terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Catequese do Papa Bento XVI: Quaresma (2006)

Na manhã da Quarta-feira de Cinzas de 2006, há cerca de 20 anos, o Papa Bento XVI (†2022) proferiu uma Catequese sobre a Quaresma que repropomos a seguir:

Papa Bento XVI
Audiência Geral
Quarta-feira, 01 de março de 2006
A Quaresma, itinerário de reflexão e de intensa oração

Amados irmãos e irmãs,
Começa hoje, com a Liturgia da Quarta-feira de Cinzas, o itinerário quaresmal de quarenta dias que nos conduzirá ao Tríduo Pascal, memória da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, coração do mistério da nossa salvação. Este é um tempo favorável no qual a Igreja convida os cristãos a tomar consciência mais viva da obra redentora de Cristo e a viver com maior profundidade o próprio Batismo. Com efeito, neste período litúrgico o Povo de Deus, desde os primórdios, se nutre abundantemente da Palavra de Deus para se fortalecer na fé, percorrendo toda a história da criação e da redenção.


Na sua duração de quarenta dias, o Tempo da Quaresma possui uma inegável força evocativa. Com efeito, ela busca recordar alguns dos acontecimentos que marcaram a vida e a história do antigo Israel, repropondo também a nós o seu valor paradigmático: pensemos, por exemplo, nos quarenta dias do dilúvio universal, que desembocam no pacto de aliança estabelecido por Deus com Noé e, assim, com a humanidade; e nos quarenta dias de permanência de Moisés no Monte Sinai, aos quais se seguiu o dom das tábuas da Lei. O período quaresmal quer nos convidar sobretudo a reviver com Jesus os quarenta dias transcorridos por Ele no deserto, rezando e jejuando, antes de iniciar a sua missão pública. Também nós hoje empreendemos um caminho de reflexão e de oração com todos os cristãos do mundo para nos dirigirmos espiritualmente ao Calvário, meditando os mistérios centrais da fé. Assim nos prepararemos para experimentar, depois do mistério da Cruz, a alegria da Páscoa da Ressurreição.

Realiza-se hoje em todas as comunidades paroquiais um gesto austero e simbólico: a imposição das cinzas, rito acompanhado por duas fórmulas significativas, que constituem um urgente apelo a nos reconhecermos pecadores e a voltarmos para Deus. A primeira fórmula diz: “Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3,19). Estas palavras, tiradas do Livro do Gênesis, evocam a condição humana sob o sinal da caducidade e do limite, e buscam nos levar a repor toda a esperança somente em Deus. A segunda fórmula remete às palavras pronunciadas por Jesus no início do seu ministério itinerante: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). É um convite a pôr como fundamento da renovação pessoal e comunitária a adesão firme e confiante ao Evangelho. A vida do cristão é vida de fé, fundamentada na Palavra de Deus e nutrida por ela. Nas provações da vida e em cada tentação o segredo da vitória consiste em ouvir a Palavra de verdade e em rejeitar com determinação a mentira e o mal. Este é o verdadeiro programa central do Tempo da Quaresma: ouvir a Palavra de verdade, viver, dizer e cumprir a verdade, rejeitar a mentira que envenena a humanidade e que é a porta de todos os males. Portanto, nestes quarenta dias é urgente voltar a ouvir o Evangelho, a Palavra do Senhor, Palavra de verdade, para que em cada cristão, em cada um de nós, se revigore a consciência da verdade que lhe foi dada, que nos foi dada, para que a viva e se torne sua testemunha. A Quaresma nos impele a isto, a deixarmos que a nossa vida seja imbuída pela Palavra de Deus e, assim, a conhecermos a verdade fundamental: quem somos, de onde viemos, para onde devemos ir, qual é o caminho a empreender na vida. Assim, o período da Quaresma nos oferece um percurso ascético e litúrgico que, enquanto nos ajuda a abrir os olhos para a nossa debilidade, nos faz abrir o coração ao amor misericordioso de Cristo.

O caminho quaresmal, aproximando-nos de Deus, nos permite ver com olhos novos os irmãos e as suas necessidades. Quem começa a ver Deus, a contemplar o rosto de Cristo, vê com outros olhos também o irmão, descobre o irmão, o seu bem, o seu mal, as suas necessidades. Por isso a Quaresma, como escuta da verdade, é um momento favorável para nos convertermos ao amor, porque a verdade profunda, a verdade de Deus, é ao mesmo tempo amor. Convertendo-nos à verdade de Deus, devemos necessariamente converter-nos ao amor. Um amor que saiba tornar própria a atitude de compaixão e de misericórdia do Senhor, como desejei recordar na Mensagem para a Quaresma, que tem como tema as seguintes palavras evangélicas: “Jesus, vendo as multidões, encheu-se de compaixão por elas” (Mt 9,36). Consciente da própria missão no mundo, a Igreja não cessa de proclamar o amor misericordioso de Cristo, que continua a dirigir o olhar comovido aos homens e aos povos de todos os tempos. Como escrevi na citada Mensagem quaresmal, “diante dos terríveis desafios da pobreza de grande parte da humanidade, a indiferença e o fechamento no próprio egoísmo se apresentam em contraste intolerável com o ‘olhar’ de Cristo. O jejum e a esmola que, juntamente com a oração, a Igreja propõe de modo especial no período da Quaresma, são uma ocasião propícia para nos conformarmos a esse ‘olhar’”, ao olhar de Cristo, e veremos nós mesmos, a humanidade e os outros com este seu olhar. Com este espírito, entramos no clima austero e orante da Quaresma, que é precisamente um clima de amor ao irmão.

Sejam dias de reflexão e de intensa oração, nos quais nos deixemos guiar pela Palavra de Deus, que a Liturgia nos propõe abundantemente. Que a Quaresma seja, além disso, um tempo de jejum, de penitência e de vigilância sobre nós mesmos, convencidos de que a luta contra o pecado nunca termina, porque a tentação é realidade de todos os dias e a fragilidade e o engano são experiências de todos. Através da esmola e do bem feito aos outros, a Quaresma seja, enfim, ocasião de partilha sincera dos dons recebidos com os irmãos e de atenção às necessidades dos mais pobres e abandonados.

Que neste itinerário penitencial nos acompanhe Maria, a Mãe do Redentor, que é mestra de escuta e de adesão fiel a Deus. A Virgem Santíssima nos ajude a chegar, purificados e renovados na mente e no espírito, à celebração do grande mistério da Páscoa de Cristo.
Com estes sentimentos, desejo a todos uma boa e fecunda Quaresma.


Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

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