sexta-feira, 3 de abril de 2026

Raniero Cantalamessa: Celebração da Paixão (2006)

Há 20 anos, na tarde da Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) presidiu a Celebração da Paixão do Senhor na Basílica de São Pedro.

Como de costume, a homilia foi confiada ao Pregador da Casa Pontifícia, Padre Raniero Cantalamessa, que seria criado Cardeal em 2020). Em seu reflexão este recordou a primeira Encíclica do Papa, Deus caritas est, publicada em dezembro de 2005:

Padre Raniero Cantalamessa, OFMCap
Homilia na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira Santa, 14 de abril de 2006
Deus demonstra o seu amor por nós

1. “Cristãos, movei-vos com mais firmeza

«Pois vai chegar o tempo em que não suportarão a sã doutrina, mas, com o prurido da curiosidade nos ouvidos, se rodearão de mestres ao sabor de seus próprios caprichos. E assim, deixando de ouvir a verdade, se desviarão para as fábulas» (2Tm 4,3-4).

Estas palavras da Escritura - sobretudo a referência ao prurido da curiosidade - está se realizando de modo novo e impressionante nos nossos dias. Enquanto nós celebramos aqui a recordação da Paixão e Morte do Salvador, milhões de pessoas são levadas por hábeis modificadores de lendas antigas a crer que Jesus de Nazaré, na realidade, nunca foi crucificado. Nos Estados Unidos é um best seller do momento uma edição do Evangelho de Tomé, apresentado como o Evangelho que «nos evita a crucificação, torna desnecessária a Ressurreição e não nos obriga a crer no Deus chamado Jesus» [1].


O maior estudioso bíblico da história da Paixão, Raymond Brown, escreveu há alguns anos: «É uma constatação pouco lisonjeira para a natureza humana: quanto mais fantástico é o cenário imaginado, mais sensacional é a propaganda que recebe e maior o interesse que suscita. Pessoas que nunca se dedicariam a ler uma análise séria das tradições históricas sobre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, sentem-se fascinadas por qualquer teoria nova segundo a qual Ele não foi crucificado e não morreu, especialmente se a continuação da história inclui a sua fuga com Maria Madalena para a Índia - ou para a França, segundo a versão mais atualizada... Essas teorias demonstram que quando se trata da Paixão de Jesus, apesar da expressão popular, a fantasia supera a realidade e, infelizmente, também rende mais» [2].

Fala-se tanto da traição de Judas e não percebemos que a estamos renovando. Cristo continua sendo vendido, não mais aos chefes do Sinédrio por trinta denários, mas a editores e livreiros por milhões de denários... Ninguém conseguirá para esta tendência especulativa, que, ao contrário, aumentará com o iminente lançamento de certo filme, mas, tendo-me ocupado por anos de história das origens cristãs, sinto o dever de chamar a atenção para um grande equívoco que está na base de toda esta literatura pseudo-histórica.

Os Evangelhos apócrifos sobre os quais se apoiam são textos conhecidos desde sempre, no todo ou em parte, mas com os quais nem mesmo os historiadores mais críticos e mais hostis ao Cristianismo jamais pensaram, antes de hoje, que se pudesse fazer história. Seria como se daqui a alguns séculos se pretendesse reconstruir a história atual baseando-se em romances escritos na nossa época.

O grande equívoco consiste no fato de que se usam esses escritos para fazê-los dizer exatamente o contrário do que pretendiam. Eles fazem parte da literatura gnóstica dos séculos II e III. A visão gnóstica - um misto de dualismo platônico e de doutrinas orientais revestido de ideias bíblicas - defende que o mundo material é uma ilusão, obra do Deus do Antigo Testamento, que é um deus mau, ou ao menos inferior; Cristo não morreu na cruz, porque nunca assumiu, senão em aparência, um corpo humano, sendo este indigno de Deus (docetismo).

Se Jesus, segundo o Evangelho de Judas, do qual se falou tanto nos últimos dias, ordena Ele mesmo ao Apóstolo que o traia é porque, ao morrer, o espírito divino que está n’Ele poderá finalmente libertar-se do invólucro da carne e subir ao céu. O matrimônio que preside aos nascimentos deve ser evitado (encratismo); a mulher só se salvará se o “princípio feminino” (thelus) personalizado por ela se transformar no princípio masculino, isto é, se deixar de ser mulher [3]. O ridículo é que hoje há quem pensa ver nesses escritos a exaltação do princípio feminino, da sexualidade, do pleno e desinibido regozijo deste mundo material, em polêmica com a Igreja oficial que, com o seu maniqueísmo, sempre teria inculcado tudo isso! É o mesmo equívoco que se observa a respeito da doutrina da reencarnação. Presente nas religiões orientais como uma punição devida a culpas precedentes e como aquilo a que se deseja pôr fim com todas as forças, é acolhida no Ocidente como uma maravilhosa possibilidade de voltar a viver e usufruir indefinidamente deste mundo.

