Nesta Quarta-feira de Cinzas, início do Tempo da Quaresma, recordamos a homilia proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, durante a Missa no dia 28 de fevereiro de 2001 [1]:
Santa Missa, Bênção e Imposição das Cinzas
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de Santa Sabina
Quarta-feira, 28 de fevereiro de 2001
1. “Deixai-vos
reconciliar com Deus... É agora o momento favorável” (2Cor 5,20;
6,2).
Este é o convite
que a Liturgia nos faz no início da Quaresma, exortando-nos a tomar consciência
do dom da salvação oferecida, em Cristo, a todos os homens.
Falando do “momento
favorável”, o Apóstolo Paulo refere-se à “plenitude do tempo” (cf. Gl 4,4),
isto é, o tempo em que Deus, através de Jesus, “atendeu” e “socorreu” o seu
povo, realizando plenamente as promessas dos profetas (cf. Is 49,8).
Em Cristo se cumpre o tempo da misericórdia e do perdão, o tempo da alegria e
da salvação.
Do ponto de
vista histórico, o “momento favorável” é o tempo em que o Evangelho é anunciado
pela Igreja aos homens de todas as raças e culturas para que se convertam e se
abram ao dom da redenção. Então a vida é totalmente transformada.
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| O Papa recebe as cinzas |
2. “É
agora o momento favorável”.
A Quaresma, que
hoje se inicia, é certamente, ao longo do Ano Litúrgico, um “momento favorável”
para acolher com maior disponibilidade a graça de Deus. Precisamente por isso
ela é definida “sinal sacramental da nossa conversão” (Coleta do
I Domingo da Quaresma) [2]: sinal e instrumento eficaz daquela radical
mudança de vida que requer ser constantemente renovada nos fiéis. A fonte desse
extraordinário dom divino é o Mistério Pascal, o mistério da Morte e Ressurreição
de Cristo, do qual brota a redenção para cada homem, para a história e para
todo o universo.
A este mistério
de sofrimento e de amor refere-se, em certo sentido, o tradicional rito
da imposição das cinzas, iluminado pelas palavras que o
acompanham: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).
Também se refere a esse mistério o jejum que hoje observamos, para iniciar um
caminho de verdadeira conversão, no qual a união com a Paixão de Cristo nos
permita enfrentar e vencer o combate contra o espírito do mal (cf. Coleta da
Quarta-feira de Cinzas).
3. “É
agora o momento favorável”.
Com esta
consciência empreendemos o itinerário quaresmal, conectando-os idealmente ao Grande
Jubileu, que marcou para a toda Igreja um extraordinário tempo de penitência
e de reconciliação. Foi um ano de intenso fervor espiritual, durante o qual
foi derramada abundantemente sobre o mundo a misericórdia divina. Para que este
tesouro de graça continue a enriquecer espiritualmente o povo cristão, na Carta
Apostólica Novo millennio ineunte ofereci indicações concretas
sobre como devemos caminhar nesta nova fase da história da Igreja.
Entre essas
indicações gostaria de recordar algumas que se adaptam bem às características
peculiares do tempo quaresmal. A primeira de todas é a contemplação do
rosto do Senhor: rosto que se apresenta na Quaresma como “rosto sofredor” (cf.
nn. 25-27). Na Liturgia, nas estações quaresmais, assim como na piedosa
prática da Via Sacra, a oração contemplativa leva a unir-nos
ao mistério d’Aquele que, mesmo não tendo conhecido o pecado, Deus “o fez pecado
por nós” (cf. 2Cor 5,21). Na escola dos Santos,
cada batizado é chamado a seguir cada vez mais de perto Jesus que, subindo
a Jerusalém e prevendo a sua Paixão, confia aos discípulos: “Devo receber
um batismo” (Lc 12,50). Assim, o caminho quaresmal
torna-se para nós seguimento dócil do Filho de Deus, que se fez Servo
obediente.
4. O caminho ao
qual a Quaresma nos convida se realiza, antes de tudo, na oração: as
comunidades cristãs devem se tornar, nestas semanas, autênticas “escolas de
oração”. Outro objetivo privilegiado é aquele de aproximar os fiéis ao Sacramento
da Reconciliação, para que cada um possa voltar a “descobrir Cristo
como mysterium pietatis, no qual Deus nos mostra o seu
coração compassivo e nos reconcilia plenamente consigo” (Novo millennio
ineunte, n. 37). A experiência da misericórdia de Deus, além disso,
não pode deixar de suscitar o empenho da caridade, impulsionando
a comunidade cristã a “apostar na caridade” (cf. cap. IV). Na
escola de Cristo, ela compreende melhor a exigente opção preferencial pelos
pobres, opção que, se for vivida, “testemunha o estilo do amor de Deus, a sua
providência, a sua misericórdia” (n. 49).
5. “Em nome
de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20).
No mundo de hoje
cresce a necessidade de pacificação e de perdão. Fiz-me porta-voz desse desejo recorrente
de perdão e de reconciliação na Mensagem para esta Quaresma. A
Igreja, apoiando-se nas palavras de Cristo, anuncia o perdão e o amor aos
inimigos. Agindo assim “é consciente de inserir no patrimônio espiritual de
toda a humanidade uma maneira nova de se relacionar com os outros; uma maneira
certamente difícil, mas rica de esperança” (n. 4). Eis o dom que ela
oferece também aos homens do nosso tempo.
“Deixai-vos reconciliar
com Deus!”: estas palavras ressoam com insistência no nosso espírito. Hoje,
diz-nos a Liturgia, é o “momento favorável” para a nossa reconciliação com
Deus. Conscientes disso, recebemos a imposição das cinzas, dando os primeiros
passos do caminho quaresmal. Prossigamos com generosidade por esta estrada,
mantendo o olhar fixo em Cristo Crucificado. Com efeito, a Cruz é a salvação da
humanidade: só a partir da Cruz é possível construir um futuro de esperança e
de paz para todos.
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).
Sobre o simbolismo do “rosto do Senhor”, mencionado pelo Papa na homilia, confira nossa postagem sobre a história da devoção à Santa Face de Jesus.
Notas:
[1] Devido aos seus problemas de saúde, o Papa presidiu a Missa sem celebrar (cf. Cerimonial dos Bispos, nn. 175-185). A Liturgia Eucarística foi celebrada pelo Cardeal Jozef Tomko (†2022), então Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos e Cardeal Presbítero do Título de Santa Sabina.
[2] A tradução brasileira da 3ª edição do Missal, que neste caso é mais fiel ao texto original (em latim), menciona simplesmente o “sacramento da Quaresma”. O texto italiano citado pelo Papa, por sua vez, refere-se à Quaresma como “sinal sacramental da nossa conversão”.


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