Prosseguindo com as reflexões do Papa Leão XIV sobre a Páscoa de Jesus dentro do ciclo de Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, trazemos nesta postagem suas meditações sobre o perdão (Jo 13,1-2.26-31) e a entrega (Jo 18,1-8):
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 20 de agosto de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.3. A Páscoa de Jesus: O perdão (Jo 13,1-2.26-31)
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje refletimos sobre um dos gestos mais comoventes e
luminosos do Evangelho: o momento em que Jesus, durante a Última Ceia, oferece
um pedaço de pão àquele que está prestes a traí-lo. Não é apenas de um gesto de
partilha, é muito mais: é a última tentativa do amor de não se render.
Com a sua profunda sensibilidade espiritual, São João narra
assim aquele instante: durante a Ceia, quando «o Diabo já tinha posto no
coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus»,
Ele «sabia que tinha chegado a sua hora... tendo amado os seus... amou-os até o
fim» (Jo 13,1-2). Amar até o fim: eis a chave para compreender o
coração de Cristo. Um amor que não se detém diante da rejeição, da decepção,
nem mesmo da ingratidão.
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| Última Ceia (Gerbrand van den Eeckhout) |
Jesus conhece a hora, mas não a padece: a escolhe. É Ele que
reconhece o momento em que o seu amor deverá passar através da ferida mais
dolorosa, a da traição. E, em vez de recuar, de acusar, de se defender...
continua a amar: lava os pés, molha o pão e o oferece.
«É aquele a quem eu der o pedaço de pão passado no molho» (Jo 13,26).
Com este gesto simples e humilde, Jesus leva adiante e a fundo o seu amor. Não
porque ignora o que acontece, mas precisamente porque vê com clareza. Ele
compreendeu que a liberdade do outro, até quando se perde no mal, ainda pode
ser alcançada pela luz de um gesto manso. Porque sabe que o verdadeiro perdão
não espera pelo arrependimento, mas se oferece primeiro, como dom gratuito,
antes ainda de ser acolhido.
Infelizmente, porém, Judas não compreende. Depois do pedaço
de pão - diz o Evangelho - «Satanás entrou nele» (v. 27). Esta passagem nos impressiona:
como se o mal, até aquele momento oculto, se manifestasse depois que o amor
mostrou o seu rosto mais desarmado. E precisamente por isso, irmãos e irmãs,
aquele pedaço de pão é a nossa salvação: porque nos diz que Deus faz tudo -
absolutamente tudo - para nos alcançar, até na hora em que o rejeitamos.
É aqui que o perdão se revela com toda a sua força e
manifesta o rosto concreto da esperança. Não é esquecimento, não é fraqueza. É
a capacidade de deixar o outro livre, embora amando-o até o fim. O amor de
Jesus não nega a verdade da dor, mas não permite que o mal tenha a última
palavra. Este é o mistério que Jesus realiza por nós, no qual também nós, às
vezes, somos chamados a participar.
Quantas relações se rompem, quantas histórias se complicam,
quantas palavras não ditas ficam no ar. No entanto, o Evangelho nos mostra que
há sempre um modo para continuar a amar, até quando tudo parece
irremediavelmente comprometido. Perdoar não significa negar o mal, mas impedi-lo
de gerar outro mal. Não é dizer que nada aconteceu, mas fazer todo o possível para
que não seja o rancor a decidir o futuro.
Quando Judas saiu da sala, «era noite» (v. 30). Mas
imediatamente depois Jesus diz: «Agora foi glorificado o Filho do Homem» (v.
31). A noite ainda está ali, mas uma luz já começou a brilhar. E brilha porque
Cristo permanece fiel até o fim, e assim o seu amor é mais forte que o ódio.
Queridos irmãos e irmãs, também nós vivemos noites dolorosas
e cansativas. Noites da alma, noites da decepção, noites nas quais alguém nos
feriu ou traiu. Nesses momentos a tentação é nos fecharmos, nos protegermos, devolver
o golpe. Mas o Senhor nos mostra a esperança de que existe sempre outro
caminho. Ele nos ensina que podemos oferecer um pedaço de pão até mesmo a quem
nos vira as costas. Que podemos responder com o silêncio da confiança. E que
podemos ir em frente com dignidade, sem renunciar ao amor.
Peçamos hoje a graça de saber perdoar, mesmo quando não nos
sentimos compreendidos, mesmo quando nos sentimos abandonados. Porque é
precisamente nessas horas que o amor pode alcançar o seu ápice. Como Jesus nos
ensina, amar significa deixar o outro livre - até de trair -, sem nunca deixar
de acreditar que até essa liberdade, ferida e perdida, pode ser libertada do
engano das trevas e restituída à luz do bem.
Quando a luz do perdão consegue filtrar-se pelas fendas mais
profundas do coração, compreendemos que nunca é inútil. Mesmo que o outro não o
aceite, mesmo que pareça em vão, o perdão liberta quem o concede: dissolve o
ressentimento, devolve a paz, nos restitui a nós mesmos.
