Após as reflexões sobre os “encontros” e sobre as “parábolas” dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, o Papa concluiu a seção sobre a vida pública de Jesus com quatro meditações sobre as “curas”.
Confira nesta postagem as Catequeses sobre Bartimeu (Mc 10,46-52) e sobre o paralítico da Piscina de Betesda (Jo 5,1-9).
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 11 de junho de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.9. A vida de Jesus - As curas: Bartimeu (Mc 10,46-52)
Queridos irmãos e irmãs,
Com esta Catequese gostaria de orientar o nosso olhar para
outro aspecto essencial da vida de Jesus, isto é, as suas curas.
Por isso, vos convido a colocar diante do Coração de Cristo as vossas partes
mais dolorosas ou frágeis, aqueles lugares da vossa vida onde vos sentis
parados e bloqueados. Peçamos ao Senhor com confiança que ouça o nosso grito e
nos cure!
O personagem que nos acompanha nesta reflexão ajuda-nos a
compreender que nunca devemos abandonar a esperança, mesmo quando nos sentimos
perdidos. Trata-se de Bartimeu, um homem cego e mendigo, que Jesus encontrou em
Jericó (cf. Mc 10,46-52). O lugar é significativo:
Jesus está a caminho de Jerusalém, mas inicia a sua viagem, por assim dizer, a
partir do “submundo” de Jericó, uma cidade abaixo do nível do mar. Com efeito,
com a sua morte, Jesus foi recuperar aquele Adão que caiu e que representa cada
um de nós.
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| Jesus e Bartimeu, o cego de Jericó |
Bartimeu significa “filho de Timeu”: descreve esse homem
através de uma relação, mas ele está dramaticamente só. No entanto, este nome
poderia significar também “filho da honra”, ou “da admiração”, exatamente o
oposto da situação em que se encontra (é a interpretação dada também por Santo Agostinho
em O consenso dos evangelistas, 2, 65, 125: PL 34, 1138). E
dado que o nome é tão importante na cultura judaica, significa que Bartimeu não
consegue viver o que é chamado a ser.
Além disso, ao contrário do grande movimento de pessoas que
caminham atrás de Jesus, Bartimeu está parado. O evangelista diz que está
sentado à beira do caminho e, portanto, precisa de alguém que o levante e o
ajude a retomar a estrada.
O que podemos fazer quando nos encontramos em uma situação
que parece sem saída? Bartimeu nos ensina a apelar aos recursos que temos dentro
em nós e que fazem parte de nós. Ele é um mendigo, sabe pedir, aliás, pode
gritar! Se desejas realmente algo, fazes tudo para poder alcançá-lo, até quando
os outros te censuram, te humilham e te dizem para desistir. Se o desejas
realmente, continua a gritar!
O grito de Bartimeu, descrito no Evangelho de Marcos
- «Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!» (v. 47) -, tornou-se uma oração
bem conhecida na tradição oriental, que também nós podemos utilizar: «Senhor
Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador».
Bartimeu é cego, mas, paradoxalmente, vê melhor que os
outros e reconhece quem é Jesus! Perante o seu grito, Jesus se detém e manda
chamá-lo (v. 49), pois não há grito que Deus não ouça, mesmo quando não somos
conscientes de nos dirigirmos a Ele (cf. Ex 2,23).
Parece estranho que, diante de um homem cego, Jesus não vá imediatamente ter
com ele; mas, se pensamos bem, é o modo para reativar a vida de Bartimeu:
impele-o a levantar-se, confia na sua possibilidade de caminhar. Aquele homem
pode levantar novamente, pode ressurgir das suas situações de morte. Mas para
fazê-lo deve realizar um gesto muito significativo: deve abandonar o seu manto
(v. 50)!
Para um mendigo, o manto é tudo: é a segurança, é a casa, é
a defesa que o protege. Até a lei tutelava o manto do mendigo e impunha que
fosse devolvido à noite, se tivesse sido penhorado (cf. Ex 22,25).
No entanto, muitas vezes o que nos bloqueia são precisamente as nossas
aparentes seguranças, aquilo que vestimos para nos defender e que, pelo
contrário, nos impede de caminhar. Para ir ao encontro de Jesus e se deixar
curar, Bartimeu deve se expor a Ele em toda a sua vulnerabilidade. Este é o passo
fundamental para todo caminho de cura.
Até a pergunta que Jesus lhe dirige parece estranha: «Que
queres que Eu te faça?» (v. 51). Mas, na realidade, não é óbvio que queiramos
ser curados das nossas doenças, às vezes preferimos ficar parados para não
assumir responsabilidades. A resposta de Bartimeu é profunda: utiliza o
verbo anablepein, que pode significar “ver de novo”, mas que
poderíamos traduzir também como “elevar o olhar”. Com efeito, Bartimeu não só
quer voltar a ver, mas quer recuperar também a sua dignidade! Para elevar o
olhar é preciso levantar a cabeça. Às vezes as pessoas estão bloqueadas porque
a vida as humilhou e só desejam reencontrar o seu valor.
O que salva Bartimeu, e cada um de nós, é a fé. Jesus nos cura
para que possamos ser livres. Ele não convida Bartimeu a segui-lo, mas lhe diz
que ande, que se ponha novamente a caminho (v. 52). Marcos, porém, conclui o relato
indicando que Bartimeu começou a seguir Jesus: escolheu livremente seguir Aquele
que é o Caminho!
