Há 25 anos, no dia 22 de fevereiro de 2001, o Papa São João Paulo II (†2005) celebrou a Missa da Festa da Cátedra de São Pedro com os novos Cardeais criados no Consistório do dia 21 de fevereiro [1].
Embora neste ano de 2026 não celebremos essa Festa (por coincidir com o I Domingo da Quaresma), reproduzimos aqui a homilia do Papa polonês na ocasião:
Festa da Cátedra de São Pedro
Concelebração Eucarística com os novos Cardeais
Homilia do Papa João Paulo II
Praça de São Pedro
Quinta-feira, 22 de fevereiro de 2001
1. “E vós,
quem dizeis que Eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do
Deus vivo” (Mt 16,15-16).
Este diálogo
entre Cristo e os seus discípulos, que ouvimos há pouco, é sempre atual na vida
da Igreja e do cristão. Em cada momento da história, sobretudo naqueles mais
decisivos, Jesus interpela os seus e, depois de interrogá-los sobre o que “os
homens” pensam d’Ele, “estreita o foco” e lhes pergunta: “E vós, quem dizeis
que Eu sou?”.
Ouvimos esta
pergunta ecoar, no fundo, durante todo o Grande Jubileu do Ano 2000. E todos os
dias a Igreja respondeu incessantemente com uma unânime profissão de fé: “Tu és
o Cristo, o Salvador do mundo, ontem, hoje e sempre”. Uma resposta universal,
na qual à voz do Sucessor de Pedro se uniram as vozes dos Pastores e dos fiéis
de todo o Povo de Deus.
2. Uma única e
solene profissão de fé: Tu és o Cristo! Esta profissão de fé é o grande dom
que a Igreja oferece ao mundo no início do terceiro milênio, enquanto prossegue
no “vasto oceano” que se abre diante dela (cf. Carta Apostólica Novo millennio ineunte, n. 58). A festa de hoje põe em primeiro plano o papel
de Pedro e dos seus Sucessores na condução da barca da Igreja nesse
“oceano”. Portanto, é particularmente significativo que nesta festa litúrgica
esteja junto ao Papa o Colégio Cardinalício, com os novos Cardeais criados
ontem no primeiro Consistório depois do Grande Jubileu.
Juntos queremos
dar graças a Deus por ter fundado a sua Igreja sobre a rocha de Pedro. Como
sugere a oração “coleta”, queremos rezar intensamente para que ela “não seja
abalada por nenhuma perturbação”, mas prossiga com coragem e confiança.
3. Permiti-me,
porém, expressar antes de tudo a minha alegria e o meu reconhecimento ao Senhor
precisamente por vós, caríssimos e venerados irmãos, que ingressastes no
Colégio Cardinalício! A cada um de vós renovo a saudação mais cordial, que faço
extensiva aos vossos familiares e aos fiéis aqui reunidos, bem como às
Comunidades das quais provindes, e que hoje se unem espiritualmente à nossa
celebração.
Considero
providencial celebrar convosco e com todo o Colégio a Festa da Cátedra de Pedro, porque isto constitui um particular e eloquente sinal de unidade,
com o qual iniciamos juntos o período pós-jubilar. Um sinal que é, ao mesmo
tempo, convite a aprofundar a reflexão sobre o ministério petrino, ao qual está
particularmente relacionada a vossa função de Cardeais.
4. “Tu és
Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18).
No “hoje” da
Liturgia o Senhor Jesus dirige também ao Sucessor de Pedro esta sua palavra,
que se torna para ele empenho de confirmação em relação aos irmãos (cf. Lc
22,32). Com grande conforto e com profundo afeto vos chamo, venerados irmãos
Cardeais, a unir-vos à Sé de Pedro no peculiar ministério de unidade que
lhe é confiado.
“Como Bispo de
Roma, sei bem - e o confirmei na Encíclica Ut unum sint sobre o empenho
ecumênico - que a comunhão plena e visível de todas as Comunidades, nas quais
em virtude da fidelidade de Deus habita o seu Espírito, é o desejo ardente de
Cristo” (n. 95). Para esta finalidade primária os Cardeais, quer como
Colégio quer individualmente, podem e devem oferecer sua preciosa
contribuição. Com efeito, eles são os primeiros colaboradores do ministério
de unidade do Romano Pontífice. A púrpura que os reveste evoca o sangue dos
mártires, nomeadamente de Pedro e de Paulo, sobre cujo supremo testemunho se
fundamenta a vocação e a missão universal da Igreja de Roma e do seu Pastor.
5. Como não
recordar que o ministério de Pedro, princípio visível de unidade, constitui uma
dificuldade para as outras Igrejas e Comunidades eclesiais? (cf. Ut unum
sint, n. 88). Mas, ao mesmo tempo, como não voltar ao fato histórico do
primeiro milênio, quando a função primacial do Bispo de Roma era exercida sem encontrar
resistências na Igreja, tanto no Ocidente como no Oriente? Gostaria de,
juntamente convosco, pedir hoje ao Senhor, de modo particular, para que o novo
milênio no qual entramos veja logo a superação desta situação e o
restabelecimento da plena comunhão. O Espírito Santo dê a todos os fiéis a luz
e a força necessárias para realizar o ardente anseio do Senhor. A vós peço que
me assistais e colaboreis de todas as formas nesta exigente missão.
