À medida que nos aproximamos do Tríduo Pascal, coração do Ano Litúrgico, damos continuidade à publicação das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”.
Confira nesta postagem as primeiras duas Catequeses sobre a Páscoa de Jesus: a preparação da Ceia (Mc 14,12-16) e a traição (Mc 14,18-21).
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 06 de agosto de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.1. A Páscoa de Jesus: A preparação da ceia (Mc 14,12-16)
Queridos irmãos e irmãs,
Continuemos nosso caminho jubilar à descoberta do rosto de
Cristo, no qual nossa esperança adquire toma e consistência. Hoje começamos a
refletir sobre o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Comecemos
meditando sobre uma palavra que parece simples, mas que guarda um segredo
precioso da vida cristã: preparar.
O Evangelho de Marcos narra que «no primeiro dia dos
Ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos disseram a Jesus:
“Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?”» (Mc 14,12).
É uma pergunta prática, mas também cheia de expectativa. Os discípulos intuem
que está para acontecer algo importante, mas não conhecem os detalhes. A
resposta de Jesus parece quase um enigma: «Ide à cidade. Um homem carregando um
jarro de água virá ao vosso encontro» (v. 13). Os detalhes tornam-se simbólicos:
um homem que carrega um jarro - gesto normalmente feminino naquela época -, uma
sala no andar de cima já pronta, um dono de casa desconhecido. É como se cada
coisa tivesse sido predisposta com antecedência. Com efeito, é exatamente
assim. Nesse episódio o Evangelho nos revela que o amor não é fruto do acaso,
mas de uma escolha consciente. Não se trata de uma simples reação, mas de uma
decisão que requer preparação. Jesus não enfrenta a sua Paixão por fatalidade,
mas por fidelidade a um caminho acolhido e percorrido com liberdade e cuidado.
É isso que nos consola: saber que o dom da sua vida brota de uma intenção
profunda, não de um impulso repentino.
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| Última Ceia (Nicolas Poussin) |
Aquela “sala no andar de cima já pronta” nos diz que Deus
nos precede sempre. Antes ainda de nos darmos conta de que precisamos de acolhida,
o Senhor já preparou para nós um espaço onde nos reconhecermos e nos sentirmos
seus amigos. No fundo, esse lugar é o nosso coração: uma “sala” que pode
parecer vazia, mas que só espera ser reconhecida, preenchida e cuidada. Na
realidade, a Páscoa que os discípulos devem preparar já está pronta no coração
de Jesus. Foi Ele que pensou em tudo, dispôs tudo, decidiu tudo. No entanto,
pede aos seus amigos que façam a sua parte. Isto nos ensina algo essencial para
a nossa vida espiritual: a graça não elimina a nossa liberdade, mas a desperta.
O dom de Deus não anula a nossa responsabilidade, mas a torna fecunda.
Também hoje, como então, há uma ceia a preparar. Não se
trata unicamente da Liturgia, mas da nossa disponibilidade a acolher um gesto
que nos supera. A Eucaristia não se celebra apenas no altar, mas também no dia
a dia, onde é possível viver cada coisa como oferta e ação de graças.
Preparar-se para celebrar esta ação de graças não significa fazer mais, mas
deixar espaço. Significa eliminar o que atrapalha, diminuir as pretensões,
deixar de cultivar expectativas irreais. Muitas vezes, com efeito, confundimos
os preparativos com as ilusões. As ilusões nos distraem, os preparativos nos orientam.
As ilusões buscam um resultado, os preparativos tornam possível um encontro. O
amor verdadeiro, como nos recorda o Evangelho, se dá antes ainda de ser
correspondido. É um dom antecipado. Não se fundamenta no que recebe, mas no que
deseja oferecer. Foi o que Jesus viveu com os seus: enquanto eles ainda não
compreendiam, enquanto um deles estava prestes a traí-lo e outro a renegá-lo,
Ele preparava para todos uma ceia de comunhão.
Caros irmãos e irmãs, também nós somos convidados a
“preparar a Páscoa” do Senhor. Não só aquela litúrgica: também aquela da nossa
vida. Cada gesto de disponibilidade, cada ato gratuito, cada perdão oferecido
antecipadamente, cada dificuldade acolhida com paciência é um modo de preparar
um lugar onde Deus pode habitar. Podemos, então, nos perguntar: que espaços da
minha vida devo reordenar para que estejam prontos para acolher o Senhor? O que
significa para mim, hoje, “preparar”? Talvez renunciar a uma pretensão, deixar
de esperar que o outro mude, dar o primeiro passo. Talvez ouvir mais, agir
menos ou aprender a confiar naquilo que já foi predisposto.
Se aceitarmos o convite a preparar o lugar da comunhão com
Deus e entre nós descobriremos que estamos rodeados de sinais, encontros e
palavras que nos orientam para aquela sala, espaçosa e já pronta, onde se
celebra incessantemente o mistério de um amor infinito, que nos sustenta e
sempre nos precede. Que o Senhor nos conceda ser humildes preparadores da sua
presença. E, nessa disponibilidade diária, também cresça em nós aquela
confiança serena que nos permite enfrentar tudo com o coração livre. Porque
onde foi preparado o amor, a vida pode realmente florescer!
