Nesta Semana Santa recordamos a Catequese proferida pelo Papa São João Paulo II (†2005) há 25 anos, no dia 11 de abril de 2001, Quarta-feira da Semana Santa, intitulada: “No coração do Tríduo Pascal, o mistério de um amor sem limites”.
João Paulo II
Audiência Geral
Quarta-feira, 11 de abril de 2001
No coração do Tríduo Pascal, o mistério de um amor sem limites
Queridos irmãos e irmãs,
1. Estamos às vésperas do Tríduo Pascal, já
imersos no clima espiritual da Semana Santa. De amanhã a domingo viveremos os
dias centrais da Liturgia, que nos repropõem o mistério da Paixão, da Morte e da
Ressurreição do Senhor. Nas suas homilias, os Padres fazem muitas vezes
referência a estes dias que, como observa Santo Atanásio, nos introduzem «naquele
tempo que nos leva e nos faz conhecer um novo início, o dia da santa Páscoa, na
qual o Senhor se imolou». Ele descreve assim o período que estamos vivendo nas
suas Cartas pascais (Carta 5, 1-2; PG 26,
1379). No próximo domingo o Prefácio pascal nos fará cantar com grande vigor
que Cristo «ressurgindo, restaurou a vida».
No coração desse Tríduo sagrado está o mistério de um amor sem
limites, isto é, o mistério de Jesus que «tendo amado os seus que estavam no
mundo, amou-os até o fim» (Jo 13,1). Propus novamente este impressionante
e doce mistério aos sacerdotes na Carta que, como todos os anos, lhes
enviei por ocasião da Quinta-feira Santa.
Convido também vós a refletir sobre esse mesmo amor para vos
predispor dignamente a reviver as últimas etapas da vida terrena de Jesus.
Amanhã entraremos no Cenáculo para acolher o dom extraordinário da Eucaristia,
do Sacerdócio e do Mandamento novo. Repercorreremos na Sexta-feira Santa o
caminho doloroso que leva ao Calvário, onde Cristo consumará o seu sacrifício.
No Sábado Santo esperaremos em silêncio o início da solene Vigília Pascal.
2. «Amou-os até o fim». Estas palavras do evangelista João
exprimem e definem de maneira peculiar a Liturgia de amanhã, Quinta-feira
Santa, que se concentra na celebração da Missa Crismal pela manhã e da Missa
vespertina da Ceia do Senhor (in Cena Domini), que
abre o Tríduo sagrado.
A Eucaristia é sinal eloquente desse amor total, livre e gratuito,
e oferece a cada um de nós a alegria da presença d’Aquele que também nos torna
capazes de amar, como Ele, «até o fim». É um amor exigente, aquele que Jesus
propõe aos seus discípulos.
Neste nosso encontro ouvimos novamente o eco desse amor nas
palavras do evangelista Mateus: «Bem-aventurados sois vós, quando vos
injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos
e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus» (Mt 5,11-12).
Também hoje amar «até o fim» significa estar preparados para aceitar cansaços e
dificuldades em nome de Cristo. Significa não ter medo de insultos e de
perseguições, e estar preparados a «amar os nossos inimigos e rezar por aqueles
que nos perseguem» (cf. Mt 5,44). Tudo isso é dom de Cristo,
que se ofereceu a si mesmo por todo homem como vítima sacrifical no altar da Cruz.
3. «Amou-os até o fim». Do Cenáculo ao Gólgota: a nossa reflexão nos
conduz ao Calvário, onde contemplamos um amor cujo cumprimento total é o dom da
vida. A Cruz é sinal claro desse mistério, mas ao mesmo tempo, precisamente por
isso, torna-se um símbolo que questiona e inquieta as consciências. Quando, na
próxima Sexta-feira, celebrarmos a Paixão do Senhor e participarmos da Via Sacra, não
podemos nos esquecer da força desse amor que se doa sem medidas.
Na Carta Apostólica na conclusão do Grande Jubileu do Ano 2000 escrevi: «A contemplação do rosto de Cristo trouxe-nos até o aspecto mais paradoxal do seu mistério, que se manifesta na hora extrema, a hora da Cruz. Mistério no mistério, diante do qual o ser humano pode apenas prostrar-se em adoração» (Novo millennio ineunte, n. 25). É esta a atitude interior mais adequada para nos prepararmos para viver o dia em que comemoramos a Paixão, a Crucificação e a Morte de Cristo.
4. «Amou-os até o fim». Sacrificado por nós na Cruz, Jesus ressuscita e se torna primícias da nova criação. Passaremos o Sábado Santo em silenciosa espera do encontro com o Ressuscitado, meditando as palavras do Apóstolo Paulo: «Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado; ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras» (1Cor 15,3-4). Assim, poderemos nos preparar melhor para a solene Vigília Pascal, quando irromperá no meio da noite a resplandecente luz de Cristo Ressuscitado.
Nesta última etapa do caminho penitencial nos acompanhe Maria, a
Virgem que permaneceu sempre fiel junto ao Filho, sobretudo nos dias da Paixão.
Que ela nos ensine a amar «até o fim» seguindo o exemplo de Jesus, que com a
sua Morte e a sua Ressurreição salvou o mundo.
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| Crucificação (Anthony Van Dyck) |
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).
Sobre o simbolismo do “rosto” de Cristo, mencionado pelo Papa em sua Catequese, confira nossa postagem sobre a história da devoção à Santa Face de Jesus.


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