nas nossas mãos a chave para abrir novamente a
porta para a casa do Pai.
“Já não vos chamo servos, mas amigos”. Este é o significado profundo do ser sacerdote: tornar-se amigo de Jesus Cristo. Por essa amizade devemos nos comprometer cada dia de novo. Amizade significa comunhão no pensar e no querer. Devemos nos exercitar nessa comunhão de pensamento com Jesus, nos diz São Paulo na Carta aos Filipenses (cf. Fl 2,2-5). E essa comunhão de pensamento não é algo apenas intelectual, mas é comunhão dos sentimentos e do querer e, portanto, também do agir. Isso significa que devemos conhecer Jesus de modo cada vez mais pessoal, ouvindo-o, vivendo junto com Ele, permanecendo com Ele. Ouvi-lo na lectio divina, isto é, lendo a Sagrada Escritura de uma forma não acadêmica, mas espiritual; assim aprendemos a encontrar o Jesus presente que nos fala. Devemos raciocinar e refletir sobre as suas palavras e sobre o seu agir diante d’Ele e com Ele. A leitura da Sagrada Escritura é oração, deve ser oração - deve brotar da oração e conduzir à oração.
Os evangelistas nos
dizem que o Senhor várias vezes se retirava por noites inteiras “no monte” para
rezar sozinho. Também nós temos necessidade desse “monte”: é a altura interior
que devemos escalar, o monte da oração. Só assim se desenvolve a amizade. Só assim
podemos realizar o nosso serviço sacerdotal, só assim podemos levar Cristo e o
seu Evangelho aos homens.
O simples
ativismo pode chegar a ser heroico. Mas o agir exterior, no fim das contas,
permanece sem frutos e perde eficácia se não nasce da profunda e íntima
comunhão com Cristo. O tempo que dedicamos a isso é verdadeiramente um tempo de
atividade pastoral, de um serviço autenticamente pastoral. O sacerdote deve ser
sobretudo um homem de oração. O mundo, no seu ativismo frenético, muitas vezes perde
a orientação. A sua ação e as suas capacidades se tornam destrutivas se falta a
força da oração, da qual brotam as águas da vida, capazes de fecundar a terra
árida.
6. “Já não vos chamo servos, mas amigos”. O núcleo do sacerdócio é sermos amigos de Jesus Cristo. Só assim podemos falar verdadeiramente in persona Christi, embora a nossa distância interior de Cristo não possa comprometer a validade do Sacramento. Ser amigo de Jesus, ser sacerdote, significa ser homem de oração. Assim o reconhecemos e saímos da ignorância dos simples servos. Assim aprendemos a viver, a sofrer e a agir com Ele e por Ele.
A amizade com
Jesus é, por antonomásia, sempre amizade com os seus. Só podemos ser amigos de
Jesus na comunhão com o Cristo inteiro, com a cabeça e o corpo; na frondosa videira
da Igreja, animada pelo seu Senhor. Somente nela a Sagrada Escritura é, graças
ao Senhor, Palavra viva e atual. Sem o sujeito vivo da Igreja que abraça todas
as épocas, a Bíblia se fragmenta em escritos muitas vezes heterogêneos e, assim,
se torna um livro do passado. Ela só é eloquente no presente lá onde está a “Presença”
- lá onde Cristo continua sendo nosso contemporâneo: no corpo da sua Igreja.
7. Ser sacerdote
significa se tornar amigo de Jesus Cristo, e isso sempre mais com toda a nossa
existência. O mundo tem necessidade de Deus - não de um deus qualquer, mas do
Deus de Jesus Cristo, do Deus que se fez carne e sangue, que nos amou a ponto
de morrer por nós, que ressuscitou e criou em si mesmo um espaço para o homem.
Este Deus deve viver em nós, e nós n’Ele. Esta é a nossa vocação sacerdotal:
somente assim o nosso agir de sacerdotes pode dar frutos.
Gostaria de
concluir esta homilia com uma palavra de Andrea Santoro, sacerdote da Diocese
de Roma que foi assassinado em Trebizonda (Turquia) enquanto rezava; o Cardeal
Cè transmitiu-a a nós durante os Exercícios Espirituais. A palavra diz: «Estou aqui
para habitar no meio deste povo e permitir que Jesus o faça, emprestando-lhe a
minha carne... Só nos tornamos capazes de salvação oferecendo a nossa própria carne.
Devemos suportar o mal do mundo e compartilhar a sofrimento, absorvendo-os na própria
carne até o fim, como fez Jesus».
Jesus assumiu a nossa carne. Entreguemos-lhe a nossa para que, deste modo, Ele possa vir ao mundo e transformá-lo. Amém!
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).


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