Venerados irmãos
Cardeais, o anel que lhes foi concedido, e que daqui a pouco entregarei aos
novos membros do Colégio, ressalta precisamente o especial vínculo que vos une
a esta Sé Apostólica [2]. No “vasto oceano” que se abre diante da barca da Igreja,
conto convosco para orientá-la no caminho da verdade e do amor, para que ela,
vencendo as tempestades do mundo, se torne, de maneira sempre mais eficaz, sinal
e instrumento de unidade para todo o gênero humano (cf. Concílio
Vaticano II, Constituição Lumen gentium, n. 1).
6. “Assim diz
o Senhor Deus: Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas”
(Ez 34,11).
Na Festa da
Cátedra de São Pedro a Liturgia nos repropõe o célebre oráculo do profeta
Ezequiel, no qual Deus se revela como o Pastor do seu povo [3]. Com efeito, a cátedra
é inseparável do báculo pastoral, porque Cristo, Mestre e Senhor,
veio a nós como o Bom Pastor (cf. Jo 10,1-18). Assim o conheceu
Simão, o pescador de Cafarnaum: experimentou o seu amor terno e misericordioso
e foi conquistado por ele. A sua vocação e a sua missão de Apóstolo, resumidas
no novo nome de “Pedro” recebido do Mestre, baseiam-se inteiramente na sua
relação com Ele, desde o primeiro encontro, ao qual o chamou seu irmão, André (cf.
Jo 1,40-42), até o último, nas margens do lago, quando o Ressuscitado o
encarregou de apascentar o seu rebanho (cf. Jo 21,15-19). No meio, o
longo caminho do seguimento, no qual o divino Mestre conduz Simão a uma
profunda conversão, que conhece horas dramáticas no momento da Paixão, mas que desemboca
em seguida na alegria luminosa da Páscoa.
Em virtude desta
experiência transformadora do Bom Pastor, Pedro, escrevendo às Igrejas
da Ásia Menor, se define como “testemunha dos sofrimentos de Cristo e
participante da glória que será revelada” (1Pd 5,1). Ele exorta os “presbíteros”
a apascentar o rebanho de Deus, fazendo-se modelos para ele (cf. vv.
2-3). Hoje essa exortação é dirigida de maneira particular a vós, caríssimos,
que o Bom Pastor quis associar na forma mais eminente no ministério do Sucessor
de Pedro. Sede fiéis a esta vossa missão, prontos a dar a vida pelo Evangelho.
É isto que o Senhor vos pede e é isto que espera de vós o povo cristão, que
hoje está junto a vós com alegria e afeto.
7. “Eu,
porém, rezei por ti, para que a tua fé não se apague” (Lc 22,32). Assim
disse o Senhor a Simão Pedro durante a Última Ceia. Esta palavra de Jesus,
fundamental para Pedro e para os seus Sucessores, difunde luz e conforto também
sobre aqueles que colaboram mais de perto no seu ministério. Venerados irmãos
Cardeais, hoje Cristo repete a cada um de vós: “Eu rezei por ti”, para que a
tua fé não se apague nas situações em que possa ser posta em maior prova a tua
fidelidade a Cristo, à Igreja, ao Papa.
Caríssimos, esta
oração, que brota incessantemente do Coração do Bom Pastor, seja sempre a vossa
força! Não duvideis de que, como foi para Cristo e para Pedro, assim será
também para vós: o vosso testemunho mais eficaz será sempre aquele marcado pela
Cruz. A Cruz é a cátedra de Deus no mundo. Nela Cristo ofereceu à
humanidade a lição mais importante, a de nos amarmos uns aos outros como Ele
nos amou (cf. Jo 13,34): até o extremo dom de si.
Aos pés da Cruz
está sempre a Mãe de Cristo e dos discípulos, Maria Santíssima. O Senhor
confiou-nos a ela quando disse: “Mulher, eis o teu filho!” (Jo 19,26). A
Virgem Santa, Mãe da Igreja, assim como protegeu de maneira especial Pedro e os
Apóstolos, também não deixará de proteger o Sucessor de Pedro e os seus
colaboradores. Esta consoladora certeza seja encorajamento para não temer as
provações e as dificuldades. Antes, confortados pela constante proteção de
Deus, obedeçamos ao mandato de Cristo, que com vigor convida Pedro, e com ele a
Igreja, a fazer-se ao largo: “Duc in altum” (Lc 5,4). Sim, irmãos
caríssimos, avancemos para águas mais profundas, lancemos as redes para a pesca
e “sigamos em frente, com esperança!” (Novo millennio ineunte, n. 58).
Cristo, o Filho
do Deus vivo, é o mesmo ontem, hoje e sempre. Amém!
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| Entrega das chaves do Reino a Pedro (Perugino, Capela Sistina) |
[1] No Consistório do dia 21 de fevereiro de 2001, o oitavo do seu pontificado, João Paulo II criou 42 novos Cardeais, além de divulgar os nomes de dois Purpurados criados in pectore em 1998.
[2] Durante a Missa, com efeito, foi entregue o anel aos novos Cardeais. Desde 2012, por sua vez, essa entrega tem lugar no próprio Consistório.
[3] Na Basílica Vaticana, sendo São Pedro o seu titular, a Festa da Cátedra é celebrada com o grau de Solenidade. Portanto, são proclamadas duas leituras antes do Evangelho, incluindo o texto citado pelo Papa (Ez 34,11-16).


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