Há cerca de 20 anos, no dia 01 de março de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) celebrou pela primeira vez no seu pontificado a Missa da Quarta-feira de Cinzas, dando início ao Tempo da Quaresma. Repropomos aqui sua homilia na ocasião:
Santa Missa, Bênção e Imposição das Cinzas
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de Santa Sabina
Quarta-feira, 01 de março de 2006
Senhores Cardeais,
Venerados irmãos no Episcopado e no Presbiterado,
Amados irmãos e irmãs!
A procissão
penitencial, com a qual iniciamos a celebração de hoje, ajudou-nos a entrar no
clima típico da Quaresma, que é uma peregrinação pessoal e comunitária de
conversão e de renovação espiritual. Segundo a antiquíssima tradição romana das estações quaresmais, durante este
tempo os fiéis, juntamente com os peregrinos, se reúnem todos os dias e param (statio) junto a uma das numerosas “memórias”
dos Mártires, que constituem os fundamentos da Igreja de Roma. Nas Basílicas,
onde são expostas as suas relíquias, é celebrada a Santa Missa precedida de uma
procissão, durante a qual se cantam as Ladainhas dos Santos. Faz-se memória assim
daqueles que deram testemunho de Cristo com o seu sangue, e a sua evocação
torna-se estímulo para cada cristão a renovar a própria adesão ao Evangelho. Apesar
do passar dos séculos, estes ritos conservam o seu valor, porque recordam como
é importante, mesmo no nosso tempo, acolher sem concessões as palavras de
Jesus: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia,
e siga-me” (Lc 9,23).
Outro rito
simbólico, gesto próprio e exclusivo do primeiro dia da Quaresma, é a imposição das cinzas. Qual é o seu significado mais profundo?
Certamente não se trata de mero ritualismo, mas de algo bastante profundo, que
toca o nosso coração. Esse gesto nos faz compreender a atualidade da exortação
do profeta Joel, que ressoou na 1ª leitura, exortação que conserva também para
nós a sua saudável validez: aos gestos exteriores deve sempre corresponder a
sinceridade da alma e a coerência das obras. Com efeito, pergunta o autor
inspirado, para que serve rasgar as vestes, se o coração permanece distante do
Senhor, isto é, do bem e da justiça? Eis aquilo que realmente conta: voltar
para Deus, com o coração sinceramente arrependido, para obter a sua
misericórdia (cf. Jl 2,12-18). Um coração renovado e um
espírito novo: é o que pedimos com o Salmo penitencial por excelência, o Miserere, que hoje cantamos com o refrão “Misericórdia,
ó Senhor, pois pecamos”. O verdadeiro fiel, consciente de ser pecador, aspira com
todo o seu ser - espírito, alma e corpo - ao perdão divino, como uma nova
criação, capaz de restituir-lhe alegria e esperança (cf. Sl 50,3.5.12.14).
Outro aspecto da
espiritualidade quaresmal é aquele que poderíamos definir “agonístico”, e
sobressai na oração “coleta” de hoje, onde se fala das “armas” da penitência e
do “combate” contra o espírito do mal. Todos os dias, mas sobretudo na
Quaresma, o cristão deve enfrentar uma luta, como a que Cristo empreendeu no
deserto da Judeia, onde durante quarenta dias foi tentado pelo diabo, e depois
no Getsêmani, quando rejeitou a extrema tentação aceitando totalmente a vontade
do Pai. Trata-se de uma batalha espiritual, que é dirigida contra o pecado e,
por fim, contra Satanás. É uma luta que envolve a pessoa inteira e requer uma
vigilância atenta e constante. Santo Agostinho observa que quem deseja caminhar
no amor de Deus e na sua misericórdia não pode contentar-se com a libertação
dos pecados graves e mortais, mas “pratica a verdade reconhecendo também os
pecados que se consideram menos graves... e vem à luz cumprindo obras dignas.
Também os pecados menos graves, se forem descuidados, proliferam e causam a
morte” (In Iohannis Evangelium 12, 13, 35).
A Quaresma nos recorda,
portanto, que a existência cristã é um combate incessante, no qual devem ser
utilizadas as “armas” da oração, do jejum e da penitência. Lutar contra o mal,
contra toda forma de egoísmo e de ódio e morrer para si mesmo para viver em
Deus é o itinerário ascético que todo discípulo de Jesus é chamado a percorrer
com humildade e paciência, com generosidade e perseverança. O dócil seguimento
do divino Mestre torna os cristãos testemunhas e apóstolos de paz. Poderíamos
dizer que esta atitude interior nos ajuda a evidenciar melhor também qual deve
ser a resposta cristã à violência que ameaça a paz no mundo. Certamente não é a
vingança, nem o ódio, nem mesmo a fuga em um falso espiritualismo. A resposta
de quem segue Cristo é, ao contrário, a de percorrer o caminho escolhido por
Aquele que, diante dos males do seu tempo e de todos os tempos, abraçou
decididamente a Cruz, seguindo o caminho mais longo, mas eficaz, do amor. Seguindo
seus passos e unidos a Ele, todos nós devemos nos comprometer a combater o mal
com o bem, a mentira com a verdade, o ódio com o amor. Na Encíclica Deus caritas est quis apresentar este amor como o
segredo da nossa conversão pessoal e eclesial. Reevocando as palavras de Paulo
aos coríntios: “O amor de Cristo nos impele” (2Cor 5,14), realcei como “a consciência de
que, n’Ele, o próprio Deus se entregou por nós até a morte deve nos induzir a
viver não mais para nós mesmos, mas para Ele e, com Ele, para os outros” (n.
33).
O amor, como
recorda Jesus no Evangelho de hoje, deve se traduzir em gestos concretos pelo
próximo, especialmente pelos pobres e necessitados, sempre subordinando o valor
das “boas obras” à sinceridade da relação com o “Pai que está nos céus",
que “vê o que está oculto” e “recompensará” os que fazem o bem de maneira
humilde e desinteressada (cf. Mt 6,1.4.6.18). A concretude do amor
constitui um dos elementos essenciais da vida dos cristãos, que são encorajados
por Jesus a serem luz do mundo, para que os homens, vendo as suas “boas obras”,
glorifiquem a Deus (cf. Mt 5,16). Esta recomendação chega até
nós ainda mais oportuna no início da Quaresma, porque compreendemos cada vez
mais que “para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de
assistência social... mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da
sua própria essência” (Deus
caritas est, n. 25, a). O
amor verdadeiro se traduz em gestos que não excluem ninguém, a exemplo do bom
Samaritano que, com grande abertura de alma, ajudou um desconhecido em
dificuldade, encontrado “por acaso” na beira da estrada (cf. Lc 10,30ss).
Senhores
Cardeais, venerados irmãos no Episcopado e no Presbiterado, queridos
religiosos, religiosas e fiéis leigos, a quem saúdo com profunda cordialidade,
entremos no clima típico deste período litúrgico com esses sentimentos,
deixando que a Palavra de Deus nos ilumine e nos guie. Na Quaresma sentiremos
ressoar com frequência o convite a converter-nos e a crer no Evangelho, e
seremos constantemente estimulados a abrir o espírito à força da graça divina.
Façamos tesouro dos ensinamentos que a Igreja nos oferecerá abundantemente
nestas semanas. Animados por um forte empenho de oração, decididos a um maior esforço
de penitência, de jejum e de atenção amorosa pelos irmãos, caminhemos rumo à
Páscoa, acompanhados pela Virgem Maria, Mãe da Igreja e modelo de todo
autêntico discípulo de Cristo.
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).
Observação: Na primeira imagem dessa postagem vemos que o Papa usa erroneamente a mitra ornada, sendo que na Quarta-feira de Cinzas é prescrita a mitra simples, isto é, inteiramente branca (cf. Cerimonial dos Bispos, n. 255).


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