Há 20 anos, no dia 02 de fevereiro de 2006, o Papa Bento XVI (†2022) presidiu pela primeira vez no seu pontificado a Missa da Festa da Apresentação do Senhor. Repropomos aqui sua homilia na ocasião:
Festa da Apresentação do Senhor
Dia Mundial da Vida Consagrada
Homilia do Papa Bento XVI
Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 02 de fevereiro de 2006
Queridos irmãos e irmãs,
A hodierna Festa da Apresentação de Jesus no Templo, quarenta dias depois do seu nascimento, põe
diante dos nossos olhos um momento particular da vida da Sagrada Família:
segundo a lei mosaica, o pequeno Jesus é levado por Maria e José ao Templo de
Jerusalém para ser oferecido ao Senhor (cf. Lc 2,22).
Simeão e Ana, inspirados por Deus, reconhecem naquele Menino o Messias tão
esperado e profetizam sobre Ele. Estamos na presença de um mistério, ao mesmo
tempo simples e solene, no qual a santa Igreja celebra Cristo, o Consagrado do
Pai, Primogênito da nova humanidade.
A sugestiva procissão das velas no início da nossa celebração nos fez reviver a majestosa entrada, cantada no Salmo responsorial, d’Aquele que é «o Rei da glória», «o poderoso nas batalhas» (Sl 23,7-8). Mas quem é o Deus poderoso que entra no Templo? É um Menino; é o Menino Jesus, nos braços da sua Mãe, a Virgem Maria. A Sagrada Família cumpre tudo o que a Lei prescrevia: a purificação da mãe, a oferta do primogênito a Deus e o seu resgate através de um sacrifício. Na 1ª leitura (Ml 3,1-4) a Liturgia fala do oráculo do profeta Malaquias: «Logo chegará ao seu templo o Dominador» (v. 1). Estas palavras comunicam toda a intensidade do desejo que animou a expectativa por parte do povo hebreu ao longo dos séculos. Entra finalmente na sua casa «o anjo da aliança» (ibid.) e se submete à Lei: vai a Jerusalém para entrar, em atitude de obediência, na casa de Deus.
O significado
desse gesto adquire uma perspectiva mais ampla no trecho da Carta aos
Hebreus proclamado hoje como 2ª leitura (Hb 2,14-18). Nele nos é apresentado
Cristo, o mediador que une Deus e o homem abolindo as distâncias, eliminando toda
divisão e abatendo todo muro de separação. Cristo vem como novo «sumo sacerdote
misericordioso e digno de confiança nas coisas referentes a Deus, a fim de
expiar os pecados do povo» (v. 17). Vemos assim que a mediação com Deus não se
realiza mais na santidade-separação do sacerdócio antigo, mas na solidariedade
libertadora com os homens. Ele inicia, ainda Menino, a andar pelo caminho da
obediência, que percorrerá até o fim. A Carta aos Hebreus ressalta bem
isso quando diz: «Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e
súplicas... Àquele que era capaz de salvá-lo da morte... Mesmo sendo Filho,
aprendeu o que significa a obediência a Deus por aquilo que sofreu. Mas, na
consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que
lhe obedecem» (Hb 5,7-9).
A primeira
pessoa que se associa a Cristo no caminho da obediência, da fé provada e da dor
partilhada é a sua Mãe, Maria. O texto evangélico a apresenta no gesto de
oferecer o Filho, uma oferta incondicional que a envolve em primeira pessoa:
Maria é Mãe d’Aquele que é «glória do seu povo, Israel» e «luz para iluminar as
nações», mas também «sinal de contradição» (cf. Lc 2,32.34).
E ela mesma, na sua alma imaculada, deverá ser transpassada pela espada da dor,
mostrando assim que o seu papel na história da salvação não termina no mistério
da Encarnação, mas se completa na amorosa e dolorosa participação na Morte e na
Ressurreição do seu Filho. Levando o Filho a Jerusalém, a Virgem Mãe oferece-o
a Deus como verdadeiro Cordeiro que tira o pecado do mundo; entrega-o a Simeão
e a Ana como anúncio de redenção; apresenta-o a todos como luz para um caminho
seguro pela via da verdade e do amor.
