Há 25 anos, na tarde da Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Ceia do Senhor na Basílica do Latrão, a Catedral de Roma. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:
Santa Missa da Ceia do Senhor
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica do Latrão
Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001
1. «In
supremae nocte Cenae recumbens cum fratribus...» - «Na noite da Última
Ceia, estando à mesa com os irmãos... com as suas próprias mãos deu-se a si
mesmo em alimento aos Doze».
Com estas
palavras o belo hino “Pange lingua” apresenta a Última Ceia,
na qual Jesus nos deixou o admirável Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue.
As leituras proclamadas há pouco ilustram o seu sentido profundo. Elas formam
como que um tríptico: apresentam a instituição da Eucaristia, a sua
prefiguração no Cordeiro pascal e a sua tradução existencial no amor e no
serviço fraterno.
Foi o Apóstolo
Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, a recordar-nos o que Jesus fez «na
noite em que foi entregue». Ao relato do fato histórico Paulo acrescentou seu
comentário: «Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste
cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que Ele venha» (1Cor 11,26).
A mensagem do Apóstolo é clara: a comunidade que celebra a Ceia do Senhor atualiza
a Páscoa. A Eucaristia não é a simples memória de um rito
passado, mas a viva representação do gesto supremo do Salvador.
Essa experiência não pode deixar de impelir a comunidade cristã a fazer-se profecia
do mundo novo, inaugurado na Páscoa. Contemplando esta tarde o
mistério de amor que a Última Ceia nos repropõe, permaneçamos também nós em
comovida e silenciosa adoração.
2. «Verbum
caro, panem verum verbo carne efficit...» - «O Verbo encarnado
transforma com a sua palavra o verdadeiro pão na sua carne...».
É o prodígio que
nós, sacerdotes, tocamos cada dia com as nossas mãos na Santa Missa! A Igreja
continua a repetir as palavras de Jesus, e sabe que está comprometida a fazê-lo
até o fim do mundo. Em virtude dessas palavras se realiza uma admirável mudança:
permanecem as espécies eucarísticas, mas o pão e o vinho se tornam, segundo a
feliz expressão do Concílio de Trento, «verdadeira, real e substancialmente» o
Corpo e o Sangue do Senhor.
O pensamento
sente-se confuso diante de tão sublime mistério. Muitas interrogações se
apresentam ao coração do fiel, que todavia encontra paz na palavra de Cristo: «Et
si sensus deficit ad firmandum cor sincerum sola fides sufficit» -
«Se os sentidos falham, basta a fé para confirmar um coração sincero».
Sustentados por esta fé, por esta luz que ilumina os nossos passos mesmo na
noite da dúvida e da dificuldade, nós podemos proclamar: «Tantum ergo
Sacramentum veneremur cernui» - «Tão sublime Sacramento adoremos,
prostrados».
3. A instituição
da Eucaristia se relaciona com o rito pascal da primeira Aliança, que foi
descrito na passagem do Êxodo há pouco proclamada. Ali se fala do
cordeiro «sem defeito, macho, de um ano» (Ex 12,5), por cujo sacrifício
o povo seria libertado do extermínio: «O sangue servirá de sinal nas casas onde
estiverdes. Ao ver o sangue, passarei adiante, e não vos atingirá a praga
exterminadora» (v. 13).
O hino de Santo
Tomás comenta: «Et anticum documentum novo cedat ritui» - «A
antiga Lei dê lugar ao novo Sacrifício». Justamente, portanto, os textos
bíblicos da Liturgia desta tarde orientam o nosso olhar para o novo Cordeiro,
que com o sangue livremente derramado sobre a Cruz estabeleceu uma nova e definitiva
Aliança. Eis a Eucaristia, presença sacramental da carne imolada e do sangue
derramado do novo Cordeiro. Nela são oferecidos a toda a humanidade a salvação
e o amor. Como não nos deixarmos fascinar por este Mistério? Façamos nossas as
palavras de Santo Tomás de Aquino: «Praestet fides suplementum sensuum
defectui» - «Que a fé supra o defeito dos sentidos». Sim, a fé nos conduz à
admiração e à adoração!
4. É neste ponto
que o nosso olhar se dirige para o terceiro elemento do tríptico que forma a Liturgia
de hoje. Devemo-lo ao relato do evangelista João, que nos apresenta a impressionante
imagem do lava-pés. Com esse gesto Jesus recorda aos discípulos de
todos os tempos que a Eucaristia pede ser testemunhada no serviço do amor pelos
irmãos. Ouvimos as palavras do divino Mestre: «Portanto, se Eu, o
Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos
outros» (Jo 13,14). É um novo estilo de vida que deriva do gesto de
Jesus: «Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que Eu fiz» (v. 15).
O lava-pés se apresenta
como um ato paradigmático, que encontra sua chave de leitura e sua
máxima explicitação na Morte na Cruz e na Ressurreição de Cristo. Nesse ato de
serviço humilde a fé da Igreja vê o êxito natural de cada Celebração Eucarística.
A autêntica participação na Missa não pode deixar de gerar o amor
fraterno tanto em cada fiel como em toda a comunidade eclesial.
5. «Amou-os
até o fim» (Jo 13,1). A Eucaristia constitui o
sinal perene do amor de Deus, amor que sustenta o nosso caminho para a plena
comunhão com o Pai, através do Filho, no Espírito.
É um amor que supera
o coração do homem. Parando esta tarde para adorar o Santíssimo Sacramento, e
meditando o mistério da Última Ceia, nos sentimos mergulhados no oceano de amor
que brota do coração de Deus. Façamos nosso, com espírito agradecido o hino de
ação de graças do povo dos redimidos: «Genitori
Genitoque laus et iubilatio...» - «Ao Pai e ao Filho louvor e
júbilo, salvação, poder, bênção: Àquele que procede de ambos seja dada igual
honra e glória!». Amém!
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).


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