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 13 de agosto de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.2. A Páscoa de Jesus: A traição (Mc 14,18-21)
Queridos irmãos e irmãs,
Continuemos o nosso caminho na escola do Evangelho, seguindo
os passos de Jesus nos últimos dias da sua vida. Hoje meditamos sobre uma cena
íntima, dramática, mas também profundamente verdadeira: o momento em que,
durante a ceia pascal, Jesus revela que um dos Doze está prestes a traí-lo: «Em
verdade vos digo, um de vós, que come comigo, vai me trair» (Mc 14,18).
Palavras fortes! Jesus não as pronuncia para condenar, mas
para demonstrar que o amor, quando é verdadeiro, não pode prescindir da
verdade. A sala no andar de cima, onde pouco antes tudo tinha sido preparado
com cuidado, repentinamente se enche de uma dor silenciosa, feita de perguntas,
de suspeitas, de vulnerabilidade. É uma dor que nós também conhecemos bem,
quando nas relações mais queridas se insinua a sombra da traição.
No entanto, o modo como Jesus fala sobre o que está prestes
a acontecer é surpreendente. Não levanta a voz, não aponta o dedo, não
pronuncia o nome de Judas. Fala de modo que cada um possa se questionar. E é precisamente
o que acontece. São Marcos nos diz: «Começaram a ficar tristes e perguntaram a
Jesus, um após outro: “Acaso serei eu?”» (Mc 14,19).
Queridos amigos, esta pergunta - “Acaso serei eu?” - é,
talvez, uma das mais sinceras que podemos dirigir a nós mesmos. Não é a
pergunta do inocente, mas do discípulo que se descobre frágil. Não é o clamor
do culpado, mas o sussurro de quem, embora deseje amar, sabe que pode ferir. É
a partir dessa consciência que começa o caminho da salvação.
Jesus não denuncia para humilhar. Diz a verdade porque quer
salvar. E para sermos salvos é preciso sentir: sentir que estamos envolvidos;
sentir que, apesar de tudo, somos amados; sentir que o mal é real, mas não tem
a última palavra. Só quem conheceu a verdade de um amor profundo pode aceitar
inclusive a ferida da traição.
A reação dos discípulos não é raiva, mas tristeza. Não se
indignam: se entristecem. É uma dor que nasce da possibilidade real de estar
envolvidos. E precisamente esta tristeza, se acolhida com sinceridade, se torna
lugar de conversão. O Evangelho não nos ensina a negar o mal, mas a
reconhecê-lo como dolorosa ocasião para renascer.
Jesus, em seguida, acrescenta uma frase que nos inquieta e
nos faz pensar: «Ai daquele que trair o Filho do Homem! Melhor seria que nunca
tivesse nascido!» (Mc 14,21). São certamente palavras duras, mas
devem ser bem compreendidas: não se trata de uma maldição, mas sim de um grito
de dor. Em grego esse “ai daquele” soa como uma lamentação, um “ai de mim”, uma
exclamação de compaixão sincera e profunda.
Nós estamos habituados a julgar. Deus, ao contrário, aceita
sofrer. Quando vê o mal, não se vinga, mas se entristece. E aquele “melhor seria
que nunca tivesse nascido” não é uma condenação infligida a priori, mas
uma verdade que cada um de nós pode reconhecer: se renegarmos o amor que nos
gerou, se trairmos, nos tornando infiéis a nós próprios, então realmente
perderemos o sentido da nossa vinda ao mundo e nos autoexcluiremos da salvação.
No entanto, precisamente ali, no ponto mais escuro, a luz
não se apaga. Antes, começa a brilhar. Porque se reconhecermos o nosso limite,
se nos deixarmos tocar pela dor de Cristo, então poderemos finalmente renascer.
A fé não nos exime da possibilidade do pecado, mas nos oferece sempre uma
saída: a da misericórdia!
Jesus não se escandaliza diante da nossa fragilidade. Ele sabe
bem que nenhuma amizade é imune ao risco da traição. Mas Jesus continua a
confiar. Continua a sentar-se à mesa com os seus. Não renuncia a partir o pão
até para quem o trairá. Essa é a força silenciosa de Deus: nunca abandona a
mesa do amor, nem mesmo quando sabe que será deixado sozinho.
Caros irmãos e irmãs, também nós podemos nos perguntar hoje,
com sinceridade: “Acaso serei eu?”. Não para nos sentirmos acusados, mas para
abrir um espaço à verdade no nosso coração. A salvação começa aqui: da
consciência de que podemos ser nós a quebrar a confiança em Deus, mas que
também podemos ser nós a acolhê-la, a preservá-la, a renová-la.
No fundo, essa é a esperança: saber que, embora possamos
fracassar, Deus nunca falha. Ainda que possamos trair, Ele não se cansa de nos
amar. E se nos deixarmos alcançar por este amor - humilde, ferido, mas sempre
fiel -, então poderemos realmente renascer. E começar a viver não mais como
traidores, mas como filhos sempre amados.
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| Última Ceia (Leonardo Da Vinci) A obra retrata o momento em que Jesus anuncia a traição |
Fonte: Santa Sé (06 de agosto e 13 de agosto de 2025).
Confira também as demais Catequeses sobre a Páscoa de Jesus a serem publicadas:
3. O perdão / 4. A entrega (18 de março)
5. A crucificação / 6. A Morte (25 de março)
7. O sepulcro / 8. A descida (01 de abril)
9. A Ressurreição / 10. Reacender (15 de abril)


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