Visita Pastoral
Homilia do Papa Leão XIV
Paróquia do Sagrado Coração de Jesus a Castro Pretorio (Roma)
Domingo, 22 de fevereiro de 2026
Foi celebrada a Missa do I Domingo da Quaresma (Ano A).
Caríssimos irmãos e irmãs,
Há alguns
dias, com o rito das Cinzas, demos início ao caminho quaresmal. A Quaresma
é um tempo litúrgico intenso, que nos oferece a ocasião de redescobrir a
riqueza do nosso Batismo, para viver como criaturas plenamente renovadas graças
à Encarnação, Morte e Ressurreição de Jesus.
A 1ª Leitura
e o Evangelho que ouvimos (Gn 2,7-9.3,1-7; Mt 4,1-11), em diálogo
entre si, ajudam-nos a redescobrir precisamente o dom do Batismo como graça que
encontra a nossa liberdade. A narração do Gênesis leva-nos à nossa
condição de criaturas, postas à prova não tanto por uma proibição, como muitas
vezes se pensa, mas por uma possibilidade: a possibilidade de uma relação. O
ser humano é livre para reconhecer e aceitar a alteridade do Criador, que
reconhece e aceita a alteridade das criaturas. Para impedir esta possibilidade,
a serpente insinua a presunção de poder anular todas as diferenças entre as
criaturas e o Criador, seduzindo o homem e a mulher com a ilusão de se tornarem
como Deus. Satanás os impele a apoderar-se de algo que - diz assim - Deus queria
negar-lhes para mantê-los sempre em condição de inferioridade. Este cenário do Gênesis
é uma obra-prima insuperável, que representa o drama da liberdade.
O Evangelho
parece responder ao antigo dilema: posso realizar a minha vida em plenitude,
dizendo “sim” a Deus? Ou, para ser livre e feliz, devo me libertar d’Ele?
No fundo, a
cena das tentações de Cristo aborda esta dramática interrogação. Leva-nos a
descobrir a verdadeira humanidade de Jesus que, como ensina a Constituição conciliar Gaudium
et spes, revela o homem a si mesmo: «O mistério do homem só se esclarece
verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado» (n. 22). Com efeito, vemos o
Filho de Deus que, opondo-se às insídias do antigo Adversário, nos mostra o
homem novo, o homem livre, epifania da liberdade que se realiza dizendo “sim” a
Deus.
Esta nova
humanidade nasce da fonte batismal. E então - especialmente neste Tempo da
Quaresma - somos chamados a redescobrir a graça do Batismo, como nascente de
vida que habita em nós e que, de maneira dinâmica, nos acompanha no mais
absoluto respeito pela nossa liberdade.
Em primeiro
lugar, o próprio Sacramento é dinâmico, porque o que oferece não se esgota no
âmbito do espaço e do tempo do rito, mas é uma graça que acompanha
constantemente toda a vida, sustentando o nosso seguimento de Cristo. Mas o
Batismo é dinâmico também porque nos coloca sempre de novo a caminho, uma vez
que a graça é uma voz interior que nos exorta a conformar-nos a Jesus,
libertando a nossa liberdade para que ela encontre o seu cumprimento no amor a
Deus e ao próximo.
Assim
compreendemos a natureza relacional do Batismo, que chama a viver a amizade com
Jesus e, deste modo, a entrar na sua comunhão com o Pai. Esta relação cheia de
graça torna-nos capazes de viver inclusive uma autêntica proximidade com os
outros, uma liberdade que - ao contrário do que o Diabo propõe a Jesus - não
consiste na busca do próprio poder, mas no amor que se oferece, tornando-nos
todos irmãos e irmãs. Sim, São Paulo afirma: «O que vale não é mais ser judeu
nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um
só, em Jesus Cristo» (Gl 3,28).
Irmãos e
irmãs, o Papa Leão XIII pediu a São João Bosco que edificasse
precisamente aqui a igreja onde hoje nos encontramos. Ele tinha intuído a
centralidade deste lugar, ao lado da Estação Termini, em uma singular
encruzilhada da cidade, destinado a se tornar ainda mais importante ao longo do
tempo.
Por isso,
caríssimos, encontrando-me hoje convosco, vejo em vós uma especial garantia de
proximidade, de vizinhança no contexto dos desafios deste território. Com
efeito, ele inclui numerosos jovens universitários, viajantes diários que vêm e
vão por motivos de trabalho, imigrantes em busca de emprego, jovens refugiados
que descobriram no centro aqui ao lado, por iniciativa dos salesianos, a
possibilidade de encontrar coetâneos italianos e realizar projetos de
integração; além disso, inclui os nossos irmãos que não têm casa e que
encontram hospitalidade nos espaços da Cáritas da via Marsala. Em
poucos metros é possível tocar as contradições deste tempo: a despreocupação de
quem chega e parte com todas as comodidades e aqueles que não têm um teto; as
muitas potencialidades de bem e uma violência que se alastra; a vontade de
trabalhar honestamente e o comércio ilícito de drogas e prostituição.
A vossa Paróquia
é chamada a enfrentar estas realidades, a ser fermento de Evangelho na massa do
território, tornando-se sinal de proximidade e caridade. Agradeço aos salesianos
o trabalho incansável que realizam cada dia e encorajo todos a continuar a ser
aqui uma pequena chama de luz e esperança.
Maria
Auxiliadora ampare sempre o nosso caminho, fortalecendo-nos nos momentos de
tentação e provação, para que possamos viver plenamente a liberdade e a
fraternidade dos filhos de Deus!
Fonte: Santa Sé.


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