quarta-feira, 18 de março de 2026

Catequeses do Jubileu 2025: Páscoa de Jesus 2

Prosseguindo com as reflexões do Papa Leão XIV sobre a Páscoa de Jesus dentro do ciclo de Catequeses do Jubileu Ordinário de 2025, “Jesus Cristo, nossa esperança”, trazemos nesta postagem suas meditações sobre o perdão (Jo 13,1-2.26-31) e a entrega (Jo 18,1-8):

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 20 de agosto de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.3. A Páscoa de Jesus: O perdão (Jo 13,1-2.26-31)

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje refletimos sobre um dos gestos mais comoventes e luminosos do Evangelho: o momento em que Jesus, durante a Última Ceia, oferece um pedaço de pão àquele que está prestes a traí-lo. Não é apenas de um gesto de partilha, é muito mais: é a última tentativa do amor de não se render.

Com a sua profunda sensibilidade espiritual, São João narra assim aquele instante: durante a Ceia, quando «o Diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus», Ele «sabia que tinha chegado a sua hora... tendo amado os seus... amou-os até o fim» (Jo 13,1-2). Amar até o fim: eis a chave para compreender o coração de Cristo. Um amor que não se detém diante da rejeição, da decepção, nem mesmo da ingratidão.

Última Ceia (Gerbrand van den Eeckhout)

Jesus conhece a hora, mas não a padece: a escolhe. É Ele que reconhece o momento em que o seu amor deverá passar através da ferida mais dolorosa, a da traição. E, em vez de recuar, de acusar, de se defender... continua a amar: lava os pés, molha o pão e o oferece.

«É aquele a quem eu der o pedaço de pão passado no molho» (Jo 13,26). Com este gesto simples e humilde, Jesus leva adiante e a fundo o seu amor. Não porque ignora o que acontece, mas precisamente porque vê com clareza. Ele compreendeu que a liberdade do outro, até quando se perde no mal, ainda pode ser alcançada pela luz de um gesto manso. Porque sabe que o verdadeiro perdão não espera pelo arrependimento, mas se oferece primeiro, como dom gratuito, antes ainda de ser acolhido.

Infelizmente, porém, Judas não compreende. Depois do pedaço de pão - diz o Evangelho - «Satanás entrou nele» (v. 27). Esta passagem nos impressiona: como se o mal, até aquele momento oculto, se manifestasse depois que o amor mostrou o seu rosto mais desarmado. E precisamente por isso, irmãos e irmãs, aquele pedaço de pão é a nossa salvação: porque nos diz que Deus faz tudo - absolutamente tudo - para nos alcançar, até na hora em que o rejeitamos.

É aqui que o perdão se revela com toda a sua força e manifesta o rosto concreto da esperança. Não é esquecimento, não é fraqueza. É a capacidade de deixar o outro livre, embora amando-o até o fim. O amor de Jesus não nega a verdade da dor, mas não permite que o mal tenha a última palavra. Este é o mistério que Jesus realiza por nós, no qual também nós, às vezes, somos chamados a participar.

Quantas relações se rompem, quantas histórias se complicam, quantas palavras não ditas ficam no ar. No entanto, o Evangelho nos mostra que há sempre um modo para continuar a amar, até quando tudo parece irremediavelmente comprometido. Perdoar não significa negar o mal, mas impedi-lo de gerar outro mal. Não é dizer que nada aconteceu, mas fazer todo o possível para que não seja o rancor a decidir o futuro.

Quando Judas saiu da sala, «era noite» (v. 30). Mas imediatamente depois Jesus diz: «Agora foi glorificado o Filho do Homem» (v. 31). A noite ainda está ali, mas uma luz já começou a brilhar. E brilha porque Cristo permanece fiel até o fim, e assim o seu amor é mais forte que o ódio.

Queridos irmãos e irmãs, também nós vivemos noites dolorosas e cansativas. Noites da alma, noites da decepção, noites nas quais alguém nos feriu ou traiu. Nesses momentos a tentação é nos fecharmos, nos protegermos, devolver o golpe. Mas o Senhor nos mostra a esperança de que existe sempre outro caminho. Ele nos ensina que podemos oferecer um pedaço de pão até mesmo a quem nos vira as costas. Que podemos responder com o silêncio da confiança. E que podemos ir em frente com dignidade, sem renunciar ao amor.

Peçamos hoje a graça de saber perdoar, mesmo quando não nos sentimos compreendidos, mesmo quando nos sentimos abandonados. Porque é precisamente nessas horas que o amor pode alcançar o seu ápice. Como Jesus nos ensina, amar significa deixar o outro livre - até de trair -, sem nunca deixar de acreditar que até essa liberdade, ferida e perdida, pode ser libertada do engano das trevas e restituída à luz do bem.

Quando a luz do perdão consegue filtrar-se pelas fendas mais profundas do coração, compreendemos que nunca é inútil. Mesmo que o outro não o aceite, mesmo que pareça em vão, o perdão liberta quem o concede: dissolve o ressentimento, devolve a paz, nos restitui a nós mesmos.

