Na manhã da Quarta-feira da Semana Santa de 2006, há cerca de 20 anos, o Papa Bento XVI (†2022) proferiu uma Catequese sobre o Tríduo Pascal que repropomos a seguir:
Papa Bento XVI
Audiência Geral
Quarta-feira, 12 de abril de 2006
O Tríduo Pascal
Queridos irmãos e irmãs,
1. Inicia amanhã
o Tríduo Pascal, que é o centro de todo o Ano Litúrgico. Ajudados pelos ritos
sagrados de Quinta-feira Santa, da Sexta-feira Santa e da solene Vigília
Pascal, reviveremos o mistério da Paixão, da Morte e da Ressurreição do Senhor.
Estes são dias adequados para despertar em nós um desejo mais profundo de
aderir a Cristo e de segui-lo generosamente, conscientes de que Ele nos amou a
ponto de dar a sua vida por nós.
Com efeito, o
que são os acontecimentos que o Tríduo santo nos repropõe, senão a manifestação
sublime desse amor de Deus pelo homem? Portanto, preparemo-nos para celebrar o
Tríduo Pascal acolhendo a exortação de Santo Agostinho: «Considera agora atentamente os três dias santos da Crucificação,
da Sepultura e da Ressurreição do Senhor. Destes três mistérios realizamos na
vida presente aquilo de que a Cruz é símbolo, enquanto cumprimos por meio da fé
e da esperança aquilo de que são símbolo a Sepultura e a Ressurreição» (Carta 55, 14, 24: Nova Biblioteca Agostiniana, XXI/II, Roma, 1969, p. 477).
2. O Tríduo Pascal
se abre amanhã, Quinta-feira Santa,
com a Missa vespertina da Ceia do Senhor (in
Cena Domini), embora pela
manhã normalmente tenha lugar outra significativa celebração litúrgica, a Missa
Crismal, durante a qual, reunido em torno ao Bispo, todos os presbíteros de cada
Diocese renovam as promessas sacerdotais e participam da bênção dos Óleos dos Catecúmenos,
dos Enfermos e do Crisma, e assim faremos amanhã cedo também aqui, em São
Pedro.
Além da
instituição do Sacerdócio, neste dia santo se comemora a oferta total que
Cristo fez de si mesmo à humanidade no sacramento da Eucaristia. Naquela mesma
noite em que foi entregue, Ele nos deixou, como recorda a Sagrada Escritura, o “mandamento
novo” - “mandatum novum” -
do amor fraterno realizando o gesto tocante do lava-pés, que recorda o
humilde serviço dos servos.
Este dia singular,
que evoca grandes mistérios, se conclui com a adoração eucarística em
recordação da agonia do Senhor no horto do Getsêmani. Tomado por uma grande
angústia, como narra o Evangelho, Jesus pede aos seus que vigiem com Ele,
permanecendo em oração: «Ficai aqui e vigiai
comigo» (Mt 26,38), mas os discípulos
adormeceram.
Também hoje o
Senhor nos diz: «Ficai aqui e vigiai comigo». E vemos como também nós, discípulos de hoje, muitas
vezes dormimos. Aquela foi para Jesus a hora do abandono e da solidão, à qual
seguiu, no coração da noite, a prisão e o início do doloroso caminho para o
Calvário.
3. Centrada no
mistério da Paixão é a Sexta-feira Santa,
dia de jejum e de penitência, completamente orientada à contemplação de Cristo
na Cruz. Nas igrejas é proclamada a narrativa da Paixão e ressoam as palavras
do profeta Zacarias: «Olharão para aquele
que transpassaram» (Jo 19,37). E também nós, na Sexta-feira Santa, queremos realmente
dirigir o olhar para o coração transpassado do Redentor, no qual, como escreve
São Paulo, «estão encerrados todos os tesouros da
sabedoria e da ciência» (Cl
2,3), mais ainda, no qual «habita corporalmente toda
a plenitude da divindade» (v. 9).
