segunda-feira, 30 de março de 2026

Catequese do Papa Bento XVI: Semana Santa (2006)

Na manhã da Quarta-feira da Semana Santa de 2006, há cerca de 20 anos, o Papa Bento XVI (†2022) proferiu uma Catequese sobre o Tríduo Pascal que repropomos a seguir:

Papa Bento XVI
Audiência Geral
Quarta-feira, 12 de abril de 2006
O Tríduo Pascal

Queridos irmãos e irmãs,
1. Inicia amanhã o Tríduo Pascal, que é o centro de todo o Ano Litúrgico. Ajudados pelos ritos sagrados de Quinta-feira Santa, da Sexta-feira Santa e da solene Vigília Pascal, reviveremos o mistério da Paixão, da Morte e da Ressurreição do Senhor. Estes são dias adequados para despertar em nós um desejo mais profundo de aderir a Cristo e de segui-lo generosamente, conscientes de que Ele nos amou a ponto de dar a sua vida por nós.

Com efeito, o que são os acontecimentos que o Tríduo santo nos repropõe, senão a manifestação sublime desse amor de Deus pelo homem? Portanto, preparemo-nos para celebrar o Tríduo Pascal acolhendo a exortação de Santo Agostinho: «Considera agora atentamente os três dias santos da Crucificação, da Sepultura e da Ressurreição do Senhor. Destes três mistérios realizamos na vida presente aquilo de que a Cruz é símbolo, enquanto cumprimos por meio da fé e da esperança aquilo de que são símbolo a Sepultura e a Ressurreição» (Carta 55, 14, 24:  Nova Biblioteca Agostiniana, XXI/II, Roma, 1969, p. 477).


2. O Tríduo Pascal se abre amanhã, Quinta-feira Santa, com a Missa vespertina da Ceia do Senhor (in Cena Domini), embora pela manhã normalmente tenha lugar outra significativa celebração litúrgica, a Missa Crismal, durante a qual, reunido em torno ao Bispo, todos os presbíteros de cada Diocese renovam as promessas sacerdotais e participam da bênção dos Óleos dos Catecúmenos, dos Enfermos e do Crisma, e assim faremos amanhã cedo também aqui, em São Pedro.

Além da instituição do Sacerdócio, neste dia santo se comemora a oferta total que Cristo fez de si mesmo à humanidade no sacramento da Eucaristia. Naquela mesma noite em que foi entregue, Ele nos deixou, como recorda a Sagrada Escritura, o “mandamento novo” - “mandatum novum - do amor fraterno realizando o gesto tocante do lava-pés, que recorda o humilde serviço dos servos.

Este dia singular, que evoca grandes mistérios, se conclui com a adoração eucarística em recordação da agonia do Senhor no horto do Getsêmani. Tomado por uma grande angústia, como narra o Evangelho, Jesus pede aos seus que vigiem com Ele, permanecendo em oração: «Ficai aqui e vigiai comigo» (Mt 26,38), mas os discípulos adormeceram.

Também hoje o Senhor nos diz: «Ficai aqui e vigiai comigo». E vemos como também nós, discípulos de hoje, muitas vezes dormimos. Aquela foi para Jesus a hora do abandono e da solidão, à qual seguiu, no coração da noite, a prisão e o início do doloroso caminho para o Calvário.

3. Centrada no mistério da Paixão é a Sexta-feira Santa, dia de jejum e de penitência, completamente orientada à contemplação de Cristo na Cruz. Nas igrejas é proclamada a narrativa da Paixão e ressoam as palavras do profeta Zacarias: «Olharão para aquele que transpassaram» (Jo 19,37). E também nós, na Sexta-feira Santa, queremos realmente dirigir o olhar para o coração transpassado do Redentor, no qual, como escreve São Paulo, «estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência» (Cl 2,3), mais ainda, no qual «habita corporalmente toda a plenitude da divindade» (v. 9).

Por isso o Apóstolo pode afirmar decididamente que não quer saber coisa alguma «a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado» (1Cor 2,2). É verdade: a Cruz revela «a largura, o comprimento, a altura, a profundidade» - as dimensões cósmicas, este é o seu sentido - de um amor «que ultrapassa todo o conhecimento» - o amor vai além de quanto se conhece - e nos cumula de «toda a plenitude de Deus» (Ef 3,18-19).

No mistério do Crucificado «cumpre-se aquele virar-se de Deus contra si mesmo no qual Ele se entrega para levantar o homem e salvá-lo - o amor na sua forma mais radical» (Encíclica Deus caritas est, n. 12). A Cruz de Cristo, escreve no século V o Papa São Leão Magno, «é fonte de todas as bênçãos e causa de todas as graças» (Discurso 8 sobre a Paixão do Senhor, 6-8; PL 54, 340-342).

4. No Sábado Santo a Igreja, unindo-se espiritualmente a Maria, permanece em oração junto ao sepulcro, onde o corpo do Filho de Deus jaz inerte como em uma condição de repouso depois da obra criadora da redenção, realizada com a sua Morte (cf. Hb 4,1-13). Quando a noite já estiver avançada iniciará a solene Vigília Pascal, durante a qual em cada igreja o cântico jubiloso do Glória e do Aleluia pascal se elevará do coração dos novos batizados e de toda a comunidade cristã, feliz porque Cristo ressuscitou e venceu a morte.

5. Queridos irmãos e irmãs, para uma frutuosa celebração da Páscoa, a Igreja pede aos fiéis que se aproximem nestes dias do Sacramento da Penitência, que é como uma espécie de morte e de ressurreição para cada um de nós. Na antiga comunidade cristã, na Quinta-feira Santa tinha lugar o rito da Reconciliação dos Penitentes presidido pelo Bispo. As condições históricas certamente mudaram, mas preparar-se para a Páscoa com uma boa confissão continua a ser um compromisso a ser plenamente valorizado, porque nos oferece a possibilidade de recomeçar a nossa vida e ter realmente um novo início na alegria do Ressuscitado e na comunhão do perdão que Ele nos concede.

Conscientes de que somos pecadores, mas confiantes na misericórdia divina, deixemo-nos reconciliar por Cristo para provar mais intensamente a alegria que Ele nos comunica com a sua Ressurreição. O perdão, que nos é dado por Cristo no sacramento da Penitência, é fonte de paz interior e exterior e torna apóstolos de paz em um mundo onde infelizmente continuam as divisões, os sofrimentos e os dramas da injustiça, do ódio e da violência, da incapacidade de nos reconciliarmos para recomeçar de novo com um perdão sincero.

Mas nós sabemos que o mal não tem a última palavra, porque quem vence é Cristo Crucificado e Ressuscitado e o seu triunfo se manifesta com a força do amor misericordioso. A sua Ressurreição nos dá essa certeza: apesar de toda a escuridão que há no mundo, o mal não tem a última palavra. Sustentados por essa certeza poderemos nos empenhar com mais coragem e entusiasmo para que nasça um mundo mais justo.

6. Formulo de coração estes votos a todos vós, queridos irmãos e irmãs, desejando que vos prepareis com fé e devoção para as festas pascais que já estão próximas. Acompanhe-vos Maria Santíssima que, depois de ter seguido o divino Filho na hora da Paixão e da Cruz, partilhou a alegria da sua Ressurreição.

Crucificação
(Atribuída a Anthony van Dyck)

Fonte: Santa Sé (com pequenas correções feitas pelo autor deste blog).

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