São aspectos que não mereceriam ser tratados neste lugar e neste dia, mas não podemos permitir que o silêncio dos fiéis seja confundido com vergonha e que a boa-fé (ou a ingenuidade?) de milhões de pessoas seja torpemente manipulada pela mídia, sem lançar um grito de protesto em nome não só da fé, mas também do bom senso e da sã razão. Penso que seja o momento de ouvir de novo a exortação de Dante Alighieri:
«Cristãos, movei-vos com mais firmeza: não sejais como penas ao vento, e não penseis que todas as águas vos lavem.
Tendes o Novo e o Antigo Testamento, e o pastor da Igreja que vos guia; isto vos basta para a vossa salvação...
Sede homens, e não ovelhas insensatas» (Paraíso, V, 73-80).

2. A paixão precedeu a Encarnação

Mas deixemos de lado essas fantasias que têm todas uma explicação comum: estamos na era dos meios de comunicação e a eles interessa mais a novidade do que a verdade. Concentremo-nos no mistério que estamos celebrando. O melhor modo para refletir, este ano, sobre o mistério da Sexta-feira Santa seria ler toda a primeira parte da Encíclica do Papa Bento XVI, Deus caritas est. Não podendo fazê-lo aqui, gostaria ao menos de comentar algumas passagens que se referem mais diretamente ao mistério deste dia. Na Encíclica lemos:
«O olhar fixo no lado transpassado de Cristo, do qual fala João (cf. Jo 19,37), compreende o que serviu de ponto de partida a esta Encíclica: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). É lá que essa verdade pode ser contemplada. E partindo de lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e do seu amar» (Deus caritas est, n. 12).

Sim, Deus é amor! Foi dito que se todas as Bíblias do mundo fossem destruídas por uma catástrofe ou pelo furor iconoclasta e permanecesse só um exemplar, e também este exemplar estivesse tão danificado que só restasse uma página inteira, e também esta página estivesse tão estropeada que só se pudesse ler uma linha: se essa linha fosse a da Primeira Carta de João onde está escrito «Deus é amor!», toda a Bíblia estaria salva, porque tudo está contido ali.

O amor de Deus é luz, é felicidade, é plenitude de vida. É a torrente que Ezequiel viu sair do templo que, onde chega, cura e suscita vida; é a água prometida à Samaritana que sacia toda sede. Jesus repete também a nós, como a ela: «Se conhecesses o dom de Deus!». Eu vivi a minha infância em uma casa no campo a poucos metros de uma linha elétrica de alta tensão; mas nós vivíamos no escuro ou à luz de velas. Entre nós e ela havia a ferrovia e, com a guerra em curso, ninguém pensava em superar o pequeno obstáculo. Assim acontece com o amor de Deus: está ali ao nosso alcance, capaz de iluminar e de aquecer tudo na nossa vida, mas nós transcorremos a existência no escuro e no frio. É o único verdadeiro motivo de tristeza da vida.

Deus é amor, e a Cruz de Cristo é sua prova suprema, sua demonstração histórica. Há dois modos de manifestar o próprio amor a alguém, dizia um autor do Oriente bizantino, Nicolau Cabasilas. O primeiro consiste em fazer o bem à pessoa amada, em dar-lhe presentes; o segundo, muito mais desafiador, consiste em sofrer por ela. Deus nos amou no primeiro modo, isto é, com amor de magnanimidade, na criação, quando nos encheu de dons, dentro e fora de nós; amou-nos com o amor de sofrimento na redenção, quando inventou a própria aniquilação, sofrendo por nós os mais terríveis sofrimentos, para nos convencer do seu amor [4]. Por isso é na Cruz que se deve contemplar agora a verdade de que «Deus é amor».

A palavra “paixão” tem dois significados: pode indicar um amor veemente, “passional”, ou um sofrimento mortal. Há uma continuidade entre as duas coisas e a experiência quotidiana mostra quão facilmente se passa de uma à outra. Assim foi também, e antes de tudo, em Deus. Orígenes escreveu que há uma paixão que precede a Encarnação. É a “paixão de amor” que Deus desde sempre sente pelo gênero humano e que, na plenitude dos tempos, o moveu a vir à terra e sofrer por nós [5].

