segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Homilia do Papa João Paulo II: Apresentação do Senhor (2001)

Nesta Festa da Apresentação do Senhor repropomos a homilia proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, no dia 02 de fevereiro de 2001, durante a Missa celebrada pelo Cardeal Eduardo Martínez Somalo (†2021), Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica:

Festa da Apresentação do Senhor
V Dia Mundial da Vida Consagrada
Homilia do Papa João Paulo II
Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 02 de fevereiro de 2001

1.Vinde, Senhor, ao vosso templo santo” (Refrão do Salmo responsorial).
Com esta invocação, que cantamos no Salmo responsorial [1], a Igreja, no dia em que se comemora a Apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém, expressa o desejo de acolhê-lo também no presente da sua história. A Apresentação é uma festa litúrgica sugestiva, fixada desde a antiguidade quarenta dias depois do Natal, baseando-se no que prescrevia a Lei hebraica para o nascimento de todo primogênito (cf. Ex 13,2). Maria e José, como é narrado na passagem evangélica, foram seus fiéis cumpridores.

Tradições cristãs do Oriente e do Ocidente se entrelaçaram, enriquecendo a Liturgia desta festa com uma especial procissão, na qual a luz das velas é símbolo de Cristo, Luz verdadeira que veio iluminar o seu povo e todas as nações. Desta forma, a data de hoje se relaciona com o Natal e com a Epifania do Senhor. Mas, ao mesmo tempo, ela é uma ponte para a Páscoa, reevocando a profecia do velho Simeão, que naquela circunstância anunciou o dramático destino do Messias e da sua Mãe.


O evangelista recordou esse acontecimento detalhadamente: ao acolher Jesus no santuário de Jerusalém foram duas pessoas idosas, cheias de fé e do Espírito Santo, Simeão e Ana. Elas personificavam o “resto de Israel”, vigilante na expectativa e pronto a ir ao encontro do Senhor, como já haviam feito os pastores na noite do seu nascimento em Belém.

2. Na coleta da Liturgia de hoje pedimos que também nós possamos ser apresentados ao Senhor “com os corações purificados”, segundo o modelo de Jesus, Primogênito de muitos irmãos. De modo particular vós, religiosos, religiosas e leigos consagrados, sois chamados a participar neste mistério do Salvador. É um mistério de oblação, no qual se fundamentam indissoluvelmente a glória e a cruz, segundo o caráter pascal próprio da existência cristã. É mistério de luz e de sofrimento; mistério mariano, no qual à Mãe, abençoada juntamente com o Filho, é preanunciado o martírio da alma.

Podemos dizer que hoje se celebra em toda a Igreja um singular “ofertório”, no qual os homens e mulheres consagrados renovam espiritualmente o dom de si. Agindo assim ajudam as Comunidades eclesiais a crescer na dimensão oblativa que as constitui intimamente, as edifica e as estimula pelos caminhos do mundo.

Caríssimos irmãos e irmãs pertencentes a numerosas famílias de vida consagrada, que alegrais com a vossa presença a Basílica de São Pedro, vos saúdo com grande afeto. Saúdo, em particular, o Cardeal Eduardo Martínez Somalo, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, que preside a Celebração Eucarística de hoje.

3. Celebramos esta festa com o coração ainda repleto das emoções vividas no tempo jubilar que terminou há pouco. Retomamos o caminho deixando-nos guiar pelas palavras que Cristo dirigiu a Simão: “Duc in altum - Faz-te ao largo” (Lc 5,4). A Igreja espera também a vossa contribuição, caríssimos irmãos e irmãs consagrados, para percorrer este novo trecho de estrada conforme as orientações que delineei na Carta Apostólica Novo millennio ineunte: contemplar o rosto de Cristo, partir novamente d’Ele, testemunhar o seu amor. Este é um contributo que vós sois chamados a dar quotidianamente, antes de tudo com a fidelidade à vossa vocação de pessoas totalmente consagradas a Cristo.

O vosso primeiro empenho, portanto, não pode deixar de estar em sintonia com a contemplação. Toda realidade de vida consagrada nasce e se regenera todos os dias na incessante contemplação do rosto de Cristo. A própria Igreja haure o seu impulso do confronto quotidiano com a inexaurível beleza do rosto de Cristo, seu Esposo.

Se cada cristão é um fiel que contempla o rosto de Deus em Jesus Cristo, vós o sois de maneira especial. Por isso é necessário que não vos canseis de meditar as Sagradas Escrituras e, sobretudo, os santos Evangelhos, para que se imprimam em vós os traços do Verbo encarnado.

4. Partir novamente de Cristo, centro de todos projeto pessoal e comunitário: eis o empenho! Caríssimos, encontrai-o e contemplai-o de maneira totalmente especial na Eucaristia, celebrada e adorada todos os dias, como fonte e ápice da existência e da ação apostólica.

E caminhai com Cristo: eis o caminho da perfeição evangélica, a santidade a que todo batizado é chamado. E precisamente a santidade é um dos pontos essenciais - aliás, o primeiro - do programa que delineei para o início do novo milênio (cf. Novo millennio ineunte, nn. 30-31).

Ouvimos há pouco as palavras do velho Simeão: Cristo é “causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel... um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2,34-35). Como Ele, e na medida da conformação com Ele, também a pessoa consagrada se torna “sinal de contradição”; isto é, se torna, para os outros, estímulo saudável a tomar uma posição diante de Jesus, o qual - graças à mediação envolvente da “testemunha” -, não permanece um simples personagem histórico ou um ideal abstrato, mas se apresenta como pessoa viva à qual aderir sem hesitações.

Não vos parece este um serviço indispensável que a Igreja espera de vós nesta época marcada por profundas mudanças sociais e culturais? Só se perseverardes no seguimento fiel a Cristo sereis testemunhas credíveis do seu amor.

5.Luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel” (Lc 2,32). A vida consagrada é chamada a refletir de modo particular a luz de Cristo. Olhando para vós, caríssimos irmãos e irmãs, penso na multidão de homens e mulheres de todas as nações, línguas e culturas, consagrados a Cristo com os votos de pobreza, virgindade e obediência. Este pensamento me enche de consolação, porque vós sois como o “fermento” de esperança para a humanidade. Sois “sal” e “luz” para os homens e as mulheres de hoje, que no vosso testemunho podem entrever o Reino de Deus e o estilo das “Bem-aventuranças” evangélicas.

Como Simeão e Ana, tomai Jesus dos braços da sua Santíssima Mãe e, repletos de alegria pelo dom da vocação, levai-o a todos. Cristo é salvação e esperança para todo homem! Anunciai-o com a vossa existência dedicada totalmente ao Reino de Deus e à salvação do mundo. Proclamai-o com a fidelidade sem hesitações que, mesmo recentemente, levou ao martírio alguns irmãos e irmãs vossos em várias partes do mundo.

Sede luz e conforto para cada pessoa que encontrardes. Como velas acesas, ardei com o amor de Cristo. Consumi-vos por Ele, difundindo em toda a parte o Evangelho do seu amor. Graças ao vosso testemunho também os olhos de tantos homens e mulheres do nosso tempo poderão ver a salvação preparada por Deus “diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. Amém.

Apresentação do Senhor (Andrea Celesti)

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

Nota:
[1] Em português o refrão do Salmo é distinto: “O Rei da glória é o Senhor onipotente!” (Sl 23,10b).

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