segunda-feira, 30 de março de 2026

Catequese do Papa João Paulo II: Semana Santa (2001)

Nesta Semana Santa recordamos a Catequese proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, no dia 11 de abril de 2001, Quarta-feira da Semana Santa, intitulada: No coração do Tríduo Pascal, o mistério de um amor sem limites.

João Paulo II
Audiência Geral
Quarta-feira, 11 de abril de 2001
No coração do Tríduo Pascal, o mistério de um amor sem limites

Queridos irmãos e irmãs,
1. Estamos às vésperas do Tríduo Pascal, já imersos no clima espiritual da Semana Santa. De amanhã a domingo viveremos os dias centrais da Liturgia, que nos repropõem o mistério da Paixão, da Morte e da Ressurreição do Senhor. Nas suas homilias, os Padres fazem muitas vezes referência a estes dias que, como observa Santo Atanásio, nos introduzem «naquele tempo que nos leva e nos faz conhecer um novo início, o dia da santa Páscoa, na qual o Senhor se imolou». Ele descreve assim o período que estamos vivendo nas suas Cartas pascais (Carta 5, 1-2; PG 26, 1379). No próximo domingo o Prefácio pascal nos fará cantar com grande vigor que Cristo «ressurgindo, restaurou a vida».


No coração desse Tríduo sagrado está o mistério de um amor sem limites, isto é, o mistério de Jesus que «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim» (Jo 13,1). Propus novamente este impressionante e doce mistério aos sacerdotes na Carta que, como todos os anos, lhes enviei por ocasião da Quinta-feira Santa.

Convido também vós a refletir sobre esse mesmo amor para vos predispor dignamente a reviver as últimas etapas da vida terrena de Jesus. Amanhã entraremos no Cenáculo para acolher o dom extraordinário da Eucaristia, do Sacerdócio e do Mandamento novo. Repercorreremos na Sexta-feira Santa o caminho doloroso que leva ao Calvário, onde Cristo consumará o seu sacrifício. No Sábado Santo esperaremos em silêncio o início da solene Vigília Pascal.

2. «Amou-os até o fim». Estas palavras do evangelista João exprimem e definem de maneira peculiar a Liturgia de amanhã, Quinta-feira Santa, que se concentra na celebração da Missa Crismal pela manhã e da Missa vespertina da Ceia do Senhor (in Cena Domini), que abre o Tríduo sagrado.

A Eucaristia é sinal eloquente desse amor total, livre e gratuito, e oferece a cada um de nós a alegria da presença d’Aquele que também nos torna capazes de amar, como Ele, «até o fim». É um amor exigente, aquele que Jesus propõe aos seus discípulos.

Neste nosso encontro ouvimos novamente o eco desse amor nas palavras do evangelista Mateus: «Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus» (Mt 5,11-12). Também hoje amar «até o fim» significa estar preparados para aceitar cansaços e dificuldades em nome de Cristo. Significa não ter medo de insultos e de perseguições, e estar preparados a «amar os nossos inimigos e rezar por aqueles que nos perseguem» (cf. Mt 5,44). Tudo isso é dom de Cristo, que se ofereceu a si mesmo por todo homem como vítima sacrifical no altar da Cruz.

3. «Amou-os até o fim». Do Cenáculo ao Gólgota: a nossa reflexão nos conduz ao Calvário, onde contemplamos um amor cujo cumprimento total é o dom da vida. A Cruz é sinal claro desse mistério, mas ao mesmo tempo, precisamente por isso, torna-se um símbolo que questiona e inquieta as consciências. Quando, na próxima Sexta-feira, celebrarmos a Paixão do Senhor e participarmos da Via Sacra, não podemos nos esquecer da força desse amor que se doa sem medidas.

Na Carta Apostólica na conclusão do Grande Jubileu do Ano 2000 escrevi: «A contemplação do rosto de Cristo trouxe-nos até o aspecto mais paradoxal do seu mistério, que se manifesta na hora extrema, a hora da Cruz. Mistério no mistério, diante do qual o ser humano pode apenas prostrar-se em adoração» (Novo millennio ineunte, n. 25). É esta a atitude interior mais adequada para nos prepararmos para viver o dia em que comemoramos a Paixão, a Crucificação e a Morte de Cristo.

4. «Amou-os até o fim». Sacrificado por nós na Cruz, Jesus ressuscita e se torna primícias da nova criação. Passaremos o Sábado Santo em silenciosa espera do encontro com o Ressuscitado, meditando as palavras do Apóstolo Paulo: «Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado; ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras» (1Cor 15,3-4). Assim, poderemos nos preparar melhor para a solene Vigília Pascal, quando irromperá no meio da noite a resplandecente luz de Cristo Ressuscitado.

Nesta última etapa do caminho penitencial nos acompanhe Maria, a Virgem que permaneceu sempre fiel junto ao Filho, sobretudo nos dias da Paixão. Que ela nos ensine a amar «até o fim» seguindo o exemplo de Jesus, que com a sua Morte e a sua Ressurreição salvou o mundo.

Crucificação
(Anthony Van Dyck)

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

Sobre o simbolismo do “rosto” de Cristo, mencionado pelo Papa em sua Catequese, confira nossa postagem sobre a história da devoção à Santa Face de Jesus.

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