quinta-feira, 2 de abril de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Missa da Ceia do Senhor (2001)

Há 25 anos, na tarde da Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Ceia do Senhor na Basílica do Latrão, a Catedral de Roma. Reproduzimos aqui sua homilia na ocasião:

Santa Missa da Ceia do Senhor
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica do Latrão
Quinta-feira Santa, 12 de abril de 2001

1. «In supremae nocte Cenae recumbens cum fratribus...» - «Na noite da Última Ceia, estando à mesa com os irmãos... com as suas próprias mãos deu-se a si mesmo em alimento aos Doze».

Com estas palavras o belo hino “Pange lingua apresenta a Última Ceia, na qual Jesus nos deixou o admirável Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. As leituras proclamadas há pouco ilustram o seu sentido profundo. Elas formam como que um tríptico: apresentam a instituição da Eucaristia, a sua prefiguração no Cordeiro pascal e a sua tradução existencial no amor e no serviço fraterno.


Foi o Apóstolo Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, a recordar-nos o que Jesus fez «na noite em que foi entregue». Ao relato do fato histórico Paulo acrescentou seu comentário: «Todas as vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que Ele venha» (1Cor 11,26). A mensagem do Apóstolo é clara: a comunidade que celebra a Ceia do Senhor atualiza a Páscoa. A Eucaristia não é a simples memória de um rito passado, mas a viva representação do gesto supremo do Salvador. Essa experiência não pode deixar de impelir a comunidade cristã a fazer-se profecia do mundo novo, inaugurado na Páscoa. Contemplando esta tarde o mistério de amor que a Última Ceia nos repropõe, permaneçamos também nós em comovida e silenciosa adoração.

2. «Verbum caro, panem verum verbo carne efficit...» - «O Verbo encarnado transforma com a sua palavra o verdadeiro pão na sua carne...».

É o prodígio que nós, sacerdotes, tocamos cada dia com as nossas mãos na Santa Missa! A Igreja continua a repetir as palavras de Jesus, e sabe que está comprometida a fazê-lo até o fim do mundo. Em virtude dessas palavras se realiza uma admirável mudança: permanecem as espécies eucarísticas, mas o pão e o vinho se tornam, segundo a feliz expressão do Concílio de Trento, «verdadeira, real e substancialmente» o Corpo e o Sangue do Senhor.

O pensamento sente-se confuso diante de tão sublime mistério. Muitas interrogações se apresentam ao coração do fiel, que todavia encontra paz na palavra de Cristo: «Et si sensus deficit ad firmandum cor sincerum sola fides sufficit» - «Se os sentidos falham, basta a fé para confirmar um coração sincero». Sustentados por esta fé, por esta luz que ilumina os nossos passos mesmo na noite da dúvida e da dificuldade, nós podemos proclamar: «Tantum ergo Sacramentum veneremur cernui» - «Tão sublime Sacramento adoremos, prostrados».

3. A instituição da Eucaristia se relaciona com o rito pascal da primeira Aliança, que foi descrito na passagem do Êxodo há pouco proclamada. Ali se fala do cordeiro «sem defeito, macho, de um ano» (Ex 12,5), por cujo sacrifício o povo seria libertado do extermínio: «O sangue servirá de sinal nas casas onde estiverdes. Ao ver o sangue, passarei adiante, e não vos atingirá a praga exterminadora» (v. 13).

O hino de Santo Tomás comenta: «Et anticum documentum novo cedat ritui» - «A antiga Lei dê lugar ao novo Sacrifício». Justamente, portanto, os textos bíblicos da Liturgia desta tarde orientam o nosso olhar para o novo Cordeiro, que com o sangue livremente derramado sobre a Cruz estabeleceu uma nova e definitiva Aliança. Eis a Eucaristia, presença sacramental da carne imolada e do sangue derramado do novo Cordeiro. Nela são oferecidos a toda a humanidade a salvação e o amor. Como não nos deixarmos fascinar por este Mistério? Façamos nossas as palavras de Santo Tomás de Aquino: «Praestet fides suplementum sensuum defectui» - «Que a fé supra o defeito dos sentidos». Sim, a fé nos conduz à admiração e à adoração!

4. É neste ponto que o nosso olhar se dirige para o terceiro elemento do tríptico que forma a Liturgia de hoje. Devemo-lo ao relato do evangelista João, que nos apresenta a impressionante imagem do lava-pés. Com esse gesto Jesus recorda aos discípulos de todos os tempos que a Eucaristia pede ser testemunhada no serviço do amor pelos irmãos. Ouvimos as palavras do divino Mestre: «Portanto, se Eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros» (Jo 13,14). É um novo estilo de vida que deriva do gesto de Jesus: «Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que Eu fiz» (v. 15).

O lava-pés se apresenta como um ato paradigmático, que encontra sua chave de leitura e sua máxima explicitação na Morte na Cruz e na Ressurreição de Cristo. Nesse ato de serviço humilde a fé da Igreja vê o êxito natural de cada Celebração Eucarística. A autêntica participação na Missa não pode deixar de gerar o amor fraterno tanto em cada fiel como em toda a comunidade eclesial.

5. «Amou-os até o fim» (Jo 13,1). A Eucaristia constitui o sinal perene do amor de Deus, amor que sustenta o nosso caminho para a plena comunhão com o Pai, através do Filho, no Espírito.

É um amor que supera o coração do homem. Parando esta tarde para adorar o Santíssimo Sacramento, e meditando o mistério da Última Ceia, nos sentimos mergulhados no oceano de amor que brota do coração de Deus. Façamos nosso, com espírito agradecido o hino de ação de graças do povo dos redimidos: «Genitori Genitoque laus et iubilatio...» - «Ao Pai e ao Filho louvor e júbilo, salvação, poder, bênção: Àquele que procede de ambos seja dada igual honra e glória!». Amém!


Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog). 

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