Confira nesta postagem as duas reflexões “centrais” da seção sobre a Páscoa de Jesus dentro das Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”: a crucificação (Jo 19,28-30) e a Morte do Senhor (Mc 15,33-39).
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 03 de setembro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.5. A Páscoa de Jesus: A crucificação (Jo 19,28-30)
Queridos irmãos e irmãs,
No coração do relato da Paixão, no momento mais luminoso e
ao mesmo tempo mais tenebroso da vida de Jesus, o Evangelho de João nos entrega
duas palavras que encerram um mistério imenso: «Tenho sede» (Jo 19,28),
e logo em seguida: «Tudo está consumado» (v. 30). Palavras últimas, mas
carregadas de uma vida inteira, que revelam o sentido de toda a existência do
Filho de Deus. Na cruz, Jesus não aparece como um herói vitorioso, mas como um
mendigo de amor. Não proclama, não condena, não se defende. Pede, humildemente,
aquilo que sozinho não pode de modo algum dar a si mesmo.
A sede do Crucificado não é apenas a necessidade fisiológica
de um corpo destroçado. É também, e sobretudo, expressão de um desejo profundo:
o desejo de amor, de relação, de comunhão. É o grito silencioso de um Deus que,
tendo desejado partilhar tudo da nossa condição humana, se deixa atravessar
também por esta sede. Um Deus que não se envergonha de mendigar um gole de água,
porque nesse gesto nos diz que o amor, para ser verdadeiro, também deve
aprender a pedir e não apenas a dar.
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| Crucificação (Frans Francken II) |
«Tenho sede», diz Jesus, e assim manifesta a sua
humanidade e também a nossa. Nenhum de nós pode bastar a si mesmo. Ninguém pode
se salvar sozinho. A vida se “realiza” não quando somos fortes, mas quando
aprendemos a receber. E precisamente nesse momento, depois de ter recebido de
mãos estranhas uma esponja embebida em vinagre, Jesus proclama: «Está
consumado». O amor se fez necessitado e, precisamente por isso, completou a
sua obra.
Este é o paradoxo cristão: Deus não salva fazendo, mas
deixando-se fazer. Não vencendo o mal com a força, mas aceitando até o fim a
fraqueza do amor. Na cruz, Jesus nos ensina que o homem não se realiza no
poder, mas na abertura confiante ao outro, mesmo quando este nos é hostil e
inimigo. A salvação não está na autonomia, mas em reconhecer com humildade a
própria necessidade e em saber expressá-la livremente.
A realização da nossa humanidade no desígnio de Deus não é
um ato de força, mas um gesto de confiança. Jesus não salva com um gesto
clamoroso, mas pedindo algo que sozinho não pode se dar. E aqui se abre uma
porta para a verdadeira esperança: se até o Filho de Deus escolheu não ser
suficiente a si mesmo, então também a nossa sede - de amor, de sentido, de
justiça - não é um sinal de fracasso, mas de verdade.
Essa verdade, aparentemente tão simples, é difícil de
acolher. Vivemos em uma época que premia a autossuficiência, a eficiência, o
desempenho. No entanto, o Evangelho nos mostra que a medida da nossa humanidade
não é dada pelo que podemos conquistar, mas pela capacidade de nos deixarmos
amar e, quando necessário, também ajudar.
Jesus nos salva mostrando-nos que pedir não é indigno, mas
libertador. É o caminho para sair do escondimento do pecado, para reentrar no
espaço da comunhão. Desde o princípio o pecado gerou vergonha (cf. Gn
3). Mas o perdão, o verdadeiro perdão, nasce quando podemos olhar de frente
para a nossa necessidade e já não temer ser rejeitados.
A sede de Jesus na cruz, portanto, é também a nossa. É o
grito da humanidade ferida que continua buscando água viva. E esta sede não nos
afasta de Deus, mas nos une a Ele. Se tivermos a coragem de reconhecê-la,
podemos descobrir que também a nossa fragilidade é uma ponte para o céu. Precisamente
no pedir - não no possuir - se abre um caminho de liberdade, porque deixamos de
pretender ser suficientes a nós mesmos.
Na fraternidade, na vida simples, na arte de pedir sem
vergonha e de oferecer sem cálculos, se esconde uma alegria que o mundo não
conhece. Uma alegria que nos restitui à verdade original do nosso ser: somos
criaturas feitas para dar e receber amor.
Queridos irmãos e irmãs, na sede de Cristo podemos
reconhecer toda a nossa sede. E aprender que não há nada mais humano, nada mais
divino, do que saber dizer: eu preciso... Não tenhamos medo de
pedir, sobretudo quando nos parece que não o merecemos. Não nos envergonhemos
de estender a mão. É precisamente ali, nesse gesto humilde, que se esconde a
salvação.
