sexta-feira, 3 de abril de 2026

Discurso do Papa João Paulo II: Via Sacra no Coliseu (2001)

Há 25 anos, na noite da Sexta-feira Santa, 13 de abril de 2001, após a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro, o Papa São João Paulo II (†2005) presidiu a tradicional oração da Via Sacra junto ao Coliseu romano.

As meditações da Via Sacra foram tomadas dos escritos do Cardeal John Henry Newman (†1890) nos 200 anos do seu nascimento [1].

Reproduzimos aqui as palavras improvisadas pelo Papa no final da oração e o discurso que havia sido preparado para a ocasião:

Via Sacra no Coliseu
Discurso do Papa João Paulo II
Sexta-feira Santa, 13 de abril de 2001

Palavras improvisadas:

Ecce lignum crucis, in quo salus mundi pependit! Venite adoremus! [Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo! Vinde, adoremos!]

Hoje, pela primeira vez neste terceiro milênio, se proclamou esta palavra na Basílica de São Pedro. Neste mesmo dia, Sexta-feira Santa, a mesma verdade desconcertante foi proclamada em todos os continentes, em todos os países do mundo: Ecce lignum crucis!


A Igreja de Cristo confessa esta realidade divina e humana: Crux, ave Crux! Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum. [Cruz, salve, ó Cruz! Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa santa Cruz redimistes o mundo]

A Igreja confessou isso durante dois mil anos, os dois milênios passados. Hoje, pela primeira vez, o confessamos em todo o mundo e aqui, em Roma com esta Via Sacra junto ao Coliseu. Queremos transmitir, levar adiante esta verdade divina e humana no terceiro milênio. Queremos professar que, pela sua Cruz, o Filho de Deus, aceitando esta humilhação - uma condenação destinada aos escravos - abriu à humanidade o caminho para a glorificação. Por isso nós, hoje, rezamos ajoelhado, em adoração.

Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.

Que esta verdade, proclamada hoje na Basílica de São Pedro e aqui junto ao Coliseu romano, seja para nós a luz e a força deste tempo que inauguramos há alguns meses.

Ave Crux! Ave Crux do Coliseu romano!
Ave, no limiar do terceiro milênio!
Ave através de todos os anos e séculos deste novo tempo que se abre diante de nós!
Louvado seja Jesus Cristo!

Discurso preparado:

1. «Cristo fez-se obediente até a morte, e morte de cruz» (Fl 2,8).
Acabamos de rezar a Via Sacra que, como todos os anos, nos reúne na noite da Sexta-feira Santa neste lugar evocativo de profundas recordações cristãs. Percorremos os passos do Inocente injustamente condenado, tendo o olhar fixo no seu rosto adorável: rosto ofendido pela maldade humana, mas iluminado pelo amor e pelo perdão.

É verdadeiramente desconcertante o caso dramático de Jesus de Nazaré! Para devolver a plenitude de vida ao homem, o Filho de Deus aniquilou-se da forma mais humilhante. Mas daquela morte, escolhida livremente por Ele, brotou a vida. Diz a Escritura: Oblatus est quia ipse voluit [2]. Ele nos dá assim um testemunho extraordinário de amor, fruto de uma obediência sem igual, que vai até o extremo dom de si.

2. «Obediente até à morte, e morte de cruz».
Como desviar o olhar de Jesus, que morre na Cruz? Seu rosto maltratado suscita repulsa. Afirma o Profeta: «Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele» (Is 53,2-3).

Naquele rosto se condensam as sombras de todos os sofrimentos, as injustiças, as violências sofridas pelos seres humanos de todas as épocas da história. Mas agora, diante da Cruz, as nossas penas de cada dia, e até mesmo a morte, aparecem revestidas da majestade de Cristo abandonado e agonizante.

O rosto ensanguentado e crucificado do Messias revela que, por amor, Deus se deixou envolver nas vicissitudes atormentadas da humanidade. A nossa dor já não é solitária, porque Ele pagou por nós com o seu sangue derramado até a última gota. Ele entrou no nosso sofrimento e quebrou a barreira do nosso pranto desesperado.

Na sua morte adquire sentido e valor a vida do homem e até a sua própria morte. A partir da Cruz, Cristo apela à liberdade pessoal dos homens e mulheres de todos os tempos e chama cada um a segui-lo pelo caminho do abandono total nas mãos de Deus. Leva-nos a redescobrir até mesmo a misteriosa fecundidade da dor.

3. «Sobre nós fazei brilhar, Senhor, o esplendor de vossa face!» (Sl 4,7).
Enquanto se dissolve a nossa assembleia, continuemos meditando sobre o mistério desse Rosto que inumeráveis artistas, ao longo dos séculos, representaram utilizando toda a sua mestria.

Ó, se os homens se deixassem comover por seus traços inconfundíveis! Naquele Rosto santo podem encontrar uma adequada resposta a tantas perguntas e dúvidas que inquietam o coração humano. Da contemplação do Rosto amoroso do Filho de Deus feito homem é possível haurir a força para superar as horas de escuridão e de pranto. A partir do Calvário uma paz divina inunda o universo à espera da glória da Páscoa.

Virgem Maria, que permaneceste corajosa aos pés da Cruz, e acolheste no teu colo o corpo exangue de Jesus, ajuda-nos a compreender que o nosso sofrimento é preciosa participação na Paixão do teu divino Filho, que, por amor a nós, «fez-se obediente até a morte, e morte de cruz». Guia os nossos passos para calcar as suas pegadas indeléveis, que nos conduzirão ao assombro e à alegria da sua Ressurreição.


Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog). 

Sobre o simbolismo do “rosto” de Cristo, mencionado pelo Papa no texto preparado, confira nossa postagem sobre a história da devoção à Santa Face de Jesus.

Notas:

[1] O Cardeal John Henry Newman foi beatificado pelo Papa Bento XVI em 2010, canonizado pelo Papa Francisco em 2019 e proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Leão XIV em 2025. Sua Memória, celebrada no dia 09 de outubro, recentemente foi inscrita no Calendário Romano Geral.

[2] “Foi oferecido (em sacrifício) porque Ele mesmo quis” (cf. Is 53,7 Vulgata).

Nenhum comentário:

Postar um comentário