3. Três ordens de grandeza

A Encíclica Deus caritas est nos indica um novo modo de fazer apologia da fé cristã, talvez o único possível hoje e certamente o mais eficaz. Não contrapõe os valores sobrenaturais aos naturais, o amor divino ao amor humano, o eros ao agape, mas mostra a sua harmonia originária, que sempre deve ser redescoberta e reestabelecida por causa do pecado e da fragilidade humana. Escreve o Papa: «O eros quer nos elevar “em êxtase” para o Divino, nos conduzir além de nós mesmos, mas, precisamente por isso, requer um caminho de ascese, de renúncias, de purificações e de curas» (Deus caritas est, n. 5). O Evangelho, sem dúvida, está em concorrência com os ideais humanos, mas no sentido literal que con-corre para a sua realização: os restabelece, os eleva, os protege. Não exclui o eros da vida, mas sim o veneno do egoísmo do eros.

Há três ordens de grandeza, disse Pascal em um célebre pensamento [6]. A primeira é a ordem material ou dos corpos: nela sobressai quem tem muitos bens, quem é dotado de força atlética ou beleza física. É um valor que não deve ser desprezado, mas é o mais baixo. Acima dele está a ordem do gênio e da inteligência, na qual se distinguem os pensadores, os inventores, os cientistas, os artistas, os poetas. Esta é uma categoria de qualidade diversa. Ao gênio não acrescenta e não tira nada ser rico ou pobre, bonito ou feio. A deformidade física atribuída à sua pessoa não tira nada à beleza do pensamento de Sócrates e à poesia de Leopardi.

O valor do gênio é certamente maior do que o precedente, mas ainda não é o supremo. Acima dele há outra ordem de grandeza: é a ordem do amor, da bondade (Pascal a chama «ordem da santidade e da graça»). Uma gota de santidade, dizia Gounod, tem mais valor do que um oceano de gênio. Ao santo não acrescenta e não tira nada ser bonito ou feio, douto ou inculto. A sua grandeza é de uma ordem diferente.

O Cristianismo pertence a este terceiro nível. No romance Quo vadis, um pagão pergunta ao Apóstolo Pedro que acaba de chegar a Roma: «Atenas nos deu a sabedoria, Roma o poder; que nos oferece a vossa religião?». E Pedro responde: «O amor!» [7]. O amor é a coisa mais frágil que existe no mundo; é representado, e é, como uma criança. Pode ser morto com nada, como se pode fazer com uma criança - o vimos com horror na Itália nas últimas semanas. Mas sabemos pela experiência em que se transformam o poder e a ciência, a força e o gênio, sem o amor e a bondade...


4. Amor que perdoa

Continua a Encíclica: «O eros de Deus pelo homem é, ao mesmo tempo, totalmente agape. E não só porque é doado de maneira totalmente gratuita, sem mérito algum precedente, mas também porque é amor que perdoa» (Deus caritas est, n. 10).

Também essa qualidade resplandece em máximo grau no mistério da Cruz. «Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos» (Jo 15,13), disse Jesus no Cenáculo. Seria de exclamar: Sim, existe, ó Cristo, um amor maior do que dar a vida pelos amigos. O vosso! Vós não destes a vida pelos vossos amigos, mas pelos vossos inimigos! Paulo diz que dificilmente se encontra alguém disposto a morrer por um justo, mas se encontra. «Por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores... Cristo morreu pelos ímpios no tempo marcado» (Rm 5,6-8).

Mas logo se descobre que o contraste é apenas aparente. A palavra “amigos” em sentido ativo indica aqueles que te amam, mas em sentido passivo indica todos aqueles que são amados por ti. Jesus chama Judas «amigo» (Mt 26,50) não porque Judas o amasse, mas porque Ele o amava! Não há amor maior do que dar a vida pelos inimigos, considerando-os amigos: eis o sentido da frase de Jesus. Os homens podem ser, ou comportar-se, como inimigos de Deus, mas Deus nunca poderá ser inimigo do homem. É a terrível vantagem dos filhos sobre os pais (e sobre as mães).

Devemos refletir de que modo, concretamente, o amor de Cristo na Cruz pode ajudar o homem de hoje a encontrar, como diz a Encíclica, «o caminho do seu viver e do seu amar» (Deus caritas est, n. 12). Esse é um amor de misericórdia, que desculpa e perdoa, que não deseja destruir o inimigo, mas apenas a inimizade (cf. Ef 2,16). Jeremias, o homem mais próximo do Cristo da Paixão, reza a Deus dizendo: «Concede que eu veja a vingança que tomarás contra eles» (Jr 11,20); Jesus morre dizendo: «Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!» (Lc 23,34).