Por isso o
Apóstolo pode afirmar decididamente que não quer saber coisa alguma «a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado» (1Cor
2,2). É verdade: a Cruz revela «a
largura, o comprimento, a altura, a profundidade»
- as dimensões cósmicas, este é o seu sentido - de um amor «que ultrapassa todo o conhecimento» - o amor vai além de quanto se conhece - e nos cumula
de «toda a plenitude de Deus» (Ef 3,18-19).
No mistério do
Crucificado «cumpre-se aquele virar-se de Deus
contra si mesmo no qual Ele se entrega para levantar o homem e salvá-lo - o amor
na sua forma mais radical» (Encíclica Deus
caritas est, n. 12).
A Cruz de Cristo, escreve no século V o Papa São Leão Magno, «é fonte de todas as bênçãos e causa de todas as
graças» (Discurso 8 sobre a Paixão do Senhor, 6-8; PL 54, 340-342).
4. No Sábado Santo a Igreja, unindo-se
espiritualmente a Maria, permanece em oração junto ao sepulcro, onde o corpo do
Filho de Deus jaz inerte como em uma condição de repouso depois da obra
criadora da redenção, realizada com a sua Morte (cf. Hb 4,1-13). Quando a noite já estiver
avançada iniciará a solene Vigília Pascal, durante a qual em cada igreja o
cântico jubiloso do Glória e do Aleluia pascal se elevará do
coração dos novos batizados e de toda a comunidade cristã, feliz porque Cristo
ressuscitou e venceu a morte.
5. Queridos
irmãos e irmãs, para uma frutuosa celebração da Páscoa, a Igreja pede aos fiéis
que se aproximem nestes dias do Sacramento da Penitência, que é como uma
espécie de morte e de ressurreição para cada um de nós. Na antiga comunidade
cristã, na Quinta-feira Santa tinha lugar o rito da Reconciliação dos
Penitentes presidido pelo Bispo. As condições históricas certamente mudaram,
mas preparar-se para a Páscoa com uma boa confissão continua a ser um compromisso
a ser plenamente valorizado, porque nos oferece a possibilidade de recomeçar a
nossa vida e ter realmente um novo início na alegria do Ressuscitado e na
comunhão do perdão que Ele nos concede.
Conscientes de
que somos pecadores, mas confiantes na misericórdia divina, deixemo-nos
reconciliar por Cristo para provar mais intensamente a alegria que Ele nos
comunica com a sua Ressurreição. O perdão, que nos é dado por Cristo no
sacramento da Penitência, é fonte de paz interior e exterior e torna apóstolos
de paz em um mundo onde infelizmente continuam as divisões, os sofrimentos e os
dramas da injustiça, do ódio e da violência, da incapacidade de nos
reconciliarmos para recomeçar de novo com um perdão sincero.
Mas nós sabemos
que o mal não tem a última palavra, porque quem vence é Cristo Crucificado e Ressuscitado
e o seu triunfo se manifesta com a força do amor misericordioso. A sua Ressurreição
nos dá essa certeza: apesar de toda a escuridão que há no mundo, o mal não
tem a última palavra. Sustentados por essa certeza poderemos nos empenhar com
mais coragem e entusiasmo para que nasça um mundo mais justo.
6. Formulo de
coração estes votos a todos vós, queridos irmãos e irmãs, desejando que vos
prepareis com fé e devoção para as festas pascais que já estão próximas.
Acompanhe-vos Maria Santíssima que, depois de ter seguido o divino Filho na
hora da Paixão e da Cruz, partilhou a alegria da sua Ressurreição.
![]() |
| Crucificação (Atribuída a Anthony van Dyck) |
Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

%20-%20Christ%20on%20the%20cross%20-%201620,%20Royal%20Museum%20of%20Fine%20Arts%20Antwerp%2001.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário