segunda-feira, 6 de abril de 2026

Catequese do Papa Bento XVI: Páscoa (2006)

Há cerca de 20 anos, no dia 19 de abril de 2006, Quarta-feira da Oitava da Páscoa, exatamente um anos após sua eleição como Bispo de Roma, o Papa Bento XVI (†2022) proferiu uma Catequese sobre a Páscoa que repropomos a seguir:

Papa Bento XVI
Audiência Geral
Quarta-feira, 19 de abril de 2006
A Páscoa

Queridos irmãos e irmãs,
1. O evangelista João narra que Jesus, precisamente depois da sua Ressurreição, chamou Pedro a cuidar do seu rebanho (cf. Jo 21,15-23). Quem poderia imaginar então o desenvolvimento que alcançaria ao longo dos séculos aquele pequeno grupo de discípulos do Senhor? Pedro, juntamente com os outros Apóstolos e depois os seus sucessores, primeiro em Jerusalém e, em seguida, até os últimos confins da terra, difundiram com coragem a mensagem evangélica cujo núcleo fundamental e imprescindível é constituído pelo Mistério Pascal: a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo.

A Igreja celebra esse mistério na Páscoa, prolongando seu eco jubiloso nos dias seguintes; canta o aleluia pelo triunfo de Cristo sobre o mal e sobre a morte.


«A celebração da Páscoa segundo uma data do calendário - observa o Papa São Leão Magno - nos recorda a festa eterna que supera todo tempo humano». «A Páscoa atual - observa ainda - é a sombra da Páscoa futura. É por isso que a celebramos para passar de uma festa anual a uma festa que será eterna».

A alegria desses dias se estende a todo o Ano Litúrgico e se renova particularmente no domingo, dia dedicado à recordação da Ressurreição do Senhor. Nele, que é como a “pequena Páscoa” de cada semana, a assembleia litúrgica reunida para a Santa Missa proclama no Creio que Jesus ressuscitou ao terceiro dia, acrescentando que nós esperamos «a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Indica-se assim que o acontecimento da Morte e Ressurreição de Jesus constitui o centro da nossa fé e é sobre este anúncio que se fundamenta e cresce a Igreja.

Santo Agostinho recorda de modo incisivo: «Consideremos, caríssimos, a Ressurreição de Cristo: com efeito, como a sua Paixão significou a nossa vida antiga, assim a sua Ressurreição é sacramento de vida nova... Acreditaste, foste batizado: a vida antiga morreu, assassinada na cruz, sepultada no Batismo. Foi sepultada a vida antiga na qual viveste: ressurja a vida nova. Vive bem: vive de modo que tu vivas, para que quando morreres, não morras» (Sermo Guelferbytanus 9, 3).

2. Os relatos evangélicos que narram as aparições do Ressuscitado concluem geralmente com o convite a superar toda incerteza, a confrontar o acontecimento com as Escrituras, a anunciar que Jesus, além da morte, é o eterno vivente, fonte de vida nova para todos aqueles que creem. Assim acontece, por exemplo, no caso de Maria Madalena (cf. Jo 20,11-18), que descobre o sepulcro aberto e vazio, e imediatamente teme que o corpo do Senhor tenha sido roubado. Então o Senhor a chama pelo nome, e naquele momento acontece nela uma profunda mudança:  o desconforto e a desorientação se convertem em alegria e entusiasmo. Com solicitude ela vai ao encontro dos Apóstolos e anuncia: «Eu vi o Senhor!» (Jo 20,18).

Com efeito, quem encontra Jesus Ressuscitado é transformado interiormente; não se pode “ver o Ressuscitado sem “crer” n’Ele. Rezemos para que Ele chame cada um de nós pelo nome e assim nos converta, abrindo-nos à “visão” da fé.

A fé nasce do encontro pessoal com Cristo Ressuscitado, e se torna impulso de coragem e de liberdade que faz gritar ao mundo: Jesus ressuscitou e vive para sempre. É esta a missão dos discípulos do Senhor de todas as épocas e também deste nosso tempo. São Paulo exorta: «Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto... aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres» (Cl 3,1-2). Isso não significa desinteressar-se dos compromissos quotidianos, afastar-se das realidades terrenas; significa ao contrário recomeçar toda atividade humana como um respiro sobrenatural, significa tornar-se jubilosos anunciadores e testemunhas da Ressurreição de Cristo, vivo eternamente (cf. Jo 20,25; Lc 24,33-34).

3. Queridos irmãos e irmãs, na Páscoa do seu Filho Unigênito Deus revela plenamente a si mesmo, a sua força vitoriosa sobre as forças da morte, a força do Amor trinitário.

A Virgem Maria, que foi intimamente associada à Paixão, Morte e Ressurreição do Filho e aos pés da Cruz se tornou Mãe de todos os que creem, nos ajude a compreender este mistério de amor que transforma os corações e nos faça desfrutar plenamente da alegria pascal, para poder depois, por nossa vez, comunicá-la aos homens e às mulheres do terceiro milênio.

O encontro do Ressuscitado com Madalena
(Raúl Berzosa)

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

Observação: Antes da meditação sobre a Páscoa o Papa recordou o primeiro ano da sua eleição como Bispo de Roma e agradeceu os fiéis por suas orações.

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