É precisamente dessa misericórdia e dessa capacidade de perdão que temos necessidade hoje, para não cair sempre vez mais no abismo de uma violência globalizada. O Apóstolo escrevia aos colossenses: «Vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sentimentos (literalmente: de entranhas!) de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente se um tiver queixa contra o outro. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também» (Cl 3,12-13).

Ter misericórdia significa compadecer-se (misereor) no coração (cordis) em relação ao próprio inimigo, compreender de que material somos feitos todos e, portanto, perdoar. O que poderia acontecer se, por um milagre da história, no Oriente Próximo, os dois povos há décadas em luta, em vez de pensar nas culpas, começassem a pensar uns nos sofrimentos dos outros, a compadecer-se uns dos outros. Já não seria necessário nenhum muro de divisão entre eles. O mesmo deve ser dito de tantos outros conflitos em curso no mundo, inclusive aqueles entre as diversas confissões religiosas e Igrejas cristãs.

Quanta verdade no verso do nosso poeta Pascoli: «Homens, paz! Na terra inclinada é grande o mistério» [8]. Um destino comum de morte paira sobre todos. A humanidade está envolvida por tanta escuridão e inclinada (“prona”) sob tanto sofrimento que deveríamos sentir também um pouco de compaixão e de solidariedade uns pelos outros!

5. O dever de amar

Há outro ensinamento que nos vem do amor de Deus manifestado na Cruz de Cristo. O amor de Deus pelo homem é fiel e eterno: «Amei-te com amor eterno» (Jr 31,3), diz Deus ao homem pelos profetas, e ainda: «Não hei de renegar o juramento que lhes fiz» (Sl 88,34). Deus se vinculou a amar para sempre, privou-se da liberdade de voltar atrás. É este o sentido profundo da aliança que em Cristo se tornou “nova e eterna”.

Na Encíclica do Papa lemos: «Faz parte da evolução do amor a níveis mais altos, às suas íntimas purificações, que ele procure agora o caráter definitivo, e isso em um duplo sentido: no sentido da exclusividade - “apenas esta única pessoa” - e no sentido de ser “para sempre”. O amor compreende a totalidade da existência em todas as suas dimensões, inclusive a temporal. Não poderia ser de outro modo, porque a sua promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade» (Deus caritas est, n. 6).

Na nossa sociedade se pergunta sempre mais que relação pode haver entre o amor de dois jovens e a lei do matrimônio; que necessidade tem de “vincular-se” o amor que é totalmente impulso e espontaneidade. São cada vez mais numerosos aqueles que rejeitam a instituição do matrimônio e escolhem o chamado amor livre ou a simples convivência de fato. Só quando se descobre a relação profunda e vital que há entre lei e amor, entre decisão e instituição, se pode responder corretamente essas perguntas e dar aos jovens um motivo convincente para se “vincularem” a amar para sempre e para não terem receio de fazer do amor um “dever”.

Kierkegaard, o filósofo que, depois de Platão, escreveu as coisas mais belas sobre o amor, disse: «Só quando há o dever de amar o amor é garantido para sempre contra qualquer alteração; eternamente livre em beata independência; assegurado em eterna bem-aventurança contra todo desespero» [9]. O sentido dessas palavras é que a pessoa que ama, quanto mais intensamente ama, mais percebe com angústia o perigo que o seu amor corre. Perigo que não vem de outros, mas de si mesma. Com efeito, ela sabe bem que é volúvel e que amanhã, infelizmente, poderia cansar-se e deixar de amar ou mudar o objeto do seu amor. E já que, agora que está na luz do amor, vê com clareza a perda irreparável que isso comportaria, se previne “ligando-se” a amar com o vínculo do dever e, desta forma, ancorando na eternidade o seu ato de amor colocado no tempo.

Ulisses desejava rever a sua pátria e a sua esposa, mas devia passar através do lugar das sereias, que enfeitiçavam os navegantes com o seu canto e os levavam a bater contra as rochas. O que ele fez? Fez-se amarrar ao mastro do navio, depois de ter tapado os ouvidos dos companheiros com cera. Ao chegar ao lugar enfeitiçado, gritava para ser desamarrado e alcançar as sereias, mas os companheiros não podiam ouvi-lo e, assim, pôde rever a sua pátria e abraçar novamente a esposa e o filho (cf. Odisseia, canto XII). É um mito, mas ajuda a compreender a razão, também humana e existencial, do matrimônio “indissolúvel” e, em um nível diferente, dos votos religiosos.

