Na manhã da Quarta-feira de Cinzas de 2006, há cerca de 20 anos, o Papa Bento XVI (†2022) proferiu uma Catequese sobre a Quaresma que repropomos a seguir:
Papa Bento XVI
Audiência Geral
Quarta-feira, 01 de março de 2006
A Quaresma, itinerário de reflexão e de intensa oração
Amados irmãos e irmãs,
Começa hoje, com a Liturgia da Quarta-feira de Cinzas, o itinerário quaresmal de quarenta dias que nos conduzirá ao Tríduo Pascal,
memória da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, coração do mistério da nossa
salvação. Este é um tempo favorável no qual a Igreja convida os cristãos a
tomar consciência mais viva da obra redentora de Cristo e a viver com maior
profundidade o próprio Batismo. Com efeito, neste período litúrgico o Povo de
Deus, desde os primórdios, se nutre abundantemente da Palavra de Deus para se
fortalecer na fé, percorrendo toda a história da criação e da redenção.
Na sua duração de quarenta dias, o Tempo da Quaresma
possui uma inegável força evocativa. Com efeito, ela busca recordar alguns dos
acontecimentos que marcaram a vida e a história do antigo Israel, repropondo
também a nós o seu valor paradigmático: pensemos, por exemplo, nos quarenta
dias do dilúvio universal, que desembocam no pacto de aliança estabelecido por
Deus com Noé e, assim, com a humanidade; e nos quarenta dias de permanência de
Moisés no Monte Sinai, aos quais se seguiu o dom das tábuas da Lei. O período
quaresmal quer nos convidar sobretudo a reviver com Jesus os quarenta dias
transcorridos por Ele no deserto, rezando e jejuando, antes de iniciar a sua
missão pública. Também nós hoje empreendemos um caminho de reflexão e de oração
com todos os cristãos do mundo para nos dirigirmos espiritualmente ao Calvário,
meditando os mistérios centrais da fé. Assim nos prepararemos para
experimentar, depois do mistério da Cruz, a alegria da Páscoa da Ressurreição.
Realiza-se hoje em todas as comunidades
paroquiais um gesto austero e simbólico: a imposição das cinzas,
rito acompanhado por duas fórmulas significativas, que constituem um urgente apelo
a nos reconhecermos pecadores e a voltarmos para Deus. A primeira fórmula diz: “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar” (Gn
3,19). Estas palavras, tiradas do Livro
do Gênesis, evocam a condição
humana sob o sinal da caducidade e do limite, e buscam nos levar a repor toda a
esperança somente em Deus. A segunda fórmula remete às palavras pronunciadas
por Jesus no início do seu ministério itinerante: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). É um convite a pôr como fundamento
da renovação pessoal e comunitária a adesão firme e confiante ao Evangelho. A
vida do cristão é vida de fé, fundamentada na Palavra de Deus e nutrida por
ela. Nas provações da vida e em cada tentação o segredo da vitória consiste em
ouvir a Palavra de verdade e em rejeitar com determinação a mentira e o mal.
Este é o verdadeiro programa central do Tempo da Quaresma: ouvir a Palavra de
verdade, viver, dizer e cumprir a verdade, rejeitar a mentira que envenena a
humanidade e que é a porta de todos os males. Portanto, nestes quarenta dias é
urgente voltar a ouvir o Evangelho, a Palavra do Senhor, Palavra de verdade,
para que em cada cristão, em cada um de nós, se revigore a consciência da
verdade que lhe foi dada, que nos foi dada, para que a viva e se torne sua testemunha.
A Quaresma nos impele a isto, a deixarmos que a nossa vida seja imbuída pela
Palavra de Deus e, assim, a conhecermos a verdade fundamental: quem somos, de
onde viemos, para onde devemos ir, qual é o caminho a empreender na vida. Assim,
o período da Quaresma nos oferece um percurso ascético e litúrgico que,
enquanto nos ajuda a abrir os olhos para a nossa debilidade, nos faz abrir o
coração ao amor misericordioso de Cristo.
O caminho
quaresmal, aproximando-nos de Deus, nos permite ver com olhos novos os irmãos e
as suas necessidades. Quem começa a ver Deus, a contemplar o rosto de Cristo,
vê com outros olhos também o irmão, descobre o irmão, o seu bem, o seu mal, as
suas necessidades. Por isso a Quaresma, como escuta da verdade, é um momento
favorável para nos convertermos ao amor, porque a verdade profunda, a verdade
de Deus, é ao mesmo tempo amor. Convertendo-nos à verdade de Deus, devemos
necessariamente converter-nos ao amor. Um amor que saiba tornar própria a
atitude de compaixão e de misericórdia do Senhor, como desejei recordar na Mensagem
para a Quaresma, que tem como tema as seguintes palavras evangélicas: “Jesus,
vendo as multidões, encheu-se de compaixão por elas” (Mt 9,36).
Consciente da própria missão no mundo, a Igreja não cessa de proclamar o amor
misericordioso de Cristo, que continua a dirigir o olhar comovido aos homens e
aos povos de todos os tempos. Como escrevi na citada Mensagem quaresmal,
“diante dos terríveis desafios da pobreza de grande parte da humanidade, a
indiferença e o fechamento no próprio egoísmo se apresentam em contraste
intolerável com o ‘olhar’ de Cristo. O jejum e a esmola que, juntamente com a
oração, a Igreja propõe de modo especial no período da Quaresma, são uma
ocasião propícia para nos conformarmos a esse ‘olhar’”, ao olhar de Cristo,
e veremos nós mesmos, a humanidade e os outros com este seu olhar. Com este
espírito, entramos no clima austero e orante da Quaresma, que é precisamente um
clima de amor ao irmão.
Sejam dias de
reflexão e de intensa oração, nos quais nos deixemos guiar pela Palavra de
Deus, que a Liturgia nos propõe abundantemente. Que a Quaresma seja, além disso,
um tempo de jejum, de penitência e de vigilância sobre nós mesmos, convencidos
de que a luta contra o pecado nunca termina, porque a tentação é realidade de
todos os dias e a fragilidade e o engano são experiências de todos. Através da
esmola e do bem feito aos outros, a Quaresma seja, enfim, ocasião de partilha
sincera dos dons recebidos com os irmãos e de atenção às necessidades dos mais
pobres e abandonados.
Que neste
itinerário penitencial nos acompanhe Maria, a Mãe do Redentor, que é mestra de
escuta e de adesão fiel a Deus. A Virgem Santíssima nos ajude a chegar,
purificados e renovados na mente e no espírito, à celebração do grande mistério
da Páscoa de Cristo.
Com estes
sentimentos, desejo a todos uma boa e fecunda Quaresma.
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).


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