Com o gesto simples do pão oferecido, Jesus mostra que toda
traição pode se tornar ocasião de salvação, se for escolhida como espaço para
um amor maior. Não cede ao mal, mas o vence com o bem, impedindo-o de extinguir
o que há de mais verdadeiro em nós: a capacidade de amar.
Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 27 de agosto de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.4. A Páscoa de Jesus: A entrega (Jo 18,1-8)
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje meditamos sobre uma cena que marca o início da Paixão
de Jesus: o momento da sua prisão no Horto das Oliveiras. O evangelista João,
com a sua habitual profundidade, não nos apresenta um Jesus assustado, que foge
ou se esconde. Ao contrário, nos mostra um homem livre, que se adianta e toma a
palavra, enfrentando abertamente a hora em que pode se manifestar a luz do amor
maior.
«Consciente de tudo o que ia acontecer, Jesus saiu ao
encontro deles e disse: “A quem procurais?”» (Jo 18,4). Jesus é
consciente. No entanto, decide não recuar: se entrega. Não por fraqueza, mas
por amor. Um amor tão pleno, tão maduro, que não teme a rejeição. Jesus não é
preso: se deixa prender. Não é vítima de uma prisão, mas autor de um dom. Neste
gesto se encarna uma esperança de salvação para a nossa humanidade: saber que,
até na hora mais escura, podemos permanecer livres para amar até o fim.
Quando Jesus responde «Sou eu», os soldados caem por terra
(v. 6). Trata-se de uma passagem misteriosa, dado que, na revelação bíblica, essa
expressão evoca o próprio nome de Deus: «Eu sou». Jesus revela que a presença
de Deus se manifesta precisamente onde a humanidade experimenta a injustiça, o
medo, a solidão. Precisamente ali a luz verdadeira está disposta a brilhar sem
medo de ser dominada pelo avanço das trevas.
No coração da noite, quando tudo parece desabar, Jesus
mostra que a esperança cristã não é evasão, mas decisão. Esta atitude é fruto
de uma profunda oração na qual não pedimos a Deus que nos poupe do sofrimento,
mas que nos dê a força para perseverar no amor, conscientes de que a vida
livremente oferecida por amor não pode ser tirada de nós por ninguém.
«Se é a mim que procurais, deixai que estes se retirem» (Jo 18,8).
No momento da sua prisão, Jesus não se preocupa em salvar-se a si mesmo: deseja
apenas que os seus amigos possam partir livres. Isto demonstra que o seu
sacrifício é um verdadeiro ato de amor. Jesus se deixa capturar e aprisionar
pelos guardas só para poder deixar em liberdade os seus discípulos.
Jesus viveu cada dia da sua vida como preparação para esta
hora dramática e sublime. Por isso, quando ela chega, tem a força de não buscar
uma saída. O seu coração sabe bem que perder a vida por amor não é um fracasso,
mas possui uma misteriosa fecundidade. Como o grão de trigo que, precisamente
ao cair na terra, não fica só, mas morre e se torna fecundo.
Também Jesus se sente inquieto diante de um caminho que
parece levar unicamente à morte e ao fim. Mas está igualmente convencido de que
só uma vida perdida por amor, no final, se reencontra. Nisto consiste a
verdadeira esperança: não em procurar evitar a dor, mas em acreditar que, até
no coração dos sofrimentos mais injustos, se esconde a semente de uma vida
nova.
E nós? Quantas vezes defendemos a nossa vida, os nossos
projetos, as nossas seguranças, sem nos darmos conta de que, agindo assim,
ficamos sós. A lógica do Evangelho é diferente: só o que se doa pode florescer,
só o amor que se torna gratuito pode restituir confiança até onde tudo parece
perdido.
O Evangelho de Marcos nos fala também de um jovem
que, quando Jesus é preso, foge nu (Mc 14,51). É uma imagem
enigmática, mas profundamente evocativa. Também nós, na tentativa de seguir
Jesus, vivemos momentos em que somos surpreendidos e ficamos despojados das
nossas certezas. São os momentos mais difíceis, nos quais somos tentados a abandonar
o caminho do Evangelho porque o amor nos parece um percurso impossível. No
entanto, será precisamente um jovem, no final do Evangelho, que anunciará a Ressurreição
às mulheres, não mais nu, mas vestido com uma veste branca.
Esta é a esperança da nossa fé: os nossos pecados e as
nossas hesitações não impedem que Deus nos perdoe e nos restitua o desejo de
retomar o nosso seguimento, para nos tornar capazes de dar a vida pelos outros.
Caros irmãos e irmãs, aprendamos também nós a nos entregarmos
à boa vontade do Pai, deixando que a nossa vida seja uma resposta ao bem
recebido. Na vida não é necessário ter tudo sob controle. É suficiente
escolher, todos os dias, amar com liberdade. É essa a verdadeira esperança:
saber que, até mesmo na escuridão da provação, é o amor de Deus que nos
sustenta e faz amadurecer em nós o fruto da vida eterna.
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| Prisão de Jesus (Anthony van Dyck) |
Fonte: Santa Sé (20 de agosto e 27 de agosto de 2025)


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