Há 25 anos, na noite da Sexta-feira Santa, 13 de abril de 2001, após a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro, o Papa São João Paulo II (†2005) presidiu a tradicional oração da Via Sacra junto ao Coliseu romano.
As meditações da Via Sacra foram tomadas dos escritos do Cardeal John Henry Newman (†1890) nos 200 anos do seu nascimento [1].
Reproduzimos aqui as palavras improvisadas pelo Papa no final da oração e o discurso que havia sido preparado para a ocasião:
Via Sacra no Coliseu
Discurso do Papa João Paulo II
Sexta-feira Santa, 13 de abril de 2001
Palavras improvisadas:
Ecce lignum crucis, in quo salus mundi pependit! Venite adoremus! [Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo! Vinde, adoremos!]
Hoje, pela
primeira vez neste terceiro milênio, se proclamou esta palavra na Basílica de
São Pedro. Neste mesmo dia, Sexta-feira Santa, a mesma verdade desconcertante
foi proclamada em todos os continentes, em todos os países do
mundo: Ecce lignum crucis!
A Igreja de
Cristo confessa esta realidade divina e humana: Crux, ave Crux!
Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam
redemisti mundum. [Cruz, salve, ó Cruz! Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos
bendizemos, porque pela vossa santa Cruz redimistes o mundo]
A Igreja
confessou isso durante dois mil anos, os dois milênios passados. Hoje, pela
primeira vez, o confessamos em todo o mundo e aqui, em Roma com esta Via
Sacra junto ao Coliseu. Queremos transmitir, levar adiante esta verdade
divina e humana no terceiro milênio. Queremos professar que, pela sua Cruz, o
Filho de Deus, aceitando esta humilhação - uma condenação destinada aos
escravos - abriu à humanidade o caminho para a glorificação. Por isso nós,
hoje, rezamos ajoelhado, em adoração.
Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum.
Que esta
verdade, proclamada hoje na Basílica de São Pedro e aqui junto ao Coliseu
romano, seja para nós a luz e a força deste tempo que inauguramos há alguns
meses.
Ave Crux! Ave Crux do Coliseu romano!
Ave, no limiar do terceiro milênio!
Ave através de todos os anos e séculos deste novo tempo que se abre diante de nós!
Louvado seja Jesus Cristo!
Discurso preparado:
1. «Cristo fez-se
obediente até a morte, e morte de cruz» (Fl 2,8).
Acabamos de rezar
a Via Sacra que, como todos os anos, nos reúne na noite da Sexta-feira
Santa neste lugar evocativo de profundas recordações cristãs. Percorremos os
passos do Inocente injustamente condenado, tendo o olhar fixo no seu rosto
adorável: rosto ofendido pela maldade humana, mas iluminado pelo amor e pelo
perdão.
É
verdadeiramente desconcertante o caso dramático de Jesus de Nazaré! Para
devolver a plenitude de vida ao homem, o Filho de Deus aniquilou-se da forma
mais humilhante. Mas daquela morte, escolhida livremente por Ele, brotou a
vida. Diz a Escritura: Oblatus est quia ipse voluit [2]. Ele nos dá
assim um testemunho extraordinário de amor, fruto de uma obediência sem igual,
que vai até o extremo dom de si.
2. «Obediente
até à morte, e morte de cruz».
Como desviar o
olhar de Jesus, que morre na Cruz? Seu rosto maltratado suscita repulsa. Afirma
o Profeta: «Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha
aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem
coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto;
tão desprezível era, não fazíamos caso dele» (Is 53,2-3).
Naquele rosto se
condensam as sombras de todos os sofrimentos, as injustiças, as violências sofridas
pelos seres humanos de todas as épocas da história. Mas agora, diante da Cruz,
as nossas penas de cada dia, e até mesmo a morte, aparecem revestidas da
majestade de Cristo abandonado e agonizante.
O rosto ensanguentado
e crucificado do Messias revela que, por amor, Deus se deixou envolver nas
vicissitudes atormentadas da humanidade. A nossa dor já não é solitária, porque
Ele pagou por nós com o seu sangue derramado até a última gota. Ele entrou no
nosso sofrimento e quebrou a barreira do nosso pranto desesperado.
Na sua morte
adquire sentido e valor a vida do homem e até a sua própria morte. A partir da
Cruz, Cristo apela à liberdade pessoal dos homens e mulheres de todos os tempos
e chama cada um a segui-lo pelo caminho do abandono total nas mãos de Deus.
Leva-nos a redescobrir até mesmo a misteriosa fecundidade da dor.
3. «Sobre nós
fazei brilhar, Senhor, o esplendor de vossa face!» (Sl 4,7).
Enquanto se
dissolve a nossa assembleia, continuemos meditando sobre o mistério desse Rosto
que inumeráveis artistas, ao longo dos séculos, representaram utilizando toda a
sua mestria.
Ó, se os homens
se deixassem comover por seus traços inconfundíveis! Naquele Rosto santo podem
encontrar uma adequada resposta a tantas perguntas e dúvidas que inquietam o
coração humano. Da contemplação do Rosto amoroso do Filho de Deus feito homem é
possível haurir a força para superar as horas de escuridão e de pranto. A
partir do Calvário uma paz divina inunda o universo à espera da glória da
Páscoa.
Virgem Maria,
que permaneceste corajosa aos pés da Cruz, e acolheste no teu colo o corpo
exangue de Jesus, ajuda-nos a compreender que o nosso sofrimento é preciosa
participação na Paixão do teu divino Filho, que, por amor a nós, «fez-se
obediente até a morte, e morte de cruz». Guia os nossos passos para calcar as
suas pegadas indeléveis, que nos conduzirão ao assombro e à alegria da sua Ressurreição.
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).
Sobre o simbolismo do “rosto” de Cristo, mencionado pelo Papa no texto preparado, confira nossa postagem sobre a história da devoção à Santa Face de Jesus.
Notas:
[1] O Cardeal John Henry Newman foi beatificado pelo Papa Bento XVI em 2010, canonizado pelo Papa Francisco em 2019 e proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Leão XIV em 2025. Sua Memória, celebrada no dia 09 de outubro, recentemente foi inscrita no Calendário Romano Geral.
[2] “Foi oferecido (em sacrifício) porque Ele mesmo quis” (cf. Is 53,7 Vulgata).


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