As palavras que
neste encontro afloram nos lábios do velho Simeão - «Meus olhos viram a tua
salvação» (Lc 2,30) - encontram eco no coração da profetisa Ana.
Estas pessoas justas e piedosas, envolvidas pela luz de Cristo, podem
contemplar no Menino Jesus «a consolação de Israel» (v. 25). A sua expectativa
se transforma assim em luz que ilumina a história. Simeão é portador de uma
antiga esperança e o Espírito do Senhor fala ao seu coração: por isso pode
contemplar Aquele que muitos profetas e reis desejaram ver - Cristo, luz que
ilumina as nações. Naquele Menino reconhece o Salvador, mas intui no Espírito
que ao redor d’Ele se jogará o destino da humanidade, e que deverá sofrer muito
por parte daqueles que o rejeitarão; proclama sua identidade e missão de
Messias com as palavras que formam um dos hinos da Igreja nascente, do qual
irradia toda a exultação comunitária e escatológica da expectativa salvífica
realizada. O entusiasmo é tão grande que viver e morrer são a mesma coisa, e a
«luz» e a «glória» se tornam uma revelação universal. Ana é «profetisa», mulher
sábia e piedosa que interpreta o sentido profundo dos acontecimentos históricos
e da mensagem de Deus escondido neles. Por isso pode «louvar a Deus» e «falar
do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém» (v. 38). A
prolongada viuvez dedicada ao culto no Templo, a fidelidade aos jejuns
semanais, a participação na expectativa daqueles que aspiravam o resgate de
Israel se concluem no encontro com o Menino Jesus.
Queridos irmãos
e irmãs, nesta Festa da Apresentação do Senhor a Igreja celebra o Dia da Vida
Consagrada. Trata-se de uma ocasião oportuna para louvar o Senhor e
agradecer-lhe pelo dom inestimável que a vida consagrada representa nas suas diversas
formas; é, ao mesmo tempo, um estímulo a promover em todo o Povo de Deus o
conhecimento e a estima por quem se consagrou totalmente a Deus. Com efeito,
como a vida de Jesus, na sua obediência e dedicação ao Pai, é parábola viva do
«Deus conosco», também a dedicação concreta das pessoas consagradas a Deus e
aos irmãos se torna sinal eloquente da presença do Reino de Deus para o mundo
de hoje. O vosso modo de viver e de trabalhar é capaz de manifestar sem
atenuações a plena pertença ao único Senhor; a vossa entrega total nas mãos de
Cristo e da Igreja é um anúncio forte e claro da presença de Deus em uma
linguagem compreensível para os nossos contemporâneos. É este o primeiro
serviço que a vida consagrada presta à Igreja e ao mundo. No meio do Povo de
Deus eles são como sentinelas que manifestam e anunciam a vida nova já presente
na nossa história.
Dirijo-me agora
de modo especial a vós, queridos irmãos e irmãs que abraçastes a vocação de
especial consagração, para vos saudar com afeto e agradecer de coração a vossa
presença. Dirijo uma saudação especial a Dom Franc Rodé, Prefeito da
Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida
Apostólica [1], e aos seus colaboradores, que concelebram comigo esta Missa. O
Senhor renove todos os dias em vós e em todas as pessoas consagradas a resposta
jubilosa ao seu amor gratuito e fiel. Queridos irmãos e irmãs, como velas acesas,
irradiai sempre e em toda parte o amor de Cristo, luz do mundo. Maria
Santíssima, a Mulher consagrada, vos ajude a viver plenamente esta vossa
especial vocação e missão na Igreja para a salvação do mundo. Amém!
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| Apresentação do Senhor (Francisco Rizi) |
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).
Nota:
[1] Franc Rodé seria criado Cardeal no Consistório de 24 de março de 2006. Exerceu o ofício de Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica de 2004 a 2011, quando renunciou por limite de idade.


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