Com o gesto simples do pão oferecido, Jesus mostra que toda traição pode se tornar ocasião de salvação, se for escolhida como espaço para um amor maior. Não cede ao mal, mas o vence com o bem, impedindo-o de extinguir o que há de mais verdadeiro em nós: a capacidade de amar.

Papa Leão XIV
Audiência Geral
Quarta-feira, 27 de agosto de 2025
Jubileu 2025: Jesus Cristo, nossa esperança
3.4. A Páscoa de Jesus: A entrega (Jo 18,1-8)

Queridos irmãos e irmãs,
Hoje meditamos sobre uma cena que marca o início da Paixão de Jesus: o momento da sua prisão no Horto das Oliveiras. O evangelista João, com a sua habitual profundidade, não nos apresenta um Jesus assustado, que foge ou se esconde. Ao contrário, nos mostra um homem livre, que se adianta e toma a palavra, enfrentando abertamente a hora em que pode se manifestar a luz do amor maior.

«Consciente de tudo o que ia acontecer, Jesus saiu ao encontro deles e disse: “A quem procurais?”» (Jo 18,4). Jesus é consciente. No entanto, decide não recuar: se entrega. Não por fraqueza, mas por amor. Um amor tão pleno, tão maduro, que não teme a rejeição. Jesus não é preso: se deixa prender. Não é vítima de uma prisão, mas autor de um dom. Neste gesto se encarna uma esperança de salvação para a nossa humanidade: saber que, até na hora mais escura, podemos permanecer livres para amar até o fim.

Quando Jesus responde «Sou eu», os soldados caem por terra (v. 6). Trata-se de uma passagem misteriosa, dado que, na revelação bíblica, essa expressão evoca o próprio nome de Deus: «Eu sou». Jesus revela que a presença de Deus se manifesta precisamente onde a humanidade experimenta a injustiça, o medo, a solidão. Precisamente ali a luz verdadeira está disposta a brilhar sem medo de ser dominada pelo avanço das trevas.

No coração da noite, quando tudo parece desabar, Jesus mostra que a esperança cristã não é evasão, mas decisão. Esta atitude é fruto de uma profunda oração na qual não pedimos a Deus que nos poupe do sofrimento, mas que nos dê a força para perseverar no amor, conscientes de que a vida livremente oferecida por amor não pode ser tirada de nós por ninguém.

«Se é a mim que procurais, deixai que estes se retirem» (Jo 18,8). No momento da sua prisão, Jesus não se preocupa em salvar-se a si mesmo: deseja apenas que os seus amigos possam partir livres. Isto demonstra que o seu sacrifício é um verdadeiro ato de amor. Jesus se deixa capturar e aprisionar pelos guardas só para poder deixar em liberdade os seus discípulos.

Jesus viveu cada dia da sua vida como preparação para esta hora dramática e sublime. Por isso, quando ela chega, tem a força de não buscar uma saída. O seu coração sabe bem que perder a vida por amor não é um fracasso, mas possui uma misteriosa fecundidade. Como o grão de trigo que, precisamente ao cair na terra, não fica só, mas morre e se torna fecundo.

Também Jesus se sente inquieto diante de um caminho que parece levar unicamente à morte e ao fim. Mas está igualmente convencido de que só uma vida perdida por amor, no final, se reencontra. Nisto consiste a verdadeira esperança: não em procurar evitar a dor, mas em acreditar que, até no coração dos sofrimentos mais injustos, se esconde a semente de uma vida nova.

E nós? Quantas vezes defendemos a nossa vida, os nossos projetos, as nossas seguranças, sem nos darmos conta de que, agindo assim, ficamos sós. A lógica do Evangelho é diferente: só o que se doa pode florescer, só o amor que se torna gratuito pode restituir confiança até onde tudo parece perdido.

O Evangelho de Marcos nos fala também de um jovem que, quando Jesus é preso, foge nu (Mc 14,51). É uma imagem enigmática, mas profundamente evocativa. Também nós, na tentativa de seguir Jesus, vivemos momentos em que somos surpreendidos e ficamos despojados das nossas certezas. São os momentos mais difíceis, nos quais somos tentados a abandonar o caminho do Evangelho porque o amor nos parece um percurso impossível. No entanto, será precisamente um jovem, no final do Evangelho, que anunciará a Ressurreição às mulheres, não mais nu, mas vestido com uma veste branca.

Esta é a esperança da nossa fé: os nossos pecados e as nossas hesitações não impedem que Deus nos perdoe e nos restitua o desejo de retomar o nosso seguimento, para nos tornar capazes de dar a vida pelos outros.

Caros irmãos e irmãs, aprendamos também nós a nos entregarmos à boa vontade do Pai, deixando que a nossa vida seja uma resposta ao bem recebido. Na vida não é necessário ter tudo sob controle. É suficiente escolher, todos os dias, amar com liberdade. É essa a verdadeira esperança: saber que, até mesmo na escuridão da provação, é o amor de Deus que nos sustenta e faz amadurecer em nós o fruto da vida eterna.

Prisão de Jesus (Anthony van Dyck)

Fonte: Santa Sé (20 de agosto e 27 de agosto de 2025)

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