O dever de amar protege o amor do “desespero” e o torna “bem-aventurado e independente” no sentido que protege do desespero de não poder amar para sempre. Dai-me um verdadeiro apaixonado - dizia o mesmo pensador - e ele vos dirá se, no amor, há oposição entre prazer e dever; se o pensamento de “dever” amar por toda a vida causa ao amante temor e angústia ou, ao contrário, alegria e felicidade extrema.

Aparecendo à Beata Ângela de Foligno em um dia da Semana Santa, Cristo lhe disse uma palavra que se tornou célebre: «Eu não te amei de brincadeira!» [10]. Cristo realmente não nos amou de brincadeira. Há uma dimensão lúdica e jovial no amor, mas ele mesmo não é um jogo; é a coisa mais séria e mais cheia de consequências que existe no mundo; a vida humana depende dele. Ésquilo compara o amor a um leãozinho criado em casa, «no início mais dócil e terno que uma criança», com o qual se pode até brincar, mas que, crescendo, é capaz de fazer uma carnificina e encher a casa de sangue (cf. Agamêmnon, vv. 717ss).

Essas considerações não serão suficientes para modificar a cultura em ato que exalta a liberdade de mudar e a espontaneidade do momento, a prática do “usa e joga fora” aplicada também ao amor. Infelizmente a vida se encarregará de fazê-lo, quando no fim nos encontrarmos com cinzas na mão e com a tristeza de não termos construído nada de duradouro com o próprio amor. Mas que essas considerações sirvam ao menos para confirmar na bondade e na beleza da própria escolha aqueles que decidiram viver o amor entre o homem e a mulher segundo o projeto de Deus e sirvam para animar muitos jovens a fazerem a mesma escolha.

Não resta mais que entoar com Paulo o hino ao amor vitorioso de Deus. Ele nos convida a fazer com ele uma maravilhosa experiência de cura interior. Pensa em todas as coisas negativas e nos momentos críticos da sua vida: a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada. Olha para eles à luz da certeza do amor de Deus e proclama: «Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou».

Portanto, eleva o olhar; da sua vida pessoal passa a considerar o mundo que o rodeia e o destino humano universal, e de novo a mesma certeza jubilosa: «Tenho certeza de que nem a morte nem a vida... nem o presente nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura nem a profundeza, nem outra criatura qualquer serão capazes de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 8,37-39).

Aceitemos o seu convite, nesta Sexta-feira da Paixão e repitamos entre nós as suas palavras, na expectativa de, daqui a pouco, adorar a Cruz de Cristo.


Notas:
[1] H. Bloom, no ensaio interpretativo que acompanha a edição de M. Meyer, The Gospel of Thomas, Harper, San Francisco, p. 125.
[2] R. Brown, The Death of the Messiah, II, Nova York, 1998, pp. 1092-1096.
[3] Ver o logion 114 no mesmo Evangelho de Tomé (ed. Meyer, p. 63); no Evangelho dos Egípcios Jesus diz: «Eu vim para destruir as obras da mulher» (cf. Clemente de Alexandria, Stromata, III, 63). Isto explica porque o Evangelho de Tomé se tornou o Evangelho dos maniqueus, enquanto foi combatido duramente pelos autores eclesiásticos (por exemplo, Hipólito de Roma) que defendiam a bondade do matrimônio e da criação em geral.
[4] cf. N. Cabasilas, Vida em Cristo, VI, 2 (PG 150, 645).
[5] cf. Orígenes, Homilias sobre Ezequiel, 6, 6 (GCS, 1925, pp. 384s).
[6] cf. B. Pascal, Pensamentos, 793, ed. Brunschvicg.
[7] Henryk Sienkiewicz, Quo vadis, cap. 33.
[8] Giovanni Pascoli, I due fanciulli.
[9] S. Kierkegaard, Os atos do amor, I, 2, 40, ed. por C. Fabro, Milão, 1983, pp. 177ss.
[10] O Livro da Beata Ângela de Foligno, Instructio 23 (ed. Quaracchi, Grottaferrata, 1985, p. 612).

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

Confira todas as homilias e meditações do Cardeal Raniero Cantalamessa publicadas em nosso blog clicando aqui.

Na noite dessa Sexta-feira Santa o Papa presidiu a tradicional oração da Via Sacra junto ao Coliseu, cujas meditações foram escritas pelo Cardeal Ângelo Comastri, então Vigário Geral para a Cidade do Vaticano e Arcipreste da Basílica de São Pedro.

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