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 10 de setembro de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.6. A Páscoa de Jesus: A Morte (Mc 15,33-39)
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje contemplamos o ápice da vida de Jesus neste mundo: a
sua Morte na cruz. Os Evangelhos recolhem um detalhe muito precioso, que merece
ser contemplado com a inteligência da fé. Na cruz, Jesus não morre em silêncio.
Não se apaga lentamente, como uma luz que se consome, mas deixa a vida com um
grito: «Jesus deu um forte grito e expirou» (Mc 15,37).
Esse grito encerra tudo: dor, abandono, fé, oferta. Não é apenas a voz de um
corpo que cede, mas o último sinal de uma vida que se entrega.
O grito de Jesus é precedido por uma pergunta, uma das mais
dilacerantes que poderiam ser pronunciadas: «Meu Deus, meu Deus, por
que me abandonaste?» (v. 34). É o primeiro versículo do Salmo 21 (22),
que nos lábios de Jesus adquire um peso único. O Filho, que sempre viveu em
íntima comunhão com o Pai, experimenta agora o silêncio, a ausência, o abismo.
Não se trata de uma crise de fé, mas da última etapa de um amor que se doa até
o fim. O grito de Jesus não é desespero, mas sinceridade, verdade levada ao limite,
confiança que resiste até quando tudo se cala.
Naquele momento, o céu se escurece e o véu do templo se rasga
(cf. Mc 15,33.38). É como se a própria criação
participasse dessa dor e, ao mesmo tempo, revelasse algo novo: Deus já não
habita atrás de um véu, agora o seu rosto é plenamente visível no Crucificado.
É ali, naquele homem destroçado, que se manifesta o amor maior. É ali que
podemos reconhecer um Deus que não permanece distante, mas atravessa a nossa
dor até o fim.
O centurião, um pagão, o compreende. Não porque ouviu um
discurso, mas porque viu Jesus morrer daquela maneira: «Na verdade este
homem era o Filho de Deus!» (Mc 15,39). É a primeira profissão
de fé depois da Morte de Jesus. É o fruto de um grito que não se dispersou no
vento, mas tocou um coração. Às vezes, o que não conseguimos dizer com palavras
o expressamos com a voz. Quando o coração está cheio, grita. E isso nem sempre é
um sinal de fraqueza: pode ser um ato profundo de humanidade.
Estamos habituados a pensar no grito como algo
descontrolado, a ser reprimido. O Evangelho confere ao nosso grito um valor
imenso, recordando-nos que pode ser invocação, protesto, desejo, entrega. Pode
ser até mesmo a forma extrema da oração, quando já não nos restam palavras.
Naquele grito, Jesus colocou tudo o que lhe restava: todo o seu amor, toda a
sua esperança!
Sim, porque também isso está presente no grito: uma
esperança que não se resigna. Gritamos quando acreditamos que alguém ainda pode
ouvir. Gritamos não por desespero, mas por desejo. Jesus não gritou contra o
Pai, mas para Ele. Mesmo no silêncio, estava convencido de que
o Pai estava ali. E assim nos mostrou que a nossa esperança pode gritar, até
quando tudo parece perdido.
Gritar, então, se torna um gesto espiritual. Não é apenas o
primeiro ato do nosso nascimento - quando viemos ao mundo chorando -, mas é
também uma maneira de permanecermos vivos. Gritamos quando sofremos, mas também
quando amamos, chamamos, invocamos. Gritar é dizer que estamos aqui, que não
queremos nos apagar no silêncio, que ainda temos algo a oferecer.
No caminho da vida há momentos em que guardar tudo dentro de
si pode nos consumir lentamente. Jesus nos ensina a não ter medo do grito,
desde que seja sincero, humilde, orientado para o Pai. O grito nunca é inútil,
se nasce do amor. E nunca é ignorado, se for oferecido a Deus. É um modo de não
ceder ao cinismo, de continuar a acreditar que outro mundo é possível.
Amados irmãos e irmãs, aprendamos também isso do Senhor
Jesus: aprendamos o grito da esperança quando chega a hora da provação extrema.
Não para ferir, mas para nos confiarmos. Não para berrar contra alguém, mas
para abrir o coração. Se o nosso grito for verdadeiro, poderá ser o limiar de
uma nova luz, de um novo nascimento. Como para Jesus: quando tudo parecia
acabado, na realidade a salvação estava prestes a começar. Se for manifestada
com a confiança e a liberdade dos filhos de Deus, a voz sofrida da nossa
humanidade, unida à voz de Cristo, pode se tornar fonte de esperança, para nós
e para quem estiver ao nosso lado.
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| Crucificação (Anthony van Dyck) |
Fonte: Santa Sé (03 de setembro e 10 de setembro de 2025).

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