Caros irmãos e irmãs, levemos com confiança a Jesus as
nossas enfermidades, e também as dos nossos entes queridos; levemos a dor daqueles
que se sentem perdidos e sem saída. Gritemos também por eles, certos de que o
Senhor nos ouvirá e se deterá.
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 18 de junho de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
2.10. A vida de Jesus - As curas: O paralítico (Jo 5,1-9)
Queridos irmãos e irmãs,
Continuemos a contemplar Jesus que cura. Hoje gostaria de
vos convidar a pensar de modo particular nas situações em que nos sentimos
“bloqueados” e fechados em um “beco sem saída”. Com efeito, às vezes parece que
é inútil continuar a esperar: nos resignamos e já não temos vontade de lutar.
Esta situação é descrita nos Evangelhos com a imagem da paralisia. Por isso, hoje
gostaria de meditar sobre a cura de um paralítico, narrada no quinto capítulo
do Evangelho de João (Jo 5,1-9).
Jesus vai a Jerusalém para uma festa dos judeus. Não vai
imediatamente ao Templo; detém-se perto de uma porta, onde provavelmente se
lavavam as ovelhas que depois eram oferecidas nos sacrifícios. Perto daquela
porta paravam também muitos doentes que, ao contrário das ovelhas, eram
excluídos do Templo por serem considerados impuros! É o próprio Jesus então que
vai ao encontro deles na sua dor. Estas pessoas esperavam um milagre que
pudesse mudar o seu destino; com efeito, ao lado da porta havia uma piscina, cujas
águas eram consideradas taumatúrgicas, isto é, capazes de curar: em certos
momentos a água se agitava e, segundo a crença da época, o primeiro que mergulhasse
ficava curado.
Criava-se assim uma espécie de “guerra entre pobres”:
podemos imaginar a triste cena desses doentes que se arrastavam cansativamente
para entrar na piscina. Aquela piscina chamava-se Betesda (Betzatà), que
significa “casa da misericórdia”: poderia ser uma imagem da Igreja, onde se
reúnem os doentes e os pobres e onde o Senhor vem para curar e dar esperança.
Jesus se dirige especificamente a um homem que está
paralisado há trinta e oito anos. Já está resignado, porque nunca consegue mergulhar
na piscina quando a água se agita (v. 7). Com efeito, muitas vezes o que nos
paralisa é precisamente a desilusão. Sentimo-nos desanimados e corremos o risco
de cair na preguiça (acídia).
Jesus faz uma pergunta que pode parecer supérflua a esse
paralítico: «Queres ficar curado?» (v. 6). No entanto, é uma pergunta
necessária, pois quando se está bloqueado há tantos anos, pode faltar até a
vontade de se curar. Às vezes preferimos permanecer na condição de doentes,
obrigando os outros a cuidar de nós. É, por vezes, até um pretexto para não
decidir o que fazer da nossa vida. Jesus, ao contrário, reconduz esse homem ao
seu desejo mais verdadeiro e profundo.
O homem, com efeito, responde de maneira mais articulada à
pergunta de Jesus, revelando a sua visão da vida. Em primeiro lugar, diz que
não tem ninguém que o mergulhe na piscina: a culpa, portanto, não é dele, mas
dos outros que não cuidam dele. Esta atitude torna-se pretexto para evitar assumir
as próprias responsabilidades. Mas é realmente verdade que não havia ninguém
que o ajudasse? Eis a resposta iluminadora de Santo Agostinho: «Sim, para ser
curado tinha absolutamente necessidade de um homem, mas de um homem que também
fosse Deus... Portanto, chegou o homem que era necessário; por que continuar a
adiar a cura?» (Homilia 17, 7).
Depois o paralítico acrescenta que, quando tenta mergulhar
na piscina, há sempre alguém que chega antes dele. Este homem expressa uma
visão fatalista da vida. Pensamos que as coisas nos acontecem porque não temos
sorte, porque o destino nos é adverso. Este homem está desanimado. Sente-se
derrotado na luta da vida.
No entanto, Jesus o ajuda a descobrir que a sua vida também está
nas suas mãos. Convida-o a levantar-se, a sair da sua situação crônica e a
pegar a sua cama (v. 8). Aquele leito não deve ser abandonado ou jogado fora:
representa o seu passado de doença, é a sua história. Até aquele momento o
passado o bloqueou; obrigou-o a ficar deitado como um morto. Agora é ele que
pode pegar aquela cama e levá-la para onde quiser: pode decidir o que fazer com
a sua história! Trata-se de caminhar, assumindo a responsabilidade de escolher
que caminho seguir. E isto graças a Jesus!
Caríssimos irmãos e irmãs, peçamos ao Senhor o dom de
compreender onde a nossa vida se bloqueou. Procuremos dar voz ao nosso desejo
de cura. E rezemos por todos aqueles que se sentem paralisados, que não veem
uma saída. Peçamos para voltar a habitar no Coração de Cristo, que é a
verdadeira casa da misericórdia!
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| Jesus e o paralítico da Piscina de Betesda (Pedro de Orrente) |
Fonte: Santa Sé (11 de junho e 18 de junho de 2025).


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